Shadow
4 Ain't Nothing I Would Rather Do
Tempos depois, quando o sol já estava brilhando no quarto do casal, Sakura sentiu alguma ânsia subindo-lhe a garganta. Era uma sensação forte e que mexia com sua cabeça. Seu estômago embrulhou e foi, correndo, para o banheiro.
Havia começado.
Já faziam alguns dias desde que Sakura não ia mais no banheiro vomitar. Reclamava que seus pés estavam inchados e sua respiração complicada, mas conseguia entender que tudo era fruto dos sintomas desagradáveis da gestação. Sentia algumas dores durante a noite — o que fazia Sasuke ficar muito agitado e ansioso — e tentava se acalmar com bastante frequência, já que nunca foi uma pessoa muito tranquila...
Ela ficou ao lado do vaso sanitário por alguns minutos, devolvendo as poucas coisas que tinha ingerido durante a noite anterior. Gemidos que provocavam certa pena eram audíveis, mas Sasuke não conseguia escutar porque estava dormindo. Quando mexeu-se um pouco mais e notou o brilho do sol, procurou instintivamente Sakura, mas não a encontrou deitada na cama. Levantou-se rapidamente e procurou, com a vista falha, o corpo dela. Ouviu, do banheiro, a voz dela. Correu até ali, mas lembrou que Sakura não gostava que entrasse.
— Sakura? — Ele tentou. Ela demorou algum tempo enquanto respirava, jogava água nos olhos e dava descarga. Respondeu um "tudo bem" e escovou os dentes. Estava, definitivamente, uma pessoa distinta do que lembrava ser antes.
As rugas começaram a partir dos olhos, formando leves "bolsas" e "pés de galinha". Eram repugnantes, mas não são assustadoras.
Combinavam com a expressão de mãe que ela representava. Sasuke nem se importava tanto. Ela, no fundo, queria acreditar que isso não era devido a gravidez, mas a velhice. Errada, coitada, deveria pensar que aos trinta e dois anos rugas deste nível são comuns. Mas não eram. Ao menos que você tenha de trabalhar constantemente no sol.
— Quer que eu entre? — Sasuke murmurou. A garganta dele podia sentir a voz falhar bastante. Havia acordado naquele instante e já estava preocupado com ela. Sasuke bateu duas vezes na porta levemente porque Sakura estava sonolenta e não queria irritá-la. Ela abriu, sorriu rapidamente foi procurar toalhas para tomar banho. Ele acompanhou sua esposa até o armário de roupas e perguntou:
— Você está bem?
Sakura mexeu em algumas gavetas até lembrar o local onde havia deixado separado as toalhas do casal. Tirou uma branca com cheiro de sabão fresco e levou até o banheiro com passos lentos e calmos. Sem responder a pergunta do seu esposo, ignorou também a silhueta negra que acompanhava seus movimentos constantemente. Cansada demais para qualquer tipo de conversa, limitou-se ao pequeno sorriso que seu ao abrir a porta. Era assim que funcionava: sempre que algo dava errado, sua única maneira de tranquilizá-lo era sorrindo docemente. Sasuke se irritava, mas não podia pedir muito a ela.
— Sakura... — Sasuke quase que num tormento pessoal, pediu. Era uma verdadeira súplica. Onde mais ele encontraria paz se não ouve um ao menos "estou bem; de verdade"? Ele NUNCA diria que estava chateado, mas continuaria pedindo. Suplicando para que ela o olhasse e desse, ao menos os mesmos sorrisos que costumava a dar.
— O que foi, Sasuke? — Sakura, indiferente perguntou. Suspirou tão profundamente que quase não aguentou puxar o ar. Havia saído do banheiro e ido de encontro ao armário novamente enquanto seu marido a perguntava. Não queria mais prolongar e desabafou naquela pergunta. O que mais você quer saber? É só isso que você pode me dizer? — Desculpe, querido.
Sakura estremeceu com as palavras rudes que saíram de sua boca. O doce do néctar puro das desculpas invadiu sua língua e um alívio inundou sua mente. Não pense mais em falar assim com ele, Sakura. Nenhum de nós merece este sofrimento!
— Venha tomar banho. Comigo.
