Notas iniciais
Hey gente Cap novo! Boa leitura!

Caroline

Eu me sentia inútil. Total e absolutamente inútil. Todos os Mikaelson chegaram aqui para vê-lo. E era um alívio ver seu rosto mostrar reconhecimento, e não aquela dúvida ferrenha de antes. Mas não era dirigido a mim. Nessa história eu era a estranha. Então ficar ali era sufocante. Sai da sala sem que ninguém me notasse e fui tomar um ar.

Andrew tinha ido embora logo depois de Elijah sair para buscar os irmãos. Era óbvio que ele queria ficar aqui um pouco mais, mas se já era difícil lidar com uma esposa que ele não se lembrava de ter, com um pai diferente e toda a história por trás disso seria ainda pior. Então ele não entrou mais para ficar com ele e saiu de lá com um olhar tão triste que foi de cortar o coração. Embora a minha situação não era muito melhor que a dele.

Éramos casados. Em breve ele iria voltar para casa e não se lembrava de nada? Como lidaríamos com isso?

Peguei um café e voltei para a sala de espera. Cafeína era a única coisa que me mantinha de pé, pois a sensação que eu tinha é que desabaria a qualquer segundo.

A esposa de Elijah estava sentada na sala de espera quando eu entrei.

― Oi.

Falou ela.

― Oi. Você é a esposa de Elijah não é?

Ela riu um pouco e eu sentei ao seu lado.

― Prefiro que me chamem de Katherine.

― Me desculpe.

― Sem problema.

Respondeu ela e eu dei um gole no meu café, que estava horrível por sinal. Mas tem alguma coisa esquisita com café, por pior que seja, mesmo reclamando toda vez, continuávamos tomando. Será que era uma espécie estranha de vício? E porque diabos estou pensando nisso justo agora? Coloquei aquela coisa em cima da mesinha e olhei em direção a porta.

― Parece que você deveria estar lá.

Comentou Katherine e eu me virei para ela.

― Deveria, mas não sei bem se é melhor para ele agora.

Ela riu e arrumou os cabelos.

― Você fez Niklaus Mikaelson dar um grande foda-se a família e se casar e ainda tem dúvidas sobre não ser o melhor para ele?

Ela ergueu a sobrancelha para mim como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

― Ele não se lembra de mim, por causa do acidente. Esse é o problema.

Respondi olhando para meus pés e imaginei quantas vezes eu teria que dizer as pessoas, e imaginei quantas vezes conseguiria fazer isso antes de desabar.

― Bom, eu conheci ele a alguns anos atrás. Ele era arrogante, autoritário, egocêntrico e megalomaníaco. E mesmo assim você fez ele se apaixonar, se tem alguém capaz de fazê-lo se lembrar, esse alguém é você.

Concluiu ela e olhei novamente para porta no momento é que todos estavam saindo. Não seria mais permitidos visitas, só um acompanhante. Então eu voltei para o quarto e me sentei na cadeira me ajeitando para passar a noite. Ele estava de olhos fechados, mas eu sabia que não estava dormindo. Sua respiração estavam irregular demais e suas pálpebras tremulavam um pouco. Acho que ele não estava pronto para conversar comigo.

Me levantei da cadeira e fui até a janela.

Imaginei quantas coisas ruins uma pessoas consegue passar na vida antes de surtar totalmente. Uns mais, outros menos. Mas era você quem decidia isso? Você resolvia que ia simplesmente chutar o balde? Ou aquilo vinha de dentro de você sem perceber?

Eu não sabia a resposta, mas sabia que não era só por mim. Se fosse só minha sanidade em jogo e com tudo que nos aconteceu ultimamente, eu provavelmente me encolheria em posição fetal sem saber quando levantar. Mas era a vida de Klaus. Ela foi forte por mim quando eu precisei, e eu tinha que ser forte por ele.

Você já teve aquela momento de determinação total? Quando você sabe que aconteça o que acontecer você vai permanecer firme? Bom, eu tive ali, olhando aquela janela, vendo o reflexo do meu marido deitado naquela cama de hospital.

Ponto negativo: Ele não se lembrava de mim.

Pontos positivos: Ele estava vivo e ficaria bem, e provavelmente se lembraria de tudo logo.

