Notas iniciais
No final do cap anterior, qnd Julieta pergunta pro Aurélio se ele seria capaz de gostar dela de novo, na minha mente eu posso ouvir Ana Carolina cantando “Não quero ficar na tua vida... Como uma paixão mal resolvida” pq sou dessas. Então, o cap de hj tb começaria nessa parte da música. Fica aqui minha sugestão ;)

Aurélio ficou de pé e eu segui seu movimento. Ele caminhou um pouco pelo quarto, parecia tenso. Logo ficamos frente a frente mais uma vez. Eu estava pronta pra ouvir e ele para falar.

— Pois bem, se quer mesmo a verdade, saiba que eu fiquei muito decepcionado pela maneira como me tratou e acusou. Era como se eu estivesse novamente diante da mulher fria e implacável que conheci meses atrás. Como se tudo que vivemos depois não tivesse significado algum pra você. Lidar de novo com aquela Julieta, a primeira que conheci, me deixou muito confuso. Tanto que eu comecei a me perguntar em que momento e como eu pude... – Ele hesitou um pouco, me deixando ainda mais ansiosa. – como eu pude me apaixonar por você.

Aquelas palavras foram como um soco no estômago. Ele nem sabia mais o motivo pelo qual havia se apaixonado e a verdade é que eu o entendia e até concordava. Se nem eu mesma era capaz de gostar de mim, não poderia esperar isso de mais ninguém.

— E você encontrou uma resposta? – Eu disse triste após minha constatação.

— Não! Eu não sei ao certo, Julieta. Talvez tenha sido a admiração que eu nutria por você e tudo o que construiu sozinha. Talvez o mistério que você representava para mim. Mas, eu acho que o amor não tem mesmo nenhuma explicação. Ou você ama ou você não ama e eu...

— Eu amo você!

Eu falei antes que pudesse perder a coragem. Aurélio me olhou incrédulo e eu entendi que ele precisava de uma confirmação.

— Eu amo você, Aurélio! Eu não conseguia dizer, eu não conseguia aceitar, eu me debatia! – E lá estava eu, chorando mais uma vez. – Desde que nos conhecemos você não saiu mais da minha mente e do meu coração, mas, eu não podia admitir, entende? Eu não podia admitir, nem para mim mesma que a minha felicidade dependia inteiramente de UM HOMEM. Eu tinha que odiar os homens, Aurélio, não amar! Mas, eu o amo!

Aurélio me olhava atento e acho que um pouco assustado com o modo como eu falava, mas em nenhum momento me questionou. Aquilo era quase o início de uma confissão. Eu era uma mulher ferida e ele sabia. Mas, eu não estava pronta para falar de todo o resto, então, voltei o assunto para o presente e tratei de esquecer o passado.

— Eu ouvi a sua conversa com Brandão! Eu estava lá o tempo todo, escondida e envergonhada demais pra falar com você. Não imagina o quanto eu fiquei desesperada quando entendi que você iria embora. A semana que passamos longe e brigados já tinha sido uma amostra do quanto a minha vida podia ser triste sem você. Eu não posso te pedir pra ficar, eu sei disso. Mas, também não posso deixa-lo ir embora me odiando. Por favor, Aurélio eu te peço...

Ele se aproximou de mim e acariciou meu rosto como sempre fazia quando queria me render. Eu deitei a cabeça na mão dele, fechei os olhos e senti os seus dedos retirarem com cuidado as mechas de cabelo que tomavam meu rosto. Os lábios dele tocaram meus olhos fechados, fazendo um carinho leve que aliviava um pouco o ardor depois de tanto choro. Ele encostou sua testa na minha por alguns segundos e finalmente o veredito foi dado.

— Eu queria tanto ouvir isso de você, Julieta. Esperei tanto por esse momento! Eu sempre soube – ele disse sorrindo – mas, queria ouvir de você, da sua boca, que também me ama. É claro que te perdoo. Eu não consigo sentir raiva de você por muito tempo. Mesmo que eu quisesse te odiar, eu simplesmente não conseguiria. Achei que você já soubesse disso.

