Seven
1 SIRIUS BLACK E JAMES POTTER
Notas iniciais
1.
Para sua mãe, Walburga Black, uma bruxa de uma linhagem distinta de bruxos sangue-puro, expressar emoções era um defeito inaceitável, especialmente para alguém cujo nome carregava o peso de séculos de soberania e orgulho. Contudo, para uma criança de brilhante personalidade como Sirius Black, era impossível compartilhar tal ideia.
Em sua inocência infantil, ele procurava na mãe o carinho que qualquer criança anseia, mas encontrou apenas indiferença, uma bofetada e uma frieza tão cortante quanto o vento mais cruel da noite.
Ele tinha apenas sete anos.
Depois disso, nunca mais buscou por afeto no olhar daquela que o trouxe ao mundo; muito pelo contrário: Sirius aprendeu que suas lágrimas eram uma fraqueza, que chorar só resultaria em ser trancado em seu quarto 一 sem comida 一 por horas e que seu pai, Orion, não escutaria seus clamores por socorro, pois fingia que nada anormal acontecia na Mui Antiga e Nobre Casa dos Black.
Aos sete anos, ele sabia que o mundo não era como nos contos de Beedle, o Bardo. Afinal de contas… não havia final feliz.
2.
O Natal na Mui Antiga e Nobre Casa dos Black era, no mínimo, peculiar. Primeiro, porque não era chamado de Natal, mas de Yule. E, segundo, porque o dia era repleto de rituais e celebrações estranhas: orações para uma entidade que ele mal conhecia, sacrifícios em nome da Mãe Magia, oferendas de sangue e feitiços obscuros que jamais poderiam ser mencionados fora da sala de rituais. A família Black era singular até mesmo em suas festividades.
No entanto, havia uma tradição que os Black compartilhavam com as celebrações de outras pessoas comuns: o jantar em família.
一 E sobre sua futura pretendente, Sirius? Quando é que vamos conhecer a futura Matriarca da Família Black?
Sirius, que estava prestes a completar onze anos e, assim, finalmente possuiria a liberdade que tanto ansiava em Hogwarts, engasgou com o suco de abóbora que tomava.
一 Quê? Finalmente perdeu os neurônios que restavam, tia Lucretia?
Sua mãe, sentada ao lado dele, não hesitou em dar-lhe um bofetão. O restante da família ignorou o acontecimento, mais do que familiarizados com sua malcriação e com a tentativa de disciplina.
一 Sirius ainda é muito novo para isso. Além disso, não há uma bruxa puro-sangue decente nesta geração, sinceramente 一 seu pai finalmente resolveu proferir algumas palavras, mesmo que elas fossem desencorajadoras. Afinal de contas, Sirius não queria casar! Pelas barbas de Merlin, ele tinha apenas dez anos!
Seu avô e patriarca da família, Arcturus (pelo menos até bater as botas e o título ser transferido para seu pai), concordou e bateu no copo com um talher, fazendo um tim tim tim inundar o cômodo e cessar todas as conversas paralelas que aconteciam na longa mesa em que estavam sentados.
一 Sirius está prestes a completar onze anos e iniciará sua jornada na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts 一 começou o avô, lançando-lhe um olhar sério que parecia perfurar sua alma. 一 Assim como todos os Black, esperamos que você tenha sempre em mente que estará representando a Família. Há um legado em seu sangue, Sirius. Um legado importante. Um legado de soberania, inteligência e pureza.
Arcturus fez uma pausa, deixando o peso de suas palavras pairar no ar, enquanto todos na mesa se mantinham em silêncio absoluto, observando o jovem Sirius com uma expectativa quase palpável.
— É seu dever preservar e honrar esse legado — continuou, a voz grave e imponente. — Não apenas para você, mas para todos nós. A história da nossa família é escrita com o sangue dos nossos antepassados, e é seu dever que a herança mágica superior da nossa linhagem permaneça intacta. Não há espaço para fraquezas, não há margem para erros. Qualquer desvio será visto como uma traição não apenas aos seus pais, que dedicaram cada fibra de seu ser para criá-lo, mas também ao próprio nome Black.
