Seu Andar Hipnótico
2 Soluços e lágrimas em uma ruela escura
Notas iniciais
Capítulo II
Soluços e lágrimas em uma ruela escura
Toris não foi mais à mesa do polonês, depois disso. Continuou atendendo aos outros clientes, embora um pouco pra baixo, e de vez em quando, mandava olhares rápidos em direção à mesa catorze.
Enquanto pegava mais um prato com o cozinheiro novato, o lituano teve o ombro cutucado por Lovino, o garçom italiano que era irmão mais velho do cozinheiro.
–Psst, Toris, olha só que tipo estranho que ‘tá entrando. –sussurrou, soando tanto curioso como maldoso.
O moreno se virou, subitamente interessado. Quem entrava pela porta do estabeleciemento era um homem alto e albino, de cabelos platinados e sorriso sádico, de quem se achava o máximo. Toris tomou um susto ao perceber seus olhos profundamente vermelhos, e o coração se apertou quando o desconhecido foi até a mesa de Feliks, sorriu para ele e se sentou na cadeira vaga.
Então era ele quem o polonês esperava. Toris suspirou entristecido, invejoso por aquele albino ter conseguido o que ele ficou anos tentando conquistar: a atenção do loiro.
Mas bem, fazia sentido. O desconhecido era alto e bonito, aparentemente atlético, com uma boa postura. Usava roupas de marca, que lhe caíam muito bem, e ostentava aquele sorriso de quem tinha a auto-estima lá em cima. O lituano olhou para os próprios pés, sentindo-se encolher. Era quase o reflexo do albino – e talvez por isso, Feliks nunca falara direito com ele.
–Que esquisitão –sussurrou Lovino, grunhindo- Os olhos dele são vermelhos...
Mas Toris não prestava mais atenção. Pegou o pedido que quase esfriava, e serviu à mesa nove. Continuou trabalhando calado, mas ao mesmo tempo, prestava atenção no que ocorria na mesa catorze. Um olho na sardinha, o outro no gato; queria saber detalhes da conversa de Feliks e o desconhecido, se iriam segurar as mãos, se beijar, com que frequência o polonês sorria. Stalker? Não, claro que não.
Pelos gestos dos dois e frações das conversas que Toris conseguira captar, ele entendera que o nome do albino era Gilbert, e ele Feliks não eram namorados, como pensava. Era seu primeiro encontro, o que explicava o nervosismo aparente do loiro. Embora não parecesse, desde a escola ele sempre fora bastante tímido, era sempre o outro que deveria puxar conversa, e só então, talvez Feliks se soltasse. E isso era uma das coisas que Toris mais admirava nele – como ele era difícil de se aproximar, mas uma vez que se conquistava sua simpatia, tornava-se alguém totalmente diferente. Nem parecia ter sido tímido alguma vez na vida.
Voltando ao Lithuanian Palace, Toris encostou-se na bancada da cozinha e pôs-se a espiar a mesa catorze, enquanto esperava a saída de mais um pedido. Gilbert, o albino, ria incrivelmente alto de algo que ele mesmo dissera. Sua risada era estranha, fazia um ruído, algo parecido com “kesesese”, que arrepiava os cabelos da nuca do lituano. O polandês parecia estar cada vez mais desconfortável também, sorrindo um pouco forçado e unindo as mãos debaixo da mesa.
–Enfim, Feliks –Toris ouviu Gilbert dizer- Até que você é legal. Não tão incrível como eu, é claro –ele tocou o próprio peito, estufando-se- Mas ninguém consegue ser.
–Humm, obrigado... –o loiro ajeitou o cabelo, enrubescendo.
–E eu achava que você era uma menina, sabe? Desde a escola, quando você aparecia com aquelas roupas mega gays, todas cor-de-rosa e apertadas...e principalmente porque você sempre teve bunda de menina. –Toris sentiu o sangue subir à cabeça, irritando-se com o jeito daquele branquelo- Eu nunca sairia com você naquela época, acho...você parecia uma menina, mas uma menina bem feinha. Só agora que deu pra perceber como você cresceu, e acho que eu acabei me interessando por você... –ele estendeu a mão, tentando tocar a do polonês, abandonada em cima da mesa. Toris sentiu seu estômago se revirar, deveria impedir?, pensava, quando um movimento rápido de Feliks arregalou-lhe os olhos. O polonês afastou a mão e se levantou, parecendo ofendido.
–Então você me achava com cara de menina? –ele disse, os olhos faiscando- E uma menina feia? Nossa, Gilbert... –ele baixou o rosto, suspirando- Eu achei que você, tipo, fosse mais gentil.
–Mas eu sou gentil! –ele também se levantou- Eu sou incrível. E um cara como você deveria realmente ficar com alguém incrível como eu...mas claro, você teria que deixar essa bobagem de crossdressing, e usar roupas mais largas, porque esses shorts são ridículos...
