Shadows... Of The Past.
2 Capítulo I: Nasce uma Nova Exorcista.
Acordou com alguém gritando pelos corredores. Inferno, não se pode mais nem dormir em paz por aqui. Ao que parecia, pelo estardalhaço era Komui Lee. Mas, o que seria dessa vez? Desde que se recuperara de Martel tudo estava tão calmo e silencioso. Tsk. Levantou-se, vestiu seu uniforme da Ordem Negra e por fim pegou a sua Mugen. Deixou o quarto.
Lavi passara por ele sem nem sequer olhá-lo. O que era muito estranho, afinal ele sempre vinha com alguma gracinha logo que o encontrava pelos corredores. Fitou-o por uns instantes, o jovem sucessor dos Bookman seguia apressado Komui que agora tinha sua voz bem distante.
- Alguém pode me dizer o que está acontecendo? – indagou Kanda Yuu, em seu tom casual e indiferente que chegava a irritar muita gente. Ignorado. O quê? Avistou Lenalee passar correndo e não demorou para segui-la, afinal ninguém iria lhe responder nada pelo visto. Não demorou a perceber que todos rumavam para fora do local. – O que será que... – estacou ao chegar à porta.
Cross Marian carregava uma garota desacordada em seus braços. O sangue escorria sem parar pelos braços dela e estava mais pálida que o normal. Mas, não foi isso que o fez paralisar. Aquele cabelo... Não pode ser. O cabelo, intensamente ruivo da jovem cobria boa parte de seu rosto e o restante despencava para o lado à medida que Cross apressava o passo.
- Saiam da frente... Preciso levá-la até Hevlaska. – dizia Cross, esbarrando em Kanda ao passar por ele.
- Inocência? – Indagou Komui, sério enquanto o seguia preocupado. – Será que não seria prudente levá-la à enfermaria primeiro? Ela não pára de sangrar.
- Não. Ela ficará bem. – Agora Cross estava quase correndo pelos corredores, então tomou uma das escadas.
Kanda não conseguiu acompanhá-los em tempo. Droga. Por que logo ela? Era notável a preocupação dele, mas não havia ninguém para ver no momento. Fazia tanto tempo que não a via que quase a esquecera. Não, estava enganado. Ele nunca a esquecera. Isso não tinha importância agora, ele precisava se apressar. Tomou a escada e seguiu-os até a sala de Hevlaska.
- E então, Hevlaska? Que tipo é? Você não cedeu informações suficientes quando a Inocência saiu voando à procura de sincronia mais cedo. – perguntava Komui, entre preocupado e curioso.
- É do tipo parasita. Um tipo estranho que nunca vi antes... Não consigo descrever. Mas, sinto que é muito forte. Tem 96% de sincronia. – respondeu Hevlaska, fitando a garota que finalmente começava a acordar.
- Olhem, ela está se mexendo... – apontou Lavi, aproximando-se dela no exato momento que Kanda aparecia no local.
- O quê... Onde estou? Cross... – a voz da ruiva saía fraca, rouca. Cross estava sentando com ela no chão, segurando-a.
- Calma. Está tudo bem... Você está na Ordem Negra. Sua sincronia com a Inocência foi de 96%, mas ainda não sabemos o que ela é e o que ela faz. Apenas que é do tipo parasita. – descrevia Cross, ao mesmo tempo em que levantava e a tomava nos braços novamente. – Só espero que você não coma tanto feito aquele aprendiz idiota... – e riu. Allen estreitou os olhos para seu mestre.
- Eu... – ela então fitou Kanda que a encarava sem cessar desde que chegara ali. As lembranças do passado se misturaram com as reais. Ele... Não. O que ele... Apagou.
Nesse momento, todos olharam para Kanda como se quisessem explicações dele. Afinal, o que ele fazia ali mesmo? Ele que pouco se importava com as pessoas... Estava ali. Atrás de uma estranha.
