Shadowhunters: Cidade das sombras
16 Capítulo 14: Confiar
— Eu de vocês não faria isso!
Gabriel foi o primeiro a virar a cabeça em direção da voz masculina e um pouco instigante. Logo depois, Charlotte — segurando Melissa nos braços, adormecida e com a respiração fraca. Julieta não podia se sentir mais culpada do que já estava.
Julie percorreu o homem, que mais parecia um adolescente, um pouco mais velho talvez, com os olhos. Alto, esbelto, vestindo um terno prata para realçar os olhos violeta e os cabelos escuros. As orelhas, se pareciam com as das fadas que ela havia visto em um dos livros da biblioteca do instituto. Feérico ou feiticeiro? A segunda opção, pois era perceptível a essência mágica em sua Áurea e a confiança na voz, nunca poderia pertencer a uma fada.
— E por quê não? — Gabriel questionou tomando a frente do grupo com a lâmina Serafim brilhando em uma das mãos.
— Qual é o problema dos caçadores de sombras em confiar nos amigos submundanos? — Perguntou o feiticeiro se aproximando do grupo em pequenos passos.
— Não devemos confiar em vocês. — Julieta respondeu sem pensar no fato de ter uma vampira vem atras de si. O feiticeiro também notou e seu olhar foi de ironia unido a um pequeno sorriso no canto do lábio.
— Sabe que a loira ali atrás é filha da noite, não sabe?
— O que ela quis dizer... — O caçador de sombras começou, mas foi interrompido por um revirar de olhos violeta brilhantes.
— Eu sei, eu sei! Essa coisa de Lei é dura mas é Lei e temos que obedecer a Clave é um saco, não é? — O feiticeiro se aproximou de vez estendendo a mão a Julieta, parada atrás de Gabriel como uma estátua. E com um sorriso disse: — Orion Dweny! O melhor e único feiticeiro dessa floresta! Muito prazer!
Julie encarou a mão dele por alguns segundos, mas acabou apertando por educação. Isso ela não podia evitar, era automático. Sua mãe lhe ensinou isso e a garota precisava demonstrar o gesto que a mulher que a criou e tanto amou lhe mostrou várias vezes até que aprendesse. Mesmo não sendo filha biológica e ter entrado de cabeça num mundo completamente maluco, Julieta Ainda sentia falta dos supostos pais.
— Julieta! — A garota disse sorrindo também. Então, se lembrou de Mel e isso pesou seu coração. — Por favor, pode nos ajudar?
— Não! Ele não pode! — Gabriel interviu virando-se de frente para ela, impedindo que o feiticeiro a visse para responder. — Vamos...
Eles começaram a dar meia volta, porém, todos puderam sentir a sensação de formigamento atravessando seus corpos e os congelando no lugar. O feiticeiro se pôs à frente do grupo. As mãos atras das costas, unidas e a respiração calma.
— Há uma barreira até aquela pedra ali — Ele aponta para um pedra grande e escura encontrada em uma árvore alta e cheia de folhas. — No limite de minha propriedade. Ela está nos protegendo de demônios e forças negativas. Se cruzarem a linha, o exército de Raveners estará esperando por vocês, prontinhos para despedaçarem cada um de vocês. Não podemos vê-los e nem eles nos veem, mas sentem o cheiro do sangue angelical. Então, sugiro, que me escutem.
Orion olha ao redor de onde deveria ser possível ver a barreira, mas apenas Julieta a via. Um fino véu de pequenas partículas cintilantes e mágicas os protegia da possível morte. Ele a encara e seus olhos parecem saber tudo o que ela esconde. Sobre ser a possível filha de Lilith, sobre a missão de resgate, sobre o que fizera com Melissa...
O feiticeiro direciona o olhar par Mel e depois, para Charlotte, gabriel e por fim, Julie.
— Sua amiga está morrendo. — Afirmou.
— Pode salvá-la? Por favor, diga que pode! — Julieta murmurou temendo que não apenas demônios estivessem do lado de fora.
