Seu sonho. Meu sonho.
1 Único
Notas iniciais
“A infância é um chão que pisamos eternamente…”
Neji não procurava nada em específico quando abriu o armário do corredor.
Era uma daquelas organizações de fim de ano que vinham com objetivos simples: tirar o antigo para dar espaço ao novo — reorganizar documentos para não esquecer que existem, separar objetos que já não combinam com a estética da casa, decidir que livros ficarão e o que poderão ser doados. Ainda que existisse algum apego, Neji já não se via usando novamente aquelas coisas, e deixá-las paradas ali seria um desperdício.
Por isso, ao se abaixar para tirar alguns tapetes mais antigos, notou uma caixa grande que não deveria estar ali. Era perceptível que ela estava intacta, ainda lacrada com fitas transparentes, e presa a outra caixa menor na lateral.
— Itachi esqueceu? — perguntou retoricamente, puxando a caixa.
A primeira impressão não o impactou tanto, pois pensou que a dita era algo referente ao trabalho do Uchiha. Até virar a caixa e ver um comprovante acompanhado de uma imagem impressa: uma árvore verde, alta e iluminada por pontos dourados. Por um instante a atmosfera pareceu perder completamente o oxigênio — ele reconheceu imediatamente algo que nunca imaginou ver — e viver — dentro de casa.
Uma árvore de Natal.
Naquele instante, Neji ficou parado por alguns segundos, como se o corpo tivesse esquecido como reagir. A mão deslizou pela lateral da caixa, devagar, como se bastasse um passo abrupto para aquilo desaparecer. Seu coração começou a bater estranho — não acelerado, mas pesado, era como se algo estivesse sendo aberto no fundo de sua mente, algo tão antigo que nem ele sabia da existência.
Lentamente se ajoelhou no chão, os olhos sequer piscavam e a ardência o fazia lembrar de que estava acordado — que estava dentro de casa. A mão trêmula se ergueu para puxar os adesivos da caixa, encontrando na primeira o verde-escuro dos galhos presos e o cheiro do plástico novo; na segunda, viu os enfeites cuidadosamente embrulhados com papel de seda: bolas vermelhas, douradas, caixinhas de presente, sinos, rena. Junto aos itens, haviam luzes guardadas em um saco de plástico acompanhado de um topo simples em formato de estrela.
Tudo tão perfeitamente protegido que Neji quase não conseguiu acreditar no que via.
“Seria um sonho?”
“Um mal entendido que Itachi acabou guardando para a decoração para Mikoto?”
“Talvez Sasuke tenha comprado?”
“Talvez Madara tenha deixado ali para decorar com Izuna e Shisui?’
Eram tantas perguntas sem respostas, e que nenhuma parecia ser a certa. Itachi não era a pessoa que esconderia algo tão… importante dentro da casa deles — principalmente sabendo o tipo de família que Neji tinha nascido.
E foi ali que seus olhos arderam.
— Ita… você escondeu isso de mim? — murmurou, a voz gaguejando e o rosto quase úmido.
Com uma lágrima, as memórias da infância foram materializadas, e os ensinamentos que marcaram seu inconsciente surgiram com toda sua força; tinha aprendido desde cedo que algumas coisas simplesmente não eram para ele — que não era uma comemoração que fazia parte da família Hyuuga.
O Natal, uma época tão intimista e alegre para os outros, naquela família era apenas uma data no calendário. Não havia árvores decoradas, luzes brilhando pelos beirais, tampouco a bagunça feliz de alguém escolhendo o que iria compor a ceia. Existia o silêncio formal pela extensão dos pavilhões antigos. Não existiam os desejos mornos de boa sorte, fortuna, sucesso aos mais velhos e mais novos; não havia, os sorrisos ou os abraços, apenas a frieza de uma noite de inverno, um branco imaculado.
E que, agora, voltavam à sua pele.
Tudo estava ali.
Na casa deles.
Em suas mãos.
Seria ridículo admitir o quanto ansiava que fosse para eles?
Parecia um idiota por chorar por algo tão… bobo?
Neji não sabia, mas uma parte dele se agarrava àquele desejo de decorar, de fazer parte da comemoração, de olhar para sua casa cheia de luzes e vida — principalmente vida. Até que uma voz ecoou próxima, quebrando o silêncio profundo do corredor.
— Neji?
Antes, Itachi estava ocupado com alguns papeis na sala, quando percebeu a estranha ausência de som no restante da residência. Sua primeira reação foi ir atrás do marido pelos cômodos, não o vendo no corredor de início, mas retornando quando ouviu um som característico de fitas sendo rasgadas. Moveu-se e o encontrou no chão, com a caixa aberta e os enfeites ao seu redor.
