Shadows - Uma Side Story de Wake Me Up
14 The Nothing I've Become
Notas iniciais
— Mentira. — Foi a primeira coisa que Joseph disse mesmo que a expressão arrasada com a qual Danny lhe encarava demonstrasse exatamente o contrário.
— Eu também queria que fosse mentira — o rapaz respondeu de maneira triste. — Ele era o meu melhor amigo, Joe, você sabe. Não há um único dia em que eu não sinta a falta dele, mas é verdade, cara. O Nathan se foi.
— Não, Danny. — Joseph negou com a cabeça, recusando-se a acreditar em tal coisa. — O Nathan só tem dezessete anos. Ele não pode estar morto, entendeu? Isso não faz sentido nenhum. Simplesmente não faz!
— Eu sei que não faz e eu sinto muito, cara. — O olhar triste de Danny se tornou ainda mais intenso e Joseph sentiu seu coração pesar dentro do peito. Lágrimas se acumularam no canto de seus olhos, mas ele lutou com unhas e dentes para não deixa-las rolar. Sentia como se sua mente já estivesse se preparando para confrontar aquela dolorosa realidade que surgia diante de si, enquanto seu coração ainda resistia, agarrando-se com todas as forças a uma esperança que se esvaía a cada frase de Danny.
— Porque você está me dizendo essas coisas? — Joseph insistiu, sentindo o choro começar a embargar sua garganta. — Não é verdade, Danny. Não tem como ser!
— Olha, eu sei que é difícil de aceitar, tá? Eu estive no velório dele e, mesmo assim, às vezes, ainda tenho dificuldade de assimilar a ausência do Nate, então, eu sei bem como está se sentindo agora. — Danny tentou confortá-lo pousando uma mão em seu ombro, mas Joseph se afastou do garoto como se ele lhe desse choque.
— Ele não está morto, Danny. — Repetiu em completa negação. — Eu não sei por que você está me dizendo isso, porque está sendo tão cruel assim, mas é impossível, ok? O Nathan não está morto. Essa brincadeira que está fazendo não tem graça!
Ao ouvir tal coisa, Danny se enfureceu. Em um movimento rápido, ele segurou Joseph pelo colarinho da camiseta e praticamente o atirou na parede do restaurante às suas costas, obrigando-o a olhar no fundo de seus olhos.
— Acha que estou brincando?! — Perguntou irritado. — Acha que a vida do Nathan significava tão pouco assim para mim, Joseph?! Eu cresci com aquele cara, ok?! Ele era como um irmão que eu nunca tive! E, sim, ele está morto agora! Ele está morto e não importa o quanto você queira negar isso, não vai mudar merda nenhuma, tá?! O Nate tinha dezessete anos, tinha toda uma vida pela frente e ele realmente não merecia estar debaixo de sete palmos de terra agora, apodrecendo, mas ele está, caralho! E você pode ficar aí sendo um imbecil, tentando se convencer de que eu sou um mentiroso, mas eu sei que no fundo você sabe que eu não estou mentindo, Joseph! Você sabe! — Danny finalmente o soltou e seu olhar de fúria foi novamente substituído por um de total tristeza e indignação. — E isso não é justo, porra! Eu sei que não é. Mas é a verdade! O Nathan se foi, Joe. — Ele finalizou e Joseph não teve mais como negar a situação. Não depois daquele discurso acalorado e, certamente, não quando desde o início ele realmente já sabia que Danny falava a verdade, embora não quisesse aceitar.
E aquilo o destruiu.
O quebrou de tal maneira que tudo o que conseguiu fazer foi escorregar pela parede do restaurante onde Danny o jogara e desabar de joelhos ali mesmo, na calçada, deixando que o choro que estava prendendo desde o início daquele diálogo finalmente se libertasse. E quando as primeiras lágrimas escaparam de seus olhos, Joseph não soube dizer se algum dia conseguiria parar.
Em sua cabeça, tudo o que se passava eram imagens de Nathan.
Nathan fazendo suas manobras de skate no parque onde às vezes se encontravam. Nathan sorrindo depois de lhe contar alguma piada péssima. Nathan cantarolando as letras de suas músicas favoritas com total devoção. Nathan em silêncio ao seu lado, observando-o desenhar. Nathan irritado por sempre perder para ele nas partidas de videogame. Nathan de braços abertos para recebê-lo sempre que ele precisava de um abraço... Joseph podia vê-lo como em um filme, tão nítido que tinha a impressão de que se fechasse os olhos e esticasse as mãos poderia tocá-lo, mas ele sabia que aquilo não aconteceria mais. Sabia que jamais sentiria o calor da pele de Nathan sob os seus dedos de novo ou ouviria sua voz... E a constatação desse fato foi como uma adaga afiada o dilacerando.