- O que faz aqui, Yuu? Você não é do tipo que se importa com as pessoas... Ainda mais com estranhos. Embora... – Lavi calou-se abruptamente, olhando para a moça. Ela havia olhado para Kanda significativamente antes de desmaiar, novamente. – Você a conhece? – perguntou, no mesmo tom sério.
- Não. Ela não é ninguém. Tsk... Só fiquei... Curioso. – Kanda desviou o olhar. Já era difícil o suficiente encarar aquela garota. Agora vinha Lavi com essas perguntas, estava mostrando transparência demais.
- Mentiroso! Eu conheço você Yuu. Não se preocupa à toa desse jeito. Você sabe quem é essa garota. – intimidou Lavi. Ele não engoliria aquela cena tão fácil. E realmente, não era típico de Kanda. Pelo contrário. Mas, quem respondeu foi Cross.
- Claro que ele a conhece, Lavi. Ele costumava ser o melhor amigo dela. Mas, minha filha não fala sobre isso. E eu ainda vou descobrir o porquê dela não suportar ouvir o seu nome... Pirralho. – e olhou feio para Kanda. Sabia que algo havia acontecido entre os dois, mas não entendia porque a garota nunca falara sobre isso.
- FILHA? O QUÊ? – espantou-se Komui, de queixo caído.
- Argh... Esse cara deve ter ninhada pelo mundo inteiro. – intrigou-se Allen Walker que estava quieto até então.
- Lavi, poderia segurar a Katerina, por favor? – questionou Cross, entregando a filha nos braços do ruivo. Em seguida, ergueu Allen pelo colarinho fuzilando-o com os olhos. – O que foi que você disse, aprendiz imprestável? Ninhada? NINHADA? Acaso perdeu o respeito?
- Katerina... – murmurou Kanda, mas ninguém ouviu, pois fora abafado pelo berro da enfermeira.
- Mas que diabos está acontecendo aqui? Cross Marian, largue esse albino! Será que terei que usar uma das minhas agulhas para acalmá-los? E por que essa jovem não está na enfermaria? Não estão vendo que ela está se esvaindo em sangue? Lavi, leve ela logo pra lá. Ou terei que puxá-lo pela orelha?
- Maldita... – sussurrou Lavi, mas apressou-se antes que ela pudesse tê-lo ouvido. Aquela mulher realmente dava medo.
Kanda e a enfermeira foram no encalço de Lavi, em passos rápidos. Não demoraram a chegar na enfermaria, onde aquela mulher diabólica os expulsou para tratar de Katerina Petranova. As horas passavam o que pareciam dias. Lavi encarava Kanda do lado de fora, furtivamente. Isso já estava começando a incomodar o moreno.
- Qual é o teu problema, Lavi? Não tem mais o que fazer, não? – perguntou Kanda, com uma veia saltando na testa.
- No momento, estou mais preocupado com a Kat-san. Uma garota tão linda sangrando daquele jeito... E filha do Cross. – e pela primeira vez naquele dia, ele sorriu.
- Nem pense nisso! Idiota. Tsk. – Kanda recostou-se na parede, fitando o chão e cruzando os braços.
- Nem pense nisso, o quê? Eu não falei nada. À propósito... Tem uma coisa me intrigando. Por que mentiu dizendo que não a conhece? O que você fez pra ela? Retardado do jeito que é, só pode ter feito uma cagada, já que não tem um coração aí dentro.
- Retardado? Repete, seu coelho idiota! – o moreno desembainhou a Mugen e Lavi já estava com seu Martelo. Nesse exato momento, a enfermeira abria a porta.
- Vocês dois! De novo, não... – ela pegou ambos pela orelha e arrastou-os até o final do corredor. – Não quero baderna na porta da enfermaria! Dá próxima vez, não será a orelha que vou puxar.
- Tsk. É esse idiota. – retrucou Kanda, guardando sua espada. Era notável a irritação dele.
- Não tenho culpa que esse tapado é todo nervosinho. – reclamou Lavi, esfregando sua orelha esquerda que latejava. Desgraçada, quase arranca minha orelha, pensou.
