Seu Mordomo, Amor Secreto II
10 Michaelis e Phantomhive
Notas iniciais
Finalmente o grande dia. Ah deuses, sinto as entranhas gritarem em euforias, sinto tudo queimar em uma alegria jamais sentida até o instante presente. Será perfeito como deve ser, as surpresas e as verdades. O momento decisivo de toda uma geração que sempre guerreou indiretamente. E serei eu, Ciel Phantomhive, a dar um final em tudo. A última e mais felicilitada de todas as passadas. Alois Trancy que aguarde. Que me aguarde.
“Não me arrebata mais aquele cansaço exaustivo. Tudo é questão de costume, ainda assim o suor escorre pelo rosto, costas. Apesar de tudo mesmo passando-se todos esses dias o seu ritmo não diminuiu nem um minuto sequer, pelo contrário, como esperado fora se intensificando não a cada dia, mas a cada hora. Faltam dois dias. Dois longos dias de 24h cada. Estou ansioso. Muito. Nunca me senti com tal sentimento para nada até o momento. Conto os segundos, os minutos. Cada badalada é lenta para o tamanho de minha ânsia. Hoje é meu último treinamento como citou o outro há três dias atrás. Sinto-me ótimo, preparado para tudo. Ou ao menos pelo meu ponto de vista. Sebastian é um esplendido lutador, então conseguir acertar-lhes alguns socos ou ponta pés é algo fascinante e merecedor de comemoração. Mas não temos tempo para perder com festividades bobas desse nível. Não quando há todo o tipo de movimentos acrobáticos misturados a artes marciais voltados em sua direção.
Nesse período aprendi como controlar não só meu corpo e como coordená-lo para lutas e afins com também consigo controlar melhor meus poderes de modo a não estourar todas as luzes da mansão do loiro. A ajuda do Grell também fora solicitada durante isso, a desculpa de Michaelis fora que eu preciso estar atento a mais de um oponente, por causa dos trigêmeos. Apesar de concordar com esse ato, o Shinigami também manteve certa distância do Demônio. Não havia motivos para me estressar, e se houvesse bater no Sebastian com a desculpa de estarmos treinando estaria na lista de coisas a se fazer. Não foi necessário.
Quando recebi a resposta do outro sobre ser um prazer me receber em sua moradia, um grande sorriso se estampou em meu rosto. Se ele soubesse para o que serviria essa visita, bem haveria de estar a se preparar também. Se for esperto o suficiente para isso. Não desmerecendo sua inteligência. Não teria um demônio como o Claude se não fosse uma alma boa o suficiente para merecê-lo. Se bem que, ainda temos o pacto e toda aquela história de família. Vai saber a verdade crua por trás do por que.”
Minhas vestes estão sendo postas sobre meu corpo. Negro é a cor do dia. As meias até pouco abaixo do joelho, o sapato posto no pé. O short abaixo da metade das coxas, a blusa comprida nas mangas, e em sua barra. Os botões sendo fechados um por um, calmamente. Até a fita escura ser passada pela gola e amarrada em forma de laço em meu pescoço. Em minhas mãos a bengala com caveira em seu tipo, na cabeça uma cartola. O tapa olho cobrindo o contrato. Sebastian já está trocado, seu fraque não tem aquele tom de branco por dentro, como eu estou, ele está vestindo quase precisamente para um funeral. Que seja assim então descrito. Passaríamos todas as instruções para os empregados, e só aí colocaríamos o pé na estrada. No dia seguinte estaríamos de volta, ou ainda hoje, pela madrugada; a carruagem trepidava mesmo com a baixa velocidade em suas rodas, o silêncio dentro do veículo com apenas a minha respiração baixa e calma. Lá fora ventos balançam galhos, derrubando folhas, sacudindo ramos de flores. O sol ainda no meio céu, até a chegada na casa do Trancy estaria baixo, com uma temperatura agradável com a noite ainda por vir completamente.