Doía!
Doía tanto que, em alguns momentos, Joseph não tinha certeza se seria capaz de respirar normalmente de novo. Duas ou três vezes ele se engasgou com o próprio choro e pode sentir a mão pesada de Danny lhe dando alguns tapinhas de conforto nas costas, mas estava tão perdido em sua própria dor que nem conseguia enxerga-lo. Não conseguia ver nada!
Nem os olhares de estranheza que as pessoas o lançavam ao passar pela calçada e vê-lo naquele estado, nem a forma como alguns motoristas, ao saírem do estacionamento, esticavam o pescoço para tentar ver melhor o que estava acontecendo. Joseph nem mesmo percebeu quando Danny se sentou ao seu lado no concreto frio e simplesmente ficou ali, em silêncio, esperando que ele se acalmasse.
Sentia-se como se estivesse submerso em um oceano escuro e frio, sem conseguir absorver nada do que acontecia a sua volta, como se um grande vazio tivesse inundado sua alma no momento em que se deu conta de que nunca mais veria o rosto de Nathan outra vez, de que nunca mais poderia olhá-lo nos olhos e dizer a ele o quanto o amava... porque Nathan tinha partido. Para sempre! E tudo o que Joseph teria a partir dali seria uma saudade imensa e um arrependimento maior ainda porque ele se lembrava muito bem de que suas últimas palavras para o garoto haviam sido “eu não quero te ver nunca mais”. E, agora, ele realmente não o veria.
— Eu sinto muito mesmo, Joseph. — Danny repousou uma mão em suas costas depois de um momento que Joseph não soube dizer se havia sido longo ou não. Ele não tinha a mínima ideia de há quanto tempo estava ali, de joelhos e chorando. Só sabia que seu corpo estava travado, protestando por causa de toda a tensão a qual havia sido submetido. — Eu não queria ter te contado assim. Se eu soubesse que você não fazia a mínima ideia do que tinha acontecido com o Nate, teria escolhido um momento melhor ou uma maneira melhor de te dizer, mas é que eu achei que você já sabia, entende? E fiquei puto quando te vi beijando aquela mina aqui porque eu achei que você sabia e que não dava à mínima. Achei que não se importava com a memória dele.
Joseph sacudiu levemente a cabeça. Não culpava Danny pela forma como as coisas ocorreram naquela noite. Ele entendia. Tanto o soco que recebera, quanto a forma como Danny lhe deu a notícia. Não havia um jeito fácil de contar a alguém que a pessoa que ele mais amava no mundo estava morta mesmo.
— Sinto muito — Danny repetiu.
— Como ele morreu? — Joseph perguntou, reunindo o pouco de força que ainda lhe restava para erguer a cabeça e olhar bem para Danny. Ele queria saber de tudo agora, cada detalhe que pudesse ajuda-lo a assimilar melhor toda aquela história e, quem sabe, lidar com a dor e o luto que estava sentindo, mesmo que achasse que nada no mundo poderia ajudar de fato.
— Ele se afogou na banheira — Danny respondeu cabisbaixo. — Disseram que ele estava chapado ou bêbado, que apagou durante o banho e acabou se afogando. A principio, a policia está trabalhando com a hipótese de ter sido um afogamento acidental ou um suicídio, mas o laudo completo da perícia só sai daqui alguns dias, então, até lá, não sabemos direito o que aconteceu com ele.
Joseph sentiu o estômago embrulhar.
— Acha que ele se matou?
Danny pensou a respeito.
— O término de vocês foi realmente difícil para ele, mas daí a tirar a própria vida... — Ele balançou a cabeça em negativa. — Não é o perfil do Nate, sabe? Não acho que ele faria isso.
— Então acha que foi um acidente?
Danny deu de ombros.
— Pode ser — respondeu simplesmente, mas Joseph notou que havia algo de estranho no olhar dele, algo como um brilho de fúria mal contida. No entanto, antes que pudesse questioná-lo a respeito, Danny se colocou de pé e lhe estendeu a mão. — Eu te levo até lá.
