Seu Tempo
2 Presente
Notas iniciais
Domado pelo medo, o frio correndo pela minha pele. A escuridão espreita das sombras, me observando sem piscar. Os gestos secos do vento me fazem tremer de temor, os dedos da morte esticando-se para roubar minha alma de seu casulo quente e pulsante enquanto a insanidade lambe os lábios esperando para poder acabar de uma vez com minha dor.
Acordei respirando pesadamente, meu suor escorrendo pelo meu rosto, e o sentimento nojento de estar melado pela minha própria transpiração. Mais uma vez me encontrava deitado numa cama que não me pertencia, a sala em que me alojava era um enorme salão fora de uso, preenchido por camas, estas ocupadas tanto por garotas quanto garotos.
A noite foi extremamente agitada. No início, apenas uma agitação sem sentido feita por bêbados que voltavam tarde da festa de abertura. Porém, com a ascensão da lua, os murmúrios passaram a se agitar, dando lugar a berros, sons de violência física.
Estes foram os primeiros sinais da nossa perda de civilidade, a prova de que, no fundo, somos todos animais e em momentos de pânico, nós somos apenas reféns de nossos instintos mais primitivos.
Com as poucas horas em que fui capaz de dormir, meu repetido sonho voltava a me assombrar.
Eu tinha me levantado, uma nota deixada grudada em minha testa caia suavemente a minha frente. Ela me mandava ir para o salão da festa, sem muita coisa para fazer ou realmente qualquer outra escolha, segui as ordens da mensagem.
Meu caminho estava sendo silencioso, ninguém parecia notar minha existência, e eu estava mais que agradecido pela minha falta de presença. Ser uma pessoa genérica me fazia não parecer tão atrativo para os olhos de um observador, e consequentemente, passava despercebido pelas pessoas.
Bom, pelo menos, isso foi o que eu sempre pensei, eu acho, não tenho muita certeza, eu realmente não me importo muito com isso. Está funcionando de qualquer maneira.
Andei meio distraído por um corredor, apenas seguindo o fluxo, até esbarrar em algo, ou melhor, alguém. A pessoa parecia estar admirando seus arredores, mesmo que não houvesse nada muito interessante, além de algumas pinturas pelas paredes.
— Ou! Me desculpa, eu não percebi que estava atrapalhando o caminho! – Disse ela se virando para mim. – Olha, esbarrei num garoto muito curtinho, você não está machucado, né?
Para curtas explicações, eu tenho baixa estatura, eu acho.
E essa pessoa, ou melhor, essa garota é muito mais alta do que o normal, em minha opinião.
— N-Não, está tudo bem! Eu não estava prestando atenção no caminho também, provavelmente! – Respondi a garota na minha frente.
— Ufa! – Ela soltou um suspiro aliviado, ou pelo menos parecia. – Eu fiquei preocupada por um instante com você, Florzinha!
Ela me chamou de florzinha?! Ou eu tô só imaginando? Não, tem que ser real! Ninguém me chama de florzinha!
— Eu não sou “florzinha”, eu tenho nome!
— Mas você é tão pequeno e delicado, até parece uma florzinha!
— Não! Meu nome é Jacinto! JACINTO! – Eu praticamente gritei, ou gritei mesmo, para a menina.
— Bom, Florzinha, é bom te conhecer! Meu nome é Kalina! – Ela disse, estendendo a mão para me cumprimentar.
Eu aceitei a mão com um pequeno suspiro, eu não acho que ela vá parar com o “florzinha” tão cedo.
— Kalina, aparentemente, não, eu acho, que estamos atrasados... – Eu apontei para a esquina onde a ultima pessoa da fila parecia desaparecer por.
— Então, vamos! – Ela falou enquanto começava a andar em um ritmo um tanto vagaroso, mas com cada paço valendo uns dois ou quase três meus.
Quando chegamos a salão da festa, a esfera de luz parecia inquieta, se isso é possível para uma esfera de luz, claro. Rodopiava em seu próprio lugar e ia para cima e para baixo repetidamente.
Olhando ao meu redor, apenas aqueles que pertenciam a uma mesma dimensão que a minha pareciam estar lá. Todos usavam roupas normais, e aparentemente falavam meu idioma, alguns sotaques um pouco estranhos, mas isso não necessariamente me incomodava.
Parece que seus jogos estão para começar, não é?
Boa sorte.
