O relógio na parede marcava duas e meia da manhã quando ouvi as batidas, ambas em sincronia, exatamente como combinado, respirei fundo mais uma vez. A resposta que viria era válida para as duas situações.

—Está aberto.

A janela e porta se abriram na mesma sincronia das batidas, me segurei firme a cadeira e esperei pela tempestade que estava prestes a chegar.

Ambos entraram no quarto silenciosamente e se encararam, olhei para os dois e vi confusão, ódio, rivalidade, engoli em seco, era agora.

Miguel trincou o queixo e me encarou.

Jon foi o primeiro a questionar.

—Allyce que tal se explicar

Miguel abriu um meio sorriso de sarcasmo e encarou o adversário.

—Ela não lhe deve explicações.

—E você acha que ela deve a você?

Me levantei e entrei no meio de ambos.

—Em primeiro lugar parem já com a troca de farpas, e em segundo chamei os dois porque preciso da ajuda de ambos.

Dessa vez foi a vez de Miguel me encarar.

—Allyce não entendo, você vai confiar em um sang...

Não esperei que ele terminasse o insulto.

—Miguel, para já com isso. Você disse que se houvesse um modo de entrar em meu sonho você podia me ajudar certo? Pois então, Jon está aqui por isso.

Me voltei para Jon que me olhava sem entender, pensei ter visto uma sombra de desgosto em seu olhar, porem em um piscar de olhos já não havia mais nada.

—Tem uma coisa acontecendo comigo, algo que vem se repetindo a alguns dias... Tenho visto um garoto, um rapaz em meus sonhos, porem nunca consigo chegar até ele. Hoje de manhã de alguma forma conectei minha mente a de Miguel por acidente, não sei como nem porque, só aconteceu, agora ele acha que pode me ajudar se conseguir entrar em meus sonhos, onde a imagem se encontra mais nítida e constante.

Falei meio depressa embolando as palavras, o encarei esperançosa a espera de sua resposta. Ele por sua vez se encaminhou até meu lado e se agachou. Sua voz era um sussurro sedutor.

—Porque não me contou?

—Desculpe, não contei a ninguém, Ele só descobriu por acidente...

—Certo, então você precisa que eu o leve pra dentro de sua mente?

Balancei a cabeça em afirmativo.

—Não posso fazer isso só com você?

Neguei mais uma vez com a cabeça.

—Tudo bem, se é o que precisa eu farei.

Sorri aliviada, peguei sua mão e apertei levemente.

—Obrigada, isso é muito importante para mim. — então voltei meu olhar para miguel que por sua vez parecia enjoado e bravo com a cena. — É a unica forma, você entende certo?

—Eu não confio nele e nem acho que você devia confiar.

—Você confia em mim isso deve bastar.

—Allyce...

—Chega Miguel, você prometeu que ajudaria.

A contragosto ele se aproximou de mim. Respirei fundo e estendi uma mão a cada um, me recostei na cadeira e relaxei o corpo. Jon começou afagar minha mão direita com delicadeza o que ajudou a diminuir meus batimentos cardíacos, antes que eu fosse levada pela escuridão lembrei de algo e sussurrei com a voz já embalada pelo sono.

—Apenas tentem não se matar.

E as sombras me levaram.

Abri meus olhos e para minha alegria notei que havia chegado onde queria, a mesma cela escura e fétida das outras vezes. Procurei por algum sinal de Jon ou Miguel porem nada encontrei. Um som agonizante tomou conta do ambiente me levando a olhar para parede nordeste da cela onde eu sabia que estaria a pedra com o corpo. Apesar da pouca luz no lugar consegui notar que o homem estava mais machucado que o normal, seu corpo se contorcia contra a pedra de um modo estranho e anormal, sem pensar duas vezes me encaminhei para seu lado, de alguma forma meu corpo se chocou contra o dele, maravilhada o toquei, sua pele estava quente, ate demais para ocasião, ele se contraiu quando encostei em suas costelas, sem duvidas havia alguma quebrada. Com cuidado me sentei a seu lado colocando seu corpo em meu colo, seu cabelo longo e negro encobria seu rosto, delicadamente fui retirando os fios do caminho a fim de ver seu rosto. Antes que eu conseguisse terminar ele ergueu a cabeça e encarou algo alem de mim, me virei e dei de cara com Jon e Miguel, ambos se encontravam com a boca escancarada, vi passar descrença, medo, confusão, pavor, e muito mais no olhar de ambos.

Antes que eu tentasse entender o que estava acontecendo outro som chamou minha atenção, desta vez algo parecido com um molho de chaves se chocando, o homem se contraiu e me empurrou pra longe de si. tentei lutar contra ele porem foi em vão, mesmo machucado ele conseguira ser mais forte que eu. Passos vinham em nossa direção, Miguel passou as mãos pelo meu corpo me puxando para longe do homem machucado que gritava palavras estranhas para Miguel e Jon. Tentei me desvencilhar e senti Jon se unir a Miguel, contra minha vontade fui sugada pra cada vez mais longe, antes de sumir tive a impressão de ver um vulto com um capuz. E então acordei.