— Posso tentar. — Orion respondeu. — Suponho que queiram entrar. Acreditem, não vão querer ficar do lado de fora quando os demônios não são os únicos que querem pegar vocês. A propósito — Seu olhar para novamente em Lotte e sorri — O sol vai nascer logo.
~•••~
Eles estavam no chalé confortável de Orion a quase seis horas. Julieta não conseguia acreditar como aquele lugar podia parecer tão pequeno de fora e ter corredores enormes por dentro. Magia, obviamente. Mas, para que tantos cômodos se ele vivia sozinho? Bem, era o que ela achava. Julie não vira nenhuma alma além deles ali.
Quando não aguentou mais observar os ponteiros do velho relógio de madeira em uma das salas do chalé, a garota levantou-se do divã em que estava e se atreveu a sair do cômodo que permaneceu essas ultimas horas. Sozinha. Somente ela e seus pensamentos.
Corredores infinitos faziam com que Julieta fizesse uma lista em sua cabeça do que precisava resolver devido aos problemas que causou.
Número um: Salvar Jam e Jordan e implorar pelo perdão dele depois da discussão e por ter feito ele passar pelas coisas que ela imaginava que estivessem sendo horríveis.
Número dois: Achar um jeito de curar Melissa seja lá como for. Julie sabia que magia era perigosa, mas não tinha ideia de que a sua pudesse ser mais do que pensava. O pior de tudo, era não saber como controlar algo que nunca soube que possuía.
Número três: Tentar se livrar da magia o mais rápido que pudesse. Com ajuda de Orion, se ele concordasse em ajudá-la, claro.
Número quatro...
— Perdida em pensamentos?
A voz veio de suas costas e logo o som de passos ao seu lado lhe mostrou que não estava mais sozinha nos corredores. Orion alcançou Julieta e o cheiro de canela, hortelã e sabonete atingiram seus sentidos.
Ele habita tomado banho, pois seu cabelo estava molhado e bagunçado, ela notou. E também trocara de roupa. Não mais com o terno prata, e sim com um verde esmeralda. Os olhos brilhantes em violeta a encaravam esperando uma resposta, ou ao menos uma palavra.
— Suas orelhas... elas sumiram? — Julie não se conteve ao perceber que as orelhas antes parecidas com as de uma fada e agora, normais como as de um mundano.
Orion sorriu de lado e isso fez com que ela relaxasse. Não queria ter ofendido o feiticeiro sem sequer ter notado que o fizeram. Não fora sua intenção. Apenas curiosidade.
— Eu as escondo quando tenho visitas. Raramente. Eu. Tenho. — Ele respondeu passando pensativamente na porous vida por alguns segundos. Sorriu novamente, parecendo gentil e feliz.
— Mas por que? Não me incomoda. — Julieta engoliu a timidez e conseguiu olhá-lo nos olhos pela primeira vez sem sentir as bochechas corarem. — Bem, não deveria incomodar ninguém. Fazem parte de você e... — Os olhos dele eram semelhantes a vidro, onde a garota via seu reflexo neles e ele nem piscava, apenas a observava curiosamente. — O que foi?
— Você tropeçou no mundo mundano e caiu de cara no mundo das sombras, não foi? Não tem ideia do que você é, caçadora de sombras.
— Não tenho ideia de muitas coisas, mas eu sei o que eu sou. — Julie respondeu e eles atravessaram uma porta para o jardim dos fundos. Desta vez, um espaço realmente pequeno, com algumas ervas plantadas em vasos, pedras coloridas formando um círculo na grama e velas acesas recentemente para algum ritual.
— Está bem, mas não sabe como você é o que é. Ou... — Orion acendeu um incenso de lavanda e andou em volta do círculo sussurrando algo com os lábios semi abertos. Assim que acabou, a olhou rapidamente enquanto jogava algumas ervas misturadas dentro de um recipiente de vidro. — Não sabe por quê. Acertei, senhorita goldshadow?
— Gold. — Corrigiu ela franzindo a está confusa . — Por que me chamou assim? Não sabia meu sobrenome.
