Tentei descer da moto com graça e delicadeza porem falhei em ambos, Jon por sua vez efetuou o ato com total perfeição em questão de um segundo, ele logo estava ao meu lado me ajudando sair da moto. Encarei a silhueta de Miguel na frente dos faróis do carro, eu não conseguia ver seu rosto pois a luz estava em suas costas, porem eu tinha plena certeza que ele estava muito bravo. Sua voz me fez aumentar a certeza.
—Allyce não tenho palavras para descrever o que estou sentindo agora. Como você pode? Entre no carro.
Jon entrou em minha frente de forma protetora.
—Quem é você para falar assim com ela?
—Sangue suga não estou falando com você, agora tire as mãos dela.
—Acho que a decisão cabe a ela.
—Fica na sua.
—Me force.
Eu sabia no que isso ia dar, e não era nada bom. Eu tinha que para-los antes que fosse tarde. Rodeei o corpo de Jon com uma rapidez que nem eu mesma sabia ter e me pus entre os dois.
—Chega. Vocês não podem se ferir sem me machucar, parem de bancar as crianças, não sou um maldito brinquedo.
Ambos me encararam, com ar de descrença. Empinei o queixo e me voltei para Jon.
—Eu preciso ir, te ligo assim que possível.
—Você não tem q....
—Eu sei, não vou por que ele mandou, mas preciso resolver algumas coisas.
—Tem certeza?
Balancei a cabeça em afirmativo. Ele deu passadas firmes em minha direção e enlaçou minha cintura, nossos lábios se chocaram com uma violência inesperada, após um beijo quente que me fez tremer nos separamos.
—Espero sua ligação – E em meu ouvido para que apenas eu pudesse ouvir – Eu te amo.
Sem mais uma palavra ele se virou, subiu na moto e partiu rumo a cabana. Esperei que os faróis houvessem desaparecido de vista para me virar para Miguel, seu rosto estava contorcido em um misto de dor, fúria e incredulidade. Sem uma palavra caminhei até o carro e entrei no banco do carona.
Miguel se manteve calado por todo o caminho, dei algumas olhadas pra ele discretamente, porem ele se mantinha concentrado na estrada a sua frente. Assim que ele estacionou 37 minutos depois na escadaria dos dormitórios, respirei aliviada.
Desci do carro e me sentei no primeiro lance de escadas esperando que ele me seguisse, para minha sorte foi exatamente o que ele fez. Por mais alguns minutos continuamos calados, até que o silencio se tornou opressor e resolvi quebra-lo.
—Me desculpe.
—Pelo que? Por trair nossa raça? Por estar ao lado de um assassino? Por desaparecer sem me avisar? Por...- Sua voz saia como acido

, me acertando em cheio, porém não deixei que ele terminasse, não queria ouvir tudo aquilo.
—Eu o amo, mais do que a mim mesma, ele é tudo pra mim.
—Ele matou seu irmão.
—O qual eu nunca conheci, algo que aconteceu a muitos anos, muito antes de ele me conhecer.
—É nisso que você está acreditando? É assim que convence a si mesma que é certo?
—Não preciso me convencer de nada.
Nesse instante ele se ergueu exasperado, me levantei a fim de ficar no mesmo nível que ele.
—Droga Allyce, eu poderia te dar tudo, porque não me aceita?
—Não é uma escolha que eu possa fazer.
—Você é a única que pode escolher.
—Não mando em meu coração tanto quanto você manda no seu. Duvido que me amaria se pudesse escolher.
—E ai que se engana, não ah maneira no mundo que me faça não te amar.
Me joguei nos degraus mais uma vez, exausta e retirei a jaqueta de Jon, comecei a dobra-la distraidamente. Com uma voz fraca tentei explicar.