Como se seus pais dessem a mínima para ele. Mesmo com esse pensamento, Sirius sentiu um frio gelado percorrer sua espinha, como se estivesse sendo envolvido pelas sombras da sala de rituais. Ele sabia que o avô não estava apenas falando; ele estava exigindo, comandando e ameaçando. A mensagem era clara: falhar não era uma opção.
— Lembre-se disso, garoto — Arcturus concluiu, inclinando-se levemente à frente, os olhos fixos nos de Sirius. — Não nos decepcione.
Com a garganta fechada e as mãos suando, ele fez o possível para segurar o olhar do avô. Seu coração batia forte, preso entre a raiva e o medo. Ele odiava aquilo. Odiava tudo! Ele não queria participar dos rituais, não queria legado nenhum e, muito menos, aquele legado. As palavras de seu avô só confirmavam o que o jovem Black já sabia: ele estava sozinho.
Mas antes só do que mal-acompanhado.
3.
Foi na plataforma nove e três quartos que Sirius encontrou James pela primeira vez. Quando Sirius o viu, o único pensamento que passava por sua cabeça era: “Caramba, que cabelo esquisito!”
James Potter havia herdado o traço singular que reivindicava todos os Potter. Junto com seus olhos castanho-esverdeados, seus óculos tortos e seu sorriso travesso, o menino de onze anos era alguém que 一 aos olhos de adultos 一 exalava problemas.
Para Sirius? Ele exalava aventura.
“Não nos decepcione.” As palavras ditas por seu avô ecoavam em sua mente, pairando sobre si como uma nuvem amaldiçoada, fazendo-o hesitar em sua próxima ação. Sirius tinha medo do que aconteceria caso ele desobedecesse às regras e envergonhasse os Black. Mas, mesmo com medo, ele ansiava pela liberdade de decidir seu próprio destino.
Respirando fundo e envolvendo-se em um manto invisível de coragem, Sirius seguiu o garoto para o compartimento onde estavam outros dois meninos sentados e, apontando para o malão particularmente pesado que James estava tentando levantar, perguntou:
一 Ei, você precisa de ajuda com isso?
James olhou para ele com curiosidade.
一 Seria ótimo, valeu! 一 respondeu James com um sorriso fácil.
Os outros dois garotos, um menino loiro com ar estudioso e um garoto baixinho e rechonchudo, se apresentaram à dupla de recém-chegados:
一 Eu sou Remus Lupin 一 disse o garoto loiro, estendendo a mão.
一 E eu sou Peter Pettigrew 一 completou o garoto baixinho, tímido.
一 James Potter 一 disse James, apertando as mãos dos novos colegas.
一 Sirius Black 一 se apresentou Sirius, com um aceno e um sorriso hesitante.
O resto, como dizem, é história.
4.
As chamas da lareira no Salão Comunal da Grifinória dançavam suavemente, projetando sombras tremulantes nas paredes de pedra e proporcionando um calor acolhedor contra o frio noturno que se infiltrava pelas janelas antigas. A maioria dos estudantes já havia se recolhido para seus dormitórios, deixando o espaço quase deserto, exceto por uma figura sentada próxima ao fogo crepitante.
Sirius estava afundado em uma das poltronas macias, com os olhos fixos nas chamas enquanto seus pensamentos giravam caoticamente. Seus longos cabelos escuros caíam sobre o rosto, parcialmente escondendo a expressão de preocupação que raramente deixava à mostra. Nas mãos, segurava um pergaminho amarrotado — uma carta recente de sua família.
James entrou na sala, esfregando os olhos sonolentos após uma longa sessão de estudo na biblioteca com Remus e Peter. O período de exames estava se aproximando e, ao contrário do que os demais alunos pensavam a respeito dos Marotos, eles dedicavam-se excepcionalmente em seus estudos (bom, pelo menos nas matérias que os interessavam).
Ao ver seu melhor amigo sozinho e perdido em pensamentos, sua expressão imediatamente mudou de cansaço para preocupação. Ele conhecia aquele olhar distante de Sirius; algo estava errado.
Sem dizer uma palavra, James caminhou até a lareira e jogou-se na poltrona ao lado de Sirius, esticando as pernas e suspirando profundamente. Após alguns instantes de silêncio confortável, ele virou a cabeça e observou o amigo mais de perto.