— Até onde? — Joseph perguntou sem entender.
— À casa dos pais do Nate. Acho que você vai querer vê-los — ele explicou, mas Joseph não tinha certeza sobre isso.
Não fazia ideia de como os pais de Nathan o receberiam. Se seriam gentis com ele ou se o enxotariam de sua porta assim que ele tocasse a campainha, afinal, era quase impossível que não soubessem sobre o término de seu namoro com Nathan e sobre a forma como ele havia magoado o filho deles.
— Eles não culpam você — Danny disse, notando seu receio. — Nem mesmo o Nate culpava. E eu acho que esse encontro vai fazer bem para os dois lados.
— Não sei se posso — Joseph confessou pensando em quantas memórias o atingiriam assim que colocasse os pés na casa de Nathan.
— Nem vai descobrir se não tentar — Danny concluiu e, ainda incerto sobre aquilo, Joseph segurou a mão dele e deixou que ele o ajudasse a se levantar e o guiasse até a casa dos pais de Nathan.
Parado diante da porta de entrada, Joseph sentia seu coração bater em sua garganta. Suas mãos suavam e ele tinha quase certeza de que já estava à beira de um ataque de ansiedade quando a mãe de Nathan foi recebê-los.
Ele não tinha certeza do que esperava, mas ficou realmente surpreso quando a mulher, sem dizer coisa alguma, simplesmente o puxou para um abraço apertado e afagou seus cabelos de maneira gentil.
— Querido, que bom ver você! E olha só como você mudou! — Ela o afastou um pouco para avalia-lo dos pés à cabeça. — O cabelo curto te deixou com um ar mais maduro, mas acho que você também cresceu um pouco desde a última vez que nos vimos.
Joseph não soube o que dizer. Sentia vontade de chorar ao encará-la e não só por estar feliz em vê-la. A mãe de Nathan estava visivelmente mais magra e sua expressão, que antes era sempre tão radiante, agora estava envolta em tristeza e cansaço. Era óbvio que a morte de Nathan a havia quebrado mais que a qualquer um.
— Sra. Grace...
— Me chame de Ellen, meu bem. Eu praticamente te vi crescer. Não precisa de toda essa formalidade.
— Desculpe. — Joseph engoliu em seco, tentando manter seus sentimentos sob controle.
— E você, Daniel? — A mãe de Nathan se adiantou e também deu um abraço em Danny, que estava parado logo atrás de Joseph na porta. — Como tem passado, querido?
— Estou bem até onde é possível — Danny deu de ombros. — Vivendo um dia de cada vez.
A mãe de Nathan assentiu.
— Porque não entram? Vou fazer um chá para vocês — ela convidou.
Joseph fez menção de segui-la para dentro de casa, mas Danny permaneceu no mesmo lugar, o que o fez parar e olhar para trás.
— Você não vem?
—Acho que esse momento tem que ser só de vocês — ele explicou. — Mas espero que a gente se esbarre outras vezes, cara. Se cuida.
Então Danny lhe virou as costas e foi embora e Joseph ficou em dúvida se entrava ou não, mas como já estava ali e a mãe de Nathan havia lhe oferecido um chá, decidiu não fazer desfeita. No entanto, assim que colocou os pés para dentro da casa, Joseph congelou. Seus olhos varreram as dezenas de caixas que estavam empilhadas por todos os cantos e os móveis cobertos por lençóis e ele sentiu sua respiração ficar presa na garganta e as palmas das mãos começarem a suar.
— Fico feliz que tenha vindo nos visitar hoje — a mãe de Nathan comentou ao vê-lo encarar as caixas com assombro. — Vamos nos mudar para Portsmouth amanhã de manhã. A equipe de mudança chega às sete.
Joseph não conseguiu dizer nada. Então ela continuou:
— Nossa vida em Londres foi muito boa. Vivemos momentos muitos felizes nessa casa, mas depois do que aconteceu com o Nathan, esse lugar não parece mais um lar para nós.
Joseph olhou para ela. Ele entendia. Tinha descoberto há pouco mais de uma hora sobre a morte de Nathan e, mesmo assim, nada mais em Londres se parecia com um lar para ele.
— Foi a senhora quem o encontrou? — Ele perguntou ainda meio em choque pela surpresa de saber que os pais de Nathan iriam se mudar na manhã seguinte.
