Seven Warriors

25 Eu confio na sua honestidade - parte 3


Arya pressionava cada vez mais a mão na boca de Dylan, fazendo com que fosse impossível que ele conseguisse proferir qualquer tipo de ruído. Ele estava completamente assustado e surpreso e a encarava com o olhar confuso. O primeiro ímpeto que veio em sua mente fora utilizar toda a força possível e empurrá-la para longe, porém, em um lampejo de consciência, ele resolveu confiar e seguir as orientações da mulher ao se lembrar de quem ela era irmã.

Ao se deixar conduzir, Dylan foi arrastado sorrateiramente por Arya para trás das barracas e, após mais alguns passos na surdina, ela o levou para os fundos da casa administrativa do camping; o local estava mais escuro que todo o terreno em volta. Quando estavam bem abaixados e submersos na escuridão e, ao perceber que o moreno não parecia querer correr e ir embora dali, ela retirou a mão dos lábios de Dylan ao que simultaneamente levou aos próprios lábios em um sinal para que ele fizesse silêncio. Mesmo assim, em um sussurro quase inaudível, ele não se segurou em perguntar:

― O que está acontecendo??

Ela apenas proferiu um "cala a boca" com o movimento dos lábios, sem som algum, que ele entendeu rapidamente. Os olhos dourados da garota reluziam como duas pedras preciosas naquele local tão escuro e ela parecia vagar a atenção para todos os pontos possíveis ao redor dos dois, como se a qualquer momento algo fosse atacá-los.

― Ok, ― iniciou ela em sussurros ao confirmar que eles pareciam seguros ­― a situação é a seguinte: eles nos encontraram.

― Eles quem? ― perguntou ele no mesmo tom.

Arya não respondeu, apenas abaixou ainda mais o corpo, pressionando os dedos fortes na cabeça de Dylan, fazendo-o com que ele deitasse o corpo de barriga para baixo, escondendo-se completamente nas sombras. Ao que ele obedeceu à força, com a mesma mão ela posicionou os dedos na frente do rosto do rapaz e fez um sinal para que ele olhasse para onde ela indicava. Ele forçou a vista e conseguiu ver algumas movimentações dentro da floresta que rodeava o camping, como se diversas pessoas estivessem fazendo trilha por ali. Junto ao barulho de passos, algumas vozes misturadas podiam ser ouvidas, e ele percebeu que eram essas pessoas que ele tinha escutado ainda dentro da barraca.

― O que eles são? ― indagou em um sussurro.

― Isso não importa. O que importa é que precisamos tirar você daqui o quanto antes. ― Ao que disse isso, ambos perceberam que mais pessoas rodeavam a parte da floresta mais próxima a eles ― Mas eu não sei como vou fazer isso ainda.

― Onde está o Adrien? Precisamos chamar ele. ― Ele tinha estranhado o fato de não estar vendo o loiro por ali, já que ele não estava na barraca.

― Adrien está escondido, dando cobertura. Ele e a Norah.

― Essas pessoas... eles estão atrás de mim? ― Apesar de ter perguntado, ele sentia que já sabia a resposta.

― Nesse momento, sim. Mas em cinco minutos eles estarão atrás de todos nós.

― Vocês não precisam fazer isso! Pelo que eu entendi eles já sabem que Adrien me ajudou, mas você e Norah não estão envolvidas ainda. É melhor vocês saírem daqui e se salvarem.

― Isso é muito estranho... ― iniciou ela com um certo descontentamento na voz ― Se você ainda lembrasse um pouco de mim saberia que o que você acabou de falar chega à beira do absurdo.

― Eu só queria...

― Arthur... Arthur... Arthur!

Uma voz masculina, lenta, alta e imponente veio de um homem que tinha acabado de sair da floresta, se revelando ao meio do camping, onde tinha o único feixe de luz disponível. Ao ouvir o nome, Dylan sentiu seu rosto sendo afundado ainda mais no chão, como se Arya tentasse escondê-lo na própria terra.

― Droga... Irvy... ― Ela praguejou baixinho.