Uma voz tinha falado comigo, mas não conseguia identificar nada sobre ela, mas sua mensagem. Olhei para os lados curiosamente, procurando o dono da voz, mas ninguém parecia ter falado uma palavra para mim.
— Você está bem, Florzinha? – Kalina me perguntou.
— Sim, eu acho! Quero dizer, com certeza! – Eu respondi o mais rápido que pude.
— Você estava mesmo prestando atenção no que aquele Will-o’-wisp tá falando?
— Will-o’-wisp? – Eu falei mergulhado em dúvida.
— Sim, sabe aquelas esferas de luz que guiam os viajantes perdidos? – Ela disse em um sussurro, como se estivesse com medo de alguém nos ouvir.
— Eu acho que eu já ouvi falar, mas... Não consigo lembrar claramente...
— É uma lenda relativamente famosa.
A conversa morreu ali, ninguém se atreveu a falar quando a esfera passou por cima de nossas cabeças. Por cada pessoa que ela passava, um brilho começava a irradiar do peito dela.
Logo a luz veio a brilhar em nós também, e o sentimento de ansiedade começava a ser bombardeado pelo meu coração, logo entrando pela minha circulação e se espalhando pelo meu corpo, como um veneno.
Não deixe os monstros devorarem seu coração e sua mente.
Sobreviva.
A voz murmurou suavemente para mim, e quando me dei conta, já estava num lugar totalmente diferente.
Fui teletransportado, não é? Eu acho que sim.
O que eu preciso fazer? O que eu posso fazer?
Olhei desesperado para os lados, para baixo, para mim. O que eu deveria fazer? Me senti jogado numa confusão sem saber como sair.
Não, espera, foi realmente isso que aconteceu, eu acho...
Em pouco tempo, senti-me começar a tremer, minhas pernas perdendo sua força, o mundo em torno de mim começava a girar loucamente, como um caleidoscópio infinito.
Sobreviva.
Minha mente recordava da voz desconhecida. Por algum motivo, foi reconfortante, e fez com que eu pudesse tomar uma longa respiração, me acalmar.
O que eu preciso saber desse jogo?
Com mais um tanto de ar, me concentrei em minhas memórias, o que aquela esfera havia dito?
“uma fase de seleção e evolução”
“selecionar aqueles que serão mais aptos para avançarem”
“Vocês entenderão durante o jogo.”
Não havia dúvidas no objetivo desse primeiro jogo, essas palavras, a maneira como a esfera se esforçou para manter a essência da teoria da evolução de Charles Darwin.
Continuarão apenas aqueles mais aptos a se perpetuarem no jogo.
Além de que, sobreviver não é algo que se explique, nem se aprende, já nasce no instinto de cada um de nós.
Isso também significa que... Este é o momento em que muitos irão perder a cabeça por aqui.
Agora podendo compreender a verdadeira finalidade da primeira fase, não posso dizer que estou confiante, eu acho.
Preciso começar com comida, não tomamos café da manhã e a festa tinha terminado tarde. Muitos ainda estão cansados, além de com fome. Mesmo assim, ficar desprotegido também não era uma opção.
Eu provavelmente tenho alguma energia a mais que muitos, já que não “aproveitei” da festa como outros. A fome, eu acho que posso lidar com isso, ao menos pelas próximas seis horas.
Caminhei em direção a um pequeno riacho, nada muito grandioso, e passei a andar na direção oposta em que corre. Isso me levaria para o alto, me garantiria água. Ainda por cima disso, me deixaria um pouco longe das pessoas, afinal, ainda é cansativo subir. Fazer alianças também é importante, mas ir direto para o fogo cruzado não é minha intensão.
Assim comecei uma caminhada, uma longa subida que ficava cada vez mais íngreme. Felizmente, logo fui recebido por uma floresta sombria, mas que com certeza possui animais, ou frutas, ou ambos.
Com esse pensamento, eu finalmente adentrei a floresta, uma bem escura e úmida.
Parecia um cenário de filme de terror, porém minha fome e meu desejo de viver me mantinham indo para frente, seguindo em frente.
Entretanto, eu fui descuidado, eu não vi e não notei o que espreitava das sombras.
Quando eu percebi, já era quase tarde de mais.
Eu estava preso de baixo dele.
Sim, isso só podia ser um demônio da floresta, não é?
Um demônio, um monstro, uma besta!
Uma fera sem alma em seus olhos me atacou de súbito, guiando-se apenas por seus instintos, pelas vontades e desejos. Sem consciência, sem humanidade.
