Seven Warriors
4 Não me peça para abraçá-lo - parte 3
Após se despedir sem muitas palavras, porém, se sentindo bastante satisfeito, Dylan seguiu para o trabalho, terminando o dia no tédio que ele sempre sentia. A alegria florescia em seu peito ao ver o início do pôr do Sol, porque isso significava o fim de seu turno e que ele poderia seguir para casa finalmente. Após deixar o avental em sua prateleira, ele aguardou Sarah e Ryan para que pudessem seguir o caminho juntos e, enquanto esperava os dois, percebeu que a floricultura já estava fechada e que não havia mais sinal de Adrien pelo local.
― Vamos? ― disse ao avistar os amigos se aproximando
― Na verdade, eu vou ter que ir em direção ao Centro, fiquei de comprar umas coisas pra minha mãe. ― Sarah informou para o desagrado de Dylan e logo Ryan a completou.
― Eu também não vou seguir contigo hoje, tenho que buscar a bicicleta no conserto e de lá sigo para o curso. ― Dylan suspirou em descontentamento.
― Tudo bem, tudo bem! Sigo sozinho hoje. Mas só se vocês jurarem que não estão me enrolando para sair em um encontro. ― Ele fez a brincadeira sabendo que Ryan iria se enterrar em timidez. Pois ele já havia percebido o interesse do outro por Sarah ao longo desses anos.
Sarah e Ryan foram da mesma escola que ele, porém, Sarah havia se formado com Dylan e Ryan era um ano mais novo, porém, isso não impediu que eles fizessem uma amizade, pois Ryan e Sarah eram vizinhos desde muito novos. Ela mesmo sendo uma boa aluna e conseguido bolsas em boas faculdades, resolveu se manter na cidade devido ao estado de saúde de seu pai. Já Ryan terminou o ano escolar fazia poucos meses e trabalhava desde muito novo para ajudar sua família, que não tinha boas condições financeiras. Após o fim da escola, ele indicou Sarah para trabalhar no Davi’s e Dylan conseguiu o emprego mais de um ano depois quando sua mãe convenceu Sr. Davidson que seria uma boa ideia e, com certeza, o velho não negaria.
Desde então, eles voltaram a ser tão amigos quanto eram na época de escola e o motivo que fazia Dylan não largar o emprego monótono era a sensação de nostalgia que passava com eles dois, mesmo ambos precisando ajudá-lo quando se metia em certas confusões com o chefe, o que era um caso recorrente.
― Para de falar esse tipo de coisa! ― Ryan disse meio exasperado deixando um leve rubor aparecer em seu rosto.
― Então, você está dizendo que está livre então para sair comigo? ― Ele se esgueirou para perto de Sarah, vendo-a rolar os olhos em desaprovação.
― Duas vezes no mesmo dia? O que é isso, um novo recorde? ― Ela disse não parecendo muito interessada ― Eu preciso ir, você vem comigo, Ry? ― O outro concordou com a cabeça e já de costas ambos apenas acenaram em direção a Dylan, dando a entender que não queriam perder tempo com suas piadas de todo dia.
Com uma leve frustração, restou somente a ele seguir em direção ao caminho de casa. Mesmo sozinho, ele parecia super feliz apenas em poder apreciar aquele momento de fim de tarde. Apesar da temperatura levemente baixa, o que o fazia se odiar mentalmente por não ter levado um casaco, ele já conseguia ver uma certa vida em muitas árvores, o que indicava que o início da primavera estava próximo. Com as mãos apoiadas na parte de trás da cabeça, ele andava despreocupadamente por ali, parecendo não ter pressa nenhuma pra chegar em casa.
Apenas uns vinte passos de distância da lanchonete, em cima de um muro velho da maior casa da região, ele avistou algo que fizeram seus olhos brilharem instantaneamente: um gato. Não tinha sido a primeira ou a segunda vez que ele via aquele mesmo animal desde que havia se mudado para Delphos há três anos e meio, ele costumava vê-lo pelo menos duas vezes na semana, em pontos diferentes do bairro. Dylan tinha uma relação especial com os felinos, ele realmente adorava e se encantava com a beleza e com a personalidade única que os gatos tinham. Se dependesse dele, pelo menos uns cinco já morariam na sua casa, porém, sua mãe não permitia que ele levasse nenhum animal para casa. Uma das coisas que ele prometeu a si mesmo é que assim que fosse morar sozinho, antes mesmo de ter uma cama, ele teria um gato.
Ele começou a andar lentamente em direção ao animal, que estava sentado na mureta, como se o esperasse. Apesar de vê-lo com muita frequência, Dylan nunca tinha conseguido ficar a pelo menos dois metros dele, pois, assim que se aproximava, o animal corria e se escondia, voltando a aparecer em seu percurso apenas dias depois. A vontade que ele tinha era apenas de chegar perto e acariciá-lo.
― Não corra de mim hoje... ― suspirou baixinho enquanto dava passos curtos e lentos em direção ao felino, que parecia encará-lo sem mover um músculo, apenas observava.