Não tenho um plano bolado na mente, também não irei agir com displicência, breves ideias se passam, nada que é certo ser usado. A única certeza de tudo é que acabará hoje, e fim.
“-- Bocchan, seu chá.
Me encontro jogado no chão da sala aonde treinamos. O corpo colando pelo suor que escorre nas costas e testa, o ar entrando nos pulmões fortemente, o peito que sobre frenético pelo cansaço. Sentei-me ali mesmo, passando uma toalha no rosto, e tomando nas mãos o chá da tarde. São exatamente 16h. Ainda temos duas horas de treino. Mais do que o suficiente no ritmo que estamos fazendo funcionar. A partir do dia três de quando começamos, passei a utilizar algumas antigas roupas de festa para me adaptar a movimentação que ela me proporcionaria. Apesar de desconfortável, não é nada muito diferente do que estar com roupas adequadas.
–- Não me disse por que não faremos nada amanhã.
–- Está errado se interpretar de forma ‘não faremos nada’.
–- E então?
–- Será o dia de recarregar. -- me olhava de cima. -- Precisa estar com força total, e temos métodos para isso.
–- Tudo bem, sabe o que faz.
–- Descanse, continuaremos em breve.
Passaram-se poucos minutos após isso, e algumas horas depois, meu banho era preparado, em seguida a isso minha janta seria servida. A água era relaxante, reconfortante para toda a energia gasta com o que fizemos isso, meu desejo era somente a cama e uma boa noite de sono, o que não vem ocorrendo com muita frequência. Talvez seja a ansiedade, ou naturalmente o desenvolvimento de meu corpo.
–- Acha que o Alois tem alguma ideia do porque de nossa ida?
–- Talvez, não partindo dele, quem sabe do Claude.
–- Isso não faz diferença. -- levantei da banheira, a toalha veio em meus ombros. -- Minha cama está feita?
–- Sim.
Acomodei-me sobre os lençóis brancos, coberto até meu peito com outro cobertor de mesma cor. A janela coberta pela cortina não balançava com a brisa. Ao contrário do que pensei, peguei no sono em seguida à boa noite que ouvi.”
A mansão já desaponta em minha vista, consertei minha postura quando a vi passando em meus olhos. Na porta de pé se via o Claude e seu mestre Alois. Semicerrei os orbes, seguido de uma pequena risada interna. Respirei fundo acalmando os nervos, não queria demonstrar demasiada emoção em suas presenças. Não faz sentido, não convém em nada. Trancy se mantinha vestida ainda de sua forma peculiar, algo como um xale felpudo cobria seus ombros, que mesmo ao pouco longe como ainda estou é possível identificar. Paramos há poucos metros de ambos, Sebastian me abriu a porta, e desci.
–- Ciel Phantomhive! Que prazer lhe receber outra vez. -- juntou as mãos ao lado da bochecha direita. -- E o seu mordomo também. Sejam bem vindos.
–- Obrigado pela recepção, Alois. -- toquei na lapela da cartola como cumprimento. Claude e Sebastian se encaravam, aquele olhar inimigo e mortal que fez o demônio ao meu lado soltar um breve riso contido.
Fomos convidados a entrar, o que cobria minhas vestes e cartola fora pego pelo Faustus, e logo os outros dois foram dispensados de nossa presença, quando seguimos pelos corredores que um dia me deram ânsia de vômito. Ainda não era o momento de nada a ser feito. Teria a sua hora. Estávamos de volta àquela sala de jogos na qual ficamos da outra vez em que compareci. O pedido do loiro foi chá, igualmente a última vez. Está sendo como um dejá vù. Me encontro no mesmo assento de antes, assim como a mesa é o que nos separa, Alois fala em plenos pulmões, somente o observo.
–- Então, Ciel, diga-me, ainda tem vergonha do que faz? -- os olhos estavam mais interessados que antes.
–- Não sei do que está falando.
