Setevidas
43 Andrew e as cores
Notas iniciais
(As seis primeiras cartas mágicas de Shat)

...(POV Andrew)...
Andrew nunca foi um dos meus nomes favoritos. E adivinhem? Esse é o meu nome.
Minha família costuma dizer, que meu nome é diferente. Forte. Não discuto, no entanto, prefiro ser chamado de Drew ou Andy que são apelidos que recebi quando estava no primário. É um tremendo conflito entre os familiares que me chamam de um nome e os amigos que chamam de outro, mas quem dera se meu nome fosse o único problema existente. Meu maior problema tem seis anos de idade e se chama Yatlas!
— YATLAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAS?! — Berro correndo pela casa atrás do garoto que ainda usa chupeta. — Quantas vezes eu já te disse pra não entrar no meu quarto?!
— Eu estava procurando o Senhor Pompom. — Ele diz correndo segurando sua bermuda larga que teimam em cair enquanto ele corre. Yatlas é o meu irmão mais novo. Ele não é o tipo de criança mimada. Pra falar a verdade, eu até gosto dele, mas gosto de manter o meu papel como irmão mais velho e perturbá-lo e ele, cumpri sua função de me irritar. Yatlas não larga a chupeta desde quando era recém-nascido. Minha mãe tenta diversas formas de fazê-lo desistir, mas de nada adianta. Ele também tinha uma coberta da qual não largava quando ia dormir, mas depois de muita insistência, minha mãe conseguiu fazê-lo trocar a coberta encardida por um ursinho de pelúcia, o qual ele arrasta pelo chão o dia todo e não larga nem pra ir ao banheiro. O nome do urso é Pompom. Não me pergunte o porquê desse nome. Até hoje quero descobrir.
— Pompom vai ser o soco que eu vou dar na sua cara se você entrar novamente no meu...
— Meninos! — Minha mãe nos repreende assim que entramos na cozinha. Yatlas está escondido atrás de suas pernas com a chupeta na boca e a bermuda na altura da coxa. — De manhã cedo e vocês brigando!
— Foi o Yatlas que começou entrando no meu quarto, mãe.
— Eu só estava procurando o Senhor Pompom. — Ele diz com uma voz docemente irritante.
Minha mãe o pega no colo e diz — Eu coloquei o Senhor Pompom na máquina de lavar por que você passou a tarde toda de ontem brincando no quintal com ele. O bichinho estava todo sujo de lama, filho.
— Na máquina de lavar? — Ele diz em desespero. — Ele vai ficar tonto girando, lá. Tira o Pompom de lá.
Reviro meus olhos.
Se essa não fosse a minha rotina eu até iria vomitar. Puxo a cadeira e me sento esperando que todo aquele drama termine. Minha mãe, Verônica, dificilmente consegue convencer Yatlas de alguma coisa, mas é engraçado vê-la tentando.
Depois de minutos explicando pro bebê-chorão do meu irmão que para o Pompom a máquina de lavar é como um parque aquático, ela coloca o Yatlas assentado na cadeira e põe o suco com as torradas na mesa.
— Arrumaram suas malas? — Verônica fala com o pote de manteiga na mão.
— Arrumei! — Respondo nem um pouco animado. Morar em outra cidade estava fora dos meus planos.
— Anime-se querido, vai conseguir fazer novos amigos quando chegarmos lá.
— E vai conseguir esquecer a Ângela. — Meu irmão diz com a boca toda suja de geleia.
Coro. Mas coro muito. Sinto meu rosto ferver e me sinto um pimentão sentado à mesa. Minha mãe dá uma leve risada enquanto meu irmão continua se lambuzando todo comendo torrada.
— Cala a boca! Você não sabe de nada.
— Sei sim. — Ele retruca.
— Não sabe...
— Hei, hei, hei, meninos. — Minha mãe anuncia batendo na mesa pra chamar nossa atenção. Com um largo sorriso ela continua. — Vocês brigam demais. Está na hora de conversarmos normalmente como uma típica família dos filmes fazem no café-da-manhã.
Sorri. Adoro o tom de ironia quando ela fala essas coisas.
— Diga-me Yatlas, como foi na casa da sua avó ontem de manhã?
— A vovó fez bolo de chocolate. — Ele responde bebendo achocolatado.
— E você, querido? — Ela pergunta virando o olhar pra mim. — Ainda consegue ver cores?
Suspiro. — Ás vezes. — Respondo. — Não com tanta frequência como antes. Acho que isso está passando.
Verônica sorri. — Você está crescendo.
— É. — Respondo.
Ela bagunça o meu cabelo e começa a comer junto a nós.