- Cala a boca. – mandou o samurai, estreitando os olhos para o ruivo.
- Ou o quê? – Lavi comprou a briga. Afinal, adorava irritar o garoto.
- Chega! – interrompeu a enfermeira. Já que vocês gostam tanto de brigar, que tal fazerem companhia à Katerina? – em seguida, ela puxou duas seringas com agulhas realmente enormes. Os garotos arregalaram os olhos. Lavi tentou correr, mas aquela mulher era rápida. O rapaz caiu com um baque no chão.
- Hey... Nem vem. Eu não... – começou Kanda, recuando para a parede, mas não conseguiu terminar a frase, fora acertado.
Acordou na enfermaria em uma cama ao lado de Katerina, que dormia conturbadamente. Ver a menina murmurar palavras desconexas e se mexer esporadicamente, como se estivesse sendo torturada, chamou sua atenção. Olhou para frente, onde Lavi ainda dormia sob o efeito da anestesia e sendo que ninguém mais estava ali para observá-lo, levantou-se.
Estava frio, ventava e as ruas estavam vastas. Ela tremia e uma lágrima solitária escorria por sua face pálida e angelical. Ela era mais jovem do que agora, em seus 12 anos de idade. Ele tinha 14. As palavras dele a cortaram, profundamente, uma traição que ela jamais poderia suportar. Por quê? Nada mais importava. Ele lhe virava as costas e partia em seguida. Jogando fora a amizade de infância e esmagando qualquer chance de reconciliação.
O sonho mudara. Katerina se virou mais uma vez na cama, agarrando a borda do cobertor com força. Uma expressão de dor no rosto. Kanda sentara-se ao lado dela, afastando os cabelos da ruiva para o lado para poder vislumbrar a face dela. Estremeceu. Por que eu a deixei quando ela mais precisava de mim? Não havia desculpas. Estava feito. Despertou de seus devaneios ao ouvir os murmúrios da jovem. De perto, ele conseguia ouvir nitidamente.
- Não... Não... Pare! Não a machuque... – dizia Katerina, em um tom de voz fraco. Kanda não conseguia entender. Afinal com o que ela estava sonhando? – Você vai matá-la...
O samurai estendeu uma mão para o rosto dela, tocando-o levemente, sem pensar. Era quase... Como se ela o atraísse. Então, Lavi se mexeu. Droga. Ele estava acordando. Kanda voltou para sua cama no exato momento em que o aspirante a Bookman abria os olhos.
- Argh... Essa enfermeira é louca. – murmurou o rapaz, olhando para os lados, conferindo se ela não estava por perto. Sabe-se lá o que aquela enfermeira era capaz de fazer se o ouvisse falando assim. Então, percebeu Kanda com o olhar distante, embora direcionado para ele.
- Hey, Yuu! Acorda. – atirou um travesseiro na cara dele, preparando-se para a reação do moreno que... Não veio.
- Não enche, Lavi. – Kanda apenas atirou-o de volta, tornando a fitar a filha de Cross.
- Você está estranho, Yuu. Desde que essa menina veio parar aqui. – retorquiu Lavi, sentando-se na cama. – E não me respondeu ainda por que fingiu não conhecê-la.
- Tsk. E acaso eu lhe devo alguma satisfação da minha vida? E se fosse o caso, você seria o último a saber. Idiota. – replicou Kanda, incomodado. Não agüentava mais perguntas e olhares curiosos.
- É por isso que você vai morrer sozinho! É um ogro sem sentimentos. É, como eu disse. Deve ter feito uma besteira tão grande... Que tem até vergonha de falar. Tenho pena dessa moça, por ter te conhecido. – ele levantou-se indo até a cama de Katerina, seguido pelo olhar de Kanda.
- O que vai fazer? – quis saber Kanda.
- Nossa... Ela parece estar em um sono bem conturbado. Acho que vou chamar a enfermeira. Porque nem pra notar essas coisas, você presta! – e lançou um olhar furtivo para o moreno que voltava a se irritar.