― Eu sei que você está aí, Arthur. ― O homem voltou a falar, com um certo prazer meio medonho na voz ― Eu consigo sentí-lo, sua energia está tão fresca como um bebê recém-nascido. Eu posso até sentir o cheiro do seu poder correndo tão rápido pelas suas veias. O poder da Coragem...irônico, eu sinto como se cheirasse a desespero e medo.

Mesmo com a cabeça completamente pressionada ao chão por Arya, Dylan tentou visualizar a figura que estava, tecnicamente, falando com ele. No meio do camping, entre as barracas, ele conseguia ver a o desenho de um homem alto, podendo beirar seus mais de trinta anos. Ele tinha os cabelos castanhos claros e feições fortes. Porém, a coisa que mais chamava a sua atenção eram os olhos, tão dourados que pareciam duas bolas de luzes no meio do escuro, iguais aos olhos da mulher ao seu lado e de sua mãe. Será que eram parentes?

― Quem é? ― sussurrou ele para Arya.

― O nome dele é Irvy, e ele é um idiota, isso é tudo que você precisa saber. ― respondeu ela entre os dentes.

― Vocês dois são... parentes?

― Parentes? Graças aos deuses, não. ― Ela encarou Dylan meio incrédula ― Você deve estar achando isso por causa dos olhos, isso nada mais é do que uma característica das pessoas do clã da Justiça.

― Então ele é da...

Quando ia iniciar outra pergunta, sua cabeça foi afundada novamente no chão ao que o homem começou a falar novamente:

― Arthur, Arthur...Arthur... ― disse com uma certa ironia na voz ― Você e seus amiguinhos não vão aparecer? Você não era o Guerreiro mais temido dos Céus, o mais poderoso dos poderosos, o maior erro cometido por Deus? E está aí, escondido! Está com medo de um Guerreiro aposentado como eu?

― Guerreiro aposentado? ― indagou com certa dificuldade, recebendo um olhar de fúria de Arya, junto a um sinal de silêncio.

― Eu não vou perder meu tempo procurando por você e por seus amiguinhos. ― voltou a informar o homem ― Você me conhece bem, eu jamais faria isso. O que vai acontecer é que todos aqui nesse lugar, todos esses humanos, vão sentir um pouquinho de dor, só um pouquinho. Mas se você não aparecer o quanto antes, esse pouquinho pode se transformar em algo um pouco maior, posso pensar até em parar quando ouvir uns dez ou quinze gritos. É com você.

― Babaca... ― esbravejou Arya em um sussurro, seus olhos pareciam flamejar em ódio.

― Ele está praticamente gritando isso! As pessoas devem estar ouvindo, por que elas não saem das barracas e fogem daqui? ― perguntou Dylan tentando levantar um pouco o corpo.

― Nós podemos não ser vistos ou ouvidos por humanos se quisermos. Provavelmente ninguém está ouvindo nada, e se alguém sair das barracas, não verá nada também. ― respondeu ela olhando ao cenário a sua frente, como se analisasse a situação.

― Nada? Nenhuma coragem de sair? Ok. ― disse Irvy em um tom quase divertido ― Eu acho que vou fazer as coisas ficarem um pouco mais divertidas. O que acham de uma contagem regressiva? E ainda, com plateia.

Ao que ele disse isso, diversas sombras que estavam escondidas na floresta ao redor do camping começaram a caminhar para o centro do local, ficando perto de Irvy. Eram homens e mulheres que utilizavam armaduras douradas e pareciam estar preparados para uma batalha. O que mais chamou a atenção de Dylan naquela cena era que a maioria ali presente tinham cabelos vermelhos. Quase todos estavam atrás do homem, como um pequeno exército.

― Honestidade...― cochicou Arya quase que para ela mesma ― Não acredito que esse cretino está trabalhando para eles.

― Então, estou meio entediado agora. Vamos contar até três! ― Irvy voltou a falar em um tom de deboche ― Um...

