Shadows... Of The Past.

4 Capítulo III: Mágoas do Passado.


O moreno arregalou os orbes, não pôde esconder tal surpresa ao acompanhar o surgimento da Inocência de Katerina. Duas Cimitarras longas, extremamente afiadas e estreitas saíam dos braços da jovem, uma de cada lado, na vertical. Tinham uma cor rubra enegrecida em suas lâminas, sendo comprovado que eram forjadas de seu sangue. A guarda de ambas continha um dragão encrustado. À medida que as lâminas desciam pelos pulsos, o Bookman ia anotando cada detalhe em seu caderno. Komui boquiabria-se, assombrado com o que via e não estava diferente dos demais. Então, finalmente Katerina empunhava suas espadas.

- Ela pode empunhar? Que coisa demoníaca! – exclamou Lavi, descrente e assustado. –Nunca vi uma Inocência assim. A do Allen leva o braço junto, não entendo...

-É feita do sangue dela, idiota. Misturada à Inocência. – retrucou Bookman, ao parar de escrever. – Preste mais atenção.

Então, a conversa foi interrompida pelo tilintar das espadas. Kanda desembainhava a sua Mugen e agora travava uma séria luta com Katerina que estava cada vez mais enfurecida com ele.

- Você enlouqueceu? Qual é o propósito disso, Katerina? – indagou Kanda, enquanto tentava se defender das espadas furiosas de sua antiga amiga.

A garota não respondeu, impulsionou-se para frente, atacando-o vorazmente, tentando passar do bloqueio dele. Kanda era muito bom, ela tinha que admitir. Ele, por sua vez, após travar a espada dela, deu um salto para trás.

- Desse jeito, não vai dar certo. – o samurai sorriu, enviesado para ela. – Mugen... Hatsudo! – proferiu, passando o indicador pela lâmina da espada, deixando-a prateada. Agora, ele de fato, iria levar aquilo à sério. — Kaichuu: Ichigen! – em seguida, uma saraivada de Insetos Infernais saía da ponta de sua espada, indo em direção à oponente.

Katerina por sua vez, com três ou quatro golpes das Cimitarras, pulverizou-os. Partindo novamente para cima do moreno. Mas, antes de chegar à ele, a ruiva cortou supostamente o ar. Kanda não pôde entender, até cair de costas no chão, empurrado pela gravidade que agora, ela dominava. Em questão de segundos, ela pulava sobre ele e antes que ela conseguisse cortar seu pescoço, a Mugen de Kanda cortou o caminho da espada dela.

- É o melhor que você pode fazer? – provocou ele, esforçando-se para repelir as espadas dela, mas a gravidade repuxava ainda mais as Cimitarras dela para o pescoço dele.

- Não, Kanda. Não é. – ela forçava ainda mais as espadas que agora emitiam um brilho vermelho vivo, da ativação inconsciente dela. Kanda não conseguiria segurar por mais tempo e... Não conseguiu. As Cimitarras encostaram-se a seu pescoço, mas havia algo estranho. Não saía sangue e tampouco havia um corte. Em um acesso de fúria, ele finalmente a repeliu, chutando-a pelo estômago e fazendo-a cair alguns metros longe dele.

- Mas, o quê... – então Kanda sentiu dificuldades para respirar. Tocou seu pescoço com a mão livre e percebeu que não havia corte algum. – O que... Você... Fez? – indagou ele, com a respiração falhando. Ele não se deixaria perder. Podia sentir suas veias arderem de raiva e o sangue borbulhar dentro delas. – Nigentou! – sua espada era coberta com um manto de energia, logo após, ele manejava duas espadas. Seu poder de ataque agora estava duplicado e seu alcance melhor.

- É, agora você parece mais o demônio furioso que matou a minha família! – rugiu ela, ficando de pé e novamente eles travaram as espadas, tentando arrancar uma brecha para um golpe certeiro.

- Demônio, o quê? Eu nunca... – mas ele foi interrompido, pela espada dela que quase acertara sua costela, e ele bloqueou o golpe com uma das lâminas. – Do que você está falando, sua louca?

