Notas iniciais
Oi gente e.e Voltei, com o especial. Vou explicar melhor essa coisa de especial: A cada 4 capítulos, um personagem diferente narrará a história. Nesse foi a Jade, aquela linda divônica

Jade Sidhe

Jade Sídhe

De noite, tenho insônia. Existem tantas coisas em minha mente, não consigo me render ao sono. Viro-me de um lado para outro no colchão, tirando uma parte dos lençóis da cama. Por fim, sento-me e caminho pelo quarto. Quando decido o que fazer, abro o guarda-roupa num movimento súbito e visto um largo sobretudo preto por cima de uma calça jeans rasgada e coloco coturnos. Saio de meu quarto e desço as escadas da síde. Ao sair pela porta da frente, puxo a tampa do alçapão e não me surpreendo ao ver a tentativa de disfarce da passagem feita por Nichole. Puxo a terra para o lado, apenas para reutilizar a passagem. Quando termino, enfim, passo alguns minutos com muita paciência, organizando tudo. Caminho pelo cemitério deserto, então subo em uma árvore alta, os troncos secos suportando meu corpo. Tento arranjar uma posição confortável que faça os galhos me suportarem, mas só consigo espetar meu corpo nos espinhos das rosas. Sorrio ao lembrar de minha fome, então puxo uma rosa e devoro suas pétalas.

– Ei... mãe. – digo, entre mordidas – Tudo bem? Eu estou bem. Mas só... é a coisa certa a se fazer? Deixar Nichole seguir seu caminho? É escolha dela, mas... mas algo me diz que não devo, mãe, não devo deixar ela fazer isso. Mãe, o que eu faço?

Olho para a lua, ou melhor, o pouco de seu brilho visível através das sombras escuras do cemitério. Tento recolher outra rosa, mas algo me impede. Um forte cheiro de perfume francês envolve o ar, me fazendo descer da árvore. Sigo em direção à floresta de árvores secas ao lado dos túmulos, onde descansam as fadas mortas que já estiveram aqui. Corro entre as árvores, sentindo cada vez mais o cheiro de perfume. Quando paro, enfim, me encontro em uma clareira, observando uma mulher.

A mulher usa um sobretudo rosa shocking sobre calça jeans azul e saltos rosa. Um coque loiro se forma em sua cabeça, perfeitamente penteado. Quando ela se vira, me assusto. O sobretudo aberto mostra uma camiseta branca manchada de sangue fresco, a calça é rasgada em todas as partes e o sapato é preto. O rosto, porém, é o que assusta mais. As depressões escuras ao redor dos olhos azuis vibrantes, o rosto esquelético como o de uma caveira. O pior é quando ela sorri com sua boca cheia de batom rosa, mostrando os dentes de vampira completamente sujos de sangue.

Um grito ecoa por meus lábios ao mesmo tempo em que cambaleio para trás, longe da mulher. Ela me olha com uma expressão decepcionada, como se estivesse triste por minha ação.

– O que foi? – pergunta – Por que está assim?

– SAI! – grito – SAI DAQUI, MONSTRO!

– Monstro? – ela demonstra mais tristeza ainda – Assim você me chateia.

– SAI DAQUI!

– Você me chamou. Pediu minha ajuda. Eu estou aqui agora, pode falar. – ela sorri.

– Eu não te chamei, eu chamei minha mãe! – estendo a mão, tentando impedi-la a se aproximar.

A mulher/monstro sorri novamente, embora esteja com uma expressão melancólica.

– Você por acaso, já viu sua mãe, flor? – pergunta.

Meus olhos se esbugalham depois que nego com a cabeça.

– Não, você é louca, você é louca. Minha mãe não é uma vampira!

– Você não se reconhece, minha filha? Olhe para você! Nós somos iguais!

– Não, não somos! – grito, então tiro minha estaca do bolso do sobretudo – Sai daqui, ou eu te furo!

Ela me encara com tristeza e decepção, novamente.

– Tudo bem, mas espero que um dia compreenda, meu doce. – ela some em sombras, para se materializar ao meu lado, então passa a unha pintada de rosa por minha face – Você pediu minha ajuda, e aqui está: é preciso conhecer você mesma para depois conhecer os outros.

A mulher some em sombras de novo, e consigo seguir seu trajeto ao luar por determinado tempo. Quando vejo que as sombras começam a se dissipar, grito:

– ESPERE! QUEM É VOCÊ?

Posso senti-la sorrindo.

Então não escuto mais nada.

Atordoada demais para voltar ao meu momento de folga, volto para a síde sem pegar mais nenhuma rosa, pois perdi meu apetite. Desço o alçapão correndo e entro em meu quarto, onde me jogo na cama. Sinto algo sob mim, então sento-me e desdobro o papelzinho rosa claro encontrado no travesseiro. Ao lê-lo, meus olhos se esbugalham:

Leanan Sidhe.

Com minhas unhas pintadas de preto, rasgo o ponto em formato de coração encontrado depois de “Sidhe”. Chega, é demais para mim.

Pego apenas uma camiseta regata preta antes de escrever o bilhete explicando à Jane meu desaparecimento. Saio mais uma vez da síde, mas desta vez meu destino não é o cemitério. Pego apenas algumas rosas antes de abrir a cerca negra e caminhar pela rua de sombras, em direção ao mundo dos humanos.