Dylan continuou a andar até conseguir se aproximar do muro, apenas mais uns seis passos o separavam do animal. Ele se sentia muito animado, porque por mais que não pudesse se aproximar mais, agora ele conseguia observar melhor as características do felino. Ele parecia ser um gato maior do que os outros que ele encontrava pelo bairro, seu rabo era extremamente peludo e preto, porém, ao chegar nas costas sua pelagem volumosa clareava e atingia um tom acinzentado. Suas patas eram bem brancas, parecendo quatro botinhas e esses pelos brancos subiam pelo peito frontal, ficando mais espesso ainda, como se fosse uma juba. O nariz era rosa e o focinho seguia a mesma coloração clara do peito, suas orelhas e a parte que envolvia os olhos se destoavam, pois, eram escuros, criando um contraste muito bonito. O que mais chamava a atenção no animal eram seus olhos azuis, com a claridade do local suas pupilas escuras ficavam quase invisíveis e o azul de fundo se destacava completamente, ainda mais devido a pelagem escura da região. Não tinha como esse ser um gato vira-lata comum de bairro, definitivamente era de raça.
― Uau! Você é realmente bonito. ― disse impressionado ao encarar o animal.
Nesse momento, o gato se levantou e espreguiçou-se graciosamente, Dylan pensou que seria nesse momento que ele faria o de sempre: se virar e correr até sair de vista. Mas para sua surpresa, ele deu lentos passos para frente até descer do muro em um salto único, parando perfeitamente no chão sem nenhuma falha de equilíbrio. Em seguida, continuou seu andar calmo em direção ao homem na sua frente e ao chegar a uma distância inferior a um metro, sentou em suas patas traseiras, o encarando com seus olhos azuis.
Dylan achou aquilo incrível e, por mais que aquela cena no meio da rua fosse estranha, ele resolveu imitar os gestos do gato e sentou-se na calçada, o encarando de frente. Ele pensava que dessa forma ele conseguiria fazer que ele se aproximasse o suficiente para acariciá-lo e, novamente para sua surpresa, foi exatamente isso que aconteceu. Ele voltou a ficar em cima das quatro patas e começou a andar em direção a Dylan, mantendo o rabo imponente posicionado perfeitamente na vertical e os olhos focados no rosto do rapaz. Até que, em um movimento único, saltou para cima de suas pernas, levantando o focinho branco, aparentemente para o encarar mais de perto.
Dylan já estava completamente impressionado com a ousadia do felino e resolveu arriscar, levando sua mão lentamente até o pescoço branco do mesmo e deixando que seus dedos se perdessem na pelagem volumosa, depositando ali diversos carinhos, como se estivesse coçando o animal. Nesse movimento, ele percebeu que ao redor do pescoço dele havia uma espécie de cordão em fita de seda, ele não tinha reparado antes pois a fita era exatamente da cor de seus pelos brancos. No meio do cordão e em direção ao peito, continha uma espécie de medalhinha dourada e discreta e, por ironia da situação, ele pensou ter visto um cachorro desenhado nela.
Ele parecia surpreso porque aparentemente o gato tinha dono, não só pela espécie de coleira, mas também pelo cuidado em seus pelos e ele parecia ter boa saúde também. Será que era macho ou fêmea? Ele não conseguia dizer e nem iria investigar isso naquele momento. Apenas continuou fazendo o carinho no pescoço do gato que já tinha os olhos fechados e parecia estar curtindo toda a ação em deleite. Após alguns poucos minutos, ele voltou a abrir os olhos, dessa vez as pupilas um pouco mais dilatadas e menos impactantes, porém dando ao gato um ar mais amigável. Novamente para a surpresa de Dylan, ele levantou o focinho e deu duas lambidas em seu queixo, fazendo-o estranhar o movimento, pois a língua do gato era quente e extremamente áspera. A vontade que tinha era de pegar o animal em seu colo e levar para a casa, mesmo que sua mãe falasse horrores, ele iria conseguir acalmá-la após algum tempo.
Porém, antes que pudesse tomar qualquer atitude, o gato apenas saiu de seu colo em um salto ligeiro, lançando um rápido olhar para ele, pouco antes de correr com pressa para o muro onde estava e em um movimento quase impossível de perceber, pulou novamente para o muro, dessa vez, indo quase que diretamente para o outro lado e saindo do campo de visão de Dylan. Esse por sinal sorriu em satisfação, afinal de contas, já tinha ido mais longe do que imaginava e mesmo que não pudesse levar gatos para casa, ele estava satisfeito em acariciar alguns pela rua pelo menos.
Após o episódio peculiar, ele resolveu seguir seu destino, deixando um leve sorriso colado em seus lábios finos. Ao avistar sua casa, que era menor do que todas as outras na rua, viu que todas as luzes ainda estavam apagadas e que provavelmente sua mãe ainda estava no trabalho, volta e meia ela acabava chegando mais tarde e esse parecia um desses momentos. A luz do dia estava quase inexistente quando ele entrou pela casa e correu em direção ao quarto, jogando o tênis em qualquer lugar do cômodo e deixando seu corpo cair de uma vez só na cama. Ele estava cansado e aquele tinha sido um dia bem cheio.