- Estou falando... Do dia... – continuou ela, procurando, incansavelmente, algum ponto fraco de Kanda. – Em que você cortou a cabeça da minha mãe com essa maldita espada! — e a fúria da garota fez com que a gravidade no local, mediante aos cortes de sua espada, aumentasse. Kanda golpeava com mais dificuldade e sentira o peso aumentar, consideravelmente.

- Mas, eu... Não! Eu tinha partido. E eu jamais faria isso com você, Katerina! – atrapalhou-se Kanda, desviando dos ataques dela. Estava difícil, ele teria que investir mais. Ela queria matá-lo e a gravidade estava se tornando mesmo um problema para o exorcista. Ele teria que partir para a próxima invocação. – No entanto, agora... Você não me dá outra escolha! Quer me matar... Então, vamos nos matar. – ele deixou-se dominar pela fúria. Como ela podia dizer isso dele? Como ela poderia pensar isso dele? Ele não permitiria. — Kinki Sangenshiki! – era a técnica das Três Ilusões Proibidas. Essa técnica lhe permitia absorver sua energia vital para se fortalecer em um grau muito elevado.

- Então, me mate, se for capaz! Acaba logo com isso, seu maldito. – berrou ela. Então, foi surpreendida por uma força, imensamente, grande vinda dele. Ela quase não dava conta de bloquear os ataques que eram muito rápidos para que ela pudesse acompanhar. Um deslize. Uma das espadas de Kanda rasgou a barriga dela, destruindo o espatilho e revelando o corte profundo em meio os trapos do camisete dela. – É o melhor que você pode fazer? – ela jogou a frase dele contra ele, com um sorriso sarcástico, misturado à dor. Ela não se renderia.

- Não. – e dito isso, ele atacou-a mais uma vez, com ódio. Agora a situação começava a ficar tensa. Lavi olhava desesperado para Komui que parecia quase se divertir com aquilo. Krory e Miranda tapavam a boca com as mãos a cada golpe crítico. E o Bookman apenas anotava, impressionado com a agilidade de Katerina.

- Será que eu sou o único que vê que isso não acabará bem? – enfureceu-se o ruivo. – Eu vou atrás de Cross. Alguém tem que parar isso... – e saiu correndo, para dentro do Castelo.

- Morra, seu desgraçado! – exclamava, Katerina, golpeando-o em cima e ao lado, sendo defendida por Kanda.

- Como tem tanta certeza de que fui eu? Eu sempre protegi você e sua família! Como ousa... – ele estava magoado e era notável. Usava de toda sua força tanto para atacá-la quanto para defendê-la. Cruzou as espadas para bloquear um ataque que vinha em direção à seu rosto e estacaram assim, se olhando.

- Bom, eu reconheceria esse seu cabelo enorme em qualquer lugar... E esse seu rosto. Você sorria enquanto a torturava e sumiu com meu irmão! O que fez com ele? – a ruiva destravou e rasgou o braço esquerdo dele e dessa vez, o sangue escorreu sem cessar, boquiabrindo a todos. Aproveitou o ensejo, para lhe passar uma rasteira.

- Não fiz nada com ele! Não era eu... Mas... – Kanda caíra no chão, mas chutou o tornozelo dela, fazendo-a cair ao seu lado com um baque. – Sei quem pode ter sido. – levantou-se, seguido por Katerina.

- Ah, tá bom. Você tem um irmão gêmeo? – zombou a moça, correndo em direção à ele em posição de ataque. – Essa é ótima, Kanda.

- Não, não tenho. Mas, existe uma Noah com esse poder. De se transformar em outra pessoa... E certamente... – ele cambaleou para trás com os golpes fortes dela. Após atingí-la na barriga parecia que havia ficado ainda com mais ódio dele. – Foi ela que destruiu sua família.

- O quê? – ela ficou em choque e esqueceu de bloquear o último ataque de Kanda e este jurava que ela iria bloquear. Ambas as lâminas da Mugen do samurai atravessaram-na nas costelas e ela ficou pendurada sobre elas. Cross chegava com Lavi nesse exato momento e os dois conegelaram ao olhar a cena. Os cabelos avermelhados da garota, agora soltos assim como os de Kanda, caiam pelos lados de sua face, a cabeça baixa. Ela não emitiu som algum de dor e deixou suas espadas cairem. Instantaneamente, elas se desativaram e segundos depois voltavam pelo mesmo local de onde saíram.

