Notas iniciais
Oi gente, I'm back, bitches u.u Anyway, quase ninguém comentou no último capítulo, só a Kauana Catarina, aquela linda

Encontro-me sentada no sofá, inquieta. Jane está cantarolando novamente, enquanto Jade, sua irmã gêmea, afia a ponta de uma estaca de madeira. Deixo minha mochila com o material escolar no chão, perto do sofá de couro preto.

– Hum... quando ela chega? – pergunto.

– Não vai demorar muito. – diz Jade, soprando a estaca de modo que fez as farpas voarem – Ela só está se arrumando. Não é todo dia que recebemos... visitas.

Movo-me inquieta mais uma vez, então decido observar a sala. A sala onde Jade nos levou é feita inteiramente de blocos de pedras negros com a iluminação de pequenas velas vermelhas e laranjas em candelabros enferrujados. As portas de carvalho velhas rangiam com tanta poeira acumulada em suas fechaduras. Bem nesse momento, a porta se abre com um rangido estrondeante e de lá sai uma mulher.

A mulher tinha cabelos grisalhos presos em um coque alto, e olhos castanhos como café. Aparentava uns 40 anos, por aí, mas era bem bonita para a idade, com poucas rugas. Usava um roupão de linho que ia até os joelhos e calçava chinelos pretos. Ela encarou-me com seriedade, estudando-me. Por fim, ela sorriu e deu um passo à frente.

– Olá. Desculpem-me pela demora. Eu sou Morgana. – apresentou-se.

***

– Isso é loucura! Me recuso a acreditar! – exclamei.

– Ah é? E se recusa a acreditar nos mortos vivos que controlou no cemitério? Nesse lugar? Na rua de sombras? – Morgana argumentava.

– Como você sabe sobre...

– Porque isso aconteceu comigo, Nichole! Você não entende? Somos farinha do mesmo saco! Somos...

– NÃO SOMOS FADAS! – gritei – Eu não sou um ser da mitologia celta, e você também não é e... – deixei-me cair no sofá – Ah, isso é demais para mim!

Encolho-me em posição fetal e escondo a cabeça entre as pernas.

– É tão difícil de acreditar... mas eu sei... eu sei... que é verdade... – funguei.

Senti uma mão em meu ombro esquerdo e levantei o rosto, vendo Jane ao meu lado.

– Ei... está tudo bem, está tudo bem... eu sei que é difícil, mas logo você se acostuma.

A sede, ou melhor, síde, onde estamos, é uma questão importante para as fadas: elas devem... devemos viver aqui, ou morreremos. Na verdade, de acordo com Morgana, não somos fadas, e sim parte fada e parte humana. Sendo os únicos membros da comunidade sobrevivente, devemos viver aqui, na síde, local onde os filhos de Míl Spáine baniram nossos ancestrais à mais de mil anos atrás, único local onde não somos caçadas, as fadas.

– Você é filha de uma fada, meu doce. – diz Morgana, a voz ficando mais dócil – Aceite isso.

Ergui meus olhos para o teto e suspirei. Não, não pode ser verdade... repasso toda a minha vida em minha cabeça. Adotada aos seis anos por Júlio e Anabele Pereira, brincando com as crianças da rua, indo para a escola, vendo sombras, tendo problemas na voz, sonhos com mortes...

Eu sou uma fada.

Arquejo e respiro fundo, tossindo. Então minha visão começa a escurecer, até que os olhos de Jane são a última coisa que vejo.

***

Acordo no escuro. Quando meus olhos se acostumam à baixa iluminação, a porta se abre, e Jade entra no cômodo. Ela usa uma camisola de comprimento até os joelhos, de seda preta e calça pantufas de algodão negro. Bem, se é que existe algodão negro.

– Ja... – começo.

– Shhhh, silêncio! Venha comigo, ruiva. – ela ordena.

Levanto da cama de solteira de onde estava deitada e corro até Jade, que está parada no batente da porta com uma tocha na mão.

– Anda, vem logo.

Jade segura na maçaneta de ferro enferrujado e fecha a porta atrás de nós. A loira me guia pelos empoeirados corredores de pedra do local, sempre andando em linha reta, até para descer as escadas. Eu, infelizmente, não tenho essa habilidade, e acabo andando para o lado e batendo nas paredes. Não é tontura, é só... falta de direção.

Então Jade enfim para em frente à uma grande porta de carvalho negro. A diferença entre ela e as outras, porém, é que esta não tem maçaneta. Jade virou-se para mim e levou o dedo indicador aos lábios, pedindo silêncio. Então voltou-se para a porta e começou a recitar:

– I tuatha de danann, a thairiscint ar an banna i duit, O naofa. Tabhair dúinn cead dul isteach i saol na aisling..

A porta se abriu com um rangido ensurdecedor, revelando o breu do lado de dentro. Jade prosseguiu, mas eu fiquei estática. Quando ela enfim se virou, pôde ver o medo em meus olhos.

– Venha. – disse, sem fazer barulho.

Com passos trêmulos, passei pela porta e adentrei na mais completa escuridão, a não ser pela tocha de Jade. Como se lesse meus pensamentos, a loira jogou a tocha no chão e pisou nela, quebrando-a.

– ONDE VOCÊS ESTÃO? – gritou – APAREÇAM!

Olhei ao meu redor, procurando algum sinal de vida por perto, mas vi apenas o escuro.

– E DAÍ QUE EU A TROUXE! VOCÊS PROMETERAM! PROMETERAM ME AJUDAR! NÃO FUJAM! – ela gritava.

– Jade, tudo bem? – murmurei, numa voz baixa para mim.

Ela assentiu levemente, mas não deixou de falar.

– ELA É IMPORTANTE TAMBÉM! SIM, MAIS DO QUE EU! EI, NÃO QUERO SABER, VOCÊS NÃO VÃO SAIR DAQUI! EU... NÃO, NÃO, VOLTEM!

A escuridão foi se dissipando até que rapidamente, as sombras se juntando em um redemoinho de... bem, sombras. Quando finalmente sumiram, o único resquício era um papelzinho branco, com marcas de dobradura.

Troco olhares cúmplices com Jade, então a observo caminhar lentamente até o papel e pegá-lo com dois dedos trêmulos. Ela lê atentamente, depois Lê de novo, e quase como se num sobressalto, se joga para trás, longe do papel. Jade se encolhe no chão e esconde a cabeça entre as pernas, arfando.

– Jade? – pergunto, sem obter respostas.

Caminho até o papel jogado no chão e o examino atentamente. Folha sulfite, sem linhas, desenhos, corações, nada. Só uma folha sulfite. Então presto atenção na mensagem. Leio-a várias vezes, pois algo me diz, algo me diz que eu sei o que significa.

Me viro para Jade, já (quase) reposta, e pergunto:

– Jade, que porra é essa?

Ela apenas me encara, tremendo, os olhos cheios de terror.

– Aconteceu.