Sexo, Amor e Livros
13 Parque de diversoes
Notas iniciais
Naquela noite sonhei com a minha infância. Não sei dizer ao certo se realmente foi um sonho, porque na verdade tudo que eu vi eram lembranças. Eu estava brincando com meu irmão na fazenda onde vivíamos. Ele me jogava bolas de lama enquanto eu ria desvairadamente e tentava acerta-lo de volta.
A muito tempo eu havia afasto essas lembranças, no fim das contas isso só me machucava mais.
Acordei todo suado e meio ofegante. Levei as mãos até o rosto e continuei assim durante tanto tempo que não poderia contar. Preso no mundo entre memorias sonolentas e a realidade.
Tomei um banho rápido e para aliviar um pouco a mente resolvi descer para tomar café. Eram por volta de onze horas quando finalmente me sentei na mesa de madeira negra da padaria e olhei para a rua onde eu morava.
Lancei um jato de adoçante na xicara de café a minha frente e tomei um pequeno gole que queimou o céu da minha boca e minha língua. Olhei para o celular em cima da mesa e pensei no quão automático era tira-lo do bolso quando eu ia me sentar.
As mensagens de Douglas e Igor continuavam lá sem resposta.
Douglas estava certo, eu não queria ninguém no lugar de Marcelo. Ninguém poderia ocupar o lugar que ele ocupou. Mas infelizmente ele também estava certo quando disse que ele não ia querer que eu caísse em tentação.
Então as lembranças da minha noite com Frederico bateram no meu rosto com força. Senti remorso. Um sentimento até então muito pouco presente na minha vida. Tive o impulso de ligar para o vendedor de livros, mas o que eu diria? “oi, eu fiquei com remorso por ter que comido e te largado, mas eu queria que você soubesse que eu me sinto mal por isso.”
Primeiro seria mentira. Eu estava com a consciência pesada por ter traído a confiança de um homem bêbado morto, não de ter feito o que fiz. Segundo, eu sabia o que dizer, de verdade. As pessoas querem uma mentira nesse caso, nunca a verdade, ninguém quer se sentir rejeitado. Mas terceiro, eu não me importo com ele tanto assim para ligar.
– O senhor gostaria de comer alguma coisa? – uma mocinha com cara de dezoito anos vestida de uniforme amarelo veio me perguntar.
Senhor. Senhor, repeti mentalmente em um tom nervoso. Balancei a cabeça negativamente e então me dei conta de que estava fazendo o que disse que não faria. Estava pensando nessas coisas.
Eu poderia passar um dia fingindo ser uma pessoa comum. Mentindo pra mim mesmo outra vez dizendo que estava tudo bem, apenas ouvindo a solidão batendo com força aqui dentro do meu peito ou tomar uma atitude. Eu sou muito dramático – que droga – sussurrei dando uma risada.
Peguei o celular e liguei para o numero cujo qual havia recebido a mensagem. Depois de alguns toques Igor atendeu.
– Paulo – disse ele simplesmente ao invés do “alo” de praxe. E eu gostaria de deixar claro que detesto pessoas que não seguem as convenções sociais. Essa não é uma coisa que se aprendi na escola e tal, mas todo mundo sabe disso. Quando você for atender o telefone e não for alguém intimo diga apenas “olá” por favor, siga o roteiro.
– Igor – respondi tentando parecer irônico, mas acho que ele não entendeu. – Eu recebi sua mensagem ontem – comentei perdendo a graça.
– Espero que aceite minha proposta, se tiver a fim de tomar um café mais tarde – ele me convidou casualmente. Eu teria respondido que sim, mas na verdade era totalmente estranho estar no telefone com esse cara.
Eu sabia o que da vida dele afinal? Que ele era um tarado? Com Marcelo tudo tinha acontecido naturalmente. Nos conhecemos no ensino médio. Ele era o cara popular e todo errado que contrabandeava bebida para o colégio, que dava as melhores festas e que pegava todas as garotas.
E eu era o cara que andava com o pessoal do vôlei. Sempre achei engraçado como as pessoas são estereotipadas na escola, sempre se dividindo em grupos e níveis de popularidade. O engraçado é que nada disso faz mais sentido na vida adulta.
Mas a questão é que eu respondi – não, valeu.
Acho que ele demorou um pouco para se orientar, porque ouvi a voz dele falhar quando ele tentou falar novamente – beleza, podemos ir comer alguma coisa, ou ir na estande de tiro o que acha?
– Acho que você não esta entendo, eu disse não para sua proposta de ser meu tutor, mas estou atoa em casa, então aceito o convite para o café.
Imagino que se pudesse ver o rosto dele iria rir com a expressão que ele deveria estar fazendo. Eu realmente não o queria como tutor e também não queria sair com ele, mas senti a obrigação moral de dar um chance pro cara.