- Não... Kat... Droga! – Kanda estremeceu. E o arrependimento foi imediato. Seus olhos vislumbravam ela agarrar as lâminas de sua espada e tentar retirá-las, devagar. O sangue escorrendo pelas mãos dela. Assim que conseguiu, fraquejou e despencou, sendo segurada pelo moreno, rapidamente. – Por quê? Por que você não bloqueou? POR QUÊ? – descontrolou-se, abraçando-a com força.

- Quem foi... Que... – murmurou a garota, sem forças. – Quero o nome dela... – pediu, fraca e vertendo sangue sem parar. Komui que assistia junto aos outros, sentiu-se culpado por ter permitido tal situação chegar à esse ponto. Miranda chorava incessantemente, sendo amparada por Krory que estava mais pálido que o normal. E Lavi, estava pasmo ao lado de um Cross extremamente branco e sem falas.

- Lullubel. – respondeu Kanda, sentindo seus olhos arderem. Iria chorar? Não. Precisava ser forte, mas no entanto estava tão vulnerável. Jamais se perdoaria por tê-la machucado dessa forma. O que dera nele? Ele estava apenas tentando se defender no início. – Kat...

- Isso... Não muda nada, Yuu... – proferiu a garota, rouca. Estava ficando cada vez mais pálida à medida que perdia sangue. – Eu continuo odiando você... Se estivesse comigo, nada disso teria acontecido... – e ela não conseguiu dizer mais nada, perdeu os sentidos e seus olhos se fecharam. Nesse momento, Cross avançava para eles.

- Seu desgraçado, o que você fez? Eu vou matar você... – bradou o General, puxando sua pistola, a Inocência.

- Cross, não! – Lavi meteu-se na frente dele. – Yuu, leve ela pra enfermaria, rápido. Ou ela vai morrer, mesmo. – mandou o rapaz, enquanto continha um Cross Marian furioso. Era da filha dele que se tratava, afinal. A única pessoa que ele realmente tinha.

Kanda que estava sentado no chão contendo Katerina, levantou-se. E com a garota nos braços, pôs-se a andar em passos rápidos para a enfermaria. Sua cabeça latejava tanto quanto seu braço esquerdo que ela cortara e agora começava a formigar. Ele precisava chegar, sentia que não aguentaria por muito mais tempo. As palavras dela antes de desmaiar ecoavam em sua cabeça. Isso... Não muda nada, Yuu... Eu continuo odiando você...

Ao chegar na porta da enfermaria, aquela mulher os socorreu. Ordenou que Kanda depositasse a garota em uma das camas e logo após fazer isso, ele sentiu suas pernas fraquejarem, caindo de joelhos ao lado do imóvel. Foi então que a Enfermeira notou que Kanda também estava bastante ferido. Ela pôs-se a ajudá-lo a deitar na cama ao lado, enquanto outros enfermeiros de plantão tratavam dos graves ferimentos de Katerina.

- Não deixe ela morrer, enfermeira... Cuide dela... Não... Deixe... – e Kanda não conseguiu dizer mais nada, simplesmente apagou.

Quando acordou, sentiu que podia respirar, normalmente. Seu braço estava todo enfaixado e seu pijama na mesinha de cabeceira. Ele se levantou e foi trocar de roupa, afinal seu uniforme estava destroçado. Ao voltar, enquanto jogava um roupão por cima do pijama, ele parou de frente pra cama de Katerina que ainda não acordara. Ele perdera-se contemplando-a por um tempo e pensando naquela maldita frase. Como ela podia odiá-lo tanto? Seus pensamentos foram interrompidos por Cross que abrira a porta da enfermaria e o encarava com raiva.

- Você poderia ter matado a minha filha, seu miserável. No que estava pensando? Perdeu o juízo? – falou o homem, fechando a porta atrás de si.

- E você já teve algum? – retrucou Kanda, frio. – Não venha bancar o pai preocupado agora. Você nunca deu a mínima pra ela.

