Seven Days.

2 "Le restes de moi..."


Notas iniciais
Sofro
de carências.
Casebre.

Esteban caminhava cujo seus pés ardiam a cada passo em que dera. Pensou que talvez ela pudesse estar tão assustada que não quis arriscar ir embora. Mas havia algo de errado com ela. Algo muito estranho. Não o olhava diferente, nem mesmo igualadamente.

Ele abriu a porta quando não encontrou nenhum vestígio da garota. Por um lado, tudo estava bem. Pelo outro, ele estava destruido e não sabia o porque. Ela era a velha e conhecida personagem fictícia dos filmes melosos de romance. Ruiva, continha lindas sardas nas bochechas e isso o fazia suspirar. Seu lindo corpo e suas curvas esbeltas o fazia estremecer.

Não haviam silicones e nem sinais de alguém que frequentava a academia ou fazia milhões de exercícios diariamente para se manter em forma. Parecia tão natural. O ruivo de suas madeixas caiam como cascatas nos ombros de Serafina e nem mesmo este pequeno detalhe escapou das vistas de Esteban.

Realmente estava atraído, e não tinha culpa. Qualquer um ficaria. Ficou surpreendido por justamente ele ter ficado. Ela não era tão simples e nem complicada. Apenas estava ali. Trocaram mínimas palavras que o engoliram e o fizeram ter dores de cabeça.

Precisava pensar. E só havia um lugar que não o fizera mal.

2 horas depois.

Esteban caminhava até a cachoeira que costumava visitar desde pequeno. Caminhou até a parte o que fazia sentir um pouco de liberdade. A liberdade que nunca tinha.

Deixou seu rádio de lado, junto com suas roupas. Mergulhou como se necessitasse daquilo. E na verdade, realmente necessitava. Sentiu o cheiro das águas e o calor que seu corpo sentiu quando avistou alguém.

Era uma garota.

Estava de costas e seus cabelos escorregavam a parte detrás do seu corpo. Conseguiu observar as curvas da menina. Eram doces como a de Serafina.

Viu que era ela assim que ela se sentou e o viu. Seu olhar era amigável e compreensível, o bastante para que ele se aproximasse.

Conversavam pelo olhar. Não trocaram nenhuma palavra, outra vez. Os pés da garota balançavam e agitavam as águas, e isso também o incomodou. Pareciam gritos em seus ouvidos.

Segurou-a pelo pescoço e quase viu lágrimas em seus olhos. Era como se estivesse tendo o mesmo comportamento com outras mulheres, e quando percebeu, imediatamente parou. Não porque ela não merecia, mas porque não conseguiu ser cruél com ela.

Virou-se tão rapidamente que não pôde mais olhá-la nos olhos. Ela o instigou quando tocou seus dedos num ato desesperado de que ele se acalma-se e sentisse segurança quando estivesse perto dela.

O toque que Serafina lhe entregou fez com que Esteban lembrasse das palavras tatuadas em sua pele, em seu peito.

"Le restes de moi..."

Os restos de mim.

Esteban tinha um amor especial pela lingua francesa. Não só por apenas ter sido a lingua que sua querida e falecida mãe o ensinou, mas por dá-lo outro sentido da vida. Por saber algo a mais do que governar um morro e não ter sentimentos por 365 dias do ano. As vezes era bom, mas sempre existia um vazio dentro dele.

Logo completaria seus trinta anos e não compartilhou nenhum sorriso com alguém. Uma companheira, quem sabe, apesar de nunca ter chegado a conclusão de que precisava de alguém por perto. Mas ele precisava, e mais do que nunca.

Fechou os olhos e lembrou do dia em que segurou as mãos de seu pai e o mesmo soltou. Seus dedos estavam vermelhos e cobertos de sangue desde que seu próprio pai o abandonou naquele mundo cruél e de pessoas que nunca o entenderiam. E ele se tornou mais um entre todas aquelas pessoas.

