Shades Of Souls
1 Piloto
Notas iniciais

01. Piloto
POV Summer
O som pelo qual eu já devia ter me acostumado ecoava pelo meu quarto na esperança de me despertar. A vontade que eu tenho mesmo é de pegar esse despertador e tacar na parede, mas eu não tenho outra escolha a não ser desligá-lo.
Me espreguicei dificilmente em busca de jogar pra fora toda minha preguiça e cansaço. Confesso que todos os dias eu durmo tarde e me arrependo todos os dias de manhã. Me levantei e fui até o banheiro fazer minha higiene matinal, tomei um banho morno pra acordar de vez, estava frio e meu corpo não ia aguentar a temperatura fria da minha ducha.
Coloquei um casaco preto de estampa de oncinha, uma calça jeans escura e uma bota de montaria preta que vai até o joelho. Prendi o cabelo só pela metade porque não queria desmanchar os cachos que tinham ficado nas pontas. Por fim, passei um rímel, um gloss e coloquei meu sobretudo preto e desci para tomar café.
Se não fosse pela manhã cinzenta e pela Lana Del Rey tocando músicas depressivas no meu ipod, eu diria que aquela discussão do meu pai com meu irmão teria estragado minha manhã e até mesmo o meu dia. Preferi fazer como eu sempre faço, fui até a geladeira, peguei uma maçã e saí andando pela porta á fora, aposto que nem perceberam minha saída, estavam ocupados demais discutindo.
[...]
– Foi por isso que eu briguei com ele, você concorda comigo? – Taylor tagarelava no meu ouvido,será que ela não percebe que eu não to afim de conversar... já deveria ter me acostumado com essas garotas, só vim perceber que ela estava ali falando comigo depois de uns 10 minutos, estávamos no pátio da escola esperando o sinal tocar para ir a aula. – Concorda?
– Hã? Ah sim, claro. – ao olhar pro lado não encontrei Gena, estranho.- cadê a Gena?
– Ah, se sabe como ela é, sempre chega atrasada na segunda-feira, parece que o despertador dela só falha na segunda.
O sinal tocou na mesma hora que a Gena entrou pelo corredor da escola...
– Nem pra vocês me mandarem uma mensagem, um torpedo, sms, sei lá. –Ela disse ofegante com o cabelo todo desgrenhado e segurando vários livros na mão.
– Como se fosse adiantar alguma coisa né, Gena? –Taylor disse revirando os olhos e continuando a andar junto a nós pelo corredor.
– Meninas!! –Rachel gritava do final do corredor segurando a mochila nas costas pra não cair.
– Qual o problema? –Eu disse sem paciência pra possível encrenca que viria.
– Problema? Problema dos bons só se for né?! –ela disse se abanando com um papel qualquer que se encontrava na sua mão.
– Explica, garota! –Taylor disse grosseiramente, é hoje, hoje é aquele dia pra Taylor.
– Lembra da nossa antiga professora de Geografia? –todas nós concordamos com a cabeça.-Então, se demitiu!
– Conseguimos! –batemos uma na mão da outra, vamos ser sinceros a nossa turma era a pior e tenho certeza que o motivo pelo qual ela saiu, foi o nosso comportamento.
– Deus ouviu minhas preces! –Gena dizia quase se ajoelhando no chão.
– Só isso? –Taylor disse impaciente.
– Não, tem mais. O novo professor, é novo, em idade, claro. E é um gato, e muito gostoso por sinal.
– Ta brincando? –disse sem acreditar, a quanto tempo não vejo um professor gostoso, ou ao menos gato naquela escola?! Só podia ser milagre...
– Sério. É uma merda mesmo, nós só temos aula com ele na quinta e na sexta. –todas suspiramos cansadas.
– As senhoritas não deviam estar em classe invés de estar fofocando no meio do corredor. –a voz da expectora fez com que levássemos um susto. Estávamos tão distraídas que nem lembramos da aula. Saímos andando em silêncio até certo ponto.
– E você não deveria ta tomando conta da sua vida. – Taylor disse furiosa e todas nós rimos.
[...]
Aquela aula já tinha dado o que tinha que dar, tudo bem que eu deveria ta prestando atenção porque eu não sou nem um pouco boa em Quimíca, mas mesmo assim, minha paciência pra aquela múmia ambulante que eu chamo de professora já estava se esgotando.
Senti Gena me chamar com a ponta do lápis impacientemente.
– Caralho, calma! –disse um pouco alto e me arrependi logo em seguida quando percebi os olhares em mim.
– Definitivamente você não é uma pessoa matinal.
– Fala logo o que cê quer!
– Ah, na hora do intervalo vamos atrás do professor novo “barra” gostoso. –ela disse baixinho a parte “gostoso” como se ninguém que estava ao nosso lado tivesse ouvido.
– Ta brincando, né? –bufei.-nosso tempo já é curto pra mastigar e engolir e tu quer ir atrás de professor gostoso.