–- Não se faça de tolo, de estúpido. -- sorriu largamente, esperei pela sua gargalhada, mas esta não veio. -- Sabe exatamente do que estou falando, tivemos essa conversa antes, não é verdade? -- sentou corretamente, as pernas sobre a madeira da mesa de centro.
–- Não acredito que minha intimidade lhe convenha.
–- Estamos entre amigos, compartilhamos da mesma sujeira. Não se feche.
–- Amigos? -- foi a minha vez de rir. O vi piscar diversas vezes. -- Não me faça rir, Alois.
–- Ora, ora, que senso de humor peculiar o seu, Conde.
A porta foi aberta, Sebastian entrou com uma bandeja Claude trazia outra em seu antebraço. Bules de chá e xícaras compunham cada uma delas. O que me fora servido detinha uma coloração quase vermelha, em quanto que o de meu companheiro não continha nenhuma pigmentação. Elevamos as porcelanas no ar antes de fazer os líquidos descer pela garganta.
–- Ciel Phantomhive! -- levantou sobre o estofado, braços para cima, a xícara pendurada no indicador. -- E então, a minha proposta? Veio até aqui aceitá-la? Iremos trocar outra vez?
–- Não seja louco. -- encarei-o, os olhos do Michaelis sobre mim. -- Deveria ter tantos modos quanto tem pensamento fora do lugar. -- foi a sua vez de rir.
–- Claude! -- jogou-se de lá, braços abertos fingia um desmaio, o mordomo o pegou corretamente, não mexeu com o que segurava. -- Ah, querido, escutou isso? -- deslizava os dedos em sua bochecha, a seriedade em seu olhar era cruel. -- Eu queria, queria vocês dois aqui comigo. -- riu mais uma vez. -- Seria ótimo, maravilhoso, lhe diga Sebastian! Diga ao seu mestre que ficará!
–- O Sebastian não tem nada o que lhe dizer Trancy, deixe de devaneios.
–- Cruel Ciel. -- jogou a cabeça pelo antebraço de quem o segurava, olhava-me de ponta cabeça. -- Deixarei que fique um dia com ambos, que tal?
Em sua mente isso era para ser algo tentador? Quero seu mordomo bem longe de mim, minha experiência com ele por àquelas horas não foi algo muito apreciado. Seu teatro ainda perdurou, e ao ver que suas investidas não surtiriam efeito algo, pediu para que descessem e preparassem a janta a ser servida. Um alivio para os meus ouvidos. As horas estavam passando devagar, isso era evidente. Meu planejamento era para depois que acabássemos o que seria servido. Mesmo que meu mordomo e eu não tivéssemos nenhum contato apenas um olhar seria o suficiente para o plano ser iniciado. E aonde não poderia ser atrapalhado por nenhum dos outros empregados, já que os principais deles estariam sendo entretidos pelo Sebastian.
“-- Bom dia, Bocchan.
Os olhos custaram a se ajustar na nova luz que saía pela janela. A claridade era intensa, no relógio já passara da hora que eu deveria estar pé. Contrário a outras vezes, desta não reclamei. Estava cansado, não havia percebido o quanto dormi até o momento. Joguei o antebraço sobre a testa, olhando para o teto. Pensava sobre o que estávamos fazendo até então, e que amanhã tudo seria posto à prova. Que amanhã também acabaria tudo. Feita a higiene matinal, o café da manhã fora posto também. Dito pelo outro que não faríamos nada no dia de hoje, bem, faríamos, seja lá o que fosse. Na monotonia do meu escritório esperei até que a hora de começar fosse dada, pelo tardar do meu acordar não demorou muito a minha espera.
Desci para a sala de esgrima, Sebastian encontrava-se lá. Tranquei a porta como de costume. As cortinas estavam fechadas, o que não era comum para o nosso treinamento, a sala se encontrava pouco mais abafada que o normal. Não haviam roupas separadas para o treinamento de hoje. Então? O som de meus passos era escutado no silêncio que havia no ambiente. O olhar do outro me seguia de acordo que me aproximava. Ainda não havia entendido o motivo.
