Notas iniciais
Desculpa gente, eu to mega doente. Espero que gostem

A janela por onde ele podia me ver também, mesmo que de uma certa distância. Seu olhar, apesar de distante, conseguiu me deixar pior do que eu já estava. Sua expressão ao me encarar era séria, mas pelo menos ele não parecia tão bravo quanto ontem. Por que eu tinha que deixar meu orgulho ser maior que o que eu sentia por ele? Você gosta de uma idiota, Tomlinson, fato.
Mais atrás, a srta. Keaton já encaminhava alguns alunos na direção da saída da escola, e pude ver seus lábios chamarem o nome de Louis. Voltei a encará-lo, me odiando pra sempre, até que ele se virou na direção dela e a ajudou com a organização dos alunos. Merda. Essa piranha ia ter seu dia de sorte hoje, passando o dia todo ao lado de um homem lindo, perfeito e insatisfeito com a garota infantil com quem tinha escolhido se relacionar. Bela oportunidade de tirar uma lasquinha. Fechei meus olhos quando ele sumiu do meu campo de visão, tentando afastar o ciúme que ardia neles, e voltei a me concentrar na matéria de química.

[...]

— Você vai mesmo amanhã? – ouvi Mellody perguntar, na hora da saída, e assenti devagar, observando os carros que passavam. Não tinha como não encarar o carro vazio de Louis, estacionado no lugar de sempre, e não querer que ele subitamente saísse da escola, com seu sorriso habitual, e atravessasse a rua naquela direção.
— Tem certeza de que não vai mesmo poder ir? – suspirei, olhando pra ela com cara de nada – Ter alguém com quem conversar ia me fazer bem... Eu acho.
— Não, minha mãe não quer que eu vá e acabe sendo atacada por mosquitos do tamanho de azeitonas ou coisas do tipo – Mellody respondeu, cruzando os braços e revirando os olhos – Você conhece minha mãe, super protetora até a medula.
Não deu pra não rir um pouquinho com aquele comentário mais do que verdadeiro. A sra. Veiga costumava ser bem enérgica quando o assunto era proteger Mellody.

- Que exagero, mosquitos do tamanho de azeitonas só existem na África – chutei, com um sorriso fraco no rosto.
— Eu sei disso, mas minha mãe não sabe – Mel resmungou, um pouco irritada – Já tentou dizer isso a ela? Vai entrar por um ouvido, ela até vai fingir pensar no seu caso, e depois vai sair pelo outro lado.
Ri mais um pouco, e ela logo caiu no riso comigo. Só ela mesmo pra me fazer rir naquele estado deplorável no qual eu me encontrava por dentro.
— Você falou com o Tomlinson hoje? – ela murmurou, voltando a ficar séria, e senti meu estômago revirar. Eu tinha telefonado pra ela na tarde anterior e tinha contado tudo que tinha acontecido depois da aula de teoria. Mellody concordou comigo, e disse que eu devia contar tudo que o Styles tinha aprontado, mesmo correndo o risco de Louis não acreditar em mim. Durante o resto do dia, fiquei pensando no que deveria fazer, e decidi que iria seguir o conselho dela. Só não tive a oportunidade de conversar com ele ainda.
— Não – respondi, sem olhar pra ela – Ele tá na excursão hoje, lembra?

- E amanhã é a sua – Mel disse, e eu pude sentir seu olhar tristonho sobre mim – Você vai à casa dele nessa sexta?
— Só vou se ele me chamar – falei, dando de ombros tristemente — Não vou simplesmente aparecer sem ter sido convidada.
Desde a primeira vez em que fui à casa dele, não tinha deixado de passar as tardes de sexta-feira lá uma vez sequer, nem que fosse pra ajudá-lo com a correção de algumas provas e trabalhos enquanto conversávamos. Talvez essa fosse ser a primeira vez em que não nos veríamos, e era tudo culpa da minha imaturidade. Palmas pra mim.
— Eu acho que ele vai te chamar sim – Mellody me encorajou, deitando sua cabeça em meu ombro de um jeito carinhoso e até um pouco engraçado – No mínimo pra vocês se resolverem.
— Assim espero – sorri fraco, olhando vagamente os carros que passavam pela rua, com o pensamento a algumas horas de distância dali.

