Sexta-feira
1 Capítulo 1: Afinal, é sexta-feira
Notas iniciais

Era uma manhã de primavera. As folhas e flores que caíam das árvores dançavam até o chão, indo de encontro a terra. O sol brilhava acima de nossas cabeças, fazendo um suor frio descer pela testa de alguns. As pessoas se amontoavam pelas ruas, a procura de algo para comprar ou simplesmente por olhar vitrines.
Era sexta-feira, afinal; o melhor dia da semana.
Me encontrava sentando em um banco qualquer, de uma rua qualquer. O tédio já me dominava, e eu acreditava que isso não iria passar tão cedo. Uma sensação nostálgica de já ter vivido aquilo se apossou de mim. O que não seria novidade, claro. Afinal, tudo o que eu fazia era fugir de um trabalho pesado.
Passei a mão pelo meu rosto, sentindo a lateral queimada chocar-se contra a palma de minha mão. Já estava acostumada com ela, no entanto, então nem me assustei. Meus olhos azulados focaram o céu, e um vento cortou meus cabelos negros, esvoaçando-os.
As pessoas passavam em minha frente, não notando minha presença. Também, quem me notaria? Eu já estava morto para a maior parte da sociedade. Quem dirá para pessoas que eu nunca vi na vida.
–Com licença...
Virei-me para onde a voz vinha e me deparei com uma garota de cabelos avermelhados. Tinha os olhos escuros, e estava levemente agasalhada.
–Posso ajudar? – perguntei, indiferente.
–Ahn... Talvez. Sabe me dizer onde fica o Café Expresso?
–Isso é...?
–Uma cafeteria. – não sei porque, mas senti que ela havia achado minha pergunta ridícula.
–Café Expresso... – puxei da memória. – Ah,sim. Fica no final da rua, na esquina.
–Ah. Obrigada.
E ela sorriu.
E eu simplesmente me hipnotizei pelo sorriso da garota.
Porque quando ela sorriu, seus olhos, seus gestos, sua expressão sorria também. E, para alguém como eu, jogado as traças, aquilo era mágico.
A ruiva agradeceu novamente e seguiu caminho. Me deixando lá com cara de idiota...
“Vai perde-la?”
Ergui-me bruscamente do banco e segui a ruiva por entre a multidão. Me escondia atrás de uma pessoa ou outra, para que ela não me notasse.
Finalmente, ela dobrou a esquina e entrou na cafeteria. E eu continuei seguindo a garota. Parei em frente a porta de vidro da mesma. E o sorriso de esperança que estava em meu rosto, sumiu.
Pois ela não estava mais sozinha. E sim com outro garoto, bem mais ajeitado do que eu.
Permaneci quieto, parado, novamente que nem um idiota em frente ao estabelecimento. O som de buzinas e pessoas falando ainda preenchiam o ar, só que, no meu mundo, o único som ainda vívido era a voz da garota.
Dei alguns passos para trás, ainda estático. Logo, enfiei as mãos nos bolsos e suspirei fortemente. Balancei a cabeça e ri comigo mesmo.
E me virei, continuando a seguir meu caminho solitário e infeliz, pedindo para que a vida me guiasse para um lugar menos imundo do que eu já estava.
E, mal sabia eu, que lá dentro a ruiva sorria, ao ver um garoto de olhos azuis e com uma cicatriz no rosto andar pela rua, enquanto ela ainda conversava com um amigo sobre negócios.
Afinal, hoje é sexta-feira; o melhor dia da semana... e o mais longo também.
Fale com o autor