–- Então? O que temos para hoje? -- sorriu, indicando-me a ficar de pé aonde era de nosso costume começar as aulas, assim o fiz. -- Me disse que não faríamos algo assim.
–- E não faremos. -- também tomou a sua marca de costume.
–- Por que o suspense?
–- Não há suspense, Bocchan. -- dobrou de leve a cabeça para o lado, parecia quase debochar.
Pensei em reclamar, o raciocínio fora cortado com sua velocidade acima de mim. Defendi o primeiro golpe, embaraçando em minhas próprias pernas e caindo com ele sobre meu corpo.
–- Precisa recarregar suas forças, Ciel. –- as iris dançavam coloridas, os dedos buscavam o laço do tapa olho. -- Se não estiver com 120%, tudo será em vão. -- deslizou o polegar no formato de meu lábio inferior, seguindo abaixo, ambos os lados de minha cintura foram apertados com luxúria.
–- Você tem um jeito estranho de chamar as pessoas à cama. -- ergui os braços, subindo lentamente por suas costas. -- É mais fácil avisá-las do que está prestes a fazer. Agora, -- abracei suas costas e girei por cima. -- levante-se.
Fiquei de pé, se faríamos o que era para ser feito, não simplesmente deitaríamos e rolaríamos. Estralei o pescoço, com uma base para a luta, ele sorriu ao entender o meu entretenimento. Com o dedo indicador, o chamei.
Era como o treino normal. Ou deveria ser. Segurei seu pulso esquerdo para cima, desviando de um soco, minha mão direita foi feita igual. Aproximei nossos rostos aproveitando o espaço que havia entre nós, um beijo voraz fora trocado, com toda a intensidade do que iríamos fazer. Lhe dei um sorriso ao me afastar voltando a atacá-lo de forma violenta. Defendíamo-nos, atacávamos e no final sempre tocávamos algum tipo de caricia.
–- Chega. -- no chão, sentado sobre sua cintura dei a sentença de que acabaria ali.
–- Chega? -- suas mãos me acariciaram as coxas. Já havia metade de nossas roupas longe do corpo. -- Achei que estava apenas começando.
Encaixei os polegares na cinta da bermuda, descendo-o lentamente pelas pernas. Os olhos do outro acompanhavam todo e qualquer movimento feito para a retirada das peças, ser observado daquela maneira mexia com os sentidos e o modo qual me incentivava a fazê-lo. Ajoelhei e aproximei de seu rosto outra vez, juntei nossos lábios, minha cintura foi abraçada, os corpos juntos. Movimentando as pernas passou sua calça por ela, fiz o trabalho de retirá-la ao longo, sua peça íntima veio junta. Sentei no chão, recostando as costas em seu peito, minhas pernas dobradas foram separadas. As mãos dedilhavam o interior das coxas lentamente, deitei a cabeça em seu ombro sentindo os movimentos de suas falanges. Sua boca brincava em meu pescoço, na orelha sussurros eram deixados. Mordi o lábio inferior para abafar os sons que escapavam cada vez mais altos.
Guiando meu corpo de modo a estar de mãos no chão e joelhos apoiando os quadris para cima, alinhou-se em minhas costas, os dedos buscavam salivas. As falsas estocadas já contraiam meu interior em excitação. Insinuei-me contra seu ventre, escutando um riso vindo dele, segurando firme minha cintura continuava as malditas simulações as quais já me faziam ranger os dentes; chamei seu nome sem esconder à ira que crescia aos poucos, foi outra vez que escutei seu riso. Os dedos molhados invadiram-me, sendo movidos na cadência a qual já me tocava o fundo do interior. Minhas falas não eram contidas, só tendiam a aumentar, não poupei o grito pela sua invasão sem aviso. Forcei as unhas contra o chão quase tentando tomá-lo na palma, ele estava concluindo com a violência a qual começamos.
