Seus Olhos
31 Capítulo XXX
Notas iniciais

Abril de 2021
Quando Alicia sentiu seus pés tocarem o chão, sentiu seu corpo ser arremessado e sentiu a dor ao cair no chão. Sua mão foi instintivamente a barriga, por medo de perder o seu filho. Mas não quis se preocupar com isso naquele momento. Se levantou do chão e deu uma olhada, estava em sua vizinhança. Ela esperava que fosse o dia do chá de bebê, mas já era um pouco tarde. Mas seu olhar logo foi desviado para Pedro que se aproximava dela enfurecido.
— Eu tentei dar uma chance ao seu filho, Alicia. — Ele chegava mais perto.
— Eu não posso responder pela atitudes que meu filho tomará, mas você tinha a opção de não seguir esse ciclo de ódio. — Alicia tentava justificar.
— Ciclo de ódio? Ele matou o meu pai, porque ele não servia mais aos seus propósitos. Desgraçou uma família, minha mãe morreu de depressão logo depois, deixando uma criança sozinha para se virar em um mundo sem compaixão. — Cada palavra de Pedro atingia Alicia de uma forma que ela não esperava.
Imaginava o quão cruel o futuro poderia ser com uma criança. Tinha pena de Pedro, mas ele poderia seguir um novo caminho.
— Eu sinto muito, Pedro, mas você não pode querer seguir com essa vingança. — Alicia queria acalmá-lo, pois daquele modo temia pela vida de seu filho.
Pedro balançou a cabeça em negação e avançou para cima dela agarrando seus braços com força. Alicia tentou se soltar, mas não teve sucesso. Pedro era bem mais alto que ela e mil vezes mais forte.
— Pedro, por favor. — Ela implorava.
— Não me importo. — Ele concentrou toda sua força em seus braços e jogou ela com tudo no chão
Alicia sentiu seu corpo todo doer no momento que encontrou o chão duro e frio. Mais uma vez levou a mão a barriga e chorou, temendo mais ainda pelo filho. As coisas poderiam mudar? Naquele momento ela queria ter muito a certeza de que seu futuro já estava predestinado, mas não tinha.
— Alicia. — Ela ouviu a voz de Matheus e viu ele saindo de sua casa.
Ela respirou aliviada.
Matheus partiu para cima de Pedro o socando, mas sabendo que ali poderia chamar muita atenção, precisava levá-lo para longe.
— O que você fez? — Matheus gritou contra ele.
— Se seu filho nunca nascer, talvez minha família tenha uma chance de ser feliz. — Pedro cuspiu as palavras.
— Você vai destruir o tempo. — Matheus o alertou.
Pedro deu de ombros, não se importava com mais nada daquilo.
— Foda-se o tempo, Matt. — Ele riu debochado.
— Foda-se sua família, eles não valem a destruição do tempo. — Matheus riu com desdém e saiu correndo.
Pedro sentiu o ódio subindo por suas veias mais ainda e não se importou com mais nada, apenas saiu correndo atrás de Matheus.
Alicia que olhava toda a cena, entendeu porque Matheus queria levá-lo para longe dali. Era melhor assim. Ela se levantou e assim que olhou para baixo viu sangue escorrendo por suas pernas. Sua primeira reação foi chorar, um choro silencioso. Não! Não!Não! Ela não queria acreditar naquilo que estava vendo, não podia ser possível. Ela já havia visto todo o futuro do filho dela, sabia que ele crescia um homem saudável. Tudo já estava predestinado, não? Pensou, ainda com um pingo de esperança que restava dentro de si. Mas ela teve a certeza de que não havia mais esperanças.
— Não! — Ela gritou para os céus.
Mesmo sem ter certeza, sentia que seu filho sumia de seus braços e todas as imagens que imaginou com ele, amamentando, trocando, dando o primeiro banho iam desaparecendo de sua mente como um passe de mágica. Como se ela nunca estivesse grávida, mas ela ainda sentia sua barriga ali e que agora carregava um bebê morto. Sentiu o choro entalado em sua garganta, não conseguia chorar ou gritar de raiva, sentia que sua vida havia paralisado ali mesmo e ido com o seu filho que ela nunca pode ter em seus braços.
Ela olhou para frente, com os olhos cheio de fúria e correu em direção que o Matheus e o Pedro iam. Não demorou achá-los em um beco escuro, com ambos lutando e trocando farpas.
Quando ela viu Pedro ali brigando, sentiu o choro vir e o grito entalado na garganta, ela gritou. Um grito descomunal, de uma besta, de alguém cheia de fúria, de uma mãe que havia perdido seu filho sem nunca poder olhá-lo. Ela queria se livrar daquele ódio dentro dela, daquela tristeza que afundava seu coração para baixo, mas gritar não adiantou. Ela ainda olhava furiosa para Pedro.
Quando Matheus ouviu o grito de Alicia, ele não parou de brigar com Pedro, pois sabia que não poderia se desconcentrar, mas sentia a mesma tristeza profunda que Alicia estava sentindo naquele momento, com aquele grito. Tendo a certeza de que seu filho nunca viria a Terra. Ele também queria gritar, mas ao olhar o homem que havia feito aquilo, sentiu o ódio subindo pelo seu corpo e acertou um soco no nariz de Pedro que caiu no chão ao perder o equilíbrio.
Vendo Pedro no chão, Alicia pegou uma garrafa de vidro que estava ali perto e a quebrou. Correu em direção aos meninos e afastou Matheus com força.
