Seus Olhos

14 Capítulo XIII


Novembro 1979

— Você ia fugir? É assim que encara suas coisas? — Alicia o soltou furiosa. — Ah claro, o que eu podia esperar de um homem que roubar para fugir do seu tempo?

— Você enlouqueceu? — Matheus gritou.

— Você ia embora outra vez sem se despedir. Qual o seu problema? — Ela encarou aqueles olhos cor de mel.

Matheus viu nos olhos dela uma profunda decepção misturada com raiva.

— Isso não lhe dar o direito de se jogar no meio de um salto temporal. E se você fosse para outro tempo? Como ia voltar?

— Não fuja do assunto. Pare de fugir das coisas que você não gosta e não sabe encarar. — Alicia gritou com ele e deu as costas.

Ela estava cansada da formas como Matheus agia para coisas. Ela começou a andar mesmo sem saber para onde ia.

Matheus analisou as palavras dela e sabia que no fundo faziam sentido, mas ele não estava nem aí para como ela achava que ele tinha que lidar com as coisas. Era a vida dele, ele agiria da forma que achasse melhor. Ele viu Alicia se distanciando dele e suspirou pesado, desistindo daquela birra idiota.

— Alicia. — Chamou.

A jovem ouviu ele gritando o nome dela, mas não atendeu.

Matheus correu para alcançá-la e segurou o braço dela a impedindo de ir mais longe.

— Pode me soltar? — Ela perguntou reunindo toda sua paciência.

— E você pode me dizer para onde vai? — Questionou irônico.

— Para qualquer lugar longe da sua imaturidade. — Ela revirou os olhos.

— Você está no passado e sabe muito bem que só uma maneira de voltar, e é comigo.

— Nossa, que bela forma de me fazer ficar. Lindo. — Ela bateu palmas em deboche.

Matheus revirou os olhos para ela. Ela bufou.

— O que você quer de mim? — Matheus perguntou a soltando.

— Que você me diga o que aconteceu no quarto. — Alicia o encarou.

— Você sabe o que aconteceu, foi algo errado. Que não pode acontecer. — Ele explicou a olhando nos olhos.

— Mas você quis.

— Foi um luxo meu, algo que não vai se repetir. Eu não posso me dar ao luxo de me apaixonar ou fazer você se apaixonar por mim, sabendo que você é do meu passado. Jamais daria certo. — Sua voz trazia pesar e ele queria muito que aquilo tudo fosse mentira.

Alicia desviou o olhar dele. Não queria mais aquilo.

— Me leva de volta. — Ela pediu.

— Você sabe que não posso.

— Okay. Em que ano? — Ela perguntou suspirando.

Já que não podia fazer nada e teria que ficar um dia inteiro perto dele, que fosse da forma mais saudável possível.

— 1979.

Um sorriso apareceu no rosto de Alicia. Anos 70, sua lembraças foram direto paras fotos antigas de seus pais em discotecas e vestido roupas extravagantes. Talvez fosse legal ir a uma discoteca.

— Quero ir a uma discoteca. — Ela pediu.

Matheus a olhou confuso. Um minuto atrás ela estava querendo ir para casa e agora queria ir a uma discoteca. Ele não a entendia.

— Se é pra passar o dia com você, que seja em algum lugar legal.

Matheus assentiu com a cabeça e levou ela a uma discoteca que conhecia ali perto. Lá ele pelo menos poderia beber um pouco para esquecer aquela bagunça toda.

Assim que Alicia chegou na discoteca, ficou maravilhada. As luzes e a energia das pessoas era maravilhosa, a contagiava de uma forma que ela não sabia explicar. E claramente ali ela podia esquecer todos os problemas que a levaram até ali. Ouvia a música que era contagiante e a forma como as pessoas dançavam na pista. Ela se jogou na pista para dançar, mesmo que não soubesse tão bem, começou a imitar os passos das pessoas a sua volta.

Matheus a viu dançando, feliz. Ele sorriu ao ver a cena, se questionando porque precisava ser daquela forma. Suspirou e pediu ao barmam um drink. Tomou tudo na primeira golada e logo pediu outro tomando rápido. Quando se viu estava ao lado de Alicia dançando solto.

Alicia estranhou ele ali ao lado dela, mas não queria se preocupar com isso. Ela precisaria passar aquele um dia com ele e se fosse de uma forma mais saudável, seria agradável para ambos. Eles dançaram três músicas até se cansarem e decidirem parar.