— O que está pegando, Almofadinhas? — James perguntou.
Sirius demorou alguns segundos antes de responder, seus olhos ainda fixos no fogo.
— Nada demais, Pontas — respondeu com um meio sorriso que não alcançou os olhos. — Apenas... família.
James arqueou uma sobrancelha, sabendo que havia mais por trás daquela resposta vaga. Ele estendeu a mão e pegou hesitantemente o pergaminho das mãos de Sirius, que não resistiu. Desenrolando a carta, James leu rapidamente, seu rosto endurecendo a cada linha. Quando terminou, soltou um suspiro irritado e deixou o pergaminho cair no chão.
— Eles nunca vão desistir, não é? — comentou James, balançando a cabeça em desaprovação. — Sempre tentando te puxar de volta para aquele buraco negro de tradições ultrapassadas.
Sirius deixou escapar uma risada amarga.
— É como se eu fosse uma extensão deles, uma ferramenta para continuar o legado sombrio da família Black — murmurou, finalmente desviando o olhar das chamas para encarar James. — Às vezes, sinto que não importa o quanto eu tente me afastar, as correntes estão sempre lá, me puxando de volta.
James inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos enquanto olhava firmemente nos olhos de Sirius.
— Ouça, você não é como eles, nunca foi e nunca será — afirmou com convicção. — O fato de você estar aqui, sentado comigo no Salão Comunal da Grifinória, preocupado por ser diferente deles, já prova isso.
Sirius passou uma mão pelos cabelos, claramente frustrado.
— Mas e se... e se essa escuridão estiver em mim também? — sua voz quebrou levemente, revelando a vulnerabilidade que raramente mostrava. — E se eu acabar me tornando exatamente como eles esperam, um Comensal da Morte? Aposto que meu irmão já está nas garras deles, assim como Bellatrix.
James ficou em silêncio por um momento, considerando cuidadosamente suas próximas palavras. Então, determinado, ele se levantou e ficou em frente a Sirius, colocando as mãos nos ombros dele.
— Escute bem o que vou te dizer, Sirius Black — começou, a voz firme e cheia de emoção. — Você não é uma má pessoa. Você é uma pessoa muito boa, que, infelizmente, nasceu em uma família muito ruim, entendeu? — Ele apertava os ombros de Sirius com força. — Além do mais, o mundo não se divide entre gente boa e Comensais da Morte. Todos temos luz e trevas dentro de nós. O que importa é o lado no qual decidimos agir, isso é o que realmente somos. E você, meu amigo, escolheu seu próprio caminho, apesar de toda a pressão e ameaças. Particularmente, isso diz muito sobre o seu próprio caráter.
Sirius levantou o olhar, encarando James.
— Mas e se um dia eu fraquejar? E se essa guerra que está se formando lá fora me puxar de volta para onde eu não quero estar? — questionou, a insegurança era evidente em sua voz.
James apertou os ombros de Sirius com mais força, como se quisesse transmitir sua certeza através do toque.
— Então eu estarei lá para te puxar de volta — declarou com um pequeno sorriso.
Ele soltou os ombros de Sirius e voltou a se sentar na poltrona ao lado, mas seus olhos não deixaram os do amigo.
— E não se esqueça, você sempre terá um lar conosco. Meus pais te adoram, você sabe disso. A Cabana dos Potter sempre terá uma cama e um prato de comida esperando por você. Minha mãe até diz que você é o segundo filho que ela nunca teve a chance de ter.
Um sorriso genuíno começou a se formar nos lábios de Sirius ao ouvir aquelas palavras.
— Sua mãe só diz isso porque eu sempre elogio as tortas dela — brincou, tentando aliviar a tensão. James riu, relaxando na poltrona.
O silêncio confortável se instalou novamente entre eles, sendo interrompido apenas pelo crepitar do fogo e pelo ocasional estalo da madeira queimando. Após alguns minutos, Sirius suspirou profundamente, sentindo-se mais leve do que antes.
— Obrigado, Pontas — disse sinceramente, virando-se para encarar o amigo. — Não sei o que faria sem você, Remus e Peter. Vocês são minha verdadeira família.
James sorriu amplamente, estendendo a mão com a palma aberta entre eles.