Mais pontos positivos que negativos, e eu com certeza podia lidar com isso.

Voltei para a cadeira e sentei, eu ficaria ali cuidando dele e o levaria de volta para casa o mais rápido possível.

***

E o mais rápido possível que conseguimos foram cinco dias. O cérebro não estava mais inchado, mas os médicos queriam descartar totalmente a possibilidade de outra hemorragia. O braço ainda estava machucado, mas os curativos poderiam ser trocados em casa. Eles disseram também que qualquer quadro de dor de cabeça ou enxaqueca e eu deveria levá-lo imediatamente para o hospital.

Sair daquele hospital foi um alívio tão grande que eu tive vontade de chorar quando entramos no carro. Elijah iria nos levar para casa. Rebekah queria dar uma festa de boas vindas ao lar mas eu vetei totalmente a idéia, Klaus não se lembrava da nossa casa. Para ele não seria uma volta ao lar, e sim a primeira vez que ele entraria num lugar completamente estranho. E quanto menos gente tivesse aqui, mais ele teria a chance de lidar com isso.

Ele não falou muito durante o caminho até nossa casa, na verdade não falou muito nos últimos dias. Eu são queria forçar nada, era melhor que as coisas voltassem naturalmente. Mas depois de cinco dias eu já me sentia um pouco menos otimista de que a memória dele voltaria rápido.

Elijah me ajudou a levá-lo para cima depois foi embora. Eu fui ao closet pegar um lençol leve para cobri-lo, e quando voltei ele estava olhando uma montagem de fotos nossas na mesinha de cabeceira. As fotos foram tiradas na nossa lua de mel, o sol, a praia, nossos sorrisos apaixonados. Era lindo demais. E então eu pensei que eu estava esperando que ele se lembra-se sozinho. Talvez se eu falasse ou mostrasse coisas do nosso tempos juntos, ele iria associar aquelas coisas a mim.

Então eu o cobri e sentei ao seu lado pegando a foto. Seu rosto estava fechado e ele olhou para a fotos nas minhas mãos.

― Nossa lua de mel foi na Tailândia. Aquelas praias eram perfeitas, e foi você quem escolheu o lugar sabia? Me fez uma surpresa bem especial.

Falei colocando a foto de volta no lugar, ele olhava por cima da minha cabeça e não dizia nada.

― Quando chegamos lá, no primeiro dia eu fiquei super vermelha porquê não queria sair do sol, e na manhã seguinte você praticamente me prendeu no quarto até melhorar. E depois eu....

― Quer parar?

Falou ele me assustando. Eu parei olhando seu rosto. Ele estava super bravo, uma veia pulsava em sua têmpora e eu não sabia o que dizer.

― Eu não me lembro dessas coisas. Não me lembro do que fiz com você, não me lembro de você. E falar todas as coisas não faz com que eu me sinta melhor, só parece que é a vida de outra pessoa e que minha própria cabeça não está funcionando direito. Então a menos que eu pergunte algo, eu não quero saber do que fizemos entendeu?

Eu levantei da cama sentindo meus olhos cheios de lágrimas. Aquele era o Klaus cretino versão 2.0, e eu me sentia vulnerável demais. Antes eu podia gritar com ele e chamá-lo de babaca, mas e agora? Que era algo que fugia ao seu controle, e talvez por isso mesmo ele estava assim. Klaus sempre gostou de estar no controle, e agora se ver incapaz de ter suas próprias lembranças o estava machucando demais, e sua primeira resposta para isso era tentar machucar qualquer um que estivesse perto demais.

― Eu preciso do meu nootbok.

Falou ele e tentou se levantar. Eu enxuguei meu rosto e impedi que ele se levantasse.

― Precisa do seu nootbok para quê?

Perguntei tentando manter minha voz estável mas sem muito sucesso.

― Para garantir que minha empresa não seja arruinada.

― O quê? Você não vai trabalhar, precisa descansar.

― Eu não estou cansado, e com certeza quero trabalhar.

Eu o empurrei de volta na cama e o segurei na cama com as mãos em seu peito.

― Escuta aqui, você pode não se lembrar de mim, mas eu posso te mostrar com prazer o quanto eu sou durona, e se você pensa que vai conseguir passar por mim com um braço machucado e cabeça enfaixada está muito engando. Agora deita aí e não me obrigue a te amarrar na cama!