A jovem se aproximou do balcão e pediu um refrigerante, logo veio Matheus e pediu um drink. Quando ele tomou o drink rápido demais, Alicia se questionou se ele não poderia ficar bêbado. Ela decidiu que não gostaria de experienciar isso e decidiu ir embora. Pegou alguns cruzeiros na carteira de Matheus, que tinha dinheiro de quase todas as épocas e locais, e decidiu sair de lá levando ele.

— Por que saímos? Tava legal. — Ele respondeu feliz.

— Eu não quero vê-lo bêbado.

Ele andaram um pouco pelas ruas escuras, até que o efeito da bebida foi passando aos poucos em Matheus. Ele sorria torto e conversava sobre como os anos 70 era maravilhoso e que havia um lugar que Alicia adoraria conhecer.

Quando eles chegaram ao local, era uma linda construção antiga e pequena. Mas Alicia não sabia o que era. Matheus bateu na porta e atendeu um senhor simpático.

— Matheus. — Ele disse surpreso ao ver o jovem na sua porta.

— Olá, Eduardo. — Matheus sorriu. — Essa é a Alicia.

— Você é a doce Alicia, Matheus falou muito bem de você. Entrem. — O homem deu passagem para que eles passassem pela porta.

Assim que eles entraram, Alicia ficou encantada com o local. Era um pequeno restaurante, onde tinha apenas cinco mesas. Mas o local era lindo. Mesas antigas e cadeiras de madeira com assento estofado em estampas antigas, que lembrava Alicia a época vitoriana, tinha uma iluminação baixa e amarelada, o que tornava o local mais aconchegante.

— Eduardo é um excelente cozinheiro, mas poucos tem a preciosidade de conhecer seu espaço. — Matheus comentou próximo ao ouvido de Alicia.

— Fiquem a vontade. — Eduardo os deixou e sumiu por uma porta de madeira.

Logo chegou um garçom que indicou uma das poucas mesas vazias. Eles se acomodaram e o garçom trouxe os cardápios. Havia variedades de comida típicas brasileiras, mas Alicia não estava com fome e decidiu pedir um pedaço de bolo de cenoura com chocolate. Matheus pediu algum prato salgado.

— Por que me trouxe aqui? — Ela questionou.

— Queria que esse salto fosse tão bom quanto os dos anos 20. — Matheus deu aquele sorriso torto.

— Será o último. — Ela suspirou.

— Não se você quiser vir comigo. — Matheus segurou sua mão em cima da mesa.

— É difícil saber o que você quer, se uma hora me puxa e na outra me afasta. — Alicia o encarou.

— Eu sei, é que eu quero, mas lembro dos riscos. Então sei que não posso.

— E você continuará fugindo, seja para não lidar ou para fazer o certo. — Alicia afastou sua mão da dele.

Matheus olhou aquele ato dela, como seu coração pesava.

— Fazer o certo não é fugir. — Argumentou.

— É, quando você não pode lidar com seus sentimentos. — Alicia se aproximou mais dele, devido suas cadeiras estarem próximas. — Pare de tentar me encantar com o seu mundo e com as coisas que diz.

Matheus olhou seus olhos verdes, que pareciam cheio de fúria, mas ao mesmo tempo havia outra coisa, que ele ainda não sabia dizer.

— Não é o que eu quero. — Ele respondeu baixando o olhar.

Alicia puxou o rosto dele para que ele olhasse para ela.

— É sim. Assume.

— Alicia. — Ele pedia.

— Não faça isso, se você não consegue lidar com as consequências depois. — Alicia soltou o rosto dele e virou o seu para que não tivesse que olhar e resistir.

— Mas acontece. — Ele sussurrou em seu ouvido.

Alicia sentiu seus pelos se arrepiarem. Matheus não pensou duas vezes e encaixou sua mão na nuca dela a fazendo virar o rosto para ele. E tão próximos, como da última vez, eles conseguiam ver os detalhes nos olhos de cada um. Conseguiam sentir a respiração ofegante de cada e o hálito quente. E ambos sem pensar duas vezes partiram para aquele beijo que seus corpos aclamavam.

Foi intenso, Alicia pensava. Era intenso cada parte daquele beijo e cada parte que sua língua explorava na boca dele. Imaginando que outras partes ela podia explorar dele. Matheus queria que aquele momento durasse uma eternidade. Queria entender o corpo dela de forma única e pode explorar com a mão coisas que ainda não tinha visto.

Separaram para recuperar o fôlego e sorriram um para o outro ao se lembrarem do beijo que aconteceu. Ali tão perto, viam nos olhos um do outro felicidade e desejo.

Notas finais
Espero que gostem ♥