— E sempre seremos — afirmou. — Malfeito, feito, certo?
Sirius colocou a mão sobre a de James, selando a promessa não dita entre eles.
— Malfeito, feito — concordou com convicção.
5.
Quando Sirius o viu pela última vez, James Potter estava muito bem casado com sua amada ruiva, Lily. Mais que isso: o famoso Maroto teve a proeza de procriar e, agora, Sirius era o melhor padrinho que um jovem bruxo poderia ter! Mas o único ser humano que possuía esse privilégio era o pequeno Harry.
Quando Sirius o viu pela última vez, ao invés de estar rodeado de amigos, família e muita alegria, com cabelos grisalhos e rugas no rosto, James Potter estava estatelado na escada de sua casa em Godric’s Hollow: os óculos estavam tortos em seu rosto, seus olhos estavam abertos 一 congelados eternamente em uma expressão de espanto 一 e ele vestia aquele ridículo roupão que Sirius havia dado de presente como uma brincadeira.
Sirius não sabia como reagir.
Seu irmão estava morto.
As palavras ecoavam em sua mente, repetidas como um mantra insuportável. Cada repetição era um golpe direto em seu coração, uma dor aguda que parecia não ter fim. Ele tentava afastar os pensamentos, tentava encontrar alguma forma de se convencer de que aquilo era um pesadelo do qual ele acordaria.
Seu irmão estava morto!
Não, não, não, não-não-não-não! NÃO!
Sirius sentiu uma onda de fúria crescer dentro de si, uma fúria tão intensa que parecia queimar cada fibra de seu ser. Ele não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Não podia acreditar que James estava realmente morto.
E era tudo culpa daquele maldito: Peter Pettigrew.
O nome era como veneno em sua mente. O rato traiçoeiro que havia vendido James, Lily e Harry ao Lorde das Trevas. Aquele mesmo Peter que sempre fora o mais fraco do grupo, que sempre se refugiava na sombra dos outros. Sirius se lembrava de tantas vezes em que havia protegido Peter, das vezes em que James havia garantido que Peter estivesse incluído, que fosse considerado como um igual. E aquela era a gratidão que ele recebia? Aquela era a lealdade de Peter?
Com um soluço engasgado no pescoço, os olhos marejados de lágrimas e o corpo tremendo de fúria, Sirius afastou-se da casa em ruínas e subiu em sua moto voadora. O rugido do motor soou como um grito de guerra, uma promessa silenciosa de vingança. Seu coração batia acelerado, a raiva agora dominando cada pensamento, cada fibra de seu ser. Uma única frase ecoava incessantemente em sua mente, deixando-o cego de fúria: ele estava sozinho outra vez.
Mas, desta vez, a solidão vinha com uma missão: ele encontraria Peter. Ele o caçaria até os quintos dos infernos, se fosse necessário.
E ele o faria pagar.
Sirius não teria paz até que a justiça (vingança?) fosse feita… mesmo que por suas próprias mãos.
6.
Às vezes, Sirius odiava olhar para Harry.
Era uma tortura silenciosa. Cada vez que seus olhos pousavam naquele rosto, a semelhança com James o atingia como um soco no estômago. O mesmo cabelo rebelde, o mesmo sorriso meio torto. Mas, ao encarar mais de perto, a ilusão se quebrava e ele era confrontado com aquela verdade dolorosa: aqueles olhos não eram os castanhos-esverdeados de seu melhor amigo, seu irmão. Eram duas esmeraldas que Harry herdara de Lily, brilhantes e penetrantes, lembrando-o constantemente de tudo o que havia perdido.
Impostor, impostor, impostor!
Sua mente ecoava como um mantra cruel, enquanto seu coração perdia mais um pedaço. A dor era esmagadora, mas Sirius mantinha o rosto impassível, ocultando o turbilhão de emoções que fervilhavam em seu âmago.
Ele sabia que não era justo; Harry não tinha culpa de nada. Ele era apenas um menino, um sobrevivente de uma tragédia que o havia deixado órfão e sozinho, exatamente como Sirius. E talvez fosse isso que doía mais.
