Seu Amor Em Mim #Aurieta
3 Meu Amor
Notas iniciais
Joguei toda a minha ira em cima de Aurélio sem dó. Ele me olhava assustado. Tinha um ar de dúvida e perplexidade que me confundia, não nego. Ele parecia realmente não entender os rumos que aquela conversa havia tomado, mas, eu não me deixaria levar por sua atuação. Estava convicta e decidida a afastá-lo de mim.
— Aproveitador, eu? – Falou estupefato. – O que te leva a fazer tamanha acusação contra mim? O que eu fiz para gerar tanta desconfiança? Não entendo!
— São tantas coisas, Aurélio. Eu só liguei os pontos, só isso. A verdade é que eu sempre soube. Quando nos conhecemos e você se ajoelhou aos meus pés naquela cena patética, eu já sabia que você queria me impressionar. Queria se fazer admirado por mim. No inicio, visando influenciar minha decisão em relação à dívida de sua família. E depois, porque enxergou em mim uma garantia da riqueza que perdeu. Uma... Como é mesmo a palavra? SALVAÇÃO. Não é isso que você vê em mim, Aurélio? A SUA SALVAÇÃO?
Minha voz estava alterada. Minha respiração ofegante. Eu parecia forte, altiva. Mas, a verdade é que se eu saísse do lugar, talvez não suportasse nem mesmo o peso do meu corpo. Aurélio me olhava incrédulo. Acho que consegui pegá-lo de surpresa.
“Ele não contava com minha astúcia, achou que eu já estava inteiramente em suas mãos.” Esse pensamento despertou em mim um pequeno sorriso e arqueei as sobrancelhas, vitoriosa.
— Eu achei que já havíamos superado essa questão, Julieta. Não entendo como depois de tudo que vivemos você possa pensar que... – Ele parou um pouco, olhou para baixo e depois se voltou de novo para mim. O olhar de dúvida agora dava lugar ao de indignação. – Mas, é claro! Susana! Só essa mulher seria capaz de encher sua cabeça com tantas acusações a meu respeito. Ela nunca fez questão de esconder o quanto estava desconfortável com nossa relação. Não lhe contei, mas, ela tentou me fazer desistir de nós dois. Muito me admira você confiar cegamente em uma mulher tão ardilosa.
Agora, ele é quem estava alterado. Quase atropelando as palavras. Mal respirava entre uma fala e outra. Ele queria reverter a situação, mas, eu não deixaria.
— Não é o caráter de Susana que está em discussão. Até porque, ela só abriu meus olhos para enxergar o óbvio. E, não foi só isso... Ontem eu estive na casa de chá, Aurélio! Você não me viu, eu sei. Mas, eu o vi e ouvi muito bem! Você usou o telefone, lembra?
— Sim, eu falava com um amigo distante. O que pode haver de errado nisso?
— Suas palavras. Ou você não lembra o que falou?
— Claro que eu lembro. Julieta, por favor, aonde você quer chegar?
— Não se faça de desentendido. Não sei qual foi o questionamento do seu amigo, mas, você o respondeu dizendo que não precisava mais de emprego nenhum. Que já havia encontrado a SUA SALVAÇÃO e que ela tinha forma de mulher. Deixou bem claro que por isso não iria se ausentar do vale.
Ele deu uma pequena gargalhada que me irritou profundamente. Aquilo era tudo menos uma piada.
— Você entendeu tudo errado, Julieta. – Ele mantinha o sorriso na voz. – De fato, eu não busco mais um trabalho porque já tenho o meu aqui na fazenda e quanto a salvação... você me salvou de ser aquele homem omisso e inútil que eu era. Eu mudei porque eu queria ser melhor para você. Você me salvou de tantas formas que...
— Como ainda tem forças para atuar? Para mim está tudo claro. Sua paciência ao lidar comigo, com meu jeito... Tudo isso foi calculado. Você não buscava o meu amor, como repetiu tantas vezes. Buscava apenas a minha fortuna. Um mero aproveitador é o que você é. E se não busca mais trabalho, passe a buscar. Está demitido!
O riso dele se desfez. Ele me olhou triste e decepcionado. Fazia um sinal negativo com a cabeça, como que sem acreditar no que ouvira.
— Então é isso mesmo que pensa de mim? Que eu encenei todo esse tempo, que minha estima e admiração não são reais? Meu Deus, como eu fui tolo! Achei que tínhamos criado uma relação de confiança. Que você já me conhecia verdadeiramente, que me admirava apesar dos meus defeitos, assim como EU A ADMIRO APESAR DOS SEUS. Dói muito perceber que não evoluímos em nada. Que foi tudo uma mentira de sua parte, não da minha, que fique claro.
Ele demonstrava estar com raiva como poucas vezes o vi. Tive vontade de responder à sua acusação. Dizer que nunca menti sobre meus sentimentos. Mas, eu correria o risco de fraquejar, então, achei melhor botar um ponto final em nossa conversa.
— Bom, parece que estamos quites. Houve acusações dos dois lados, mas, não estamos em um julgamento. Estamos em meu escritório e aqui, quem decide sou eu. Vá embora, por favor. Depois acerte com Susana o que me deve.
— Eu devo? O QUE eu lhe devo?
— Você fez compras para a fazenda sem minha autorização, Aurélio. Achei desnecessário e não vou arcar com essas despesas. Como acha que me tornei a Rainha do café? Gastando com futilidades?
Aquilo não era necessário. O gasto de Aurélio nem havia sido tão alto. Porém, foi a maneira que encontrei de torna-lo novamente meu devedor. Era minha vingança particular.
Foi então que ele começou a se aproximar. Sentir sua respiração tão perto fez o meu corpo tremer. Mal sabia ele que eu já havia previsto aquela cena: ele tentaria me seduzir, me tocaria, diria palavras bonitas, como Susana me alertou.
Mas, ele não me tocou.
— Se é isso que você quer, Julieta, é isso que terá. Ficarei longe de você e pagarei cada centavo do que gastei desnecessariamente em sua fazenda, não se preocupe. Mas, se ainda me permite dizer... Olhe bem a sua volta. Olhe bem para quem você afasta e para quem você prefere manter em sua vida!
Ele deu alguns passos em direção à porta, parou um segundo e veio novamente até mim. Retirou a flor que havia colocado em meu cabelo quando chegou, encostou sua testa na minha e disse baixinho, com a voz embargada:
— Eu nunca me aproveitaria de você, meu amor.
Eu mal sentia meu coração bater. Nunca ouvi tais palavras direcionadas a mim. Ele envolveu meu rosto delicadamente com as suas mãos. Olhou em meus olhos por alguns segundos, como que se despedindo, e se foi.
Ele não tentou me deduzir, não tentou me persuadir. Bateu a porta sem olhar para trás. Tive vontade de ir atrás dele, de abraça-lo. Mas, não consegui sair do lugar. A sensação de que eu não o veria mais fez doer a alma. Deixei as lágrimas caírem finalmente. Agora que estava sozinha, eu podia dizer, numa tentativa frustrada de respondê-lo..
— Meu amor. Você é o meu amor. Você!
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