[...]

— Maddison Sherllock!
Ergui minha mão assim que a diretora berrou meu nome no microfone, entediada e com todos os tipos de sentimentos negativos em relação àquela excursão idiota. Me senti ainda pior quando o professor Hammings, com sua usual cara de quem tinha estrume de vaca debaixo do nariz, indicou que eu já podia ir para o ônibus com um aceno de mão. Ajeitando minha pequena mochila no ombro, andei vagarosamente até o veículo, como se eu pudesse evitar aquela tortura se andasse devagar. Como eu era tosca algumas vezes.
— Eu já mandei você escolher um lugar e se sentar, Kelly – ouvi uma voz murmurar assim que me aproximei do ônibus, e quando cheguei à porta, vi o professor Styles e a Smithers conversando a uma distância menor do que a recomendada. E pela cara de dor de barriga dela, o clima não era dos melhores.

- Tudo bem, professor – ela concordou, me lançando um olhar surpreso, e entrou no ônibus. O professor Styles passou uma mão pelos cabelos, usando sua técnica mais que aprovada de me tratar com indiferença, e eu apenas o ignorei, entrando no ônibus logo depois.
Me sentei num dos primeiros assentos, evitando me misturar demais com o povo fútil que provavelmente começaria uma bagunça no fundo do ônibus. Peguei meu iPod de dentro da bolsa e coloquei a primeira música mal educada que achei no volume máximo, com uma cara espontânea de poucos amigos. Talvez porque eu realmente não quisesse estar ali, num ônibus cheio de gente que eu odeio, rumo a um lugar distante, cheio de mato, terra e bichos. Talvez porque tudo que eu quisesse era estar com Louis e resolver as coisas entre nós, pra exterminar o aperto em meu peito que quase me sufocava.

