Seven Days Of Fear
1 Prólogo
Notas iniciais
Eu odeio Jack.
Esse é o único pensamento que passa pela minha cabeça enquanto arrasto os pés pela trilha quase apagada rumo ao acampamento que com certeza não é do meu irmão. Me recuso a acreditar que ele realmente fez isso, mas não existe nenhuma outra explicação. Isso é bem típico dele. Nossos pais tinham sido bem claros quando discutimos aquele assunto pela última vez. Se Jack queria ir acampar com aqueles amigos drogados dele, teria que me levar junto. Eu sei, eu sei, um garoto de quinze anos no meio de caras da faculdade não pode dar certo, mas eu não tenho escolha. Na verdade, achei que quando fossem me buscar, os amigos dele me colocariam num saco e largariam no porta-malas até a semana acabar. Em vez disso, simplesmente não me buscaram, me deixaram esperando por eles por horas.
Pelo menos meu irmão foi forçado a me dar o endereço do lugar, para o caso de algo acontecer, assim eu podia ir atrás deles. Mas é claro que Jack ia me sacanear. O lugar que eu estava definitivamente não é o escolhido por eles. Deve fazer anos que ninguém coloca os pés nesse camping, o mato está tão alto que alguns pontos já batem quase na minha cintura. A única coisa que diz que aquele lugar é habitado, além de placa borrada atrás de mim, é a casa modesta feita de madeira para a qual me dirijo. As tábuas que a formam parecem muito velhas, com uma longa varanda coberta de poeira e teias de aranha cobrem cada espaço possível. Paro na porta, me perguntando se alguém mora ali, ou se a casa também foi abandonada. Mas quando bato, alguém abre o portal.
— Sim?
Fico sem fala, a pessoa que causa um susto quando seu rosto surge na porta. A velha é baixa, deve ter alguns centímetros a menos do que eu (ainda aguardo por meu “surto de crescimento adolescente”), e tem a pele enrugada demais, parece até uma uva passa. Seus cabelos brancos encardidos estão despenteados, suas unhas são longas e seus dentes, amarelados. Parece confusa a princípio, mas ao me ver, sorri, o que a deixa ainda pior. Até tento retribuir o gesto, mas ela me assusta demais, desisto. Preciso desviar os olhos e engolir em seco para falar com ela.
— Ahn... Por acaso um grupo de caras, de uns vinte e poucos, passou aqui? Eles têm cara de drogados, deve ser fácil saber quem são.
A velha continua a sorrir de modo perturbador para mim. – Não, faz muito tempo que ninguém vem aqui... Uma pena, é tão bom ter companhia por aqui.
— Aham. – concordo, saindo de perto dela.
Desço os degraus da varanda, dando-lhe as costas e tirando o celular da mochila. Teria que ligar para os meus pais e pedir para que me buscassem. Isso seria um saco, mas pelo menos poderia me vingar de Jack quando chegasse em casa. Poderia postar aquelas fotos dele imitando Elvis no chuveiro ou dizer para Mandy Harrysson que ele é gay. Bem, eu vou ser morto quando meu irmão voltar, mas menos assim, valeria a pena. Praguejo baixo ao ver o celular. Sem sinal. Para que fim de mundo Jack tinha me mandado?
— Celulares não funcionam aqui. – ouço a voz da velha vindo de trás. – Mas tenho telefone aqui, se quiser usar.
Volto a olhar para ela, que ainda me encara com um sorriso afetado. Não sei explicar, mas sinto algo de muito ruim vindo dela. Mesmo assim, preciso sair dali de algum jeito, e aquele parecia ser o único jeito. Concordo, hesitante, e a sigo para dentro da casa. A morada não é tão pequena quanto parece à primeira vista, com uns poucos corredores longos levando a várias salas. Percorremos muitos deles, e eu me perguntava pra que tantas salas, se nenhuma delas levava a nada importante. O silêncio me incomodava, resolvo quebrá-lo.
— A senhora não se sente solitária em uma casa tão grande? – realmente, não sei o que falar.
— Ah, às vezes. – responde, ainda indo para mais fundo da casa. – Meu filho passa mais tempo brincando com aqueles garotos irritantes do que comigo.
— Você tem um filho? – não me contenho. Aquela mulher tem idade para ser bisavó, é difícil imaginar um menino brincando nesse lugar assustador.
— Ah, sim, ele está aqui. – ela se vira, e sinto um calafrio ao sentir seus olhos caindo sobre mim. – Gostaria de conhecê-lo?
— Não. – respondo automaticamente, por algum motivo essa idéia de apavora.
A velha continua me encarando, mas seu sorriso some, fica irritada. Incapaz de pedir desculpas, tento dar um sorriso sem graça, fracasso. Sem dizer nada, ela se vira e quase corre para uma sala mais afastada. Quando enfim a alcanço, ela segura a porta para que eu entre. A sala é pequena, redonda, possui uma janela firmemente fechada. Na minha frente, uma mesinha com um telefone que parece ter sido feito no tempo do meu avô. A porta é fechada, mas não trancada, isso me acalma. Teclo os números, mas não escuto nada. Oh, Deus, será que aquilo estragou justo quando eu preciso usar? Ouço a porta ranger ao ser reaberta. Me viro, imaginando que a velha venha avisar do problema com o telefone. Mas o que vejo é um grande vulto avançando sobre mim, um borrão de metal mirando minha cabeça.
Depois, a escuridão.
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