Por um instante, pensou ter estragado tudo. Que Neji tinha odiado a surpresa que pretendia fazer, mas então viu as lágrimas deslizando pelo rosto alvo acompanhado de singelos soluços. Não havia raiva por esconder aquele segredo — o único que se atreveu a ter durante todo o tempo juntos.
Ali existia apenas o medo, o desejo e a dúvida.
Ele sabia que não tinha errado, que havia a possibilidade de decorarem a casa, ainda que não fosse do jeito que imaginou fazer.
Mas isso não importava, apenas a felicidade de Neji importava.
Itachi sorriu.
Não um sorriso largo. Era um sorriso singelo, compreensivo, cheio de ternura, perfeito para momentos como aquele; nos momentos que passar segurança era mais valioso que o momento.
— Era pra ser uma surpresa — disse baixo, quase como um pedido de desculpa. — Achei que você não fosse mexer aí.
O Hyuuga tentou responder, tentou pensar em algo que pudesse justificar sua reação excessiva, mas a voz apenas de sua garganta. Palavras se embaralharam em sua língua, incapazes de serem ditas de forma inteligente. No fim, apenas balançou a cabeça, ainda encarando o brilho discreto do enfeite entre os dedos.
E Itachi entendeu. — Está tudo bem, se você não gostou, nós pod-
— Não… — interrompeu, engolindo em seco. — Não vamos trocar, Ita. Por favor… Eu só…
Novas lágrimas caíam, a voz estremecida pela força que fazia para expressar sua vontade. Itachi acenou, o sorriso em seu rosto se aprofundou, vagarosamente caminhou até ele e se ajoelhou ao seu lado, mas sem tocá-lo de imediato. Respeitando seu espaço, como sempre fazia.
— Eu sei — respondeu com suavidade. — Por isso pensei em fazer uma surpresa. Não queria te assustar. — Com cuidado, tocou a mão do Hyuuga, trazendo-a até seus lábios e beijando-a sobre a aliança.
O ato era delicado, pequeno para alguns, porém, para Neji, tinha um significado maior — a certeza de que seus desejos mais ocultos não seriam invalidados pelo marido. Novamente, lágrimas cobriram as pérolas, o coração tão acelerado que ele tinha quase certeza que Itachi poderia ouvir. Ainda assim, não fugiu, firmando-se no homem diante dele.
— Não me assustou, eu só… eu queria… — a confissão saiu frágil. — Sempre quis um Natal assim, cheio de vida, de luz. Mas achei que era infantil demais… ou tarde demais… para ter.
Itachi soltou uma risada baixa, breve, carregada de doçura. O olhar fixo no rosto molhado do marido, ainda não tocando nos enfeites, pois ainda não era sobre eles — era sobre Neji.
— Querido… — chamou, sua mão se erguendo até a bochecha, limpando a conta lacrimosa. — O seu sonho é meu sonho. Independente do que seja, não é bobo, não é infantil; e nunca será.
Era nítido nas íris negras que o moreno falava com sinceridade, pois nos orbes profundos apenas se via o reflexo do perolado a frente dele.
— E, eu acho justo que agora tenha luzes piscando na sala, não acha também? — completou, o tom mais divertido.
O Hyuuga ainda absorvia a declaração do marido quando deixou escapar um riso trêmulo.
— E-eu também acho — sussurrou, os ombros finalmente relaxando para receber o abraço do moreno, a expressão cedendo ao turbilhão de emoções.
E Itachi esperou e esperou, apertando o corpo magro contra si. Ouvindo o abafado do choro, sabendo que ali não era só o seu marido, mas a criança que um dia ele foi. Recebendo todos os tremores, soluços e resmungos baixos como parte de si. Suas próprias lágrimas se derramaram, silenciosas, e ele engoliu todos os ressentimentos que tinha contra a família do Hyuuga só para não estragar o momento ao mencioná-los.
Quando Neji se acalmou, já tinha se passado trinta minutos. O vermelho cobria o canto dos olhos inchados, mas a expressão se encontrava mais confiante.
— Vamos montar, Ita? — perguntou, a voz levemente rouca.
Com um beijo breve na testa, Itachi se ergueu, trazendo o Hyuuga consigo.
— Vamos.
Os enfeites foram recolhidos do chão, o espaço escolhido era próximo à lareira. Um tapete redondo e felpudo para simbolizar a neve fofinha para então, parte por parte, montar a árvore.