Eu poderia dizer que sou um garoto normal, com uma vida normal e tediosa que vive em canto qualquer ao lado do meu irmão e da minha mãe. Eu seria tudo isso se quando eu tivesse cinco anos, não presenciasse a morte do meu melhor amigo.
Naquela época, eu só tinha o Quino como amigo. Não costumava sair muito de casa e quando saia no máximo que podia brincar era no quintal da casa dos meus pais. Minha mãe e meu pai ainda estavam juntos. Eles moravam no final da rua em Everenbruck, um dos bairros mais pobres da cidade. Quino era meu vizinho. Quando não estávamos brincando eu seu quintal, estávamos no meu. No entanto, em uma tarde de domingo quando fomos soltar pipa, Quino estava de olho em uma pipa roxa que rodopiava no céu e parecia que iria cair no nosso telhado, mas o vento soprou mudando sua direção.
— Vou pegar. — Ele disse pulando a cerca do seu quintal.
— Não pode sair do quintal. — Disse como se ele tivesse desobedecendo alguma lei que o levasse pra cadeia. Nossos pais nunca nos disseram: “Não brinquem na rua”, pois de cara já sabiam que nunca faríamos isso. Ou talvez, pensassem que nunca faríamos. Naquele dia, eu não fiz. Mas Quino, sim.
Ao ver que o menino estava ficando fora do meu alcance, corro para a arvore de abacate que havia ao lado da sua casa e escalo até chegar em uma altura aceitável e conseguir segui-lo novamente com o olhar.
A pipa cortava os céus com a sua graça e seus movimentos dançantes a faziam pairar no ar até chegar às mãos de Quino, que a agarra e olha de forma vitoriosa para a mesma.
O menino estava tão admirado com a pipa roxa que nem percebeu que um carro vinha em alta velocidade. Eu tentei gritar, mas as palavras não saíram da minha boca. Tentei avisar, mas quando Quino se virou, era tarde demais. O carro o lançou para longe. Gritei com todas as forças que haviam dentro de mim e por causa desse descuido, escorreguei do galho e caí. Bati com a cabeça e quebrei dois ou três galhos que estavam em baixo. Quando acordei, estava em uma cama de hospital. Meus pais choravam muito, minha mãe principalmente.
Acho que foi ali que tudo começou. Quando eu vi minha mãe chorando desesperada e meu pai à abraçando tentando acalmá-la. Foi a primeira vez que vi “aquilo”.
Enquanto minha mãe chorava, eu via seu corpo ser envolvido por uma enorme luz cinza. E depois disso, quando sai do hospital, comecei a ver cores e pessoas envolvidas por elas.
Quando contei para minha mãe, no início, ela achou que poderia ter sido algum trauma devido à queda. Meu pai me levou a diversos oftalmologistas e todos disseram a mesma coisa: “Não há nada errado”. Então, meu pai de certa forma desistiu e me perguntou se eu conseguia enxergar bem e se essas cores me incomodavam. Eu respondi que não. Então ele desistiu de vez, enquanto minha mãe fazia pesquisas pra tentar descobrir o melhor oftalmol. para me curar desse “problema”.
Anos se passaram e ela engravidou. A gravidez a fez deixar meus olhos um pouco de lado, até que um dia ela me disse que isso poderia ser um dom e que eu era especial, pois conseguia ver os sentimentos das pessoas em formas de cores. No início, eu não entendi muito bem. Até que ela me explicou me levando para o parque.
— O que você está vendo naquela mulher, filho? — Ela perguntou apontando para uma moça de cabelos enrolados que passeava com seus cachorros enquanto falava no celular.
— Uma moça falando no celular? — Disse na inocência.
Minha mãe sorriu e perguntou. — Você consegue ver a cor que está em volta dela?
Faço um esforço e consigo ver alguns clarões rápidos e fracos. — É rosa. — Disse.
Ela fica pensativa por um tempo e depois diz: — Isso significa que ela está feliz e que está sentindo uma felicidade momentânea dentro de sí.
Fico quieto por um instante. — Como você sabe?
— Ué. — Ela diz. — O google tá aí pra essas coisas.
Sorri e a abracei. — Então eu consigo ver emoções? — Perguntei.
— Auras, filho, Auras. — Ela me corrigiu devolvendo o abraço e vendo a mulher pular de felicidade com o celular na orelha e a mão segurando a coleira do cachorrinho.
Não sei se ela disse isso naquela época para eu não me sentir estranho com as cores que via ou se eu realmente sou capaz de ver auras. Apenas, tenho certeza que isso tudo está passando. E que eu não vejo pessoas coloridas com tanta frequência quanto antes.
Pelo menos, é isso que eu penso!
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