– Você é uma pessoa grossa e gorda. –ela disse fazendo um beicinho que por um momento me fez ter vontade de rir mas me controlei, Gena as vezes parece uma criança de 10 anos.
Me virei para frente em busca de continuar a tentar entender o que a professora dizia mas algo me cutucou de novo.
– Se tu me cutucar com isso de novo, eu enfio isso naquele seu lugar... –disse estridente.
– Calma maçãzinha, mas vai amiga... por favor, não quero ir sozinha. –revirei os olhos. –prometo que da próxima vez que a gente for na pizzaria eu pago seu sundae, pode ser?
– Ta, Gena, ta. –disse sem muitas cerimônias.
Definitivamente eu estava muito estressada e cansada, não dormi quase nada e ainda ter que acordar 06:00 da manhã e algo difícil pra qualquer adolescente, e esse papo de que “Uma hora você acostuma a acordar cedo.” É tudo mentira. Eu acordo cedo desde dos 11 anos e não me acostumei até hoje.
O sinal finalmente tocou me fazendo desviar dos meus pensamentos por um momento, aquele som era música para os meus ouvidos.
– Vamos ver quem chega primeiro na fila da lanche. –John bateu no meu ombro e correu pelo corredor, demorei um pouco até me ligar quem tinha feito isso. Como não sou boba nem nada, fui por outro corredor que dava no mesmo pátio só que mais rápido.
Cheguei no refeitório e a fila estava pequena, era a quinta da fila, fiquei ali um tempo e quando fila tava começando a crescer John apareceu e ficou indignado ao me ver lá, sendo quase atendida.
Esse é o estilo Summer, bebê!
[...]
– Pelo amor de Deus, para de fazer isso. –eu implorava para aqueles garotos pararem de fazer competição de arroto.
– Você tem inveja porque não sabe fazer. –olhei pra ele com uma cara bem sínica e voltei a comer minha batata.
– Achei você! –Gena apareceu atrás de mim com um monte de papel na mão.
– Eu estava perdida?
– Cala a boca. –ela me puxou pelo braço e eu só tive de tempo de pegar meu chocolate de caixinha e carregar comigo. Estávamos quase fora do refeitório quando eu percebi o quanto aquela escola é deserta durante a hora do intervalo, me lembra até aqueles filmes de terror, que por um acaso, eu odeio! – O que houve que você não reclamou de nada ainda?
– Eu já ia sair dali mesmo, então...
– Competição de arroto?
– Exato. –estavámos no corredor B2 já, quando resolvi descobrir que tantos papéis eram aqueles. – Que papéis são esses?
– São os horários de aula e dias que ele trabalha aqui na escola. –essa garota é muito estranho, que obsessão por um cara que é capaz dela nunca ter visto na vida.
– Como conseguiu isso?
– Rachel! Onde mais eu poderia conseguir?! –ela disse sugestiva.
– Claro, como não pensei nisso? –olhei para o papel pra saber em qual sala ele estaria dando aula e ele estava na sala 505 no corredor E. – Você ta brincando que vamos ter que ir pra ala E só pra encontrar esse cara?
– Vamos. E não reclama, fala menos e anda mais.
Já estávamos no corredor D quando recebi uma mensagem da Taylor pedindo pra encontrar ela, essas garotas deve ta achando que eu sou segurança, psicóloga, parceira ou algo do tipo. Iria ignorar quando ela disse que o assunto era John, sabia que teria que voltar, quando o assunto é John o buraco é mais embaixo.
– Vou ter que voltar. –disse já virando de costas antes que dê tempo dela me segurar.
– Você não pode me deixar ir sozinha.
– Claro que posso, já to fazendo isso.
– Te odeio. –ela berrou no inicio do corredor fazendo um eco enorme por causa do silêncio.
Cheguei na sala de artes – o lugar que eu tinha combinado com a Taylor. Lá estava ela de costas para porta olhando a chuva cair. Odiava vê lá assim, na verdade odeio ver as pessoas que eu amo sofrer, acho que eu é meu único lado bom.
– Ta tudo bem?
– Quem ele pensa que é? Chegar assim e me querer de volta? –é, acho que não estava nada bem.
– Ele é um idiota, que não te merece, é meu amigo mas é um idiota. –disse chegando perto dela e a abraçando.
– Eu não vou chorar. Não vou chorar por aquele imbecil. Não mais. –ela disse engolindo choro como uma criança. Mas isso não deu muito certo.
Ela sentou em uma das mesas e desabou em choro. Taylor era uma muralha, mas era tão fácil de quebrar, bastava um sopro frio para derruba lá. Tentei consola lá mas foi em vão, então preferi deixar ela chorar até cansar, até acabar o estoque de lágrimas que ela ainda tinha, quem sabe assim ela se sentisse melhor.
– E aí, ta melhor? –disse levantando o rosto levemente.