― Droga! ― esbravejou Arya com uma voz baixa

― Arya, olhe para mim! ― disse Dylan tentando se esquivar do aperto da garota ― Ele me quer! Eu vou lá e está tudo resolvido. Eu não quero ninguém machucado por minha causa.

― Um e meio.

― Arya! ― voltou a exclamar Dylan.

Com isso, a garota voltou a segurar com mais firmeza a mão na cabeça de Dylan, proferindo um "cala a boca" lento e sem som, com um olhar quase fuzilante. Ele não conseguia se mover, pois estava deitado de barriga para baixo no chão, com um dos joelhos da menina pressionado em suas costas e a mão na sua cabeça. Por mais que ele soubesse que aquilo era um ato de proteção, pensou consigo mesmo que a Arya poderia usar um pouco menos de força bruta com ele.

― Dois! ― continuou Irvy, parecendo se divertir muito com aquilo.

― Falta pouco. ― sussurrou Arya, parecendo perceber algo que Dylan não conseguia ver.

― Dois e meio!

― Agora. ― disse ela em um tom quase inaudível, enquanto deixava seu olhar fixo na cena a sua frente como se esperasse por algo.

― Tre...

Antes que Irvy conseguisse completar a sua contagem, um grito de horror pareceu vir de uma das pessoas que compunham sem pequeno exército, fazendo-o desviar a atenção. Dylan não conseguia visualizar muito bem, mas conseguiu perceber que o grito vinha de um homem e que, logo em seguida, esse mesmo homem havia corrido para dentro da floresta novamente. Após essa cena, mais uma pessoa começou a gritar, sendo seguido por uma sequência de diversos sons agudos e apavorantes, como se algo extremamente ruim estivesse acontecendo por aí.

― O que está acontecendo? ― indagou Irvy alto, se dirigindo a todos ali presentes. Ele parecia não sentir nada, mas estava confuso com a quantidade de pessoas que começaram a gritar e correram de volta para a floresta.

― Socorro! ― Era a palavra que mais conseguia ser ouvida por ali.

Em apenas alguns segundos, todos pareciam estar vendo e sentindo a mesma coisa e os ruídos de terror que emanavam pareciam uma orquestra completamente sinistra. Dylan não conseguia ver ou sentir nada, pareciam que todos tinham enlouquecido, e pela expressão que Irvy compunha em sua face, ele também estava completamente cego naquela situação.

Muitos deles estavam jogados no chão, as mãos tampando o rosto como se tivessem medo de abrir os olhos. Outros estavam abraçados no próprio corpo, como se aquele ato trouxesse um pouco de proteção. Outros apenas gritavam e corriam para a floresta, como se algum monstro ou fantasma estivesse atrás deles. Alguns choravam em pânico, um choro sofrido e alto que fazia com Dylan sentisse um certo temor também.

― Pare agora mesmo! ― disse Irvy em uma ordem enquanto agarrava um dos homens pela armadura, o impedindo de correr para a floresta ― Me diga! O que está acontecendo?

― Medo! Medo! ― respondeu o homem enquanto o olhava com os olhos arregalados.

― Medo? Medo do que? ― Ele retrucou, sem soltá-lo.

― Eu não sei, eu não sei! Mas estou com medo! ― gritou o homem.

― Mas o que aconteceu? Ninguém sente medo e não sabe do que!

― Algo vai acontecer! Eu consigo sentir, eu consigo sentir! ― gritou o homem pouco antes de conseguir se desvencilhar do aperto e sair correndo para o escuro da floresta.

― Não sabe do que está com medo... ― Irvy parecia estar deduzindo algo.

― O que está acontecendo, Arya? ― perguntou Dylan enquanto observava a cena, tentando conter um sentimento negativo que crescia em seu peito.

― Respire fundo, você vai entender. Fique tranquilo, não vai chegar em você, estamos longe. ― tranquilizou ela, mas o rapaz continuava sem entender nada.

― Um medo sem motivo... mas isso está óbvio. ― Irvy voltou a concluir sozinho no centro do camping ― Compaixão, só pode ser Compaixão! ― ao olhar ao redor, ele percebeu que todos já haviam corrido em direção a floresta ― Um poder para atingir tantos, só uma pessoa agora pode fazer isso.