Não demorou muito e o professor Hammings entrou no ônibus, acompanhado do Styles. Contaram rapidamente o número de pessoas, pra ter certeza de que todos estavam no ônibus, e assim que terminaram, fizeram sinal para que o motorista começasse a dirigir. Tirei um dos fones, entediada, para (infelizmente) ouvir o que o Styles estava dizendo enquanto o veículo andava os primeiros metros em direção à reserva.
— Tentem não se afastar do grupo, o local é enorme e bastante confuso, portanto todo cuidado é pouco – ele avisou, sério, e eu notei que seus olhos estavam especialmente esverdeados hoje, talvez porque estivessem realçados pela blusa da mesma cor — Não se distraiam com os animais ou plantas exóticas que virem e prestem atenção nas explicações que os guias lhes darão, informações como aquelas não existem nos livros escolares. Qualquer problema, basta chamar o professor Hammings ou eu. Mudo, o sr. Hammings apenas assentiu devagar para todos que o observavam, e os dois professores se encaminharam na direção de seus assentos. Que, por sinal, ficavam bem à minha frente. Eu já devia saber que aquela excursão seria ainda pior do que eu imaginava.
Coloquei os dois fones, batendo os pés de acordo com a bateria da música, e me contive a observar o céu nublado. Sem ter que aturar ninguém sentado no assento ao meu lado, silenciosamente ocupado pela minha mochila, não demorei muito tempo pra me distrair com os prédios e árvores que passavam rapidamente pela minha janela. Logo meu pensamento voou até Louis, e me peguei pensando no que ele devia estar fazendo àquela hora. Dando aula, provavelmente. Tentei evitar que minha mente criasse qualquer tipo de imagem da excursão do dia anterior, ou de Louis sendo consolado pela srta. Keaton, mas foi impossível. Deus, por que raios eu tinha que sentir ciúmes daquela mexerica desbotada? Ela ser bonita, atraente e um pouco viciada demais em testosterona definitivamente não deveriam ser razões preocupantes o suficiente. Algum tempo depois, senti uma mão tocar meu ombro devagar, e pulei de susto. Olhei na direção da pessoa, e dei de cara com Harry Styles. Tirei um dos fones contra a minha vontade e esperei ele falar.
— Trouxe celular, Sherllock?
Assenti, sentindo um gostoso perfume masculino invadir meus pulmões, e ignorei o fato de que só podia ser o dele.
— Pode me passar o número? – ele perguntou, parecendo um pouco decente pela primeira vez na vida — É pro caso de você se perder na reserva.
— Eu não vou me perder – respondi, sem muita vontade de dar meu número de celular pro Styles – Pode ter certeza.
— Mesmo assim, são normas da escola – ele insistiu, com um sorrisinho cordial, e eu tive que dar o número. Escolinha chata a minha, pelo amor de Deus. Assim que terminou de gravar meu número em seu celular, ele agradeceu rapidamente e voltou a se sentar ao lado do Hammings. Mas esqueceu de levar uma coisa com ele. A porcaria daquele perfume. Legal, ia ter que fazer contato com aquele idiota mais uma vez, e mal tínhamos chegado à reserva. Peguei minha mochila e a coloquei direito nas costas, com uma alça em cada ombro (diferentemente do que eu costumava fazer), já de pé. Esperei até que a aglomeração no corredor do ônibus diminuísse e me encaixei na primeira brecha que encontrei.
— Capa de chuva, Smithers – ouvi o professor Styles dizer assim que Kelly, que estava bem à minha frente, passou por ele – Não vai querer que as horas arrumando o cabelo sejam em vão, vai?
Eu sei que o odeio e já cansei de expressar meu desprezo por ele, mas não deu pra não rir daquele comentário. Até que ele era engraçado quando tirava sarro das pessoas certas. E tinha um perfume viciante também. Não que isso importe. Ainda rindo disfarçadamente da cara de joelho da Smithers ao pegar sua capa, peguei a minha, dobrada dentro de um pacote plástico, evitando contato visual com o sr. Styles. Uma simples piadinha não o tornaria um cara aceitável no meu conceito.
Burocracias à parte, logo estávamos dentro da reserva, ridiculamente iguais com nossas capas transparentes debaixo da chuva, que tinha aumentado consideravelmente. Aquele lugar era enorme, fato. Acho que nunca estive num lugar tão cheio de vegetação e terra na vida. O único cheiro que conseguia sentir era o de terra molhada, tão forte que minha cabeça doía um pouco. Um dos guias começou a nos levar reserva adentro, e eu apenas seguia o fluxo, já querendo que aquela excursão terminasse logo.
— Antes de começarmos a conhecer a reserva, vamos lhes mostrar um pequeno documentário sobre os efeitos do aquecimento global e da exploração prejudicial do homem à natureza, e também algumas medidas quem favorecem o desenvolvimento sustentável – explicou o guia, quando chegamos a uma grande sala onde uma tela de cinema ocupava uma parede que ficava de frente para várias poltronas enfileiradas. Eu realmente odiava vídeos assim, todo mundo já estava careca de saber de tudo que passava neles. Com cara de nada, apenas me sentei numa poltrona qualquer, numa das pontas mais próximas da porta de saída. Quanto menos eu tivesse que gastar energia ali, melhor.
O filme logo começou, e eu nem me dei ao trabalho de ouvir e/ou ver o que estava passando. Cutucando uma pele quase solta e dolorida que estava incomodando o canto da minha unha, esparramada na poltrona e com cara de mau humor, eu esperava ansiosamente até aquela porcaria acabar e podermos finalmente começar a observar as espécies exóticas de plantas e animais que existiam na reserva. Tudo ia relativamente bem, até que eu senti alguém se aproximar de pé ao meu lado. Não precisei nem erguer meu olhar pra saber quem era: o perfume masculino (que não era de se jogar fora mesmo) já denunciava sua identidade.