Suas estocadas eram firmes e duras, qualquer outro a estaria considerando quase como um estupro. Não me faça rir. A força da fincada de suas unhas era ainda mais um ponto para expandir o prazer sentido por ambos. Respiração era o último de meus pensamentos, apenas minha garganta trabalhava. Os dedos do Michaelis se prenderam em meus fios, puxando-os para trás de forma que meus lábios fossem propriedade dos dele. Seu olhar era literalmente demoníaco, vulgar, exalando prazer carnal que acontecia no ambiente. A língua esperta caminhou em minha bochecha, sugando o lóbulo de minha orelha, sua voz ainda vinha ali, frases ou apenas palavras não castas.
A frequência do ato já havia dissipado quase completamente a dor de uma próxima vez. Manter a posição fazia minhas pernas tremerem, assim como meus braços ficavam moles de acordo que o ápice ia batendo na porta. Deitei com a cabeça em sua calça embolada, tentando ao menos manter uma posição digna que não me fizesse desabar com as mãos de suor e fraquejando pelo prazer; fui abraçado pela frente, puxado de forma a sentar com as costas em seu peito. Era melhor assim. Muito melhor, se possível ressaltar. Virei-me de frente para seu rosto. Tocando a testa suada com certos fios presos, o ar ofegante, a mantimento de seus olhos ainda rosados. Desenhei meus lábios com a linha, recebendo o comando vindo dele de começar a me mover com seu auxilio. Enfiei os dedos por seus cabelos, trazendo sua face a minha para então beijá-lo com vigor à medida que aumentava o empenho com que eu me movia. Gemíamos entre o osculo selvagem, fui abrigado a apartá-lo quando senti seus dedos outra vez ao meu redor, apoiei a testa na dele, não duraria tanto quanto gostaria ou tinha em mente que deveria. Mordi meu próprio lábio quando senti a essência escorrer de mim, sujando meu peito o dele, e seus dedos. O sangue escorreu por meu queixo que foi lambido pelo outro, seus olhos brilharam pouco mais que o comum.
Não demorou muito para que o rosto de Sebastian se transformasse em uma pequena careta indicado o alivio. Trocamos outro selo, o mais suave e calmo da tarde. Apoiei a cabeça sobre seu ombro, tentava regular minha respiração, o coração era frenético dentro do peito. Suas mãos deslizavam devagar em minhas costas. Eu poderia dormir diante desse carinho.
–- Temos o treinamento completo. -- falou baixo.
–- Ótimo. Fez bem. Isso era realmente necessário ou apenas uma desculpa?
–- Um pouco dos dois. -- riu de leve. Rolei os olhos.
–- Sua sinceridade é admirável.
Fui envolto numa toalha escuro e levado até meu quarto para um banho. O resto da tarde passou normalmente. E na hora de dormir, eu me encontrava um pouco mais tenso, e também ansioso para o dia seguinte.
–- Tente dormir, Bocchan. Não pode estar com o corpo cansado para amanhã.
–- Eu farei, não se preocupe com isso. -- o lençol cobriu-me até o peito. -- Sebastian!
–- Pois não?
–- Amanhã, será o fim, por tanto, não morra, e cumpra o seu papel. É uma ordem.
–- Yes, my lord. -- ajoelhou-se ao pé da cama. -- Boa noite, Conde Phantomhive.
–- Boa noite, Michaelis.”
–- Alois, poderíamos dar uma volta na mansão?
–- Mas é claro, os outros irão tirar a mesa. -- levantou-se.
Encarei Sebastian depois que fiquei de pé outra vez. Era à hora.
Bastou apenas um olhar para que ele entendesse, nada mais. O mordomo do Alois retirava os pratos e talheres da mesa, também não percebeu nada. Respirei fundo aliviando as tensões quando comecei a andar pelos corredores na companhia do Trancy. Entramos e saímos de salas, nenhuma delas me parecia apropriada, sempre composta de muitos móveis que dificultariam a locomoção. Eu precisaria de um ambiente onde ele praticasse suas danças. Não havíamos dado de cara com a Hannah e nem com os trigêmeos o que achei estranho, muito estranho.
