Shadows... Of The Past.
3 Capítulo II: Memórias.
Kanda almoçava sozinho em uma das mesas do refeitório. Vez ou outra, ouvia o nome de Katerina na boca do pessoal da Ordem e isso já começava a encher a paciência dele. Será que esse povo não pode ver mulher? Com esse pensamento, ele foi surpreendido por Allen Walker que despejava algumas bandejas na mesa em que almoçava, até então, tranqüilo.
- Cai fora, moyashi. Só eu sento nessa mesa. – disse Kanda em uma tentativa frustrada de expulsar o albino.
- Eu já estou farto de dizer que é Allen! Quer que eu soletre? A-L-L-E-N! – e raios saíam dos olhos dele ao fitar Kanda, sendo retribuído da mesma maneira. – E não estou vendo o seu nome nela, BaKanda!
- Seu pirralho... – Kanda apoiou as duas mãos sobre a mesa, encarando além de perto. Mais raios saíam enquanto eles se fuzilavam com o olhar.
- Parem vocês dois. – Lenalee aparecia no local e puxava Kanda para trás. – Você também, não provoca, Allen.
- Então, os dois querem fazer o favor de calarem a boca pra eu poder comer o meu sobá em paz? – engrossou Kanda, voltando sua atenção para a comida.
- Não seja estúpido! – Lenalee deu um tapa na cabeça dele, fazendo-o engasgar-se com a comida. Allen caiu na gargalhada.
- BaaaaaKanda. Não aprende mesmo. – Allen sorriu, travessamente.
- Qual é o problema de vocês? Que droga! Dá pra me deixarem em paz? Eu pretendo terminar o meu almoço ainda hoje. – bufou o samurai.
- Algum de vocês viu a Katerina? Não a encontro em parte alguma do castelo. – Komui vinha perguntando. – Preciso descobrir qual é a Inocência dela ainda hoje! – continuou empolgado. – A enfermeira me disse que ela sumiu da enfermaria sem ter alta. Mas, curiosamente, já estava bem. Será que ela pode curar rapidamente seus ferimentos assim como o Kanda-kun?
- Tsk. – fez Kanda. Todos olharam pra ele nesse momento. Ao sentir isso, uma veia saltou da testa do rapaz. – O que foi?
- O que você sabe? Estava com ela e Lavi na enfermaria mais cedo. – perguntou Lenalee, séria. – E não quero saber se você é namorado dela, se estão brigados e outros tipos de frescura que te impeçam a responder. Fala!
- Quê? – Kanda que bebia um copo d’água, cuspiu tudo ao ouvir a palavra ‘namorado’. – Você bebeu? Eu não sei de nada. E parem de me olhar desse jeito!
- Falando sério, Kanda-kun. Precisamos saber. Não sei o que houve entre vocês, porém sabemos que há alguma coisa. Mas, também não interessa. É importante coletarmos esses dados. – disse Komui, assumindo seriedade.
- Olha, sinceramente... Eu não sei de nada, está bem? E tampouco me interessa saber. Eu sou insensível? Sim, mas não sou eu que trato as pessoas como se elas fossem objetos a serem analisados. – enfureceu-se. Levantou-se, deixando metade da comida no prato e retirou-se do local.
Enquanto caminhava pelos corredores do castelo, sua cabeça latejava. Sem perceber, ele estava pensando nela novamente. Por que a presença dela era tão forte assim? Ela assumia o controle até mesmo em seus sonhos. Que raios está acontecendo comigo? Ele prosseguia em passos firmes até o saguão de entrada, aonde finalmente iria para os jardins. Precisava mesmo de um pouco de ar, as pessoas estavam sufocando-o. Ela o estava sufocando.
Avistou aquela figura angelical sentada sob a copa de uma árvore, junto à Lavi, Miranda Lotto e Alystar Krory. Sorriu, sem querer, não acreditando que alguém como ela poderia estar em meio àqueles idiotas. Ela sempre fora muito parecida com ele, exceto no gosto insuportável por doces. Sim, Katerina era viciada em chocolate e procurava comer ao lado dele, sempre quando eram pequenos só para ter o prazer de tirá-lo do sério. Era um de seus passatempos preferidos. Irritá-lo. Mas, sempre foram muito apegados e procuravam proteger um ao outro. Ele, por ter dois anos à mais que ela, julgava-se um irmão mais velho. Sempre cuidando e não deixando que nada de ruim acontecesse. Foi então que a mãe de Katerina adoeceu. Cross sempre fora um pai ausente e sumia pelo país. Mas, também, nunca prometeu ficar com essa família. Kanda se lembrava perfeitamente das dificuldades que a amiga passara tempos atrás e que não poderia deixá-la como fizera. Dizer as palavras que havia dito, como se ela não tivesse significado, absolutamente, nada em sua vida. Mas, ele tinha outros planos e a única maneira de conseguir isso, era afastando-se dela. Ele não queria nutrir mais aqueles sentimentos... Sentimentos estranhos que ele próprio desconhecia e os trancou. Até conhecer Àquela Pessoa.
Entretanto, tudo parecia estar voltando à tona. A antiga amizade, as brincadeiras... As brigas intermináveis por motivos esdrúxulos... E algo mais. Fragmentos de lembranças que ele queria expulsar e ela o odiava. Ele sentia. Deveria desprezá-la também, já que a expurgara de sua vida tão facilmente.