– O que você acha de irmos ao palácio das artes? – ele sugeriu com a voz um pouco rouca.
Dei de ombros como se ele pudesse ver e disse – pode ser, as dezenove? – perguntei. Ele concordou com um ronronar e desligamos depois de uma despedida sem graça.
O irônico da situação é que eu nem gostava tanto de café assim.
No inicio da tarde liguei para Veronica pra saber como andava nosso bebe. Ela riu da minha cara e perguntou se eu estava debochando dela. É claro que eu não estava, mas até eu mesmo estranhei por estar curioso.
Por isso enquanto eu preparada o patins para mais um volta eu liguei para Geraldinho que prontamente me atendeu. Ele só podia estar com o telefone na mão.
– Alô – ele atendeu, para meu prazer, seguindo protocolo.
– Geraldinho, aqui é o...
– Quebrador de portas, papai da vez, Paulo o grande – ele respondeu com uma voz seria.
Franzi o cenho. Esse cara era muito confuso – Paulo, só Paulo, por favor – respondi secamente. E só então notei meu mau humor – estou ligando pra saber quando podemos marcar uma nova consulta, eu quero saber logo o sexo do negocio.
– Negocio? – ele me perguntou fazendo uma voz engraçada.
Eu ri, meio sem graça, meio irritado – foi mal, devo ter parecido um pai desnaturado agora.
– Passam muito piores por aqui, pelo menos essa criança vai crescer perto do pai e da mãe e isso é muito bom – ele comentou me fazendo ficar verdadeiramente sem graça.
– Bem, eu e Veronica não somos casados – contei-lhe e ele fez um som com um “hummm?” e eu entendi que ele queria que eu contasse-lhe mais – foi o caso de uma noite só, na realidade, menos que uma noite.
Geraldinho deve ter analisado a situação um pouco porque não respondeu nada por alguns segundos – bom, isso significa que somos dois solteiros com motivos pra beber. Onde você esta?
– Em casa, porque? – respondi sem pensar. E não apenas isso, respondi onde morava e quando percebi estava me vestindo para sair com o medico da mãe do meu filho/filha.
Ele era bem persuasivo de um modo sutil e até mesmo meio engraçado. Por volta de umas quatro da tarde ele me apareceu na porta do meu prédio em uma daquelas caminhonetes gigantescas.
Ele começou a buzinar como louco assim que chegou fazendo cerca de uns dez vizinhos chegarem as janelas para ver o que estava acontecendo. Quando ele colocou a cabeça para fora do carro e olhou para cima com óculos escuros espelhados e gritou – anda Coélio, não temos o dia todo – eu pensei em me jogar literalmente em cima do carro dele.
Pensei que Rosa até podia ter um pouco de razão em ser estressada, mas por algum motivo eu estava animado para sair daquele cubículo. Desci o mais depressa que pude enfrentando olhares repreensivos de vizinhos mal humorados.
Geraldinho estava vestido com uma roupa parecida como a minha, bom, em um tamanho maior. Calça jeans azul clara, camisa polo, mas pelo menos de cor diferente. Barba por fazer e óculos no rosto.
– Onde vamos? – perguntei curioso olhando pra ele. Olhando de verdade. Acho que estaria mais pra analisando.
Ele sorriu, um sorriso largo e natural – Parque Guanabara.
Eu perguntei – o que? – por reflexo, mas eu tinha entendido perfeitamente para onde íamos.
– Parque Guanabara – ele voltou a nomear.
– Mas é um parque de diversões – eu respondi tentando assimilar o fato. Não que um parque de diversões fosse como um convite para caminhar em marte ou explorar o oceano, mas faziam anos desde que eu não botava os pés em um desses.
Ele arrancou o carro e me deu um soco no ombro – pense nisso como um mini curso sobre como ser um bom pai.
***
Chegamos ao parque cedo, mas demoramos muito para arrumar uma vaga para estacionar. Acabamos dando varias voltas pelo quarteirão até que conseguimos parar a caminhonete.
Assim que chegamos a fila na entrada já me senti constrangido, a maioria eram crianças de no máximo doze anos, gritando e pulando – acho que aqui não vendem bebida – comentei enquanto recebia o cartão na portaria.
Geraldinho deu uma risada enquanto recebia o dele – olhem bem e me diga o que vê em volta – ele me pediu colocando a mão pesada sobre meu ombro.
Vi inevitavelmente a roda gigante a minha frente. Algumas barracas de comida. Brinquedos girando em direções estranhas e improváveis e no chão ao nosso redor varias famílias com pais sorridentes e crianças agitadas – pessoas sorridentes? – perguntei em duvida.