(…)
Alguns livros e pergaminhos inúteis incrementavam o chão como se fosse cobertura branca de algum bolo. Não era só isso: tubos, substâncias, potes e informações nos computadores cercavam o ambiente de trabalho de Karin. Ela, com a testa bastante franzida, tentou entender o que se passava no computador à medida que fazia anotações no caderno com uma caneta azul.
Mordia a tampa levemente e suspirava pesado. Parecia estar a semanas investigando algo que não tem solução. Sabia — ou tinha uma breve ideia — do que poderia acontecer. Não tinha falado com Sakura, mas pretendia pesquisar um pouco antes de poder contar suas conclusões. Puxou uma mecha vermelha para a parte de trás da orelha e teclou mais um pouco. Muito esgotada, sentou-se e bebeu de um copo transparente um líquido semelhante a água.
— Meu Deus... — Karin desabava, exausta. Nem sabia porque tinha de se submeter a isso. Foi salva por Sakura, mas aquilo já fazia tanto tempo... Ela sentia ser excluída, já que Sasuke nunca deu atenção a ela. Mas aquela mulher, Karin pensava. Aquela mulher tem algo que ninguém mais tem para ter conquistado Sasuke.
— Bom dia, Karin — Sakura cumprimenta, descendo até o "laboratório" de Karin. A mulher ruiva pula da cadeira e sorri amigavelmente para ela. Não sabia como, mas ela tinha que entender o que havia na Sakura para que ela fosse tão mimada por Sasuke. Que erro ela havia cometido há alguns anos atrás?
— Bom dia. Ah, essas são algumas coisas que andei pensando esses dias sobre a sua gravidez. Não é concreto, mas acho que faz até sentido. — Karin ajeita a roupa e se vira para o computador. Sakura estava com um roupão largo e com gotas caindo sobre o pescoço fino e delicado. Tinha um cheiro de erva-doce na pele suave. Sasuke desceu as escadas e encontrou as duas observando o monitor de luz forte. Também emanava um cheiro de erva-doce, porém, mais forte. Do seu cabelo pingava poucas gotas que iam fazendo certa trilha: do quarto até o laboratório.
— O que quer dizer com "riscos"? — Sakura arregalou os olhos e, esperando uma má notícia, agarrou suas duas mãos na cadeira de madeira.
— Possíveis consequências do parto. Não pensei direito, mas se vamos fazer o seu parto temos que...
— Isso vai fazer mal para o bebê? — A mulher perguntou. Sasuke pousou ambas as mãos nos braços de Sakura, pedindo internamente que ela se acalmasse.
— Eu vou fazer o possível para que nada aconteça. — Karin se sentiu hipnotizada com o gesto carinhoso de Sasuke. Olhou brevemente para os braços da gestante e notou quão firmes estavam as mãos do Uchiha. Inveja subiu a mente da Uzumaki assim como a empatia. O que Sakura fez para merecer uma vida sem filhos? Fixou os olhos na gestante e percebeu a aflição sob as rugas ao redor dos olhos. Admiração era quase um sentimento que ela não ousou em admitir, mas isso estava estampado em seu rosto: sentia admiração pela força daquela mulher.
— Vai ficar tudo bem. — Sasuke ajudou. Eles tinham acabado de relaxar, juntos, e recebem uma notícia tão pertubadora.
— De qualquer forma, preciso examiná-la. Gostaria que você deitasse naquela cama ali, no fundo. Sasuke, você...
— Eu vou deixar vocês duas à sós, pode deixar. — Um leve brilho gélido de advertência cruzou os olhos de Sasuke. Não tinha se convencido, ainda, das desculpas de ambas no dia em que chegaram.
(…)
Em Konoha, Naruto cuidava dos seus afazeres como Hokage como normalmente fazia. Boruto continuava sendo um pequeno ponto cansativo, já que se recusava a acreditar no que seu pai dizia. Shikamaru já havia dito quais as consequências que isso acarretava. Naruto passou toda sua vida — retirando os momentos em que "reencontrou" seus pais — sozinho familiarmente e agora, ele retirava do seu filho aquilo que ele não pode receber. Sua vila não era mais importante. Ambos estavam num mesmo nível de considerablidade muito grande.