- Ao menos de mim, ela não esperava alguma coisa. Agora de você, Kanda... A situação é completamente diferente. Você a decepcionou da forma que nem eu seria capaz de fazer. Se eu tivesse o mínimo de proximidade que você tinha dela, eu jamais a teria abandonado. Covarde. – alterou-se Cross.

- Não venha você me dar lição de moral, seu... – o moreno não pôde terminar a frase, fora atingido por um soco de Cross, fazendo escorrer um filete de sangue do canto de sua boca.

- Considere-se com sorte. Eu iria mesmo te matar ontem, samurai idiota. – retorquiu o ruivo, com os punhos cerrados. – E saia da minha frente! – mandou, empurrando-o para o lado e caminhando em direção à Katerina. Sentou-se na beirada da cama e começou a afagar-lhe os cabelos. – Eu não quero mais que você chegue perto dela.

- Acho que isso não depende de você, Cross. – desafiou-o Kanda, sentindo a raiva pulsar suas veias.

- E eu acho que você ainda não me entendeu. – Cross virou o rosto para o moreno. – Você não vai mais chegar perto dela. Nem que eu tenha interferir. E se eu interferir as coisas não ficarão boas para o seu lado. Você faz mal à ela. E se tem um pingo de sensatez, vai se afastar. Por bem... Ou por mal.

- Não foi a minha intenção ferí-la! Será que ninguém me entende? Merda! – exaltou-se o garoto, fazendo a Enfermeira aparecer, imediatamente.

- O que está acontecendo aqui? – inquiriu ela, com aquela costumeira expressão maligna no rosto, fazendo Kanda e Cross encolherem.

- Nada, não, senhora... – disse o ruivo.

- Só estamos conversando. – repondeu Kanda, em um murmúrio.

- Aos berros? Será que não respeitam essa menina que ainda não está bem? – e ela apontou para Katerina, que dormia serenamente. Os olhos de Cross brilharam e encheram-se d’água.

- Ela não é um anjinho quando dorme? – babou o pai.

- Só quando dorme... – sussurrou Kanda, fitando-a também.

- O que disse? – Cross pegou-o pela gola da blusa, erguendo-o.

- Nada, seu maluco. Nada! – apressou-se Kanda a dizer.

- General Cross, acho melhor o senhor largar o Kanda. Ele também precisa descansar. Não está totalmente curado. – pediu a Enfermeira, séria.

- Ah, está bem. – Cross assentiu, largando o samurai. – Eu vou me retirar, só vim ver como a Kat-chan estava. E você... – apontou o indicador para Kanda. – Considere-se avisado. – então, deixou o local.

- O que houve com meu braço e minha garganta, Enfermeira? Ontem eu não conseguia respirar direito e meu braço formigava demais. – questionou o rapaz, sentando-se em sua cama.

- Seu braço estava começando a supurar. Estava envenenado e logo, começaria a espalhar por todo seu corpo até você morrer. E quanto a sua dificuldade para respirar, acho que alguma ligação dos brônquios foi afetada, quase rompida eu diria por algum corte interno. O que eu não entendo até agora...

- Inocência... – sibilou Kanda, mais para si, tocando o próprio pescoço. Não entendia como ela podia ter uma arma anti-akuma tão poderosa e mesmo usando-a sem ter conhecimento dos plenos poderes, poderia tê-lo matado se prosseguissem com a luta.

Mais dois dias se passaram e Kanda receberia alta. Porém, Katerina ainda não havia acordado. Pilhas de caixas de doces se acumulavam na mesinha de cabeceira dela, com cartões de melhoras. Isso estava intrigando Kanda e ao mesmo tempo, preocupando-o ainda mais.

- Kanda, você já está bem recuperado. Já pode sair. – comunicou a Enfermeira no final da tarde. Mas, ele não queria sair. Queria permanecer ali, velando o sono da ruiva, mesmo que não compreendesse a razão disso. Por que raios ele ficaria cuidando de alguém que o despreza? Ele não entendia, só sabia que precisava.

