Seus Olhos
4 Capítulo III
Notas iniciais

Abril de 1899
— Passado!? — Alicia gritou com o homem a sua frente.
Ele olhou assustado pelo grito dela.
— O que você quer dizer com passado? Eu acho bom você me dar uma explicação e logo!
— Primeiro, calma. Segundo eu irei explicar, prometo, mas antes você precisa trocar de roupa. — Ele olhou Alicia de cima a abaixo e apesar de gostar de ver as pernas dela de fora, ele sabia que as pessoas daquela época não gostariam nenhum um pouco.
— Eu quero voltar pra minha casa. Agora!
— Não tem como. Por favor, vem comigo. — Ele insistiu.
— Eu não vou. — Lici virou emburrada para o outro lado.
— Okay, então fique ai e morra. Eu sou sua única chance de ir embora daqui. — Matheus começou a andar se distanciando de Alicia.
Apesar da jovem não querer ir nem um pouco ele, ela sabia que não podia fazer nada. Ele estava certo e ela estava totalmente perdida e cheia de dúvidas. Afinal como havia parado naquele lugar. Ela começou a se questionar se não havia sido drogada, era uma possibilidade. Ela apertou o passo e o alcançou.
Eles caminharam entre as ruas de paralelepípedo, era noite e não havia quase ninguém na rua. Apenas mulheres vestindo poucas roupas e bocas muito bem marcadas que olhavam com selvageria para ele, assim como homens que tropeçavam pelas ruas com garrafas em suas mãos. Alicia começou a tremer de frio, porque seja onde for que ela estivesse, estava muito frio e ela estava apenas com uma camiseta larga de pijama.
— Toma. — Matheus começou a tirar o moletom azul escuro que vestia.
— Não preciso da sua ajuda. — Lici resmungou.
— Precisa sim. — Ele colocou o moletom em cima dos braços cruzados da menina.
Lici bufou, mas vestiu o moletom contra a vontade, até porque estava frio.
Eles viraram em um beco escuro, que já não tinha mais ninguém na rua. Alicia começou a se questionar se estava certo em seguir aquele homem. Mas ela não sabia onde estava e pela roupas que as pessoas usavam ela com certeza não estava na cidade ou país onde morava e começava a se questionar se estava no tempo em que nasceu. Mas isso era absurdo.
— Espere aqui e por favor não saia. — Matheus parou e segurou as mãos de Alicia para que ela prestasse atenção nele.
Ela viu aqueles olhos cor de mel muito sérios. Ela concordou com a cabeça. Ele soltou as mãos dela e pulou o muro da casa. Ele não demorou nem cinco minutos e já estava de volta com algumas roupas nas mãos.
— Use, vai ficar mais apresentável. — Ele entregou uma muda de roupa para Lici e ficou com uma para ele.
Ele não esperou uma resposta de Alicia e começou a tirar as roupas ali mesmo. Alicia reparou no tronco dele, era um homem magrelo, mas repleto de cicatrizes de cortes pela barriga. Havia uma enorme que começava na costela e sumia nas costas. Ele vestiu o que parecia uma camisa de linho branca, logo tirou a calça escura que usava e ficou apenas de cueca, Alicia desviou o olhar para o chão e viu ele vestido o que parecia muito com uma legging marrom. Ele colocou um cinto em cima da camisa e parecia alguém que havia saído de uma novela do século XIX.
— Vamos. — Ele olhou para Alicia que ainda o encarava.
— Se vire, por favor. — Ela pediu.
Ele riu consigo e se virou.
Alicia analisou a roupa que ele havia dado. Era um vestido azul claro, com mangas longas e um pouco bufante embaixo, mas não muita coisa. Ela tinha certeza que aquelas roupa deveria ter outras partes para ficar apresentável. A jovem tirou o moletom e a camiseta larga, percebendo que estava sem sutiã e apenas de calcinha. Ela vestiu o vestido por cima, mas ele ficou muito folgado dela, havia umas fitas que se entrelaçam nas costas que serviam para ajustar o vestido, porém ela não conseguia fazer aquilo sozinha.
— Por favor, pode me ajuda? — Ela pediu muito a contra gosto.
Matheus se virou e viu ela ainda de costas. Ele se aproximou e começou a ajustar o vestido da jovem. Tão próximo ele conseguia sentir o cheiro dela, era um cheiro frutal misturado com alguém que tinha acabado de acordar. Terminando, ele encostou no ombro dela e ela se virou. A cara mais emburrada possível.
— Quando vais começar a me explicar as coisas? — Lici perguntou.
— Seria bom se você se apresentasse primeiro.
— Você invade minha casa, me sequestra e nem ao menos sabe o meu nome.
— Acredite, eu não queria isso.
Alicia o encarou, não acreditando muito nele.
— Me chamo Luana. — Ela mentiu.
— Okay, vamos só procurar um lugar que podemos ficar. — Ele começou a andar.
— E nossas roupas?
— Não vamos precisar delas e a não ser que carregue algo de valor consigo, pode deixar elas ai.
Alicia assentiu e seguiu ele. Eles foram parar em uma casa que estava abandonada, ou ao menos a família não estava ali aquela noite. Matheus não fez muito esforço na porta velha para conseguir entrar na casa. Mas lá dentro havia cobertores e um lugar confortável para passarem a noite. Ele acendeu uma vela e deixou em cima da mesa e ambos se sentaram no sofá.