Afinal de contas, o que Sirius mais odiava em Harry não era sua semelhança com James, mas a assustadora semelhança com ele mesmo. Ele via nos olhos do afilhado a mesma dor que um dia conheceu tão intimamente: a dor da rejeição, dos maus-tratos e aquela fome desesperada por afeto, algo que nunca parecia ser saciado.
Semelhante reconhece semelhante.
Ele sabia o que era não ser amado por sua família de sangue, conhecia de perto a dor de sentir não ter lugar no mundo, de não ter raízes e um lugar para chamar de lar. Ele havia passado anos tentando se libertar dessas correntes invisíveis que o prendiam, e agora via em Harry um reflexo distorcido de si mesmo.
Era por isso que, apesar da dor que a presença de Harry trazia, Sirius fez uma promessa. Ele jurou que daria ao garoto todo o amor e carinho que James e Lily lhe dariam se estivessem vivos. Seria o porto seguro que nunca teve, o apoio que sempre faltou.
Porque, afinal de contas, Harry era sua única família agora. E Sirius sabia, melhor do que ninguém, que ter alguém ao seu lado quando o mundo parecia determinado a te destruir fazia toda a diferença.
6 + 1 = 7.
Em seus momentos finais, ele sabia sete coisas com plena convicção:
Seu nome completo era Sirius Black III, filho de Walburga Black e Orion Black. Seu nome provinha de uma longa e antiga tradição de nomear os membros de sua família com nomes de estrelas e constelações, e ele possuía o nome da estrela mais brilhante da constelação
Canis Major
.
Ele tinha um irmão mais novo chamado Régulo, que morreu por conta das artes das trevas, e eles nunca encontraram o corpo. O caixão de Régulo foi enterrado vazio e sua lápide estava no cemitério dos Blacks. Sirius não teve permissão para comparecer ao velório.
Hogwarts era sua verdadeira casa, e os Marotos, sua verdadeira família. Cada canto do castelo guardava uma memória querida, desde as travessuras até as noites passadas conversando com James à luz das estrelas. Ele havia construído sua família naquele castelo e a protegeria com unhas e dentes, custe o que custar.
James Potter não era apenas seu melhor amigo, mas seu irmão de alma. Quando James foi assassinado, sua perda deixou um vazio irreparável em seu coração, levando-o à beira da loucura. James foi a primeira pessoa que enxergou em Sirius,
Sirius
.
Entre sangue e amizade, sempre escolheria amizade. Sua família de sangue o repudiava, e a família que ele escolheu o acolheu. Esse dilema constante entre seguir os preceitos de sua linhagem e construir seu próprio caminho foi o que moldou sua vida e, no final de tudo, sua morte.
Traições podem vir de onde menos se espera. A decepção com Peter Pettigrew foi uma ferida profunda que não apenas destruiu os Marotos, mas também reforçou em Sirius a lição que James havia compartilhado consigo: todos temos luz e trevas dentro de nós; o que realmente importa é o caminho pelo qual decidimos seguir e o lado pelo qual decidimos lutar.
E, finalmente, ele sabia que morreria lutando, assim como sempre viveu. A luta era uma parte intrínseca de quem ele era, algo que corria em suas veias tão naturalmente quanto o sangue. Desde cedo, teve que lutar para se libertar das garras opressoras de sua família, resistindo à sombra sufocante do nome Black. Teve que lutar para não ser reduzido ao peso de seu sobrenome, para provar que era mais do que o legado sombrio que lhe foi imposto. Lutar pela sua liberdade, por sua inocência roubada e, acima de tudo, lutar por Harry, o último elo que o conectava à vida que tanto prezava. Mesmo quando Bellatrix lançou o feitiço que o atingiu em cheio, ele sabia que estava partindo como sempre desejou: em batalha, defendendo aqueles que amava.
Enquanto caía pelo Véu, a realidade ao seu redor começou a desvanecer, substituída por visões de tempos mais felizes. O riso contagiante de James, as travessuras dos Marotos, o vento gelado batendo em seus rostos enquanto voavam em suas vassouras — tudo voltou em um turbilhão de memórias.
Ele sabia que, em algum lugar além do Véu, seu irmão o esperava com um convite para mais uma aventura. No fundo do seu coração, Sirius soube que não estava sozinho. Nunca esteve. Afinal de contas,
aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade.
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