― Quem poderia ser? ― uma voz feminina e infantil parecia vir de uma das árvores que rodeavam o camping.

― Essa voz...― sussurrou Dylan, reconhecendo quem seria a pessoa.

― Então, o clã da Compaixão está envolvido nessa situação também? ― perguntou Irvy com um sorriso sarcástico no rosto.

― Não, nada disso! ― respondeu a menina de forma calma ― Eu não sou meu clã, eu sou apenas Norah!

Ao que disse isso, Irvy virou o corpo, podendo visualizar a figura de uma garota pequena sentada em um dos galhos mais altos da árvore atrás de si. Então, ele disse em um tom sóbrio:

― As atitudes de um guerreiro reflete todo o clã. Ou você não aprendeu que deveria ser um exemplo a ser seguido por todos de Compaixão? Você deveria ter o melhor comportamento e não compactuar com os crimes de seus amiguinhos.

― Ah sério? ― perguntou ela, mantendo o sorriso no rosto, pouco antes de descer do galho em um salto quase angelical ― E você, Irvy, como um Guerreiro aposentado não deveria estar ameaçando dezenas de seres humanos. Como você disse mesmo? Eles iam sentir uma dorzinha? Muita dor? Não parece o comportamento ideal de um exemplo do clã.

― Como você mesmo disse... ― iniciou ele, antes de se movimentar para perto de Norah em um ato quase imperceptível aos olhos comuns, agarrando o pescoço da menina com uma das mãos e colocando certa força ― Eu sou um Guerreiro aposentado. Eu não preciso ser um exemplo mais.

A garota recebeu o aperto sem retirar o sorriso do rosto, parecendo tranquila com a agressividade que o outro impunha sobre si. Enquanto isso, os gritos de horror e medo continuavam ecoando pela floresta ao redor deles.

― Você vai me matar? ― perguntou ela de forma branda.

― Eu preciso deles, interrompa seus poderes agora! ― esbravejou o homem, não parecendo diminuir a força sobre o frágil pescoço feminino.

― O que você vai fazer se eu não parar?

― Sua morte vai ser muito justificável no Céu! ― ameaçou ele, os olhos parecendo cada vez mais dourados, como se a raiva os fizesse brilhar ainda mais.

― Arya! ― exclamou Dylan observando a cena de longe, logo após tentar se livrar do toque forte da garota― Nós precisamos ajudá-la!

― Se você não calar a boca agora e parar de tentar correr, eu vou fazer todos os músculos do seu corpo perderem qualquer força. Você está me ouvindo? ― vociferou a loira. Ao que ela encarou Dylan, ele conseguia ver que seus olhos brilhavam tanto quanto os de Irvy.

― Mas ele vai matá-la! Nós precisamos ajudá-la! ― protestou ele.

― Você realmente acha que ela precisa de ajuda? ― perguntou Arya parecendo meio incrédula ― Sua falta de memória está começando a me irritar.

― Então se não vamos ajudá-la, vamos ficar aqui escondidos?

― Eles estão cercando tudo, não é seguro sair agora. ― disse ela, parecendo olhar ao redor.

― Então o que vamos fazer? Esperar aqui e não fazer nada?

― O que você acha que está acontecendo? Nós já estamos fazendo algo!

― O que estamos fazendo? ― indagou ele, parecendo perdido na conversa.

― Aqui nós trabalhamos em equipe. ― iniciou ela ― Apenas deixe-o terminar.

― Trabalho em equipe? Deixar quem terminar?

Ao que ele disse isso, um movimento atrás dos dois fez com que Dylan prendesse a respiração por alguns segundos devido ao susto. Ao que ele virou a cabeça, conseguiu ver o corpo de um homem ruivo desacordado ser colocado sem muito cuidado atrás de Arya. A pessoa que trouxe o peso levantou-se rapidamente e o encarou com os olhos azuis e límpidos, pouco antes de informar:

― Pronto. Tudo limpo nessa direção. ― era Adrien.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.