Íamos cada vez mais fundo na mansão, para cada vez mais longe de qualquer barulho ser escutado da sala de jantar ou cozinha. Assim como também o fato de não saber aonde os outros se encontravam deixava o clima ao meu redor misterioso e receoso acima de qualquer outro; alcançamos uma sala de piso xadrez. Havia uma sacada para o local onde estávamos no centro dela. Era vazia, totalmente oca de prateleiras, estantes, mesas e assentos. Na parede abaixo da sacada, havia algumas espadas postas uma ao lado da outra, penduradas na parede. Era o lugar perfeito. Por pouco não contive um sorriso. Caminhei até onde havia as espadas, pegando uma delas e experimentando seus movimentos.
–- E então Alois? Uma pequena demonstração?
–- Claro, por que não? -- veio ao meu lado, não se importando em escolher capturou qualquer uma.
Caminhamos de volta para o centro da sala. De costas um para o outro, contamos cinco passos e viramos em nossas bases de esgrima. O loiro parecia desleixado quanto a essa diversão proposta, porém o olhar em meu rosto era sério, sério em extremo. A luz fraca colaborava para o clima começar a escurecer no ambiente. Alois fora o primeiro a fazer o movimento, o defendi sem precisar de muito afinco. Ele certamente estava levando como uma brincadeira. Tentei fazer com que Trancy começasse a levar a sério, incitando a ataques mais perigosos de minha parte, sempre estando um passo a frente em velocidade e mira para onde gostaria de acertar. Pela expressão que passou a tomar sua face havia percebido, não a finalidade da pratica, mas o caminho que percorríamos de pouco em pouco; quando encontrei uma brecha perto de seu corpo, uma rasteira o levou a chão. Chutei a espada que pendeu de sua mão, com os olhos assustados gritou por Claude desesperadamente. A ponta da minha lança ia a seu peito, subindo lentamente em direção ao seu pescoço.
–- Pare com isso Ciel!! CLAUDE!
A porta foi aberta com brutalidade, encarei-a, achava que seria sim o seu mordomo, mas relaxei quando vi os três demônios de tamanhos e faces iguais. Soltei um alto riso. Alois arrastava-se para o canto da sala; eles aproximaram-se correndo, cada em uma direção. Retirei o tapa olho, deixando finalmente exposto para o outro Conde presente o que me tornei. Estralei os dedos, retirando o casaco que cobria minha camisa atirei em direção ao rosto de um deles, estando apenas com dois para lidar, ao menos por hora. Utilizando dos conhecimentos de combate contra dois inimigos, Sebastian e Grell, lidar com aqueles que não chegavam nem aos pés de ambos foi simplesmente a coisa mais fácil de se fazer.
–- Onde está o Claude?! -- escutava-o gritar. -- HANNAH!
Era deveras irritante o ritmo de batalha de todos eles. Nada muito coordenado ou que necessitasse de atenção redobrada.
–- Cala a boca, Alois!
Por momentos pensei que o Trancy fosse tentar fugir pela porta que ainda se encontrava aberta. Porém o garota parecia em um estado tão deplorável de desespero que nem ao menos pensara em qualquer fuga. Um dos três já havia sido empalado pelo lustre depois de um empurrão da sacada, as luzes se estilhaçaram ao chão, havia outras hastes eretas prontas para receber cada um dos outros irmãos que restava.
Não seria difícil, e além do mais aquilo estava divertido, eu poderia fazer durar, porém queria por o fim em tudo, após anos e gerações. Finalmente estaria a poucos minutos de seu extermínio.
–- O que fez com eles?? -- levantou-se de vez.