— Nandaime, Hinata-sama está aqui. Posso pedi-la para entrar? — Um homem entra, depois de bater na porta algumas vezes.
— Claro. — Naruto deixa de escrever algumas coisas e espera Hinata entrar. Quando ela entra, levanta-se e pergunta como Hiwamari e Boruto estão. Ela sorri e diz que não precisa se preocupar porque estão bem. Faz alguns dias que ambos estavam um pouco doentes e Hinata teve de ficar em casa cuidando deles.
— Queria saber sobre Sakura e Sasuke. Onde eles estão? — Ela pergunta e Naruto se aproxima mais. O Nandaima dá um suspiro tão pesado que até mesmo nos seus dias mais cansativos ele não conseguiria se sentir tão acabado.
— Hinata, eu não faço ideia, mas Sasuke me disse que estavam com alguém que eu conhecia e que não representava perigo. — Naruto retomou um sorriso calmo. Sua esposa sentia-se mais aliviada, mas as informações eram poucas.
— As crianças estão sozinhas? — Naruto perguntou depois de plantar um beijo na cabeça de Hinata. Ela fez um gesto negativo e disse:
— Kori está com eles. Eu trouxe comida. Sente fome? — Hinata pergunta, chegando mais próxima a mesa de seu esposo. Ele nega, mas promete jantar em casa desta vez.
(...)
— Então é isso.
Sakura apanhou suas roupas do chão e se trocou em um espaço mais reservado. Karin voltou ao computador, digitando o que já sabia até ali. O local, pouco iluminado e cheio de coisas, era enorme. A médica-nin prendeu seu cabelo com uma liga fina e segurou uma ou duas lágrimas. Aquela altura Sasuke já estava impaciente, mesmo que controlasse a vontade de bater na porta ou simplesmente entrar no laboratório.
— Você poderia, por favor, fazer um chá pra mim? Eu queria ficar com Sasuke para contá-lo.
— Eu sei. Tudo bem. — Karin respondeu e levantou-se. Não queria que Sakura se sentisse pior, então foi satisfazer a vontade de uma mulher cansada. Subiu a escada e encontrou Sasuke na sala, brincando com algo decorativo em seu dedo. Ela disse que Sakura estava precisando dele e, automaticamente, ele foi encontrá-la. Karin foi até a cozinha e buscou uma panela. Preparou o chá com cuidado e praticidade, mesmo que não fosse tão fã da bebida.
— O que houve? — Ele soava aflito, como se ela tivesse quebrado uma perna, batido a cabeça, torcido o pé ou algo assim.
— Eu sinto muito — Sakura agarrou o pescoço de seu marido, derramando lágrimas desesperadas por cima da blusa que ele colocou. Seus dedos prendiam-se com o tecido fino e confortável. Ela deixava, no ouvido dele, sons de uma pessoa sofrida. Como se tivesse perdido algo sem valor estimável. Sasuke podia sentir a forma como as unhas medianas dela perfuravam sua carne, segurando em algo que ela pudesse nunca mais soltar, com medo de cair. — Eu não pude... F-fazer isso, desculpe... Eu, eu... Me sinto tão inútil, agora. Por favor, me perdoe. Eu...
— Sakura, o que houve. Karin disse alguma coisa sobre...
Ela chorou muito mais do que antes. Não era uma situação desesperada por solução, mas muito dificilmente ela podia fazer algo a respeito. Era quase como se não houvesse saída. Era triste e melancólico ver alguém sofrer desta forma. Ninguém, até mesmo Sasuke, podia imaginar a dor de perder um filho que nasceu dentro de você mesmo. A cada suspiro em busca de ar, ela gritava fracamente. Ele se sentiu sem reação. Como se estivesse quebrando ela, destruindo uma coisa que ele não sabia, já que Sakura chorava tanto em seus braços.
Sakura soltou-se, mesmo que Sasuke tivesse feito um esforço tremendo para não deixá-la sair dos braços dele. Resolveu contar tudo o que acontecia.
— As chances dela nascer são muito poucas. Eu não posso aguentar o parto, não dessa vez. — Sakura disse, como se crucificasse sua existência tão fraca e sem sentido. Na verdade, eram os Uchihas que eram fortes demais.
