Seus Olhos
22 Capítulo XXI
Notas iniciais

Dezembro de 1954
Alicia abriu seus olhos aos poucos e viu que estava no meio da rua. Seu corpo doía por estar deitada em algo duro, mas sua cabeça estava em algo macio. Ela se levantou e viu que estava deitada em um banco, com a cabeça em cima da coxa de Pedro. Aos poucos ela foi se lembrando do que havia acontecido. Henrique estava na onde ela estava e eles haviam saltados.
— Eles vão fazer alguma coisa com meus amigos? — Ela ficou preocupada com aqueles loucos que ficaram com os amigos dela.
— Não. Eles não tem permissão de mexer em pessoas do passado, sem um motivo muito válido. — Respondeu.
— Onde estamos?
— Me diz você. Sua mente interferiu no salto. — Pedro respondeu ríspido.
Alicia o encarou, sem entender. Como era possível que a mente dela interferisse?
— Como isso é possível?
— Sua mente já está conectada ao vórtice temporal. E por algum motivo seus pensamentos foram maiores que os meus e trouxeram a gente para cá. — Ele se levantou do banco. — Acredito que seja algum ano dos anos 50, devido às roupas.
Alicia ainda não entendia, como os pensamentos dela foram mais fortes que os de Pedro. E porque aqui? O que tinha ali? Ela não lembrava de ter pensando nos anos 50, apenas de lembrar muito de Matheus, mas aquilo ainda não fazia sentido em sua mente.
— Onde você vai? — Questionou.
— Podemos ficar o dia inteiro aqui esperando ou podemos curtir o salto temporal. — Ele deu aquele sorriso de covinhas.
E o Pedro que ela tinha acabado de ver sumiu e deu espaço para o que ela conhecia há dias. Alicia levantou um pouco apreensiva. Poderia ela confiar em alguém que fingia ser outra pessoa na frente dela? Respirou fundo e foi atrás dele.
As pessoas a olhavam estranho e ficavam cochichando quando estavam em grupos ao olharem para eles. Pedro estava apresentável para época, calça jeans e uma camiseta velha, mas Alicia vestia apenas um vestido florido curto, o que provavelmente deixava as pessoas escandalizadas com suas pernas tão amostras.
— Precisamos de roupas para você. — Ele disse tirando atenção dela das pessoas.
— Prefiro ficar assim mesmo.
— Alicia vamos facilitar, por favor. — Ele parou de andar e segurou as mãos dela a olhando.
— Por isso você não pode ficar, Pedro. Será sempre assim. — Ela soltou suas mãos da dele e continuou andando.
— Eu estou disposto aceitar isso.
— E minha vida será feita de fugir pra sempre. — Riu debochada.
Pedro não quis falar mais. Entendia que ela precisava de um tempo ainda, se não as coisas começariam a dar errado.
Eles andaram mais um pouco até chegar a uma lanchonete, no qual entraram com a justificativa de que Pedro tinha dinheiro e estava com fome. Se sentaram numa mesa próxima a janela e Alicia ficou vendo o movimento do lado de fora. Tocava algum rock na rádio, que fez Pedro ficar tamborilando com os dedos.
As pessoas andavam calmas nas ruas, as mulheres com seus vestidos rodados e faixas no cabelo. Elas estavam tão felizes, que Lici pensou que seria legal se vestir alá anos 50, mas não estava naquele clima.
— Eu não lembro de ter pensando nos anos 50 enquanto saltávamos. — Ela voltou atenção para ele. — E porque apaguei, nunca aconteceu antes?
— Você já saltou? — Ele arregalou os olhos para ela.
— Já, com outra pessoa que conheci.
— Matheus? — Ele analisou bem a reação dela.
Alicia apenas concordou com a cabeça, sem querer lembrar dele mais ainda.
— O salto só trouxe a gente para onde seus pensamentos queriam. Normalmente você precisa pensar no ano ou época específica, mas não sei dizer o que aconteceu com você. — Ele sorriu para jovem que trouxe o seu lanche.
Alicia não havia pedido nada, nem o milkshake que ficou com vontade. Ela apenas queria que aquilo acabasse logo e pudesse voltar para casa. Voltou a olhar para janela e ver os carros tão característicos daquela época passarem pela rua.