Minhas roupas estavam sujas de sangue, um pouco de suor escorria de minha testa. Minha respiração estava um pouco alterada pelo esforço físico. Encarei o loiro, queria sorrir, queria rir. Havia um arranhão na minha bochecha direita, passei a língua de forma a sorver parte do líquido que conseguisse encontrar na tentativa. As pernas e braços de Alois tremiam, estava visivelmente assustado e não sabia o que fazer, alternava os olhares a mim e os demônios trigêmeos mortos.
–- O que o Sebastian fez com você?? -- vi lágrimas em seus olhos. -- Você virou um monstro, Ciel! Não quer fazer isso!
–- Sim, eu quero, pode ter a plena certeza. E como quero. -- caminhei um pouco mais para perto, o vi recuar. -- Alois, por tanto anos sua família tentou roubar o nosso trono. Conversamos sobre, e o Claude está aí para isso. Ajudá-lo em sua ‘vingança’ inexistente. Um legado que já deveria ter sido descartado há anos, foi passado para você algo que estava fadado à derrota. -- contive o riso. -- Achei que fosse mais inteligente. -- abaixei e segurei a escada que antes pertencia a ele. -- Não quero nada fácil. Achei que lutar contra esses três exigiria mais de mim, porém me enganei. -- olhei para eles. -- Vamos, lute pela sua vida. -- lancei-a em sua direção, o som do aço no chão, ele olhou para os pés abaixando-se e pegando. -- Lute pelo que lhe foi deixado a concluir. -- sorri.
–- O que ele fez com o Claude?
–- Não é estúpido o suficiente para não saber isso, certo?
Com um olhar o qual posso chamar que tentava ser determinado avançou sobre mim. Não era totalmente desleixado, conseguiria alguma coisa se acaso eu não fosse o que sou hoje. Os olhos não deixavam de derramar lágrimas em nenhum momento. Passei a espada na diagonal, em sua esquiva acabou com um corte na altura da clavícula, mesmo gemendo continuou a atacar. Seu desempenho era ótimo para quem havia lutado tão mal quando chegamos aqui.
Mas isso tinha que chegar ao fim.
Acertei pouco abaixo de suas costelas ao passar por ele. Parando de mãos para o alto deixou a lâmina cair, levou a mão em desespero até o local do ferimento, encarou-me como quem não acredita no que havia acontecido, e procedendo olhou para as mãos sujas de vermelho. Não era um corte para matar. Ajoelhando-se, ainda pressionava o local.
–- Claude. -- sussurrou antes de tombar de frente e desmaiar.
Respirei fundo, soltei a espada ao chão, sentando ao lado dele. Ainda não havia acabado, porém eu precisava descansar e por em ordem os acontecimentos. Gostaria de rir como um louco. A euforia me consumia por dentro. Sabia que meu mordomo fez tudo o que lhe foi passado para fazer. E com o pensamento nele o vi surgir na porta. Esbanjava um sorriso, assim como eu estava pouco machucado, as vestes um pouco sujas. Acompanhei seu sorriso. O ordenei a levar o corpo do Alois para os fundos da casa. Quando passamos pelo Hall de entrada, onde estavam minhas roupas e as do mordomo perduradas ao lado da porta de saída, os corpos do Claude e de Hannah estavam presentes. Encarei-os, uma estranha espada fincada no peito do homem, havia um corte na diagonal feito nela. Pela lógica fora a primeira a morrer. Deixei aquela cena para trás. Nos braços do Michaelis, Trancy ainda desmaiado, a blusa em sua barriga suja do liquido da vida.
–- Coloque-o na cadeira. -- de frente para seu jardim, a ventania era forte. -- Alois. -- estapeei sua bochecha para fazê-lo despertar o mais rápido possível.
–- Ah... -- gemeu pressionando o ferimento. -- O que ainda faz aqui? Já teve o que queria, vá embora. Não tenho mais nada.
–- Não, pelo contrário, ainda não tive o que quero.
–- O que você quer? A mansão? Fique com ela! Estou morrendo!