No meio da noite, Katerina acordou. Não tinha noção de que dia era e nem das horas, apenas notou que Kanda dormia na cama ao lado. Ela se levantou, percebendo que usava uma blusinha preta justinha frente única por cima de uma barriga enfaixada e um shortinho jeans. Haviam trocado-a enquanto estava desacordada há três dias. Seus pés descalços puseram-se a caminhar até a porta, devagar, abrindo-a. Dez centímetros fora do quarto e ela sentiu alguém segurar seu pulso.

- Onde pensa que vai? – era Kanda, um tanto sonolento, com os cabelos soltos e a franja cortando-lhe os intensos olhos azuis. Fitou-a nos olhos quando ela virou o rosto para encará-lo.

- Pra casa... Preciso cuidar da minha mãe doente. – respondeu a garota, quase sussurando. Ela tinha o rosto levemente ruborizado e os olhos cansados, que brilhavam em lágrimas.

- Casa? Esta é sua casa agora, Katerina. – e ele puxou-a mais para perto, tocando-a levemente, a face. Sentiu seus dedos arderem quando a tocou e constatou que a garota estava queimando em febre. – Venha... Precisa descansar.

- Não... Minha mãe precisa de mim, eu vou embora. – a ruiva desvencilhou-se dele e cambaleou, segurando-se na parede para não cair. – Não posso deixá-la sozinha... – e as lágrimas começaram a escorrer pelo rostinho delicado e angelical da menina. Sim, ela era uma menina agora, precisando de um pouco de carinho.

- Não, Kat... Você é quem precisa de cuidados agora. – Kanda tomou-a nos braços, enlaçando a cintura dela, delicadamente. Sentiu-se nervoso por estar tão perto dela depois de tanto tempo. Inclinou-se, sentindo o leve perfume cítrico, amadeirado e suave do pescoço dela. Fechou os olhos, assim que ela deitou a cabeça em seu peito, abraçando-o, também.

- Eu preciso voltar, Yuu... Deixe-me ir... – sussurrou a garota, em delírios. Certamente, ela não se lembraria daquela cena. E se estivesse em sã consciência, não estaria abraçada ao samurai, pelo contrário, quereria ainda mais distância dele. Porém, quem ela estava vendo não era o Kanda de 19 anos e sim... O Kanda com 12 anos.

- Jamais te deixarei ir... Cuidarei de você... Pra sempre. – murmurou Kanda, sincero. Não entendia por que aquelas palavras estavam saindo de sua boca. Nunca fora tão transparente assim antes. Sequer fora alguém que se importava dessa maneira com as pessoas. Se Lavi o visse dizendo tais coisas... Seria realmente um problema, o ruivo não pararia mais com as piadinhas de mal gosto. Mas, Kanda precisava dela, de alguma forma. Só não se dera conta disso ainda. Ele a pegava no colo e a depositava em sua cama, sentando-se na cabeceira e fazendo-a deitar sobre seu peito. Atirou um cobertor sobre eles e sentiu-a adormecer em seus braços, como uma criança.

Aquela febre teria que baixar de alguma maneira. Ele se recusava a chamar a Enfermeira, então tratou de cuidar sozinho da alta temperatura corporal da garota com uma tigela d’água fria e um pano. Depois de algumas horas, ele acabou adormecendo também, junto à ela. Segurava uma das mãos de Katerina, enquanto a outra estava repousada sobre a barriga da garota e um pequeno sorriso brotava em seus lábios. Fora vencido pelo cansaço de ter cuidado dela durante a noite inteira e esqueceu-se completamente de que qualquer pessoa poderia entrar ali e vê-lo abraçado com a filha de Cross daquele jeito, por mais que não houvesse nenhuma malícia.

De manhã, em torno de umas 08:00hs, Lenalee entrou no quarto. Corou absurdamente e se atrapalhou com a porta, fazendo Kanda acordar.

- D-desculpe, Kanda. Não sabia que vocês... – Lenalee começou a falar nervosa.

- Não seja idiota. Ela teve uma febre muito alta durante a noite, estava delirando. Passei a madrugada inteira cuidando dela e acabei dormindo. Foi só isso. Nada demais. – explicou Kanda, pacientemente. – Mas, isso não significa que você deve sair espalhando! – apressou-se a dizer.

