Seu José

1 Vivência de José


Na capital a manhã se fazia nublada quando José se espreguiçava para levantar da cama que não era dura, mas estava longe de ser macia. Sua situação financeira era como a cama dele, nem muito, nem pouco, apenas o suficiente para o manter no dia a dia. Sendo ele um desempregado idoso, tornava difícil encontrar lugar que o aceitasse, sempre o subestimando. Se não tivesse sua pensão do INSS teria sido difícil sobreviver todos estes anos em busca de empregabilidade.

Um suspiro fraco e o olhar voltou ao relógio de parede, marcando o horário da partida.
Café da manhã após um banho curto e barba feita, estava alinhado com roupa social e gravata para finalizar. Como estava bonito o senhor José, em pleno ano 2019 engraxava suas botinas de couro ele mesmo, as deixando em brilho lustroso e elegante e em pouco tempo saiu rumo a seu destino.

Uma empresa multinacional o havia selecionado para participar de uma entrevista junto a muitos outros e apesar da calma aparente, por dentro estava nervoso.
O entrevistador se tratava de um rapaz jovem demais para ter terminado a faculdade, mas ele próprio nunca fizera uma sequer, não podia julgar.

— Seu José, deseja algum cargo em específico?

— Não, eu sou um homem humilde, mas sou honesto. Não tenho instrução de estudos mais avançados, terminei a escola com dificuldade, mas sou esforçado e vou fazer de tudo pra dar certo.

— Maravilhoso! Era exatamente esse tipo de pessoa que precisávamos nesta empresa, o senhor está contratado. Se puder, começa ainda hoje como vigilante especial e os detalhes vão ser ditos mais tarde.

A surpresa foi grande tanto pela empolgação do jovem menino quanto de ter conseguido o tão aguardado emprego e ainda por cima, de carteira assinada. A alegria e a ansiedade fizeram o nervosismo desaparecer e apertaram as mãos selando o acordo.
As chances de ser admitido eram escassas, mas de alguma forma tudo deu certo e agora, fazia parte de um dos muitos empregados da empresa e enquanto assinava os contratos, soube que aquele que o entrevistara era James, o próprio dono do lugar e com sua genialidade construiu um enorme patrimônio sozinho.
Ele era descontraído, conversava com todos sem discriminação entre patentes e isso fez com que José passasse a admira-lo.

° ° °

Um bom tempo havia passado desde a entrevista, o trabalho se resumia em vigiar os equipamentos de um grande salão e verificar se estavam bem regularmente, coisa que o velho senhor fazia com frequência e cautela impecável.

Todos os dias mais ou menos no mesmo horário, um colega de outro setor gostava de sempre adentrar o local e puxar conversa, fazendo o serviço se tornar menos cansativo por conta da companhia, embora o senhor respondesse de forma monossilábica pela timidez, adorava a presença do outro.

Após um mês trabalhando naquele lugar, o colega comentou casualmente que ia tirar fotos dos equipamentos e antes que eu respondesse, retirou uma máquina fotográfica do bolso.

Algo estava errado e pôde sentir isso ate em seus ossos velhos, que se moveram antes de sua mente pensar, abaixando a mão preparada para cometer a ação anunciada, surpreendendo o outro.

— Não acho correto fotografar, isso deve ter algum protocolo ou permissão antes de ser feito.

— Qual o problema, jose? Você e eu trabalhamos na mesma empresa, são apenas setores diferentes, mas somos funcionários daqui.

Ele estava certo, mas algo dentro de si tocava uma sirene de alerta, o impedindo de deixar que aquilo se concretizasse. Enquanto nossas bocas debatiam, os corpos se moviam, o dele tentando tirar as fotos e as vezes até conseguindo alguma, com parte do corpo idoso na frente para tentar tapar a fotografia.

— É so uma foto, larga de ser chato!

— Se é so uma foto, peça permissão ao dono!

Sem pensar, o empurrei e antes que pudesse pedir desculpas, fui empurrado de volta e no meio tempo ele tirou uma foto quase limpa, me deixando nervoso pela situação.
Havia feito boxe quando mais novo e quando vi, o corpo agiu sem que minha mente pudesse calcular qualquer coisa e três jabs foram desferidos de leve contra o estômago do outro, caisando surpresa e falta de equilibrio, dando tempo de arrancar a máquina de sua mão e esconder atrás do próprio corpo.

Estava assustado, não sabia porque uma simples foto o estava deixando com pressentimentos tão ruins e muito menos porque reagia daquela forma. Porque queria tanto proteger a imagem da empresa sendo que nada de ruim havia naquele salão?
E porque sentia que as ações do colega estavam erradas? Não sabia, mas não conseguia ficar parado assistindo sem fazer nada.

Atordoado pelos socos, tocou o local ferido sem entender como aquilo havia acontecido. Sua surpresa mudou para uma agressiva e veio para cima do outro que nervoso, não pôde fazer nada naquele meio tempo, gritando por ajuda enquanto tentava impedir que pegasse de volta a câmera.

— Socorro! Ele ta descontrolado!

O barulho chamou a atenção de quem estava por perto e ao ouvir meus gritos, alguns correram pra dentro enquanto outros correram buscando ajuda do segurança que por estar por perto, entrou na sala sem demoras, separando nós dois.

Era visível em seu semblante que estava frustrado demais por não conseguir o que queria. Ao invés de fotografar as máquinas brigou com um colega de trabalho e foi preso por outros funcionários a fim de o parar.
Ofegante, me encosto em uma coluna e tento respirar normalmente, para me acalmar enquanto ouvia todos perguntando o que havia acontecido e antes que eu pudesse falar algo, o dono da empresa chega no local com seu caminhar altivo e sorriso tranquilo nos lábios. Ele parecia despreocupado e alegre e eu, nervoso e com medo de ser demitido, pois não sabia se tinha reagido de forma errada.