–- Não, eu não a quero. Desejo algo muito mais valioso a você, e a todos, principalmente ao Claude. -- piscou algumas vezes diante de minha declaração. -- A sua alma. Isso acaba agora, Alois Trancy.
Apoiei os braços nos braços da cadeira, seu olhar desesperado, queria fazer algo para sair dali. Inclinei em sua direção, fechei os olhos quando nossos lábios se juntaram. E puxei. Suguei sua alma para dentro de mim como se a minha vida estivesse dependendo daquilo. A sensação era inexplicável. O prazer sentido a nada se igualava. Meu corpo era preenchido por diversos sentimentos, por glórias jamais alcançavas. Poderia ser considerado como múltiplos orgasmos ao longo de cada pequeno pedaço que me adentrava.
E quando acabei só pude soltar o que estava engasgado em minha garganta, uma risada vinda do fundo com todo o regozijo que ela poderia permitir a alguém sentir, sentia-me feliz acima de qualquer outro sentimento ou pensar. Meu estômago já doía pelas fortes contrações. O abracei, puxando ar para só então cessar a crise.
–- Sebastian. -- joguei-me sobre seu peito, os braços em seu pescoço. -- Bom trabalho. Acabou. Haha -- juntei nossos lábios.
–- Bom trabalho, Bocchan. Devo dizer que isso fora algo inesperado. -- notei que olhava para o garoto atrás de mim.
–- Não ligo. -- apoiei a cabeça em seu peito. -- Vamos. Vamos voltar à minha mansão. Não temos mais nada o que fazer aqui dentro.
Durante a volta para os empregados da Phantomhive repensei em tudo que o dia havia me proporcionado. Desde o nome prazer ao saborear uma alma humana, até o tão sonhado final da minha vingança, sendo ela está ou não sendo estava feita. Isso é satisfatório, com as próprias mãos.
Voltamos à mansão, um banho para toda aquela sujeira de Trancy e Cia ser tirado de meu corpo e roupas. Ainda sentia o corpo em êxtase pelo que fora feito, de fato alimentar-se de uma alma não tem comparação a alimentar-se de libido.
–- Sebastian. -- fechava as cortinas da janela.
–- Pois não?
–- Volta à mansão, limpe tudo, faça com que nunca, -- encarei seus olhos. -- jamais, seja descoberto que houve qualquer coisa naquele lugar, e muito menos, que estivemos lá.
–- Como quiser, Bocchan. -- puxava o cobertor para meu peito. -- Estarei de volta pela manhã.
–- Leve o tempo que for necessário, apenas faça.
O sono abortou rápido, a ansiedade e a correria talvez tenham feito o corpo cansar. Não me importei, fazia tempo que não tinha uma boa noite de sono, a ponto de deitar com a cabeça no travesseiro e conseguir assim adormecer, levava sempre algumas horas a mais.
Michaelis faria o resto do que deveria ser feito, esconder qualquer evidência sobre o que aconteceu com a Aranha e sua prole. Ninguém precisava estar sabendo, ninguém jamais saberia. Tudo estaria em seu mais perfeito lugar quando o Sebastian deixasse o ambiente, só então eu posso dar como concluído. Meu trabalho como Cão de Guarda da Rainha não será abalado. Não tenho mais um grande objetivo, então, continuar com o trabalho de sempre será o meu zelo. O terei ao meu lado, e posso afirmar sem distinção que é o suficiente para mim. Algo que nunca diria em voz alta, e que não é necessário com tudo o que fizemos, o que faremos. Palavras não são coisas importantes neste sentido.
O som da cortina em meus ouvidos, a claridade veio em meus olhos, apertei-os antes de abri-los e encarar as costas do mordomo. Já era dia. Virando-me sua cabeça ainda de mãos nos panos escuros, sorriu de leve:
–- Bom dia, Bocchan. Uma carta da Rainha, temos trabalho para hoje.
Um status a ser mantido, e trabalho a ser feito.
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