- Kanda... Não vou sair espalhando. Mas, convenhamos que isso é muito suspeito pra um espectador. E se fosse o Lavi entrando aqui agora ou até mesmo o Cross? Você não pensou nas consequências? Por que não chamou a Enfermeira?

- Sei lá, Lenalee. Nem me passou pela cabeça isso. Achei que poderia dar conta sozinho. – replicou o samurai, baixando os olhos para o ser em seus braços que dormia, tranquilamente. Tocou a testa da garota. – Ainda está quente... – constatou, preocupado.

- Vou chamar a Enfermeira. – falou Lenalee decidida.

- Não. Aquela louca vai querer me expulsar daqui, já tive alta. Deixou eu ficar porque eu disse que estava com dor de cabeça. – disse Kanda.

- Mas, essa febre dela pode significar que seus ferimentos estão infeccionados. E mesmo que a capacidade de recuperação dela seja semelhante a sua, os cortes da sua Mugen são extremamente poderesos. Trata-se da sua Inocência, Kanda.

Era verdade, ele não tinha pensando por esse ângulo. Removeu o cobertor de forma que mostrasse interiramente a parte superior do corpo de Katerina e pôde notar que o sangue atravessava as ataduras. Removeu as faixas devagar, com as mãos trêmulas, por fim revelando a barriga que continha um corte profundo na diagonal e as costelas, perfuradas. A Enfermeira havia dado pontos no local, mas estava tudo inflamado. Não havia mais nada que Kanda pudesse fazer, então Lenalee retirou-se.

A morena voltou alguns minutos depois com a Enfermeira que de fato, expulsou Kanda do local e fechou a porta. Lenalee ficara lá dentro para ajudar. Lavi passava pelo corredor naquele momento e olhou sério para Kanda.

- Como ela está? – perguntou o ruivo, mordendo uma maçã que trazia consigo. Ainda não podia acreditar que Kanda pudesse tê-la ferido tanto.

- Mal... Teve febre a noite inteira. A Enfermeira está cuidando dela agora, parece que os ferimentos infeccionaram e ela voltou a sangrar. – respondeu Kanda, recostando-se na parede e cruzando os braços.

- É tudo culpa sua. Se não tivesse comprado a briga, nada disso teria acontecido. O que deu em você, Yuu? A Ordem inteira está com raiva de você, não que já não tivessem antes, mas agora... Fazem questão de mostrar indignação. – Lavia ía contando, apoiado na parede oposta e fitando Kanda de soslaio.

- Claro que é. Sempre a culpa tem que cair sobre alguém, não é? Crucifiquem o Kanda. – bufou o samurai, agora encarando o jovem Bookman. – Já não basta o Cross, agora me vem você encher o saco, seu coelho idiota?

- Ele não teria mandado você se afastar dela se não tivesse atravessado a sua Mugen nas costelas da garota! E eu que sou o idiota? Acho que você precisa reavaliar seus conceitos, Yuu.

- Você fala como se eu tivesse feito por mal! Eu pensei que ela iria bloquear o golpe. – indignou-se o exorcista, com uma veia saltando da testa.

- Pensou errado. Bem que eu digo que é um retardado mesmo. – xingou Lavi, terminando sua maçã, tranquilamente enquanto uma aura negra emanava de Kanda.

- Não me provoque, seu idiota... – sibilou Kanda.

- Hey, é bom você se acalmar. Não quero ser puxado pela orelha ou coisa pior... – disse o ruivo, pesaroso, lembrando-se da última vez que eles foram arrastados até o final do corredor. – Estamos na porta da Enfermaria.

- Então, cale essa boca. – ordenou o samurai, fechando os olhos e assumindo, novamente, a postura tranquila.

Algumas horas depois, Lenalee saiu do quarto deparando com os garotos ao lado de fora, já sentados no chão, cansados de tanto esperar e até mesmo de alfinetar um ao outro. Após ouvirem a notícia de que Katerina havia acordado e sua febre baixado consideravelmente, eles irromperam no quarto.

- Bom dia, Kat-san. Você nos deu um susto e tanto, hein?! – cumprimentou-a Lavi, sentando-se na beirada da cama dela. – Seu pai ficou preocupado, também... A Ordem inteira ficou. Dá uma olhada na pilha de presentes que deixaram pra você... – apontou o garoto.