- Dá pra parecer menos entediada? – ouvi o sr. Styles cochichar entre dentes, abaixando um pouco seu tronco para ficar com a cabeça mais próxima de mim e se fazer ouvir. Revirei os olhos, de saco cheio, e me virei lentamente pra ele, até encontrar seus olhos.
— Dá pra fingir que eu não existo? – sussurrei, com uma expressão de desprezo sincera, e pude ouvi-lo suspirar antes de se afastar, em tom de derrota. Isso mesmo, sai de perto. Seu perfume mais do que aceitável não vai me convencer.
Quinze minutos depois, eu ainda me encontrava naquela mesma posição, com a cabeça apoiada numa mão e quase dormindo. Olhei vagamente pra enorme tela à minha frente, tentando não adormecer, e vendo que não ia aguentar ficar acordada ali por muito mais tempo, resolvi tomar uma atitude drástica. Me levantei sorrateiramente, trazendo minha mochila comigo, e caminhei até o professor Hammings, que estava sentado na primeira fileira ao lado do professor Styles.

- Professor, posso ir ao banheiro? – falei, baixinho, fazendo cara de cachorrinho sem dono – É urgente.
— Estamos na metade do documentário, Sherllock – ele murmurou, com sua habitual expressão afetada – Tem certeza de que precisa ir?
— É realmente necessário – respondi, ignorando o olhar do sr. Styles praticamente me queimando de tão intenso. O sr. Hammings ergueu uma sobrancelha, pensativo, e logo resmungou, derrotado:
— Saindo dessa sala, é a primeira porta à direita.
— Obrigada – sorri, aliviada, e saí de fininho pela porta. A chuva tinha dado uma trégua mínima, deixando apenas uma garoa fina cair, o que já me dava uma certa liberdade pra respirar um pouco de ar fresco sem me molhar. Pelo amor de Deus, nunca mais pretendia voltar àquela reserva se fosse pra assistir a documentários como aquele. Fala sério, até uma criança de cinco anos sabe que a fumaça que sai das chaminés das fábricas prejudica a qualidade do ar. Mais entediada do que nunca, peguei meu celular do bolso da mochila pra ver as horas, e meu tédio só aumentou quando vi que ainda faltava muito pra irmos embora. Lógico, sua anta, acabamos de chegar. Aposto que se Louis tivesse vindo, tudo estaria sendo muito melhor, e eu estaria nas nuvens, sorridente e cheia de paciência pra aguentar qualquer chatice que aquele lugar me proporcionasse. Suspirei tristemente, tão a fim de ir embora que toparia voltar a pé pra casa, e tive uma idéia. Digitei rapidamente o número do celular de Mellody e apertei o botão para chamar. Uns dois minutinhos de conversa ao telefone com alguém civilizado seria no mínimo revigorante. Assim que ouvi uma gravação da operadora dizendo que meu celular estava sem sinal, quase o deixei cair de susto por causa da segunda voz que surgiu atrás de mim.
— Não achou o banheiro, Sherllock? – o sr. Styles perguntou, irônico. Me virei depressa, cancelando a chamada, e logo seus olhos esverdeados entraram em foco.

- Que é, tá me seguindo agora? – rosnei, sem a menor paciência, e fazendo um breve silêncio ocupar nossos ouvidos por alguns segundos.
— Se eu não soubesse dessa sua... Simpatia com professores de biologia, suas respostas atravessadas seriam desanimadoras – ele finalmente respondeu, com um cinismo impressionante no rosto, típico de alguém que sabia demais. Meus olhos se arregalaram um pouco sem que eu percebesse, minha garganta secou, meu coração acelerou, tudo ao mesmo tempo. Ele não sabia. Ele não podia saber.
— Do que você tá falando? – perguntei, usando toda a minha capacidade de mentir para controlar meus músculos faciais e não me entregar. O professor Styles deu uma risadinha irônica e cruzou os braços.
— Ah... Você não sabe do que eu tô falando? – ele repetiu, com os olhos cravados nos meus e dando um passo na minha direção – Então bastou uma briguinha pro Louis ser carta fora do baralho? Rapidinha você, hein.