Ellen assentiu.
— Foi numa noite domingo — ela contou. — Charles e eu tínhamos ido visitar uns amigos na cidade vizinha. O Nathan ficou em casa naquele fim de semana, pois ele não estava muito a fim de nos acompanhar. Nós saímos na sexta à tarde e voltamos no domingo à noite, acho que era por volta das oito quando chegamos aqui. As luzes estavam acesas, mas lembro-me de estranhar o silêncio. O Nathan estava sempre assistindo TV, jogando videogame ou ouvindo música e eu sempre tinha que brigar com ele por conta do volume alto, mas naquela noite estava tudo quieto. Eu o chamei algumas vezes, mas ele não respondeu. Achei que poderia estar dormindo, então, eu subi. Foi quando vi a luz do banheiro acesa e entrei. Ele estava na banheira, submerso... Nunca vou me esquecer daquela cena. — Ellen concluiu e Joseph engoliu em seco, o choro ameaçando escapar de sua boca a qualquer minuto ao ouvir tudo aquilo.
Imaginar Nathan desacordado, submerso em uma banheira... O desespero que Ellen devia ter sentido ao encontra-lo assim... Tudo aquilo era demais.
— Danny me disse que a polícia acha que pode ter sido suicídio. Ou acidente — ele completou rápido.
—Nathan jamais tiraria a própria vida — Ellen afirmou. — Sei disso porque sei o quanto ele amava viver, Joseph. E, mais que isso, sei o quanto ele te amava. Ele jamais faria qualquer coisa que te machucasse assim. — Ela pousou seu olhar sobre Joseph e, apesar da tristeza, Joseph também conseguia sentir sua ternura e carinho. — Quando vocês terminaram, Nathan me disse várias vezes que você tê-lo deixado não tinha sido uma escolha sua. Ele nunca me explicou o porquê de pensar assim e eu nunca perguntei, mas ele acreditava fielmente nisso, sabe? Ele tinha certeza de que vocês voltariam a ficar juntos em algum momento e ele estava disposto a esperar. Porque ele se mataria?
— Eu não entendo o que aconteceu. — Joseph secou uma lágrima teimosa que cismou em escorrer por sua bochecha mesmo sem sua permissão. — Não quero acreditar que ele tenha se matado, mas também não sei como ele se afogou naquela maldita banheira. Quer dizer, como ele pode ter apagado ao ponto de se afogar assim, sabe? Não faz sentido.
A mãe de Nathan se aproximou e, mais uma vez, o envolveu em um abraço.
— Essas são respostas que não temos ainda, Joseph. Mas eu acredito que o tempo nos trará todas elas.
— Não consigo acreditar que ele morreu — Joseph comentou, se permitindo chorar nos braços da mulher que mesmo após perder o filho ainda tinha tanto amor e carinho para lhe dar. — Queria ter estado aqui. Queria ao menos ter me despedido dele.
— Eu sei, querido. Nós também sentimos a sua falta no funeral. Nathan teria gostado de ter você lá, mas entendo que não tenha conseguido vir antes. Seu pai nos avisou que você estava no meio do semestre letivo da sua nova escola e que talvez não pudesse sair.
Joseph parou. Seu cérebro se esforçando ao máximo para assimilar o que a mãe de Nathan havia dito em meio a toda a névoa de dor que o consumia naquele momento.
— A senhora falou com o meu pai? — Ele questionou.
Ellen assentiu.
— Charles e eu telefonamos para a sua casa para dar a notícia. Seu pai nos disse que você estava estudando fora e que talvez não conseguisse vir para o funeral, mas que ele avisaria a você sobre o Nathan. — Ela parou e observou a expressão dele, parecendo confusa. — Ele avisou a você, certo?
Joseph não conseguiu responder. Seu coração batia rápido e seu estômago girava mais rápido ainda porque é claro que Erick não tinha lhe avisado sobre a morte de Nathan. Ainda naquela manhã, ele o estava chantageando para sair com Lucille, alegando que colocaria Nathan atrás das grades caso não o obedecesse e, até aquele momento, Joseph não tinha cogitado a hipótese de seu pai saber de tudo e apenas não ter lhe contado. Agora se sentia estúpido por não ter pensado nisso.
— Desculpe — ele disse soltando-se do abraço de Ellen e já se encaminhando para a porta —, eu preciso ir.
A mãe de Nathan pareceu ainda mais confusa.