—Sei que você não quer mais tem que me escutar, tem que entender. Nunca tive uma escolha, Jon é como uma parte de mim, ele me completa. Desde o primeiro momento foi assim. Meu coração está nas mãos dele não importa o que aconteça. O que aconteceu a 17 anos atrás foi horrível, tenho plena consciência disso, porem meu coração não vê nisso um motivo pra ama-lo menos. Podemos julgar o outro por um erro? Um acidente? Acho que não. Eu consigo ver a verdade nos olhos das pessoas, e quando olho pra ele sei que não está mentindo, ele se culpa a cada segundo pelo que fez, e isso já é castigo suficiente, eu sou a cura, o remédio pra essa dor, e me nego a me afastar dele.
—E quanto a mim? – Sua voz era fraca, senti a dor em cada palavra. T oquei seu rosto e o fiz me encarar.
—Eu te amo, porém não como você merece. Você me manteve viva quando eu mesma já havia desistido, me manteve sã quando minha mente definhava na dor e agonia, me mostrou a verdade quando eu não conseguia mais enxergar, me fez sorrir quando meus olhos não faziam nada além de chorar. Você foi minha luz quando escolhi a escuridão, você foi tudo pra mim quando eu já não tinha mais nada. É por tudo isso e muito mais que quero que você vá, procure alguém que te mereça mais do que eu, seja feliz.
Antes que eu pudesse perceber Miguel enlaçara suas mãos em meus pulsos me prendendo contra si, vi uma paixão em, seus olhos me consumindo, me controlando. Suas palavras me queimaram antes que seus lábios encontrassem os meus.
—Não quero mais ninguém, talvez isso te faça entender e ver a razão.
O beijo era quente, chamas invadiam cada centímetro de meu corpo, senti meu coração pular algumas batidas antes de me desvencilhar dele com indignação.
—Não.
Sem mais nenhuma palavra subi pelas escadas sem olhar para trás, mesmo sem olhar eu podia sentir os olhos de Miguel me seguindo por todo caminho. Só parei quando me vi dentro do elevador. O quarto estava escuro e vazio, o que me aliviou, não queria falar do que aconteceu, se possível nunca mais. Joguei a jaqueta de Jon sobre minha cama e entrei no banheiro desesperada por me lavar, deixei a agua levar consigo os dois perfumes presentes em meu corpo. Não voltei ao quarto até que tive a certeza e estar livre de qualquer odor.
Já limpa coloquei uma camiseta longa e deitei na cama e me enrosquei a jaqueta de Jon. Algo piscando em meu criado mudo chamou minha atenção ergui a cabeça e encarei o objeto. Sorri ao notar o que era.
Puxei o celular e deduzi que Kate devia ter levado de volta depois de me deixar na cabana. Haviam 3 chamadas das gemias no horário do almoço, muitas chamadas não atendidas de Miguel e uma mensagem de voz de Kate.
Enviei uma mensagem para Miguel curta e direta “Por favor, entre em contato com minha mãe e diga que precisamos conversar, se possível deixe que eu mesma me explique”
Satisfeita apertei para ouvir a de Kate. Era curta e me fez sorrir.
“Espero que não me odeie, Te amo minha pequena, Au revoir”
Digitei uma curta resposta para ela e enviei. Em seguida comecei a escrever algo para Jon, porem nada parecia certo. Eu era culpada. No fim me decidi por algo breve
“Preciso conversar com minha mãe sobre tudo o que está acontecendo, me dê um tempo para resolver tudo, assim que as coisas estiverem certas te mando uma mensagem, espero que possa esperar por mim, até mais ver
Ally”
Apertei enviar sem pensar duas vezes, encostei o celular em meu peito à espera da resposta que eu já sabia que viria, está por sua vez foi quase instantânea.
“Esperarei o tempo que for preciso, você é tudo pra mim, lembre-se apenas disso.
Eternamente seu.
Jon”
Joguei o celular na gaveta como se ele tivesse o poder de me queimar, frustrada me virei para janela e encarei o céu escuro acima de mim, não havia uma estrela se quer para iluminar a noite, se parecia muito com meu interior, vazio, triste. Fechei os olhos e deixei o sono me levar, mais uma vez sonhei com o garoto ensanguentado dentro da masmorra, talvez aquilo se tratasse de mais que um sonho...