– Exatamente. Você acha que esses pais estão sorrindo por quê? – ele me perguntou.
Então entendi o que estava acontecendo – espera, você é louco, se estão bebendo os filhos deles podem se perder, se machucar.
Ele suspirou e aumentou o aperto da mão sobre meu ombro – eles não estão bêbados. Eles são pais. Mas sim, aqui vende bebida – ele começou a caminhar na direção de uma barraca com telhado vermelho, bem chamativo, e fez um movimento convidativo com a mão – você vem ou não?
Senti no fundo que ele pareceu meio frustrado por eu não entender o verdadeiro sentido do parque então tentei insistir um pouco mais, mas só tive respostas negativas.
Mandei ele se foder mentalmente e compramos uma bebida destilada, que foi entregue em copos de plástico coloridos. O meu era amarelo e o de Geraldinho azul.
Tomei um gole que desceu seco e forte. Geraldinho riu quando fiz careta em seguida. Acho que já comentei do sorriso dele, né? – Por que alguém do seu tamanho tem um apelido no diminutivo? – perguntei enquanto andávamos ao lado dos carrinhos de bate-bate.
– Por que alguém do seu tamanho tem uma língua tão afiada? – ele respondeu com uma expressão seria. Senti uma pontada na barriga e me lembrei de alguém que já havia dito a mesma coisa a mim.
A primeira vez que Marcelo falou comigo foi no corredor do colégio. Era hora do intervalo e eu estava com meu lanche na mão. Um cachorro quente gigantesco. Conversando com alguma garota da minha sala.
Mesmo naquela época eu era maior do que ele, mas desde sempre ele foi mais forte. Aquele imbecil esbarrou em mim fazendo o cachorro quente voar da minha mão. Comecei a berrar xingamentos antes mesmo de me virar e dar de cara com ele.
– Tem alguma coisa haver com eu ter nascido prematuro – me contou Geraldinho – todo mundo me chama assim desde quando me lembro. E valeu por me chamar de gordo.
Fiz careta pra ele e tomei mais um gole antes de responder – não disse que você era gordo. Mas se você fosse gay seria taxado como urso – coloquei minha mão na barriga dele e continuei – grande, peludo. Tem gente que gosta.
Ele deu uma risada e ergueu os braços mostrando os músculos – sou forte, não gordo – fiz uma careta irônica e ele aumentou o passo ficando parado na minha frente – apertar e você vai ver – disse ele ainda de braços erguidos.
Tive uma mistura engraçada de sentimentos naquele momento. Por um lado senti um pouco de relutância. Pegar nos braços de um cara hetero?
Por outro senti excitação pura e inegável. Ele era meio gordinho, mas era forte, peludo, tinha uma voz grave e usava barba. Você sentiria a virilidade dele apenas olhando para o tamanho de suas mãos.
– Droga – me repreendi mentalmente. Eu deveria fazer o que qualquer hetero faria em minha situação. Deveria. Mas não o fiz.
Quando coloquei a mão no musculo em seu braço ele o forçou e eu o senti enrijecer sobe meu toque, o que foi como dizer: “coloque a mão no bolso, porque o volume vai aumentar”.
– É, tirando a camada de gordura, deve ter músculos mesmo ai embaixo – respondi tentando ser o mais irônico possível e colocando a mão no bolso esquerdo. Sorri pra ele que me voltou com uma carranca engraçada – tem uma coisa que quero te perguntar a um tempo.
Paramos em uma barraca de pipoca e ele entregou o cartão ao homem, pegando dois sacos pequenos – o que é? – ele perguntou me entregando um deles. Joguei meu copo em uma lixeira próxima e olhei para a roda gigante.
– Por que o interesse em mim?
Ele parou e me encarou um pouco. Ele era bonito, realmente bonito, mas eu não me sentia atraído por ele. E isso era um alivio. – Antes de você bater na porta do carro eu estava tendo uma conversa com Rosa.
– Imagino que tenha sido bem amigável – brinquei. Joguei uma pipoca pro alto e tentei pega-la com minha boca, mas errei de longe.
Ele deu uma risada sem graça e continuou – eu sou gay – ele me contou. Sua voz saiu diferente, soou diferente. Como se a palavra fosse algo que o machucasse.
– Serio? – ironizei abrindo um sorriso, mas ele não sorriu de volta, ele ficou serio. Suspirei e só então notei o quanto aquilo o estava incomodando – se meu marido me contasse que era gay eu também ia querer mata-lo.
Ficamos um tempo calados e quando notei estávamos de volta a barraca com telhado vermelho. Compramos mais algumas bebidas e resolvemos toma-las ali mesmo. Geraldinho devia ter notado como eu o olhei quando nos encontramos e é claro que ele soube que eu também era gay.