– Acho que sim. — ela deu uma leve fungada e uma não tão longa respiração funda.
Seu celular apitou e ela foi ler a mensagem que estava lá escrita. – Não acredito!
– O que?
– Ele quer “conversar comigo” só nos dois... –ela fez aspas no ar na parte do “conversar comigo” e com a maior cara de nojo, essa garota é demais, até triste ela é palhaça.
– Conversa com ele, ué. E vê se dar um ponto final nisso. Já ta ridículo esse ioiô de vocês, até quando isso vai durar? Se vocês se amassem de verdade, nada disso estaria acontecendo. –me sentei na mesa do professor balançando as pernas.
– Você acha que só ele me ama, ou pior, só eu o amo?
– Exatamente, um namoro não pode ser uma relação onde só uma delas se dedica, tem que ter dedicação de ambos os lados, mas parece que só você que faz essa relação durar. Vai lá, tenta resolver esse assunto, amiga!
– Sério? Você acha mesmo que eu devo ir? Eu to muito na dúvida.
– Você nunca vai acabar com essa dúvida se não for.
– Tudo bem, eu vou. Mas você vai ter que me ajudar.
– Ah não, eu já ajudei a Genna hoje, minha perna ta me matando de dor, eu não mereço isso.
– Ah não amiga, por favor, esse vai ser meu único e último pedido.
– Me diz, por que você quer que eu vá? –essas garotas são muito sem noção, velho.
– Não é pra você ir, mas você sabe como essa escola funciona em relação a namoros, é só pra tu vigiar se não tem ninguém vindo.
– Mas a gente vai perder o primeiro tempo.
– Eu sei. –ela disse sorrindo.
– Eu não vou perder aula por causa dos seus problemas amorosos.
– Vai sim!
– Qual é a primeira aula? –perguntei já sabendo que desistir.
– Espanhol, você odeia Espanhol. –realmente se eu pudesse matar alguém só pra não ter que assistir a aula daquela mosca morta da senhora Maxwel, eu mataria.
– Ta, vamos logo. Mas vamos deixar algumas coisinhas claras por aqui.
– Primeiro, eu não vou ficar perto de vocês, até porque o John é cheio de frescuras. Segundo, eu vou ficar sentada naquelas bancos que tem perto dos bebedouros que fica de frente pro gramado. Terceiro, eu vou pegar algo pra comer antes de ir pra lá, então, vamos, antes que eu mude de ideia. Okay? –imitei a frase clichê do livro favorito dela.
– Okay!
[...]
Já tínhamos passado na lanchonete e eu peguei um sanduíche de frango e suco de caixinha de laranja, eu realmente estava com fome não conseguir comer porque a imbecil da Genna me sequestrou. Falando nela, cadê essa criatura? Ah é, tinha me esquecido, foi atrás do professor bonitão, terminou que eu não consegui ver esse cara, quem sabe amanhã, quem sabe só na quinta-feira.
Estava sentada naquele banco preto da escola, já fazia uns cinco minutos, confesso que como devagar mas aquele frio acompanhado ainda por cima de uma leve garoa estava estridente. Sorte a minha que eu lembrei de passar no meu armário e pegar meu casaco, peguei meu celular e resolvi mexer, tinha algumas mensagens de texto, algumas menções no twitter de amigas que eu não via a dias que já estava com saudade por sinal, alguns novos seguidores e por fim algumas notificações no facebook, nada que eu já não esperava.
Senti uma presença atrás de mim, mas ignorei, se fosse algum professor já teria levado uma bronca, como não é o caso, preferi ignorar mesmo.
– A mocinha não deveria estar em aula neste momento? –levei um leve susto mas me recompus e fingir não ter notado.
Logo pensei que era algum amigo meu, mas aparentava ser um pouco mais velho que alguns dos meus amigos. Será que é aluno novo? Era bastante gato por sinal.
– E você não deveria estar tomando conta da sua vida neste momento? –disse desafiante, afinal, quem era ele pra me dizer aonde eu deveria estar?
– Opa, perdão moça, só acho que está no horário de aula, ou eu estou enganado? –ele olhou o relógio no pulso e depois olhou pra mim. Meu Deus, que olhos!
– Ta tudo bem, eu sei que é horário de aula, mas é que eu to ajudando uma amiga que... Pera aí, quem é você, primeiramente? –como sempre, falando demais.
– Não precisa explicar...
– Já sei, aluno novo?
– Bom, não é meio assim... –o sinal tocou ecoando nossos ouvidos eu não pude ficar perto daquele deus grego por mais alguns miseres segundos.-tenho que ir, desculpa...
– Vai lá. –ele saiu correndo e sem perceber saltei um sorriso bobo, o que?
– Qual seu nome? –ele gritou do final do corredor.
– Summer, Summer Mills, e o seu?
– Ryan Booker. Prazer! –o prazer foi todo meu, pode ter certeza...
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