Pedro que já estava se levantando ainda meio tonto, sentiu quando algo grosso perfurou sua barriga. Ele levantou o olhar com a mão no nariz ensanguentado e viu uma Alicia furiosa. Uma Alicia que ele jamais imaginou ver. Via nos olhos verdes ódio e tristeza se confundido. E ele teve a certeza do que havia feito.
— Eu nunca vou perdoá-lo! Nunca! — Ela gritou contra ele e enfiou a garrafa quebrada contra a sua barriga.
Ela empurrou a garrafa com força e mais força, com todo o ódio que havia dentro de si, como se de alguma forma aquilo fosse trazer o filho dela de volta. Como se toda aquela violência e vingança fizesse o tempo parar e retroceder e ela pudesse salvar o filho dela.
— Eu sinto muito, Ali. — Pedro sussurrou sem forças.
— Você o matou, mas jamais terá um futuro diferente, porque você escolheu o ódio. — Ela sussurrou entre lágrimas, sabendo que ela também havia escolhido o ódio.
E naquele momento ela teve a certeza de que havia feito sua vingança. E entre lágrimas se perguntava se ela era melhor do que ele. Pois ambos haviam escolhido o mesmo caminho. Vingar quem amava.
Matheus puxou Alicia para perto dele e a jovem deixou o corpo de Pedro cair no chão. O corpo pesado que aos poucos ia perdendo a vida. E olhando aquele corpo era como se a vida dela fosse indo embora, também. O que eu fiz?
— Sinto muito, Pedro. As coisas poderiam ter sido diferente. — Matheus tirou o dispositivo dele de dentro do bolso e o girou.
— E serão, ele morre. — Pedro sorriu mostrando as covinhas.
— Olhe, ainda estamos aqui. Nada mudou. Talvez em uma outra linha do tempo. Nesta somos imunes às mudança do tempo. Adeus. — A luz violeta envolveu Pedro e Matheus deu um pulo para trás para não ser levado.
E eles viram partir um Pedro com o olhar decepcionado.
— Alicia. — Matheus a puxou para um abraço.
A jovem viu suas mãos sujas de sangue encostando na camisa limpa de Matheus, viu suas lágrimas molharem ele, mas não se importou. Deixou-se aninhar ali nos braços dele.
— Ele se foi. — Ela sussurrou.
— Eu sei, eu sinto muito. — Matheus afagou os cabelos dela a abraçando com força.
— Não era para ele ter ido. — Alicia chorou. — Podemos voltar, não?
— Não, Alicia.
Matheus a abraçou com mais força, deixando que o choro dela fosse ouvido. E ela chorava alto, soluçava e se lembrava do filho que não saberia como seria quando bebê, tinha apenas a lembrança de um homem que nunca mais seria seu filho.
— Ele realmente não deveria ter ido. — Matheus sussurrou e deixou com que as lágrimas viessem.
Ele não quis mais se forte, sentia a mesma dor que Alicia e não sabia como cobrir aquele buraco que se abria em seu peito.
E ficaram ali, um abraçado ao outro, sentido o luto de nunca mais poderem ver o seu filho.
Alicia não se lembrava por quanto tempo ficou ali nos braços de Matheus, sentindo sua tristeza e a tristeza dele de que nunca mais poderiam ver o filho de novo. Mas decidiram que precisavam voltar para casa, quando chegaram, viu sua mãe e amigas sentada no sofá com cara de preocupadas. Ela se jogou nos braços da mãe chorando mais ainda ao dizer que perdeu o filho. Sua mãe tratou de subir com ela para o quarto e ficaram ali uma do lado da outra em sua cama, a jovem sentindo o carinho e as lágrimas da mãe. Tendo mais certeza ainda de que nunca teria o filho de novo.
Teve que inventar uma desculpa para mãe de como aquilo havia acontecido. Logo depois sua mãe insistiu que ela fosse ao hospital. O médico disse que infelizmente ela havia perdido o bebê e que precisava ficar em repouso . Quando voltou para casa, quis apenas fica deitada em sua cama. Se permitiria sofrer ali.
— Alicia. — Viu a porta sendo aberta e Matheus entrou.
— Oi. — Ela se ajeitou na cama. — Como?
— O tempo pode ser reescrito. — Ele respondeu encarando aquele olhos verdes sem vida.
Ele se aproximou dela e sentou na beirada da cama.
— Eu pensei que nada poderia acontecer a ele. — Ela levou a mão a barriga no ato que já estava acostumada, mas que agora não fazia mais sentido.
— Eu também. — Matheus levou sua mão sobre a dela que estava na barriga, entendo o gesto dela. — Eu sinto muito, Alicia, se não tivesse aparecido em sua vida nada disso teria acontecido.
Ela analisou o rosto dele, aquele olhar baixo, os olhos cor de mel tão tristes e sem vidas. Será que alguma vez viria alegria ali de novo? Se perguntou, sentindo o nó no peito. O mesmo nó que ele sentia naquele momento.
— Você não tem culpa, é tão vítima quanto eu. Perdemos um filho. — Ela tocou o rosto dele.
— Será que algum dia vamos superar isso? — Ele questionou.
Alicia não respondeu, ela não sabia como responder aquilo. Ainda sentia aquela mesma tristeza empurrando seu coração cada vez mais baixo, já não sentia mais o ódio, mas a tristeza a consumia. Ela temia que nunca mais pudesse superar aquilo.
Ela se aninhou no colo de Matheus e ele ficou ali acariciando os cabelos dela. Talvez juntos pudessem superar aquilo, pelo menos era o que ele esperava. Se amaldiçoou da vez que desejou a morte daquela criança, no fundo ele nunca quis que acontecesse. Agora estava ali, sentindo, com ela, aquela tristeza que os maltratavam.
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