— Você não vai esperar o chá, querido?
— Não, mas obrigado por me receber hoje. E... eu sinto muito pelo Nate. — Joseph respondeu simplesmente, então, rumou para fora dali sem nem esperar por uma resposta dela.
Ele se sentia uma bagunça completa. Sua cabeça estava a mil e suas mãos tremiam tanto que chegava a incomodá-lo. Estava furioso e triste, mas também estava se sentindo traído e decepcionado e, principalmente, estava se sentindo um idiota por ter deixado Erick manipulá-lo daquela forma.
— Onde está o meu pai? — Perguntou para Brianna quando a encontrou na sala de estar assistindo TV com Christopher.
Ela o encarou com curiosidade, já que era óbvio que ele estava bastante irritado, mas respondeu mesmo assim:
— No escritório com seu tio... Joseph! — Brianna gritou quando ele lhe deu as costas. — Seu pai pediu para não incomodá-los. — Tentou alertar, mas Joseph não deu à mínima. Precisava falar com Erick e, dessa vez, ainda que não quisesse ficar cara a cara com seu tio de novo, não iria recuar.
Ao chegar ao escritório, Joseph pode ouvir a voz de Erick discursando sobre alguma coisa, mas não esperou para entender do que se tratava. Simplesmente empurrou as pesadas portas de madeira e entrou, atraindo a atenção de Erick e também de Andrew que estava sentado a sua frente.
— Precisamos conversar — ele disse olhando diretamente para o pai que, a essa altura, já o encarava com raiva.
— Estou ocupado, Joseph.
— Não está mais. — Joseph respondeu e, então, fez algo que achou que jamais teria coragem de fazer. Virou-se para Andrew e disse: — Dê-o fora.
Andrew não se moveu. Como era de costume, seu olhar lascivo mediu Joseph dos pés a cabeça e um sorrisinho brotou no canto de seus lábios.
— Gostei do visual novo.
— E eu disse para dar o fora.
— Porque está tão bravo, Joe? — Andrew se colocou de pé e se aproximou para tocar o braço de Joseph, mas ele o afastou de si com um empurrão.
— Não me toca — ameaçou e Erick deve ter percebido que ele estava no limite, pois estendeu a mão para Andrew, orientando-o a manter distância.
— Nos deixe a sós por um instante — pediu. — Voltamos a discutir sobre esse projeto mais tarde.
Andrew assentiu e ainda parecendo surpreso com a reação de Joseph, deu uma última olhada no garoto e saiu do escritório.
— Você mentiu para mim — Joseph disse assim que o tio fechou a porta atrás deles.
Erick pegou um copo de sua adega e serviu-se de uma dose de uísque.
— Vai precisar ser mais específico.
— Nathan está morto.
— Ah. — Erick colocou a garrafa de volta em seu lugar e virou-se para Joseph. Por alguma razão, o garoto ainda esperava ver pelo menos um principio de culpa vagando em seu olhar, mas não detectou nada além de tédio. — Então, você soube.
— Como pode ser tão baixo?! — Joseph questionou. — Usar o nome dele para me chantagear a sair com a Lucille mesmo sabendo que ele estava morto!
Erick deu de ombros.
— São apenas negócios, Joseph. Você sabe. Eu tinha uma vantagem sobre você e a usei. Não foi pessoal.
— Não foi pessoal?! — Joseph o encarou. — Você sabia o que ele significava para mim, pai. Sabia que eu faria qualquer coisa para mantê-lo seguro e se aproveitou disso! Parece bem pessoal para mim!
— Você não teria seguido o meu conselho sobre a Lucille se as coisas não fossem desse jeito.
— Conselho?! — Joseph se exaltou. — Você escondeu a morte do Nathan de mim só para me forçar a sair com ela! Mentiu para mim e me chantageou!
— Você estava irredutível em sua teimosia, Joseph! O que mais eu poderia fazer?
— Para começar, poderia não ser a porra de um escroto!
— Não use esse linguajar comigo, moleque.
— Foda-se! — Joseph deu um tapa no copo de uísque que Erick segurava, fazendo o objeto se espatifar pelo piso de madeira e manchar tudo ao seu redor com o líquido âmbar. — Você nem me deu a chance de me despedir dele.
— E que diferença isso faria? Acha que se sentiria melhor agora se tivesse dito adeus?
— É claro que me sentiria!