Agora ele observava o pequeno grupo. Lavi entregava uma caixa de chocolates para Katerina, que pela primeira vez sorrira. Abrindo o embrulho e pegando um bombom. Como adivinhou Lavi? Eu adoro chocolates... Ele podia ouvir ela dizer, quase meiga, se ele não a conhecesse tão bem. Argh, malditos doces. Maldito Lavi... Praguejou em sua mente. Por que todos a bajulavam? Ela era tão insensível e estúpida quanto ele. E no entanto, todo mundo a rodeava. Principalmente, Lavi e aquele bando de cientistas idiotas da Ordem. Isso estava começando a irritá-lo de forma quase insuportável e estava ficando cada vez mais difícil agir, indiferentemente, a situação. E por vezes, perdia-se olhando pra ela. Katerina nunca fora uma garota feia, desde pequena. E agora em seus 17 anos não mudara muito, mas tornara-se ainda mais encantadora. Ela tinha as feições delicadas e a pela tão alva como a neve. Seus cabelos cor de fogo contrastavam com seus intensos olhos escuros e expressivos. Poucas vezes o samurai conseguia olhar diretamente para eles por muito tempo. Ela não tinha mais que 1,65m, não pesava mais de 52 kg, o que eram bem proporcionais ao seu corpo magro e definido. A questão da altura sempre fora um motivo de brigas entre eles. O garoto riu com o pensamento, lembrando das vezes em que a chamava de baixinha e ela corria atrás dele com uma espada, enfurecida. Outra coisa que admirava nela. Era uma garota de personalidade forte, que sempre soube se virar sozinha. Apesar de parecer um anjo, ela não tinha nada de delicada. Ele fora o único amigo dela e os poucos que ela conheceu, também eram rapazes. Mas, dentre tantas coisas brutas, havia uma coisa. Ela sabia tocar piano. Muitas vezes, tocava para ele dormir e ao lembrar-se disso, seu olhar pousou no dela. Estacou. Não queria que a garota o percebesse ali, ela estava tão distraída com os outros.
Mas, era tarde demais. E como se o tempo conspirasse contra ou a favor da situação, difícil dizer, o céu enegreceu e começou a esfriar. O cabelo de Kanda dançava ao vento avassalador que tomara o local, fazendo as folhagens e galhos das árvores farfalharem, violentamente. O exorcista caminhava em direção ao pequeno grupo, imponente, com a expressão dura no rosto. A situação fez Miranda atrapalhar-se ao erguer-se com um cesto de frutas e cair em cima de Krory que ficara vermelho, ajudando-a a se levantar. Lavi fazia o mesmo em relação à Katerina, tomando as mãos dela e puxando-a para si em um impulso. Kanda estreitou levemente os olhos, mas não chegava mostrar a verdadeira indignação que sentira com aquela cena, mas seu sangue fervia... E de uma maneira incontrolável agora. Estava aturando demais e o dia inteiro.
- Vamos lá pra dentro, pessoal? Acho que vai chover... – sugeriu Krory, sorridente.
- É, é melhor. O tempo mudou, repentinamente, parece noite. – assentiu Lavi. – Vamos, Kat-san?
A garota não respondeu. Seu semblante mudara completamente ao ver Kanda postar-se a dois metros de distância dela, encarando-a novamente. Ela parecia não enxergar mais ninguém à sua volta, apenas o moreno. O sopro do vento também brincava com as mechas soltas, uma de cada lado semelhante a do samurai à sua frente, do cabelo dela que estava preso em um rabo de cavalo. Era curioso como até nisso eles se pareciam.
- Tsk. – fez o exorcista, com um sorriso sarcástico. – Não sabia que agora você se misturava com esses idiotas. Deve estar se tornando uma também, não duvido que daqui à uns dias não esteja de braços dados com o Moyashi.
- E eu acho que você deve ter sérios problemas auditivos ou mentais. Estou bem lembrada de ter lhe avisado pra não me dirigir a palavra. – as mãos dela se fecharam, trêmulas. Os outros os olhavam apreensivos.
- Kanda, não a provoque... Por favor. – pediu Krory, nervoso. Sabia que aquilo não poderia acabar bem de nenhuma maneira.
- Cala a boca, vampiro idiota. Não se meta. – cortou-o Kanda, hostil. Fitava Katerina nos olhos, incessantemente. Estava novamente agindo por impulso e dessa vez, ele não saberia mesmo o que poderia acontecer. Apenas tentava entender a fúria daquela garota.
- Vai bater em mulher, agora, Yuu? Que você é um retardado eu já sabia, mas que era covarde dessa maneira, essa é nova pra mim. – meteu-se Lavi, entre sério e preocupado. Avistou Bookman e Komui se aproximando do local, mas não fariam muita coisa. Ele precisava localizar o Cross e rápido. Fez menção de sair, mas como que entendesse o que o ruivo estava prestes a fazer, Katerina segurou o pulso dele, sem tirar sequer um segundo os olhos de Kanda Yuu.
- Deixa, Lavi. Estou querendo isso há muito tempo. Não se meta. – disse em um murmúrio que fez a espinha dos presentes gelarem. Komui não via nada demais à princípio, estava mais interessado em descobrir a Inocência da garota, mas resolveu se afastar uns bons metros por precaução.
- Há muito tempo? Katerina... Do que você está falando, o que eu fiz foi... – começou Kanda, mas ela o cortou bruscamente, quase cuspindo as palavras.
- Terrível. Eu não tenho palavras pra descrever... Seu miserável! – era, terminantemente, a gota d’água para ela. Uma aura negra emanava da garota, havia ódio em seus olhos. Ela abriu as mãos, que estavam tensas e então Kanda baixou os olhos.
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