— Bem, você é uma shadowhunter, não é? E a única família que existe mais próxima ao seu sobrenome é essa. — Orion diminuiu a distância entre eles com pequenos e ágeis passos. Julieta sentia a respiração dele em sua bochecha. — Mas infelizmente, todos foram mortos há muitos anos por uma aberração. Ele a olhou nos olhos e um semblante de diversão e duvida se refletiam em seus olhos. — Ou nem todos, se eu estiver certo.
Julieta não o entendia. Todo aquele raciocínio sobre os tais Goldshadow e os perigos que os esperavam assim que saíssem daquele chalé, estavam fazendo sua dor de cabeça aumentar ao nível de um enxaqueca.
— Está dizendo que eu sou a última? — A garota perguntou desviando os olhos dos dele por alguns segundos e analisando o círculo mágico. — Mas... por que eu? E como eu fui parar na porta de uma casa mundana? E por que eu tenho magia se meus pais, ou um deles ao menos, supostamente eram shadowhunters?
— Opa! Quer fazer uma lista com todas as suas perguntas? Me um mês e posso responder todas elas! — Orion sorriu. Ironia e mais diversão em suas palavras em em seus olhos violeta. Julie suspirou e cruzou pus braços. — Espera... você disse, um dos seus pais?
— Sim. Parece que há um boato que eu sou a filha de Lilith. Sabe... A Lilith...
— Eu sei quem ela é. — Orion afirmou debochando da garota. — Mas isso, não é possível.
— Já me disseram isso também! — Julieta retrucou impaciente com toda aquela situação. — Olha só... muitas pessoas já me disseram muitas coisas. Mas nenhuma delas me disse o que eu precisava saber! Então, seja lá o que você vai fazer com o seu círculo ou comigo... Não me importo. Só me diz que pode me mostrar a verdade. — Julie o encarou pedindo socorro com os olhos. Ela já não aguentava mais tantas suposições, queria algo verdadeiro. — Por favor! — Suspirou baixinho.
Orion a olhou profundamente.
— Não posso prometer que vou conseguir. Mas, posso tentar. — Respondeu pegando uma de suas mãos.
Julie pensou em recuar, na verdade, ela queria ter recuado. Mas agora, era tarde demais para se afastar do toque quente do feiticeiro. Como ela podia estar confiando nele? Ela mal o conhecia e não sabia absolutamente nada sobre feiticeiros. Porem, sua mão na dela lhe passava segurança e um certo tipo de conforto.
— Entre no círculo. — Instruiu ele levando-a até a borda do mesmo. A garota de um passo hesitante à frente, mas adentrou a circunferência no chão e foi para o meio, buscando os olhos de Orion novamente. — Não se assuste... Não vai te queimar...
O feiticeiro atirou um pó dourado e chamas quentes e ameaçadoras queimaram todo o perímetro do círculo, subindo cada vez mais alto.
— E Agora? — Julieta perguntou sentindo seu sangue esquentar enquanto corria por suas veias, fazendo o calor crescer, assim como a ansiedade.
Orion sorriu, repuxando o canto do lábio. O clima do ambiente mudou drasticamente. O céu fechou, negro com nuvens carregadas, escondendo o amanhecer, um vento forte e violento soprava contra as copas das árvores arrancando folhas e quebrando galhos. E os olhos violeta, os mesmos olhos curioso e que passavam confiança a Julieta, se tornaram sombrios e maliciosos.
Ruídos assustadores e famintos se aproximando, diziam a ela que os demônios que deveriam ter ido embora por conta do sol, tinham conseguido entrar no chalé e o som das espaças contra a pelo dura dos mesmos fizeram Julieta avançar para fora do círculo, na tentativa de ajudar aos amigos. Mas foi em vão. O fogo mágico cresceu, quase de sua altura, e em meio a tanta fumaça e barulhos, Julie via apenas os olhos de Orion, sorrindo maliciosamente.
— Agora, nós descobrimos que você e seus amigos não deveriam ter confiado em mim.
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