— Besteira! Você sabe que não! Sabe que teria surtado no momento em que eu te ligasse e, no fim das contas, talvez nem tivesse conseguido ir ao funeral porque você é fraco e patético, Joseph. Eu te fiz um favor.
— Você não tinha o direito de me tirar essa escolha! Não tinha o direito de esconder isso de mim!
— Mas escondi — Erick afirmou sem remorso. — Agora pare de chorar e lide com isso.
— Nunca vou te perdoar.
— Acha que o seu perdão é importante para mim? — Erick o provocou. — Eu não faria nada diferente, Joseph. E, se quer saber, não me sinto nem um pouco culpado por ter escondido a morte dele de você e por tê-lo usado para te convencer a sair com a herdeira dos Normán. Na verdade, acho que o seu marginalzinho ter se afogado naquela banheira foi, provavelmente, a única coisa de útil que ele já fez na vida!
Ao ouvir aquilo, Joseph perdeu completamente o controle. Antes que pudesse se conter, já tinha pulado sobre a mesa do escritório e atacado Erick com vários socos e tapas dos quais o mais velho se desvencilhou como pode. Erick tentou segura-lo, mas Joseph investiu contra ele cravando as unhas em seus braços e rosto, arranhando-o e arrancando sangue em qualquer lugar que pudesse alcançar.
Estava tão bravo que não enxergava nada além de vermelho. Sua única vontade era fazer seu pai engolir aquelas palavras junto com os próprios dentes se possível e não se importava com o quão feia essa atitude era. Não devia respeito àquele desgraçado! Não devia nada a ele!
— Pare com isso! — Erick gritou ainda tentando contê-lo, mas Joseph parecia possuído. Ele sequer o escutava. Toda vez que Erick conseguia segurar uma de suas mãos, ele usava a outra para feri-lo e quando isso não era o bastante, usava os pés e às vezes até os dentes na tentativa de agredi-lo. — Você enlouqueceu?! Pare com isso agora!
Mas Joseph não parou. Tudo o que havia em seus olhos era uma fúria incontrolável que o compelia a continuar atacando.
Ele não sabia o que teria feito se tivesse ficado a sós com Erick por mais alguns minutos, talvez tivesse o matado se ninguém intervisse, mas quando deu por si havia mãos o segurando e o puxando para longe de Erick, vozes exaltadas pedindo para que ele se acalmasse. Ele sabia que uma das vozes pertencia a Brianna, a outra talvez viesse de seu tio e, provavelmente, também era Andrew quem o estava segurando, mas ele não conseguia vê-los.
Queria se soltar e voltar para Erick. Queria destruir aquele lugar inteiro e colocar fogo em tudo o que seu pai mais prezava para que assim, quem sabe, Erick entendesse o que era perder tudo o que amava.
O que era perder tudo que ainda lhe fazia ter vontade de continuar tentando.
Joseph sentiu vontade de gritar, então, gritou. Gritou tanto que sua garganta começou a doer, mas mesmo assim ele não parou.
Então, em algum momento, os gritos se transformaram em lágrimas e as lágrimas se transformaram em soluços sôfregos de dor. Física, emocional... Joseph não conseguia dizer. Ele só sabia que doía. Doía tanto que ficou difícil de respirar. E então, ele desejou morrer porque tinha certeza de que a morte, mesmo a mais cruel e dolorosa delas, seria melhor do que tudo que estava sentindo. Seria melhor do que viver em um mundo onde Nathan não existia mais.
— Joseph! — Brianna deu alguns tapinhas em seu rosto, o olhar assustado esquadrinhando-o a procura de sabe-se lá Deus o quê. — Preciso que olhe para mim, ok? Olhe para mim.
Mas Joseph não conseguia.
— Por favor, por favor, Joseph! Olhe para mim. Se concentre em mim! — Ela suplicou, mas não adiantava. Ele estava errático, hiperventilando. — Andrew, me ajuda!
E então, as mãos de seu tio o alcançaram. As mesmas mãos que um dia o haviam tocado de maneira tão suja e que o haviam traumatizado tanto, mas Joseph nem conseguiu sentir nojo ou repulsa. Estava flutuando em um oceano negro que a cada segundo parecia mais acolhedor, mais irresistível...
— Joe, respira. — Foi a última coisa que ouviu, ou pensou ter ouvido, antes de tudo dentro de si repousar na mais completa escuridão.
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