Conclui já um pouco ofegante, e então eu senti seu peito sob minhas palmas, o calor de sua pele, despertando sensações familiares demais para que eu pudesse ignorar, alguma coisa brilhou no fundos dos seus olhos e ele observou minha boca por mais tempo que o necessário. E então eu soube que ele também sentia, mesmo que ele não se lembrasse, seu corpo me reconhecia. Eu quis me inclinar e beijá-lo, tanto que chegava a doer, mas então ele serrou os dentes e olhou para o lado.

― Saia de cima de mim.

Falou ele e eu me levantei sentindo um incomodo profundo demais para descrever ao ter que me afastar dele depois de tanto tempo.

― Ligue para o Damon.

― Para o Damon? Por quê?

Perguntei cruzando os braços.

― Porque ele trabalha para mim, e precisa me dizer o que está acontecendo.

― Você não vai trabalhar e pronto, não adianta tentar trapacear.

― Eu só preciso que ele...

― Você só precisa parar de discutir sobre isso, você não vai trabalhar. Então a menos que você queira que eu me sente do seu lado e conte cada minímo detalhe que conseguir me lembrar da nossa vida é melhor você fazer o que os médicos disseram e descansar.

Falei e ele fechou a cara para mim e não disse mais nada. Fiquei parada no quarto olhando para ele, mas como ele não dizia nada achei melhor sair. Assim que bati a porta me encostei alguns segundos contra a porta respirando fundo. Não ia ser nada fácil, e ele não pretendia facilitar. Mas eu também sabia ser cabeça dura e não ia deixar ele me afugentar com sua grosseria.

Mas eu definitivamente precisava me ocupar. Fazer ou pensar em algo completamente diferente de tudo que estava acontecendo. Então resolvi cozinhar. Fazer uma sopa para ele ou algo assim.

Desci para a cozinha que estava vazia. Eu tinha dispensado as empregadas durante esses dias que não estávamos em casa, e pensei que fosse melhor ficarmos um pouco mais te tempo sozinhos antes de voltar a rotina. Se era uma boa idéia ou não era algo que eu ainda precisava descobrir. Mas era tudo que eu sabia por enquanto.

E era o que eu pensava enquanto cortava os legumes para uma sopa de frango. Klaus gostava de frango e provavelmente gostaria da minha sopa. Não que ele já tivesse passado por isso alguma vez, já que eu nunca tinha cozinhado para ele, desde que nos casamos sempre tinha alguém para fazer isso. E antes de nos casarmos aconteceu tudo rápido demais, para que eu chegasse a cozinhar para ele.

Pensei em arrumar a mesa, mas não sabia se seria bom ele ficar subindo e descendo as escadas. Por outro lado, ele detestava comer na cama, ficava dizendo que fazia ele se sentir inválido. No hospital ele era obrigado a passar por isso, mas aqui em casa eu duvidava que ele facilitaria. Mas eu não me importava muito com fazer coisas fáceis então preparei uma bandeja com a sopa e um copo de suco de laranja e subi para o quarto.

― Espero que você esteja com fome, porque fiz bastante sopa.

Falei entrando no quarto, só para encontrá-lo vazio.

― Klaus?

Chamei, mas não ouvi resposta. Então coloquei a bandeja sobre a cama e entrei no banheiro. Que estava vazio também.

Onde ele poderia estar? Ele mal conhecia a casa!

Desci rápido as escadas e parei ao chegar embaixo tentando decidir onde procurar. Quando vi a porta do escritório aberta. Então fui até lá e respirei aliviada quando o vi de pé. Em frente ao quadro que ele tinha pintando.

Entrei no escritório e parei ao seu lado. Ele não disse nada, mas com certeza viu que eu tinha chegado.

― Quem pintou isso?

Perguntou ele depois de um tempo.

― Você. Uma noite antes do acidente.

Respondi a ele olhando novamente o pássaro.

― Eu não pinto mais, a muito tempo.

Eu olhei para o seu perfil e notei sua testa franzida. Ele parou de pintar por motivos muito dolorosos, e voltar fez muito bem a ele. Só que ele só se lembrava da parte ruim.

― Você voltou a pintar, e gostava muito na verdade.