Esse tempo todo eu tinha me envolvido com muita gente. Feito algumas burradas, descobertos partes de mim que eu não conhecia e mudado de opinião sobre muita coisa, mas quer saber algo que ainda não havia mudado?
Eu era um egoísta. E pela primeira vez na vida eu tinha a oportunidade de ser bacana com alguém, sem esperar um retorno.
– De todos os lugares que poderíamos ter ido pra beber e ficar depressivos – comecei a dizer enquanto agarrava o braço de Geraldinho e começava a puxa-lo – você me arrastou pra um parque cheio de crianças.
Geraldinho fez força no sentido contrario e com um olhar meio perdido me encarou. Imagino que ele também estava um pouquinho bêbado – o que você esta fazendo? – ele perguntou.
Então apontei para o brinquedo que estava a nossa frente. A fila estava pequena e a noite já havia caído. Ele balançou a cabeça negativamente, mas eu o impedi de falar – estávamos na chuva, vamos nos molhar.
– Mas esse brinquedo... – tentou indagar, mas cobri sua boca com e mão e o arrastei até as escadas.
Imagino que em uma situação normal ele ganharia de mim. Ele era mais alto, mais forte, mais barbudo. Mas ele estava alegrinho e tenho certeza que também queria ir no brinquedo.
Era como a barca Viking, mas por algum motivo que só vim a entender depois havia grades fechando nas laterais e no teto. Nos prenderam no acento e Geraldinho começou a berrar que não queria ir.
– É só um brinquedo – disse com um tom de voz repreensor.
Ele agarrou meu braço com força, sem mover o corpo que estava preso ao acento e gritou – essa porra vira de cabeça pra baixo.
– Não pode ser tão ruim – respondi perdendo a paciência.
O brinquedo consistia em um pendulo. Indo para frente e para trás ganhando velocidade. Meu corpo e o de todos ali eram forçados a fazer o mesmo movimento o que acabou começando a me deixar enjoado.
Depois de umas cinco ou seis idas e vindas o brinquedo realizou o sonho de qualquer garoto no balanço. Ele ficou de cabeça para baixo. Geraldinho e algumas outras pessoas gritavam histericamente, enquanto eu somente segurava o folego para não vomitar.
Moedas começaram a cair dos bolsos e o brinquedo começou a voltar, mas desta vez de costas. Ele ganhou velocidade na descida e logo estávamos subindo de novo. Senti como se estivesse acontecendo uma festa na minha barriga e tudo o que eu comi estivesse dançando conga.
Geraldinho segurou minha mão e quando voltamos a parar de cabeça pra baixo eu não consegui segurar. Comecei a vomitar. Pensando na situação depois, até chegou a ser engraçado porque eu estava de cabeça pra baixo vomitando.
Mas quando o brinquedo começou a descer novamente e todos sentiram as partículas de vomito no ar foi como se uma reação em cadeia fosse ativada. Eu pude ouvir o som de mais duas pessoas vomitando atrás de mim. Geraldinho começou a chorar e eu finalmente a gritar.
Quando o brinquedo parou as pessoas saíram com as pernas tremendo. Geraldinho foi correndo para fora da plataforma e sentou no chão ali mesmo. Eu desci devagar e me apoiei em um poste de iluminação – você tinha razão – eu disse por fim.
Ele me olhou com uma expressão péssima e começamos a rir.
Saímos do parque eram quase dez da noite. Não ficamos muito sujos de vomito, não em comparação as pessoas nos bancos de trás. Ficamos sentados um bom tempo tomando agua e conversando. Ele era divertido de um modo irônico.
Quando finalmente entrei no meu apartamento e tirei minha carteira e celular do bolso, reparei a luz piscando no mostrados, sinal de que eu havia recebido alguma mensagem.
Então, só então, me dei conta de que havia me esquecido de Igor. Tinham seis ligações, uma mensagem de texto e uma mensagem de voz dele. Resolvi ouvir a mensagem primeiro.
“– Estou aqui no café, cheguei um pouco mais cedo porque fiquei meio ansioso... quando quiser aparecer.”
Me senti um babaca é claro. Mas um pouco mais quando fui ler a mensagem de texto.
“Eu não o culpo por não aparecer, na verdade até entendo. Eu imaginei que pudesse ser seu tutor, mas eu não posso querer algo pra você algo que você não quer. Se precisar algum dia, ainda pode me ligar.”
Me joguei no sofá e coloquei os pés sobre a mesinha de centro. Eu finalmente tinha notado o que eu queria fazer, que tipo de pessoa eu queria ser. Era hora de começar a por isso em pratica, não só falar.
Era hora de uma nova fase pra minha vida.
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