- Ah, eu já tinha notado. – murmurou Katerina, com um pequeno sorriso para o jovem Bookman. – Mas, não há mais motivos para preocupação, estou bem. – continuou a garota, levantando-se. Havia esquecido que trajava roupas curtas e ao olhar pra ela, o queixo de Lavi despencou.

- STRIKE! – exclamou, fazendo com que Kanda o estapeasse na nuca, involuntariamente.

- Mais respeito, ela é a filha do Cross. Não está afim de morrer, está? – inquiriu Kanda, mas não pôde evitar olhar também. Ele não havia percebido à noite, pois estava extremamente preocupado com a saúde dela. Sentiu seu rosto arder quando seus olhos passaram das pernas para a barriga da garota... E aquele cabelo ruivo solto... Meu Deus... Ah, o que você está fazendo, Kanda, seu idiota?! Pare de pensar tais coisas dela! Ele sentiu-se obrigado à desviar o olhar, envergonhado da própria atitude.

- Hey, eu não tenho culpa se ela é uma gata... E... – Lavi abafou uma risada ao olhar para o rosto levemente avermelhado de Kanda. – O que é isso no seu rosto, Yuu? Será que alguém está pensando o que não deve? – debochou.

- O quê? – ele deu outro tapa, dessa vez na cabeça de Lavi. – Jamais. Não sou um pervertido feito você. E pode ir tirando os olhos dela, já falei.

- E você pode ir sumindo daqui, Kanda. Sua presença está me deixando doente. – disse Katerina, quebrando todo o clima agradável da conversa, deixando mais uma vez a situação tensa. – Até agora, não entendi o que você faz aqui, veio terminar o serviço? Duas costelas e um corte na minha barriga não foram o suficiente?

- Acho que agora ele quer ooooooutra lasquinha, porém em um contexto completamente diferente... – zombou Lavi, fazendo Katerina e Kanda se olharem com espanto e lançarem um olhar furioso para o ruivo.

- Ele é sempre assim? – espantou-se Katerina, olhando para Lenalee.

- Ele está se controlando. Consegue ser bem pior... – disse a morena, colocando uma das mãos sobre os olhos em sinal de reprovação.

- Tudo bem, Kat-san... Se o Yuu não tomar alguma iniciativa, pode deixar que eu tomo! – brincou Lavi e em seguida saiu correndo, após bater a porta na cara de um Kanda com expressão homicida, antes que este pudesse seguí-lo com a Mugen em punho.

- Argh... Parece que ele não pode ver mulher. – e Katerina não pôde deixar de rir.

Era uma risada gostosa de ouvir, doce e que Kanda sentira muita falta. Ele estava estático, olhando-a desnorteado, enquanto a jovem ria com Lenalee. Que sorriso lindo... O sorriso mais lindo do mundo. Pensou. Então, sacudiu a cabeça em reprovação. Mas, o que eu estou pensando? Não posso pensar isso dela, sempre foi uma irmã pra mim. Era inevitável. Será que era disso que ele fugira o tempo todo? Por isso a abandonara? Ele não queria saber a resposta. Seus pensamentos foram interrompidos pela esbarrada de Katerina na mesa de cabeceira, sendo amparada por Lenalee.

- Está tudo bem, Kate? – indagou a morena, segurando-a pelo braço. Kanda fez menção de ajudar, mas a ruiva estendeu uma das mãos pra ele.

- Não, Kanda. Eu estou bem, Lenalee... Obrigada. Foi só uma vertigem. Deve ser porque estou há três dias sem comer, só no soro. – repondeu a garota, fechando os olhos e pressionando a mão da nova amiga.

- Ah, é verdade... Sua Inocência é do tipo parasita. Allen-kun também fica desse jeito quando não come, pois esses tipos de arma consomem muita energia. – lembrou Lenalee. – Vou pegar alguma coisa pra você comer. – e deixou o ambiente.