- Eu estou começando a perder a paciência com você, Lavi... Estou avisando. – falou Kanda, retribuindo um olhar ameaçador.
- Paciência? Eu também não sabia que você tinha isso... Yuu no Patsu! – provocou o outro, rindo. Quando Kanda levantava, puxando sua Mugen, Katerina acordava.
- Não! – ela estava sentada na cama, ofegante e com o olhar distante. Não havia percebido a presença dos dois rapazes ali ainda.
- Olha quem acordou... – disse Lavi, sorridente, adiantando-se para a cama da garota e sentando-se. – Está melhor, Kat-san? – indagou, preocupado. Então, ela pareceu despertar, observando o garoto a sua frente.
- É Katerina. Não lhe dei essa intimidade, nem o conheço. – cortou a moça, fria como um bloco de gelo. Lavi arregalou os olhos, olhando de Kanda para ela.
- Er... Bem que deve conhecer o Kanda mesmo! São iguais. – ele levou na esportiva, mas ao notar a expressão quase maligna no rosto dela, parou de sorrir. – O que houve? Eu disse algo errado? Então, me desculpe...
- Disse. Eu não suporto esse maldito nome. E no entanto, não conheço mais nenhum outro como tal... Não mais. Ele morreu. – murmurou a garota, então finalmente olhou para o lado em que Kanda Yuu se encontrava. O rosto delicado dela, agora emitia um semblante quase assassino e seus olhos pareciam não acreditar no que estava vendo.
- Eu não entendo... – Lavi olhava de um para o outro, confuso. Pensou em fazer piada, mas a tensão da situação não lhe permitiu tal ousadia. – Bem, vou deixá-los conversar... — e levantou-se.
- Não. Eu vou embora daqui. Eu não consigo respirar. – a garota afastou as cobertas e colocou os pés descalços no chão. Puderam notar que o camisete branco dela estava todo ensangüentado e as mangas bufantes rasgadas, não havia dado tempo para trocar de roupa. Mas o espartilho verde musgo de couro trançado atrás que ela usava por cima estava intacto. Calçou as botas longas de salto e também em couro pretas, por cima da calça escura que vestia, trançando-as impacientemente. Cada segundo ali era uma tortura para ela.
- Ao menos coma alguma coisa. Você perdeu muito sangue. – preocupou-se Lavi.
- Ele tem razão. – era a voz de Kanda, baixa, após muito tempo sem mencionar uma palavra. Um erro, deveria ter permanecido quieto.
- Não me dirija a palavra. – Katerina apoiava ambas as mãos no colchão, tremendo. A cabeça baixa, os cabelos pendendo de cada lado do rosto. – Imundo.
- Tsk. Como se eu fosse mesmo obedecer a uma ordem sua. – o lado arrogante e impulsivo de Kanda não resistiu. Ele sabia que não era o momento para falar qualquer coisa, mas não fora sua intenção. Estava sendo irracional.
- E eu falei que era uma ordem? É um aviso. – a ruiva sorriu sarcástica. Cada palavra impregnada de hostilidade. Levantou-se, os braços inertes em cada lado do corpo.
As palavras dela causaram arrepios em Lavi. Kanda não a reconhecia mais, o que estava acontecendo? Por mais que ele estivesse cometido um erro, ela parecia que queria matá-lo. E por que eu me importo tanto? Ele estava confuso, mas a olhava, firmemente nos olhos. Aqueles olhos escuros cheios de expressão e significado... Outrora. Yuu, aposto que você não me ganha em um duelo. Fracote! Ria a garota em seus pensamentos, eles tinham 10 e 12 anos de idade. E ele comprava a aposta e eles travavam uma luta de espadas durante o final da tarde. Despertou. O que conseguiu assimilar era Lavi, puxando Katerina para fora da enfermaria antes que algo ali acontecesse. Merda! Não quero mais essas lembranças! Ele apertou os olhos, segurando a cabeça por um tempo que doía.
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