Ele não conseguiu dizer mais nada. Só o que Toris conseguiu ver, apavorado, foi a mão de Feliks voando certeira de encontro ao rosto do albino, e então o polonês correu para fora do estabelecimento, abandonando um Gilbert com a bochecha inchada e uma conta para pagar.
*
Toris mal conseguiu assimilar o que acabara de acontecer; de algum modo, em algum lugar no fundo de seu ser, uma voz lhe dizia que seguisse Feliks. E, sem sequer consultar a voz duas vezes, ele arrancou o avental e correu como um relâmpago para fora do restaurante, puxando a porta com violência, apesar dos protestos de seu pai, que gritava para que ele voltasse.
O moreno pôs-se a correr pelas ruas, e só percebeu a burrada que fizera quando parou, encostando-se em um poste para tomar fôlego, e olhou para os lados, notando, mortalmente, que perdera o rastro do polonês. Ele deu um forte tapa na própria testa, resmungando para si mesmo como era um idiota. Após recuperar-se da corrida inesperada, olhou para os lados, procurando alguma referência para voltar ao Lithuanian Palace. Conseguiu avistar, na quadra seguinte, um hotel conhecido. Sim, o restaurante de sua família era na rua paralela à daquele hotel! Ele começou a andar naquela direção, já respirando normalmente, embora seu coração ainda estivesse descompassado. Ele não conseguia deixar de se preocupar com Feliks – ficara realmente ofendido com o que Gilbert dissera, e Toris estava aflito que a reação do loiro acabasse por causar uma confusão no restaurante.
Ele pensava sobre isso, e sobre onde Feliks poderia ter ido, quando ouviu um choro contido em um beco pelo qual passava. Curioso e chocado, retrocedeu alguns passos, espiando na ruela escura. Conseguiu distinguir, então, encostada na parede entre uma lata de lixo e uma caixa de papelão, uma figura esbelta de pernas expostas e as mãos cobrindo o rosto.
Toris arquejou e se aproximou devagar, hesitante. O chamou, a voz cheia de preocupação, uma, duas vezes, e o polonês finalmente tirou as mãos do rosto e ergueu o olhar. Era de cortar o coração; sua expressão desolada, seus olhos brilhando, as lágrimas que não paravam escorrendo pelo rosto vermelho e inchado do choro. O lituano sentiu um peso enorme no peito quando Feliks murmurou seu nome, tentando secar as lágrimas com as costas de uma das mãos.
–Toris... –ele mumurou novamente, como um animalzinho indefeso ferido na estrada- V-você viu tudo...não é? Veio rir de mim, não veio? Por favor, me poupa disso... –ele baixou a cabeça e soluçou- Eu, tipo, já fui humilhado o bastante...
O lituano sentiu seu peito pesar com as palavras do loiro. Estava tão machucado, ele só queria o abraçar e carinhar seus cabelos e sussurrar que tudo ficaria bem...mas seu bom-senso o impediu. Em vez disso, ele apenas cerrou os punhos, em uma tentativa de impedir as mãos de tremer, e respondeu:
–Feliks, eu nunca riria de você, muito menos pelo o que aconteceu. Olha, aquele cara, aquele Gilbert, ele é um babaca. O maior que eu já conheci. –Feliks ergueu os olhos, parecendo surpreso pela raiva na voz de Toris- Não ligue para as coisas que ele te disse... –tomando coragem, o lituano ergueu as mãos e segurou o rosto do loiro com elas, e este se virou para si- Você é lindo, Feliks, sempre foi, e não deve se importar nem um pouco com o que dizem sobre a sua aparência. Tudo bem? –sorriu, limpando suas lágrimas com um dos polegares.
O polonês parecia em choque. De súbito, seu rosto ficou ainda mais vermelho, mas não era pelo choro. As lágrimas pararam de escorrer, ele piscou os olhos incrédulos, e abriu um pouco a boca em sinal de surpresa.
–Toris... –ele murmurou, e o lituano se preparou para ser empurrado e xingado- Eu nunca...imaginei que você fosse me ajudar algum dia. –ele engoliu o nó na garganta e sorriu um sorriso mínimo, mas honesto- Obrigado! De verdade! –e sem qualquer cerimônia, envolveu a cintura do mais alto com os braços, apertando o rosto contra seu peito, soluçando. O lituano chocado ergueu as sobrancelhas e sentiu o rosto arder, mas não conseguiu fazer nada além de afagar seus cabelos carinhosamente.
–Não...não tem de quê. –ele murmurou.
Feliks então ergueu o rosto, que já ostentava seu típico sorrisinho matreiro.
E Toris não conseguiu lembrar mais de nada – apenas da escuridão e de como os lábios do polonês eram quentes e macios.
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