Mas quem eu tentava enganar? Aquela criatura horrenda, com cabelos bagunçados e olhos sem vida, boca espumante que murmuravam o indescritível, aquele ser, era um humano, como eu e todos aqui.
— Eles... Vão... Me... Matar... – A besta sussurrava dolorosamente. – Mas... Não... – Ela ficou olhando para mim, seus olhos nos meus olhos, nossas respirações o único som que se atrevia a reverberar nesse momento. – NÃO SE EU MATAR TODOS PRIMEIRO!
Nisso, ela me tirou do chão e me empurrou numa árvore, seu sangue se misturava com a terra livremente, e o meu tentava se manter em meu corpo.
Esses risos, essa insanidade... Esse é nosso destino?
Devo me render à loucura também?
Será esse o único modo de continuar?
Não deixe os monstros devorarem seu coração e sua mente.
Novamente a mensagem daquela voz me vem à cabeça. Será que não devo me render aos monstros da insanidade, da bestialidade e da loucura?
Para qualquer um que esteja vendo toda essa história por fora, a resposta pode parecer muito óbvia, não é?
Mas, não é você que está aqui, preso nas garras dessa besta, com seu coração batendo a mil.
Para você, é apenas um pequeno trecho de angústia em minha história, em minha vida.
É apenas desviar seus olhos para as próximas linhas que se aproximam, para as próximas palavras que aguardam seu olhar, e todo meu futuro irá se revelar para você.
É bem simples, não é?
Porém a resposta não é óbvia. A loucura mais me parece uma fonte de poder, uma maneira de se manter afastado de todos os problemas e escapar dessa terrível realidade a qual estou submetido.
É torturante saber que, agora é tudo, mas também nada.
Para mim pode ser tudo, meu futuro. Para você, são apenas alguns minutos desgastantes de pensamentos sem sentido jogados da cabeça da autora nessa história.
Está claro que, eu não sou muito mais do que um linear de pensamentos obscuros da própria humanidade, eu sou nada, mas ainda sou tudo aqui.
Porque eu sou fruto do pensamento, da imaginação.
Neste mundo, o tudo e o nada são a mesma coisa, pois esta narrativa não estou vivendo unicamente na imaginação desta autora, mas na sua também, e o fruto do pensamento é tudo aqui, mas nada lá fora.
Este mundo existe, ao mesmo tempo que é irrelevantemente nada.
Assim, sendo a essência do pensamento, não irei abandoná-lo. Continuarei firme e pensante, lógico e calculista. Eu não sou uma besta, eu ainda sou algo nesse mundo feito de nada. Continuarei a protagonizar esse capítulo, e continuarei a existir como fruto da mente.
Com a maior quantidade de fôlego que consegui reunir, usei toda minha força para chegar ao causador do sangramento da besta desalmada. Um caco de vidro pontudo e cortante, usado como faca, mas erroneamente fincado em seu estômago.
Puxando para fora dela o pedaço, e besta gritou e se afastou. Me preparei para a próxima investida.
Onde eu deveria mirar?
Nos olhos para ganhar tempo e fugir? Ou diretamente em seu coração, para acabar finalmente com essa insanidade que residia na mente do pobre ser a minha frente?
A resposta mais humana é libertá-la desse sofrimento doentio a qual está sendo exposta, fugir apenas a causará mais dor, e talvez dor a outras pessoas.
Com o uso do resto da minha força, eu preparei um contra-ataque direto em seu coração, para acabar com tudo isso de uma vez.
Quando a besta começou a investir em minha direção, eu preparei minha postura, desviei de seus braços debilmente jogados para frente numa tentativa fútil de me agarrar. Finquei o caco de vidro em seu coração. Sangue esguichou-se sobre mim, lambendo minha pele e me cobrindo com o vermelho arterial.
Lentamente, com o ser já caído no chão, retirei o caco de vidro do peito dele.
Eu acho que precisarei disto mais tarde.
Com uma expiração rápida que não sabia que segurava, cai no chão, respirando pesadamente e rapidamente. Olhei para minhas mãos, sangue manchando a minha pele, tornando minha alma mais do que impura pelo assassinato que acabei de cometer.
Mesmo assim, continuava mais um boneco nesse jogo sádico de sobrevivência, apenas procurando uma saída, como um ratinho perdido num campo de desconfiança e incerteza.
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