Galho por galho separado.
Enfeite por enfeite tendo seu espaço especial.
Neji escolhia com cuidado onde cada coisa ficaria, às vezes tirando um e colocando outro. Em outras, parava para observar a distância, se estava bem posicionado, se todos estavam visíveis de todos os ângulos para futuras fotos. Ao mesmo tempo em que era observado pelo moreno, que às vezes o ajudava com uma sugestão, um enfeite que o Hyuuga ordenava pegar, ou apenas dava espaço para que ele conduzisse aquele momento como desejasse. Quando os pisca-piscas envolveram a pequena árvore, eles sentaram no chão, lado a lado, a tomada segurada com expectativa pelo Hyuuga.
— Posso? — perguntou, mesmo sabendo que podia. As pérolas brilhando como luas ao encarar o Uchiha.
Itachi sorriu, colocando uma mecha atrás da orelha do marido.
— Deve — respondeu.
Uma palavra. A respiração suspendeu, com medo de perder algum detalhe, o coração batendo tão forte que doía contra os ossos. A palma úmida de suor, os nervos todos a flor da pele, esperando por aquele segundo. Eram apenas milésimos para conectar o fio à tomada. Milésimos para ver as luzes brilhando diante de seus olhos. Mas era uma vida inteira fingindo não se importar com aquilo, quando agora tinha alguém que valorizava e abraçava seus sonhos por ele.
E então… tudo se acendeu como estrelas.
A sala se encheu de pontos quentes, dourados, refletindo nos olhos perolados que se encheram de lágrimas mais uma vez. Mas agora havia um sorriso junto — um sorriso pequeno, cheio de felicidade e realização. Sua mão se aconchegou com a de Itachi, os dedos entrelaçados com uma firmeza terna.
Itachi permaneceu em silêncio nos primeiros instantes, absorvendo a visão do marido — detalhes que só ele tinha o direito de ver e sentir. Foi ali que entendeu, com uma clareza dolorosa, que aquilo não era uma simples decoração de fim de ano, como imaginara, mas um gesto de pertencimento. E decidiu, então, que faria isso quantas vezes fosse necessário, por todos os invernos que ainda viriam, apenas para ver Neji feliz.
— Neji… — chamou, a voz baixa.
Pérolas umedecidas encontram o ônix escuro mais uma vez.
— Eu prometo — disse então, a voz mais firme, sem pressa —, vou preencher essa casa em todas as comemorações que tiver no calendário. Você nunca mais vai achar que não pertence a esses momentos.
Neji soluçou, incapaz de conter a tempestade de emoções que acontecia dentro de si. E como na primeira vez, abraçou o outro com força, a voz embargada pelo choro.
— Obrigado… — sussurrou. — Obrigado por ver um sonho que eu nem sabia como pedir. — Ele se afastou, as mãos segurando o rosto do outro, o sorriso apaixonado desenhado nas curvas dos lábios. — Eu te amo, Itachi.
O Uchiha se moveu, ocupando o restante do espaço com um beijo doce. Não cheio de desejo, tampouco com intenções além daquelas que tinha desde o momento que encontrou seu Neji rodeado de enfeites. Era um beijo onde os lábios se moviam em uma dança lenta, o sabor salgado das lágrimas. Os corpos juntos em um abraço desajeitado, onde o calor do outro afastava qualquer dúvida que pudesse existir — mesmo que não existisse nenhuma.
E quando a respiração pediu passagem, as testas se encostaram.
— Eu sei — sussurrou Itachi, o carinho devoto em cada letra. — E eu amo você, Neji. Para sempre e sempre.
Neji se virou para a árvore, as costas apoiadas no peito do Uchiha, e com uma inspiração profunda, puxou o ar, como se fosse a primeira vez. O cheiro de pinheiro com um toque de purpurina misturado ao perfume característico do Uchiha, invadiram seus pulmões. E tudo parecia certo. Restando apenas um pensamento no meio da tempestade: casa.
— Que nosso Natal seja próspero… — desejou.
— Assim como nós somos — completou Itachi, apertando mais o corpo menor contra o seu.
E dali em diante novos minutos passaram, mas eles permaneceram ali. Apenas a luz quente piscando, os flocos de neve caindo lentamente pelo vidro, acumulando-se no beiral. Envolvidos um nos braços do outro, aquecidos pela lareira, a troca singela de carinhos e sussurros. E a promessa silenciosa de muitos outros anos assim.
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