Algo barulhento e irritante não parava de apitar, tateei até encontrar o maldito despertador em minha mesa de cabeceira, sem abrir os olhos desliguei.

Infelizmente minha paz durou pouco menos de cinco segundos, algo foi jogado sobre mim, pela macieis e tamanho presumi que fosse um travesseiro.

Puxei a coberta sobre a cabeça mesmo sabendo que de nada adiantaria, a voz estridente e autoritária de Jully chegou aos meus ouvidos como um alerta de que esse seria mais um longo dia.

–Allyce você tem exatamente cinco segundos para levantar essa sua bunda redonda do colchão e começar a se arrumar.

Apertei os olhos com força e me segurei firme as cobertas, não desistiria tão fácil de me excluir de mais um dia chato e monótono no colégio.

Jully bufou e ouvi seus passos apressados em direção a mim, logo suas mãos ágeis me desvencilhavam do emaranhado de cobertas. Frustrada tentei protestar.

–Ei, por favor, que tal me deixar aqui eu só...

Jully suspirou, jogou as cobertas no chão e sentou-se ao meu lado, gentilmente ela fez com que eu a encarasse.

–Ally, você não pode continuar a fazer isso com si mesma, não vale a pena, não de esse gostinho a ela, sei que deve estar sendo difícil, mas pense pelo lado positivo, eu e a Jen estamos com você, e o Miguel também, aliás ele mais que ninguém... Todos nós te amamos muito e estamos dispostos a tudo por você, então que tal erguer a cabeça de uma vez por todas e mostrar o quão superior você é?

Lagrimas involuntárias invadiram meus olhos, pensar “nela” levava meus pensamentos a ele, saber que podiam estar juntos, compartilhando algo que um dia foi meu doía muito, me fazia querer sumir, me tornar pequena. As gemias haviam se tornado minha ancora, minha desculpa para continuar ali.

Jully abriu a boca para continuar quando a porta foi aberta e Janny entrou saltitando toda sorridente, sua felicidade durou apenas até o momento que ela me encorou, batendo a porta atrás de si ela correu para minha cama, vi em seus olhos minha dor refletida o que me fez aumentar o choro, eu não deveria demonstrar minha tristeza, devia fazer o possível para fingir estar feliz, porém, estava falhando e muito nesse quesito. Ela me colocou em seus braços como uma mãe faz com o filho, aos poucos fui me controlando, determinada a mostrar força, quando meu choro não era nada mais que um leve soluçar Janny começou a falar calmamente com uma serenidade impressionante.

–Ally sabe, acho que talvez esteja na hora de acabar com isso, sua dor me deixa triste, angustiada e odeio tudo isso, já faz um mês e não vejo mudança. Portanto acho que está na hora de você seguir o plano de Miguel, volte para casa da sua mãe, eles vão cuidar de você.

Ao ouvir isso me joguei pra trás desvencilhando meu corpo dos braços de Janny com indignação e um pouco de pavor. Engoli o choro por completo, com uma voz firme e decidida respondi.

–Não, eu não vou sair, esse é nosso espaço, vocês são minha família, tem razão quando diz que não posso continuar assim, porém não será fugindo que tudo vai se resolver. Eu vou dar um jeito, tudo será diferente agora, chega de choro, chega de dor...

–Ally nós te amamos, mas querida não acho que ficar irá resolver...

–Janny eu já disse, eu vou ficar e lutar...

–Mas...

–Chega, com licença tenho que me arrumar.

Com passos firmes puxei de meu armário um par de roupas, entrei no banheiro sem nem olhar pra traz, lá dentro me encarei no espelho o que vi me animou, refletia uma garota decidida, determinada, só faltavam os apetrechos necessários.

Tomei um rápido banho, penteei o cabelo e o encaracolei com os dedos, vesti a roupa escolhida e voltei a me encarar, preparei uma rápida maquiagem e sorri com o resultado, eu estava pronta para batalha.

Voltei para o quarto e dei uma volta em frente as garotas que continuavam paradas, ambas escancararam a boca. Jully se manifestou.

–Uau, sexy sem ser vulgar, essa é minha garota. Espero que dessa vez seja para valer.

–Será queda, será; Agora Janny será que pode me emprestar aquela sua sandália Anabelle? Acho que ela combina perfeitamente com essa saia.

Janny deu um sorriso torto e apontou seu baú.

–Ela é toda sua.

Abri o baú e encontrei as sandálias, já calçada me ergui.

–E, então o que estamos esperando?

Juntas saímos do quarto, um único pensamento cruzou minha mente. Éramos uma família por simples escolha de nós mesmas, não do destino.