Aurélio era mesmo iluminado. As suas palavras me encheram de esperança e de coragem. Não pude esconder um enorme sorriso, o primeiro em muitos dias, e ele me devolveu outro, tão largo o quanto.

— Então, se nós nos amamos e eu estou perdoada, o que acha de permanecer aqui no Vale do Café? Você pode voltar a trabalhar comigo na fazenda cuidando dos meus cavalos e... e de mim, se não se opor...

Ele fez suspense e meu coração acelerou.

— Aceito sua proposta! Começando por esses arranhões. – Eu sorri aliviada. – A propósito, ainda não entendi como você veio parar aqui de madrugada e porque está desse jeito.

Contei a ele como eu tinha passado as últimas horas. Da loucura que fiz atravessando sozinha a estrada escura entre minha fazenda e a cidade e sobre como sofreu o pobre Soberano, que aos trancos e barrancos conseguiu me trazer ao meu destino. Aurélio transitava entre um ar de riso e preocupação com meu feito. Perguntava se eu havia enlouquecido pra depois elogiar minha coragem. Rimos juntos enquanto ele limpava e cuidava dos meus arranhões.

— Você deve estar exausta.

— Exausta, mas, aliviada. Ainda não acredito que estou aqui com você. Que nós nos entendemos e eu finalmente pude dizer o que sinto.

— Também estou aliviado. Minha ida para Recife não seria de todo ruim, eu já havia me acostumado com a ideia. Mas, no fundo eu sabia que ficar longe do lugar onde nasci e cresci, longe da minha família e ainda por cima sem você seria muito doloroso para mim. Bom... de qualquer forma, acho que você merece descansar! E como ainda não amanheceu você pode dormir comigo se quiser! De manhã eu levo você e Soberano de volta para a fazenda.

— Dormir aqui, com você?

Eu disse um pouco constrangida com aquela ideia e ele percebeu. Eu não conseguia disfarçar. Só de pensar em dividir a cama com um homem outra vez eu já sentia um arrepio na espinha, eu sentia medo. Não de Aurélio e sim, do meu passado. Não queria que meu passado viesse à tona num momento que para mim, era tão especial. Aurélio pegou na minha mão e me olhou quase implorando pra que eu confiasse nele.

— Sim! Dormir. Só dormir.

Tomei coragem. Acenei com a cabeça aceitando a proposta e ele acenou de volta, sorridente. Lavei o rosto, tomei um copo d’água e libertei os poucos fios de cabelo que os grampos insistiam em manter presos. Abri alguns botões do meu vestido buscando um pouco de conforto, já que eu, definitivamente, ainda não era capaz de trocá-lo na presença de outra pessoa. Fui devagar sentar ao lado de Aurélio, que já me esperava na cama. Deitamos um ao lado do outro, mas eu logo fiquei de costas para ele. Era difícil encara-lo sem demonstrar que eu estava nervosa, talvez trêmula.

“Devo ser a mulher mais estranha que ele já conheceu.” Pensei enquanto disputava com ele por mais espaço no colchão.

Senti Aurélio se aproximar e depositar seu braço sobre o meu. Depois, senti seus dedos transitarem entre meus cabelos, ombros e braços. Era um carinho leve que eu, aos poucos, me permiti aproveitar. Sua cabeça se encaixava perfeitamente em minha nuca. E assim ficamos em silêncio por muito tempo. Eu estava quase me entregando ao sono, quando a voz dele me despertou.

— Eu sei que essa situação te assusta, mas, não precisa ter medo, Julieta. Eu não fui leviano quando disse que esperaria o tempo que for por você. Tenho certeza que um dia você vai se sentir confortável pra se abrir comigo sobre tudo, seja lá o que for. E então, vai desejar ser inteiramente minha, assim como eu desejo ser seu.

Eu trouxe o braço dele para mais perto do meu corpo de modo que minha respiração esquentasse as nossas mãos, agora entrelaçadas. Estávamos abraçados e eu não tinha mais medo nem frio. Talvez ele não entendesse, mas, eu já era inteiramente sua.

Notas finais
Não sei se consegui expressar direito, mas, traduzindo eles estavam de conchinha ♥ "Vou ficar até o fim do dia, decorando tua geografia..."