— Está com fome? — Matheus seguiu para cozinha.
Alicia não falou nada. Seu olhar percorria a sala inteira. Havia uma sofá na cor vermelha e duas poltronas cor creme, uma mesa de madeira velha no centro e alguns cobertores dobrados em um cesto ao lado. A janela de madeira estava fechada e não tinha cortina.
Matheus voltou com dois copos de água e uma maçã. Alicia olhou para maçã na mão dele.
— Não tem muita coisa. — Ele deu de ombros.
— Onde eu estou?
— Algo no final do século XIX, não sei o ano exato. — Matheus falou com naturalidade mordendo a maçã.
— Como assim século XIX?
— Eu vim do futuro e no meu tempo descobriram uma forma de viajar no tempo, só que não conseguimos controlar tão precisamente ainda a data que queremos. — Ele explicou.
Alicia arregalou os olhos para ele. Era impossível aquilo.
— Eu sei, eu sei. Parece impossível, mas pense, evoluímos. — Ele lançou um sorriso torto para ela.
— Eu quero voltar para casa. — Ela pediu.
— Não dá. O dispositivo. — ele tirou do bolso o objeto que antes era um colar no pescoço de Alicia — precisa de um tempo para carregar, em média um dia e podermos voltar para sua casa.
Alicia levou as mãos para os cabelo desesperada. Como assim ela ficaria um dia inteiro no passado?
— Por favor não faça nada, qualquer ação sua aqui pode desencadear uma série de ações no futuro que a gente não faz ideia do que serão e como iremos nos afetar. Por isso, viajar no tempo é proibido. — Ele encarou ela e analisou a espera da resposta.
Alicia parecia ainda mais desesperada conforme ele falava e explicava.
— Proibido? E como estamos aqui?
— Eu meio que roubei o dispositivo. Não recomendo, é por conta disso que quase morri. — Ele riu consigo.
A jovem ficou ainda mais desesperada, se é que era possível. Ela olhava com um olhar de ódio profundo para o homem à sua frente.
— Você quis bancar o ladrão e me arrastou para isso?
— Não venha bancar a brava não. Se você não tivesse pegado o que não era seu, não estaria aqui. — Se defendeu.
— Vai a merda! Você é um louco. — Lici começou a bater nele.
— Ei, pare! — Matheus agarrou os pulsos dela o que fez com que ela perdesse o equilíbrio e ambos caíssem.
— Me solta!
— Só se você prometer que não vai mais me bater. — Ele a encarou. — Eu sei Luana que não é fácil, mas amanhã no final do dia você estará em sua casa.
Eles estavam bem próximos devido o desequilíbrio e Alicia encarava aquele olhos cor de mel, tentando achar algum traço de loucura, mas ela não via ou não sabia distinguir. Estava cansada e só queria voltar pra casa, torcendo pra que aquilo tudo só fosse um pesadelo. A respiração de ambos se encontravam e eles ainda se encaravam. Matheus esperando uma resposta e Alicia esperando acordar e ver que tudo foi um sonho, mas ela desistiu.
— Tudo bem. — Matheus a soltou e ela voltou a sentar. — Irei dormir.
— Tudo bem, eu fico acordado. É necessário que alguém fique de olho.
— Aquelas pessoas no meu quarto — Lici até havia se esquecido deles nessa loucura toda — eles podem voltar?
— Não agora, demora um tempo para eles conseguirem me achar em um salto temporal. — Ele viu o olhar assustado da jovem. — O suficiente para você voltar para casa.
Alicia se ajeitou no sofá e pegou um coberto se cobrindo. Devido ao cansaço ela dormiu rápido. Pensando em tudo aquilo e jurando que não passava de um sonho, de um pesadelo. Mas uma voz na mente dela, bem lá no fundo, dizia a ela que tudo aquilo era muito real.
Matheus olhou para jovem que fechava os olhos tentando dormir. A respiração dela estava curta e apressada, estava com medo ainda. Havia três pintas em seu rosto, uma próxima a sobrancelha, outra na bochecha e uma na testa perto de uma cicatriz. O jovem se perguntava o que estava fazendo ali, arrastando pessoas para o que era para ser uma aventura apenas dele. Riu consigo ao lembrar de quando prometeu para o amigo que não mexeria no tempo e agora olhe ele ali com uma garota do passado dele em um passado mais distante ainda.
A noite foi ficando mais escura ainda e do lado de fora não se via nenhuma pessoa andando ou cambaleando pelas ruas de paralelepípedo. Dentro da casa, dois jovens dormiam. Um em um sofá velho e outro sentado perto da porta. A jovem do sofá se mexeu e acordou, desejando está em casa ao se lembrar de tudo. Ela ficou com medo de abrir os olhos, levou a mão ao colar que ganhará de sua mãe e fez uma prece a qualquer pessoa que regesse o universo. Mas ao abrir os olhos, percebeu que ninguém havia atendido ao seu pedido.
Lici ainda permanecia na casa e dormindo no sofá velho. E nada daquilo era um pesadelo, era tudo muito real. Ela procurou o Matheus e viu ele perto da porta com a cabeça pendendo para o lado e dormindo. Ela se levantou e levou o coberto consigo, o cobriu e decidiu que ela ficaria de olho, torcendo para que nada acontecesse, pois ela não faria a mínima ideia do que fazer caso algo acontecesse.
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