Assim que recuperou um pouco o vigor, buscou o celular no bolso apertado da calça elevando o aparelho até acima do rosto, deixando o brilho da tela ser o único ponto de luz do quarto. Após desbloquear, foi direto na barra de busca e digitou rapidamente a palavra “nyen”. Ele estava bastante curioso sobre a flor que Adrien tinha dito que combinava com ele, aquela curiosidade realmente estava incomodando-o. Imagina se fosse algo realmente feio e não agradável? Ele teria sofrido uma ofensa sem nem mesmo saber!
Para a sua surpresa, nenhuma imagem de flor apareceu, por mais que ele buscasse mais a fundo nas outras páginas que apareciam. Nyen parecia ser somente o nome de uma cidade em São Petersburgo na Rússia e mesmo após ele procurar pelo termo “Nyen Flor” os resultados continuaram nulos. Como pode a internet não saber do que se tratava? Ele pensou que tinha errado a grafia e por isso testou diversas formas de escrever o que ele tinha escutado. Porém, nada que parecesse uma flor ou até mesmo uma planta aparecia.
Será que Adrien tinha inventado um nome qualquer apenas para dizer que ele não combinava com nenhuma flor existente?
Dylan ficou pensando em diversas possibilidades para a situação, deixando sua imaginação correr e indagando se o antigo colega realmente entendia de flores ou se tinha inventado um nome qualquer para ele. Um tempo depois perdido nos pensamentos, suas pálpebras começaram a se fechar sem que percebesse. A mão que segurava firmemente o celular logo caiu ao lado do corpo, deixando o aparelho deitado na cama. Quando menos percebeu, já estava embalando em um sono profundo.
Quando ele notou, estava sentado em um campo florido que nunca tinha visto antes na vida. Ao olhar ao redor, conseguiu notar que no fim do campo havia uma pequena casa de madeira, com grandes janelas abertas que pareciam convidativas ao sol. Do outro lado do campo, para sua surpresa, ele avistou o mar. As águas eram azuis e brilhavam mais do que qualquer foto que ele já tinha visto do Caribe e refletia o céu da mesma cor, ainda mais vibrante. Aquele claramente não era o céu de Ohio e ele não conseguia se lembrar de qualquer região que tinha o mar de encontro com tantas flores.
Ele se levantou e olhou ao redor, no meio de tantas cores, uma flor se destacou de todas as outras. Ela era mais alta do que todas e tinha o mesmo formato que um girassol, porém, suas pétalas em vez de brancas pareciam ser prateadas. Ele nunca tinha visto algo do tipo na vida! Ele se aproximou devagar e antes que pudesse tocá-la, outra coisa chamou a sua atenção, bem atrás da flor e no meio de tantas outras, o gato de olho azul o encarava com uma expressão curiosa. A medalhinha ao redor do pescoço estava mais aparente dessa vez e ele parecia intrigado para saber o que Dylan faria, os olhos azuis sem desgrudar dele por um segundo sequer.
Quando ele se aproximou mais da flor para tocá-la, o gato pulou em sua frente e elevou o rabo peludo na vertical, parecendo protegê-la de Dylan, que se assustou e recuou um passo. Ao ver que o felino voltara a posição amigável de antes, ele resolveu arriscar novamente e esticou o braço em direção às pétalas prateadas da flor, porém, novamente o gato pulou na frente, só que dessa vez suas pupilas se encolheram ao máximo, deixando os olhos completamente azuis e mais agressivos. Ele fitava Dylan com certa coragem, porém, não parecia querer atacar, apenas o encarava de forma direta.
Poucos segundos depois, seus pelos começaram a se eriçar e ele fechou os olhos, escondendo os orbes azuis, seu corpo todo se tremia e Dylan segurou um grito na garganta ao ver o corpo do felino crescer diante de seus olhos. Seus pelos sumiram e ele começou a assumir a posição em duas patas, que logo se tornaram dois pés. Suas patas frontais se moldaram em mãos humanas e todo o seu corpo pareceu assumir a mesma transformação. Dylan por mais que estivesse com medo, forçava a vista para tentar entender a aparência que o gato estava se transformando, porém, por mais que se esforçasse, ele só conseguia enxergar uma silhueta alta e a forma de um homem, mas ele não conseguia identificar mais nenhum traço.
Tudo parecia confuso, borrado, estranho, o gato que virou homem na sua frente agora era uma sombra. A flor na sua frente já não existia mais, perdera as pétalas se transformando apenas num miolo. O Sol que brilhava já não existia mais e a noite assumia lugar. O mar calmo parecia completamente agitado e parecia que a qualquer momento iria inundar o campo. Ele estava ali, sentando, não conseguindo entender o que acontecia ou até mesmo enxergar direito. Então, quando viu a silhueta na sua frente se aproximar de seu corpo, antes que pudesse correr, gritar ou se defender...Dylan abriu os olhos e viu o teto de seu quarto.
Ele estava sonhando novamente.
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