O sino que ficava em cima da porta fez um barulho, e o olhar de curiosidade de Alicia olhou para porta quando viu um jovem de topete e jaqueta de couro entrando com uma jovem da sua idade, mais ou menos, com cabelos amarrados em rabo de cavalo e usando um vestido rosa de bolinhas. Não era nada e ela voltou atenção para janela.
— Você realmente não quer comer nada? — Pedro perguntou.
— Não. — Respondeu ríspida.
— Se já saltou, sabe que precisaremos ficar aqui um dia inteiro.
— Se eu sentir fome, eu procuro algo depois. — Deu de ombros.
Pedro revirou os olhos e voltou atenção para seu lanche.
— Por favor um milkshake de morango, para senhorita aqui. — Disse o homem que tinha acabado de entrar na lanchonete.
O olhar de Alicia saiu da janela e se voltou para o homem. Ela conhecia aquela voz e sabia muito bem diferenciar ela de qualquer outra. Ela saiu da sua mesa e andou em direção ao homem que estava no balcão.
— Matheus. — Ela sussurrou o nome dele.
A jovem que estava com ele não ouviu, mas ele conseguiu ouvir muito bem quando ela o chamou. Matheus soltou a cintura da mulher com medo e encarou Alicia que estava a sua frente, nos anos 50.
— Alicia. — Ele disse de volta.
— Então você continua por aí encantando outras mulheres? Muito nobre da sua parte. — Ela riu debochada ao olhar para mulher. — Cuidado, ele não presta muito.
— Só um minuto. — Ele disse para jovem que estava com ele e pegou Alicia pelo braço para irem para outro canto.
— Me solta ou eu faço um escândalo. — Ela fuzilou ele com os olhos e ele a soltou.
— O que faz aqui? Como você conseguiu vim parar aqui? — Ele se sentaram numa mesa vazia.
— Não é da sua conta. — Ela empinou o nariz. — Me desculpa, eu não deveria ter ido até você. Vou deixá-lo seguir sua vida de continuar fugindo.
Alicia se levantou.
— Você pode me explicar, Alicia. — Ele pediu segurando a mão dela para que não fosse embora.
Alicia abaixou o olhar para os dedos dele que a tocavam.
— Alicia algum problema? — Pedro chegou por trás.
— Não, nenhum. — Ela soltou a mão de Matheus e olhou para Pedro atrás de si.
— Você arrumou outro viajante? — Matheus tinha um tom ácido na voz. — Me admira ainda não terem te pegado, Pedro.
— Se não te pegaram não será a eu que vão. — Pedro o alfinetou.
— Arrumei um que está disposto a ficar comigo. — Ela respondeu.
— Se você realmente acredita na promessa dele, mostra o quão ingênua é. — Matheus riu alto.
Alicia o encarou nos olhos e ele parou de ri, olhando para os olhos verdes dela. Ele não queria que fosse daquela forma.
— Por favor, não mande mais mensagem se quem decidiu partir foi você. — Ela forçou um sorriso e se abaixou para altura dele que estava sentado.
Ali tão perto dos olhos dele, ambos conseguiam ver a tristeza que cada um carregava. Mas Alicia não deixaria aquilo transpassar em sua voz.
— Você escolheu assim, Matheus. — Ela deu um sorriso confiante.
— Estou vendo que não demorou muito para aceitar. — Ele respondeu no mesmo tom ácido dela.
— E você também não. — Ela olhou para jovem do balcão que ainda esperava ele. — Faça bom proveito.
Ela se levantou e deu as costas para ele e Pedro, saindo da lanchonete. Do lado de fora, ela não aguentou e deixou que as lágrimas rolassem pelo seu rosto e seu coração gritasse a cada soluço que dava.
— Merda! Merda! Porque precisa ser assim? — Ela chutou uma lata de lixo ali perto.
— Alicia. — Pedro apareceu.
— Eu quero ir embora dessa merda! — Ela gritou para ele.
Pedro não respondeu, apenas a puxou para um abraço, onde ela não resistiu e deixou que suas lágrimas molhassem a camiseta dele. Pedro a abraçou com mais força e beijou seus cabelos sorrindo.
Matheus, do lado de dentro, sentiu uma sensação estranha ao ver a cena do lado de fora.
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