Ele levou alguns segundos mais olhando para a tela, depois se virou para mim.

― Eu amava pintar, depois passei a odiar. Eu não consigo me imaginar pintando novamente, não... depois de tudo.

Eu parei na frente dele e toquei seu peito.

― A pintura vem daqui Klaus, mesmo que você não se lembre disso. Faz parte de você.

Conclui, e ele não disse nada. Mas ficar aqui era mórbido demais, talvez não para ele, mas para mim era bem mais do que eu poderia lidar.

― Vamos subir. Eu fiz seu jantar.

Falei e ele me seguiu até o quarto, depois se sentou na cama. E eu coloquei a bandeja em seu colo. Ele pegou a colher, mas franziu um pouco a testa, demonstrando dor, então eu estiquei o braço e peguei a colher dele.

― Eu posso fazer isso sozinho.

Resmungou olhando a sopa.

― Pode. Mas não vai.

Falei enchendo uma colher e soprando um pouco para esfriar, então ele se inclinou um pouco para a frente e eu levei a sopa até sua boca, mas assim que ele engoliu a comida ele torceu a boca, e pareceu fazer esforço para engolir, e quando finalmente o fez olhou para o prato com uma expressão de completo nojo.

― Está tão ruim assim?

Perguntei sentindo meu rosto desabar. Ótimo, a primeira sopa que eu fiz para ele e tinha ficado horrível! Excelente jeito de fazer ele se lembrar de mim, fazê-lo temer sempre que eu entrava na cozinha.

― Eu quero um pouco de água.

Falou ele e eu peguei o suco de laranja.

― Eu trouxe suco.

Ele olhou para o copo desconfiado.

― Foi você que fez o suco também?

― Não.

Falei, então ele tomou um gole e olhou de novo para a sopa, como se ela fosse ganhar vida.

― Você costuma cozinhar?

Perguntou ele e eu coloquei a colher no prato.

― As vezes.

Respondi, embora esse “as vezes” tenha sido quase nunca ultimamente.

― E eu normalmente como sua comida?

Perguntou ele com a testa franzida com um ar entre cético e intrigado.

― Não pode estar tão ruim. Nem é tão difícil fazer uma sopa.

Resmunguei tomando uma colherada da coisa que era possivelmente a pior sopa que já tomei minha vida inteira, tinha um gosto amargo de temperos muito fortes e estava apimentada demais.

― Nossa! Retiro o que disse, está realmente horrível.

Falei tirando a bandeja da frente dele, a essa altura eu já estava com medo que a coisa perfurasse o prato. Então voltei a sentar ao lado dele na cama, e olhei para os lados

― Então, pelo lado bom. O suco não estava tão ruim.

Falei finalmente olhando para ele, para ver que sua expressão estava bem mais leve, e ele parecia estar contendo o riso.

― Não ria de mim! Eu nem mesmo gosto de sopa!

Reclamei ficando de pé. Mas sem saber como eu mesma não riria da situação.

― Bom, agora sabemos que tem um ótimo motivo para você não gostar de sopa.

Falou ele então nós dois explodimos em gargalhadas. Ele tentava se controlar, mas não conseguia, e eu muito menos. Mas ao poucos fomos parando de rir, e pela primeira vez desde que ele acordou ele não me encarava com estranheza ou hostilidade, mas com um ar divertido e arrisco dizer, embora talvez seja apenas otimismo, até um pouco de simpatia.

― Então, eu sei fazer um ótimo sanduíche de peito de peru, o que acha?

― Pão, peito de peru e queijo. As probabilidades de isso sair ruim são poucas então eu concordo totalmente.

Falou ele e riu um pouco.

Eu caminhei até a porta e olhei para ele antes de sair.

― Só por causa disso eu vou fazer o suco dessa vez e você vai ter que beber.

Ele revirou os olhos mas acabou rindo e eu sai de lá.

Eu finalmente tinha uma sensação um pouco melhor. Ele não se lembrou de nada, e talvez não estivesse nem perto disso. Mas estávamos construindo novas memórias. Memórias que ficariam comigo e com ele para sempre. E tudo ficaria bem, o passado foi o que fez da nossa relação o que era. Mas o mais importante, para mim e para o Klaus agora, era o presente.

Notas finais
E então, o que acharam?