- Não me deixe aqui com ele. Eu vou com você... – a moça precipitou-se para a porta, mas uma nova tontura a fez fraquejar, sendo segurada pelo samurai. Como se fosse praga do destino, ela não conseguiu evitar olhar nos profundos olhos azuis dele. Tão azuis...Que ela poderia mergulhar neles... E então, ela conseguiu enxergar o seu antigo melhor amigo lá dentro.

- Hey, quando é que você vai parar de ser teimosa? Acredita em mim agora? Eu nunca quis ferir você. – disse Kanda, verdadeiro, sem nem piscar.

- Eu acredito que você não tenha matado a minha família. – respondeu ela, séria. Então, seu tom de voz ficou ainda mais frio. – Mas, quanto a me ferir... – ela sorriu, com desdém. – Você quis sim... E conseguiu. – ela calou-o com o indicador quando ele fez menção de retrucar. – Eu não falo disso aqui... – continuou Katerina, apontando para os ferimentos em seu corpo ao que ele desceu o olhar por instinto, fitando o corpo que ele havia dilacerado. – Não doem tanto quanto o que você me fez aqui dentro... – e colocou uma das mãos sobre o peito. – Mas, isso não tem importância. Não mais. Você... Não é mais nada pra mim, Yuu.

- Então, por que ainda me chama pelo primeiro nome? – questionou o moreno, subindo o olhar para o rosto dela, uma das mãos querendo tocá-la a face. – Lembro de você me chamar assim quando éramos crianças... Quando você tinha medo de alguma coisa... Quando queria um abraço meu para afugentar as suas tristezas.

- É a força do hábito, Kanda. – replicou a ruiva, mas não conseguia afastar-se dele. Alguma coisa a puxava para ele, atraía. Então, sentiu suas orelhas arderem, por estarem novamente tão perto, mas dessa vez, ela iria se lembrar. – Eu continuo odiando você... Com todas as minhas forças. – sibilou, estando a centímetros do rosto dele, pois Kanda havia se inclinado para ela. Bateram na porta.

- Hoe, me ajudem aqui com essa bandeja. – pedia Lenalee do lado de fora. Kanda ajudou a garota a se sentar em sua cama e foi abrir a porta para a morena, que entrava com diversos tipos de comida e muitos doces.

- Mais desses malditos doces? Já não tem uma montanha na cama da Katerina, Lenalee? – irritou-se Kanda, que mal podia sentir o cheiro daquelas guloseimas que logo, a ruiva começava a devorar, um atrás do outro.

- Hey, vá com calma Kate... Desse jeito vai engasgar... – riu Lenalee, ignorando completamente o comentário ácido de Kanda.

- Estou faminta e olhar pra cara do Kanda é desgastante, quase desmaiei quando você saiu. – e Katerina lançou um olhar zombeteiro ao moreno que estreitou os olhos para ela. Eles estavam de bem? Era difícil dizer, tudo podia mudar quando se tratava dos dois. Mas, um pedido de perdão ainda não havia saído.

- Tsk. Mas, é uma palhaça, mesmo. – retrucou Kanda, atirando um travesseiro nela que desviou e atingiu a pilha de caixas de doces do outro lado da cama. – Ops.

- Meus doces! Qual é o seu problema? – ela atirou dois travesseiros de volta, um ele desviou, mas o outro acertou-o em cheio na cara. – Pra deixar de ser abusado. – então, ela percebeu o que estava fazendo, enquanto Kanda sorria para ela. E sua cara se fechou. – Não confunda as coisas. Não quero voltar a ser sua amiga.

- Eu sei que não quer. Você enfatiza isso a cada minuto. – o sorriso de Kanda se fechou e ele assumiu uma expressão um tanto quanto arrependida no rosto. A garota em sua frente, voltava a comer seus doces, despreocupadamente. E Lenalee ao lado dela, estava constrangida com a situação entre os dois.

- Será que eu posso perguntar... O que houve entre vocês? – começou a irmã de Komui, lentamente.

- Pergunte ao samurai de cabelo escorrido aí. – respondeu Katerina, terminando uma bandeja repleta de doces e pegando outra, agora com comida salgada para o alívio de Kanda.

- Eu não quero entrar nesse assunto. – disse Kanda e ao olhar fulminante de Katerina, completou. – Pelo menos, por enquanto.