Viveu pelas ruas do Rio de Janeiro durante muito tempo, e na maioria das vezes, não tinha o que comer. Não tinha uma palavra acolhedora e sofrera feridas que ninguém se ofereceu para curar. Então ele mesmo se levantou e seguiu em frente.

Hoje ele é dono de um dos maiores morros do Rio de Janeiro.

Tentou durante muito tempo não guardar rancor, mas não conseguiu quando descobriu toda a verdade. Seu pai havia se matado por um relacionamento fora do casamento que continha com sua mãe – Anastácia. Lembrou-se também de todas as vezes que ouviu os soluços que vinham do quarto ao lado, quando sua mãe chorava. Do olhar acolhedor que ela transmitia para não assustá-lo e acreditar que havia alguma parte bonita dentro de seu pai.

Mas depois de um tempo, ele viu que não.

Os erros de seu pai regrediram em algo que fez Esteban pedir ajuda em portas e em casas. Foi exatamente nesses momentos que passou de acreditar na bondade das pessoas.

Não conseguia alimentos com ela. Tinha de comer do lixo, dos restos de comida dos restaurantes.

Não sabe explicar como foi parar ali, naquela posição. Só soube que teve de entrar no tráfico para sobreviver. Nunca se envolvera com drogas, mesmo que já tenha tido provado. Era focado no que fazia para que um dia fosse respeitado naquele lugar. Desde que entrara ali, era alguém de poucos amigos. E isso foi bom em certos aspéctos. Não eram tantos que enchiam-no a paciência e pouca gente sabia sobre ele.

E agora ele tinha o poder sobre as pessoas.

Serafina o cutucou.

– Ei, cara! – ele se assustara. Por tê-lo assustado quando lembrara de seu passado, mas ainda mais por ela ter soltado algo tão "imprudente".

– Cara? – Esteban deu um sorriso de canto.

– O que foi? – ela retribui-o – Não sou cautelosa o tempo inteiro, senhor. – riu, e o mundo de Esteban havia parado por um tempo.

O sorriso dela. Era verdadeiro e ingênuo. Ou parecera ingênuo. Na verdade, havia muitas versões sobre ela que ele não conhecia.

– Finalmente saiu da minha casa? – ele disse inocentemente, não queria provocá-la.

– Eu não abandonei aquele local, mesmo achando que era isso o que você queria, mesmo que eu não consiga entender porque alguém me sequestrara e depois deixara o caminho limpo para mim. – Serafina fechou os olhos – Eu só precisava de ar. Mas não aquele. Não naquele lugar.

– Entendi, você não pode respirar o mesmo ar que nós, vagabundos.

– Não foi o que eu quis dizer... – ela disse num ato desesperado de se desculpas – Eu sinto muito.

– Ah, claro. – ele olhou-a com raiva, mas logo levantou-se e foi até suas roupas.

– Aonde você vai? – Serafina estava atrás dele agora, tocando o seu ombro – Realmente me desculpe, não quis ser grosseira. Apenas precisava sair dali. Me senti um peixe num aquário, não podia sair. Mas quando percebi que estava querendo que eu fosse embora, eu sai. Não sabia para onde. Então caminhei até chegar aqui.

– Tenho certeza de que você não passa de uma garota fútil e de que não tolera os infiéis, os mais baixos, os que faltam com a educação, que não ousam em ter cuidado com as palavras.

– Senhor, desculpe, mas qual é o seu nome? – ela indagou.

Ele engoliu em seco. E não sabe porque disse seu verdadeiro nome.

– Esteban. – quando deu por si, já havia falado.

– Esteban, apenas me desculpe. Eu não quis ser grosseira, realmente. Já me expliquei, não tenho preconceito sobre as escalas que a sociedade criou entre os mais pobres e nós da classe alta. Inclusive consegui ser um pouco livre enquanto desci aquele lugar. Perfurou os meus pés, mas valeu a pena. Não haviam garotas que davam chiliques porque não poderiam comprar roupas da nova grife porque o "papai" bloqueou os cartões por conta dos gastos. Não sou como elas. Não sou elas.