— Senhor José, eu vi tudo o que aconteceu pelas câmeras de vigilância, mas gostaria de ouvir da boca do senhor o que aconteceu.

Suspirou uma vez mais, com a respiração estabilizada, mas ainda apreensivo, contou a situação e retirou de dentro do bolso o objeto, mostrando a ele "a arma do crime"

— Droga! — O lamento irritado do funcionário detido fez com que se perguntasse do porque daquele rancor todo. Ele não ia nem se defender? Só reclamar e pronto?

— Parabéns, foi uma boa escolha o contratar. Meus homens irão se assegurar de levar este homem a polícia e quero que seja minha testemunha na corte.

— O que?

— Vejo que não entende o que fez, em poucas palavras, você salvou o segredo da minha empresa!

— Mas... Como? Tudo o que eu fiz foi impedir ele...

— ... De tirar fotos do meu maquinário e segredo de sucesso. Este homem nada mais é do que um espião da empresa rival que a anos luta pra chegar aos meus pés, mas sem isso, só pode permanecer abaixo deles.

— Então, o senhor ta dizendo que Jake entrou na empresa como um dos nossos, mas apenas queria acesso ao interior restrito aos funcionários? Então...

O olhar do senhor idoso voltou para o outro que estava sendo mantido pelo segurança.

— ... Ele vinha falar comigo todos os dias para baixar minha guarda, pois sou responsável pela sala de maquinas. Agora entendo.

A dor daquela resolução fez com que entendesse que havia considerado o outro como um amigo neste tempo e não demorou para que orvalhos daquela manhã pousasse em seus olhos. O coração bate de forma diferente quando perdemos um amigo, mas quando se descobre nunca ter tido amizade com quem se quer bem, a dor é a mesma.

As palavras de floreio do seu José continuavam sem fim, mas tudo o que podia ouvir era a memória dos últimos meses, como havia sido feliz sem saber. O único que falava com ele seria condenado e em seu olhar apenas vinha raiva. Em nenhum momento Jack esteve com medo ou arrependido, apenas frustrado por não concluir sua missão.

Sem dizer nada, abandonou o prédio ignorando o que José dizia, apenas murmurou que tiraria o dia de folga. Era um senhor sensível demais para o próprio bem. Escolheu ir a pé para poder pensar e andar lhe dava esse privilégio.
Caminhando através dos bairros, notou tarde demais que estava sendo seguido por duas pessoas, ambos de dentro da empresa. Sorriu entristecido, pensando se eram outros espiões e colocou as mãos nos bolsos como uma forma de tentar se tranquilizar. Foi neste momento, que sentiu o objeto no bolso esquerdo o alertar e entendeu a própria situação.

Corria perigo.

Eles queriam a máquina, mais precisamente as fotos mal tiradas que ainda estava com ele. Estava com medo, mas o que poderia fazer sozinho naquelas ruas desertas senão fugir? Eles não haviam percebido que tinham sido descobertos e podia usar isso a seu favor. Bastava continuar caminhando tranquilamente como antes, mas seguiria por uma rota diferente. Se tivesse sorte, eles não o abordariam antes de chegar perto do posto policial e se viessem, poderia correr até eles ou gritar.

Tentou manter a calma e o ritmo para não ser percebido, mas em determinado momento, ouviu um clique familiar. Já ouvira aquilo em filmes antes, era o barulho que uma arma fazia ao ser destravada.
O coração estava acelerado e o medo era maior que sentira antes, mas se demonstrasse isso, seria seu fim, sabia disso.
Fingindo não ouvir o barulho, seguiu o caminho como antes e ao virar na esquina onde sabia ser o posto, correu.

Correu o mais rápido que suas pernas velhas podiam nesse rompante de medo e sabia que eles só veriam que correu quando entrassem na mesma rua que ele. Pouco antes de chegar no topo da ladeira, ouviu um estrondo alto e uma coisa quente cortou a perna de forma estranha, fazendo o corpo cair assim que foi atingido. José sabia o que havia acontecido, mas se negava a admitir isso para si mesmo. Tão rapido quanto caiu, se ergueu e voltou a correr, agora mais lento que antes.
Outro estrondo se ouviu mas dessa vez não foi atingido e sofrendo menos, por estar de sangue quente, continuou a correr quase sem dor. O que impedia de correr na velocidade anterior era seu músculo, que por ter sido atravessado, tinha o funcionamento comprometido.
Ali estava, o posto policial, finalmente.

— S- Socorro! Socorro!

O barulho cortou os céus e caiu no chão com o último trovão, sangrando próximo de sua salvação, lembrou do que sua mãe sempre dizia e sorriu: "Nadou, nadou, e morreu na praia."

Enquanto sua consciência se esvaía aos poucos viu seus perseguidores aproximarem do corpo quase inerte e segurou firme a maquina, sem querer deixar que a levasse. Eram um homem e uma mulher, sendo ela a dona da arma, se assustou pelo próprio preconceito. Não imaginava que mulheres pudessem usar essas coisas perigosas.
Não conseguia mais ouvir nada, os sons ficaram bagunçados e suas vozes se tornaram distantes, mas pôde entender mais ou menos o que acontecia.
Eles se abaixaram pra tomar a câmera e se assustaram com algo que vinha de outra direção, os fazendo correr para longe dali antes que conseguissem concluir o ato.
Os olhos foram se fechando ao ver que não estavam mais por alí, ficando tranquilo sem eles...
Dormiu.

°°° Fim?

Notas finais
Mais um sonho que tive.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!