— Dela? Você disse "dela"? — Sasuke piscou duas vezes. Ela abriu um mínimo sorriso imperceptível que, por ser tão pequeno, ela pensou ter imaginado o sorriso. Acariciou pelo roupão e Sasuke lembrou-se do desespero da sua esposa.
— Eu não sou... pura. Eu não posso suportar um Uchiha, não depois do nascimento. Mas eu preciso fazer isso. Você queria tanto um... filho. É o seu sonho, não é? Eu vou continuar tentando, não importa como — A voz dela falhava à medida que o sorriso que Sasuke deu diminuía. Ele não acreditava que, pela primeira vez, Sakura tivesse partido o seu coração. Ela nunca fez isso. Ele sempre era culpado pelas lágrimas derramadas durante sua adolescência, então, nada mais justo que pagar com a mesma moeda. Mas não. Aquilo doeu tanto que ele achou que essa era a verdadeira intenção dela.
— Você está grávida por mim? Você fez isso pensando em mim? Você enlouqueceu? — Ele estava muito furioso. Sasuke nunca permitiria que ela ficasse grávida por um sonho dele. Ele queria isso tanto como ele desejava que ela quisesse. Aquilo magoou tanto, que chegava a doer.
Latejar.
Agoniar.
— Eu fiz isso pensando em nós! Não foi somente por você, mas era um desejo seu que eu queria! Sasuke... — Ela encostou as duas mãos no peito dele. O contato foi tão puro que ele, por um momento, esqueceu de que estava bravo. Talvez ele precisasse disso. O calor, o beijo, a frustração de não poder fazer aquilo que ele...
— Não.
Sasuke, por mais estranho que pareça, tirou as mãos frágeis e gentis dela de seu peito com atenciosidade. Mais do que ele pensava que Sakura merecia. Seu objetivo era compartilhar esse desejo com ela, sem esquecer de que se ela recusasse, ele não iria insistir. A escolha era dela e Sasuke pensou que Sakura estivesse enganando a ele durante todo o tempo em que pensou estar fazendo as coisas corretamente. O Uchiha quase pensou que tinha obrigado ela a casar-se e constituir uma família. Era totalmente diferente do que ele queria.
— Escute, por favor. Eu amo tanto você como ela. A única coisa que eu queria era poder ser melhor. Mostrar que eu não sou a mesma pessoa que você abandonou quando tinha doze anos. — Se a intenção de Sakura era esburacar o que sobrara do coração de Sasuke, estava conseguindo. Ele fechou os olhos assim que deu as costas para ela. — Só queria poder dizer que eu sinto muito por não poder dar a única coisa que sonha. Desculpe ser tão... inútil.
— Você não é inútil, Sakura. — Ele abriu os olhos depois de absorver a dor. Finalmente ele podia compreender o abismo que ela guardava dentro do coração. Podia enxergar até o óbice que ela suportava para tentar permanecer com ele. Ela abdicou do sofrimento e depressão para caminhar com Sasuke até uma solução para o filho perdido. Ter um filho virou o sonho mais trabalhoso que ela anseava compartilhar com seu marido. — Você não podia ter me dito, antes?
— O quê? — Ela precisava entender. Se fechava tão rapidamente que era impossível ouví-la desabafando com alguém. Sakura limpou as lágrimas e foi em direção a ele.
— Você se fechou muito rápido e não me contou o que acontecia com você. Eu não podia mais sentir você do jeito que era antes... Eu fui péssimo em não perceber que você sofria mais que eu. — Como se tivesse acorado de um sonho, Sasuke, em poucas palavras, compreendeu a dor que vulnerava ambos.
— Eu queria te poupar das minhas falhas. Não queria que você se sujasse com isso, desculpe. Não devia ter deixado você no escuro, Sasuke. Me perdoe. Por favor. — Roga em tormento. Encostou a testa na dela, e mais tarde, beijou demoradamente. Fechou os olhos absorvendo o carinho que tanto queria de Sasuke. Precisavam ser mais unidos, definitivamente.
— Eu te amo.
Os olhos verdes abriram em espanto.
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