"Não sou como elas." Ele sabia disso.

Caminhou até as rochas e antes que pudesse mergulhar novamente, alguém o empurrou. Quando levantou-se para ver quem era, Serafina pulava logo depois. Ele a repreendeu, mas não resistiu ao sorriso e a simplicidade dela. Era fina e ao mesmo tempo, rubusta.

Brincaram com as águas até que cansassem e sentissem frio.

1 hora e 39 minutos depois.

Estavam de volta. Ela concordara em voltar com ele para lá, chegara a ser até confortável viver entre todos aqueles traficantes que constantemente sempre a tivera assustado. Mas parecia estar melhor entre eles do que com as pessoas em que costumava conviver todos os dias. Pessoas que julgavam-a pelo o que queria viver e pelas decisões que escolhera em sua vida.

Era verdade o que dira para ele. Não era uma daquelas garotas. Tinha seus segredos também, segredos que até assustara a ela também.

Era casada com Robsten O'Conner. Era severo e alguém altamente perturbado psicológicamente. Ela não sabia como ainda não a havia encontrado. Mas logo, logo, encontrariam-a. Então aproveitaria o máximo que poderia viver. Era diferente conviver com pessoas distintas com as que costumava conviver.

Esteban também a encantara.

Esteban...

Retirava sua camisa para ir ao banho. Não havia reparado como era bonito por conta de como haviam se divertido na cachoeira. Nunca se esqueceria daquele momento.

Esteban era louro e seus olhos eram pretos ao invés de castanhos. Isso o diferenciou de todos os outros. Sua barba faria com que suas pernas ficassem bambas caso seus rostos estivessem tão perto ao ponto de seus lábios se encontrassem com os dele.

Não teria chance, ela quase teve certeza. Não se sentia atraente. Seu corpo não era tão chamativo, mesmo que os homens sempre acompanhassem seu rebolado quando ela caminhava. Ninguém lhe dissera com tanta sinceridade que era bonita, além dos comentários sórdidos que a assustara.

Serafina era linda e não sabia.

Seus pensamentos voltaram novamente para Esteban quando seu sorriso a acompanhou assim que ele caminhou ao seu lado, em destino ao banheiro.

Bateram-se. Seus corpos estavam juntos agora.

E aconteceu o que ela temera. Sua barba fizera com que suas pernas estivessem bambas.

Esteban percebeu. O olhar da garota estava rendido, e ele percebeu suas feições mudarem. Segurou-a pela cintura e rapidamente tocou seus lábios nos dela. Nunca havia sentido aquilo antes. Os lábios movimentando-se por uma força sobre natural que nem ele mesmo havia conhecido. Conhecia tantas que havia beijado noites atrás por apenas diversão e agora beijava Serafina.

Serafina, a dama que sequestrara e que agora beijava-o por vontade própria.

Ela pulou e suas pernas entrelaçaram-se no quadril de Esteban. Ele segurou-a com tanta força que achou que poderia tê-la machucado. Caminhou até o banheiro e jogou-a contra a parede. Ela abriu os olhos com desejo.

Também nunca havia sentido tanta vontade antes. Ele retirou a camiseta de Serafina e logo, despiu-se.

Seus lábios passeavam pelos ombros da menina que o fazia ter pensamentos estranhos e agora estavam se tornando realidade. Não era frio e nem cheio de sentimento. Era cheio de desejo. Um desejo incontrolável e que ele não conseguia controlar.

Nem ela mesma, que se sentia fraca por não evitá-lo.

Seria quase impossível olhá-la sem que houvesse o desejo para atormentá-lo um pouco mais. Mas é apenas desejo. Uma vontade incontestável de tê-la por perto e longe ao mesmo tempo. Não era amor. Não podia ser. Não saberia lidar. Não saberia perdê-la caso o tempo levasse-a. Hoje não deve ser amor.

Amanhã, talvez.