Notas iniciais
Capítulo narrado pela Dona Mônica. ;)

Setembro de 94’

Por ProngsPink!

“Obrigado, mãe, pelos joelhos dobrados cansados em noites de frio”.

–Amor de Mãe, Regis Danese.

Parte I

É tão agonizante pensar essas coisas do próprio filho. Mas é como se eles pedissem por isso, o tempo todo batendo na mesma tecla sem parar. Implorando para que nós, mães que os amaremos a cima de qualquer razão, virem seus rostos para dentro e se prenda em um casulo negro, podre e sujo da vida.

Guilherme sempre fora um garoto quieto e bom. Já Lucas desde criança foi à luz da casa – sempre correndo pelos corredores e fazendo suas bagunças de menino. Mas... Sempre esteve mais a vontade entre pessoas do mesmo sexo. Lembro-me bem de quando entrou no ensino fundamental, mais ou menos na quinta ou sexta série, onde todos os seus coleguinhas começavam a se interessar por garotas, meu filho mais brilhante ainda se encontrava no meio das rodinhas de meninos. Quando perguntávamos cadê as meninas ou se ele gostava de uma, ao contrario do meu mais velho, Lucas respondia: “Não tenho interesse”.

O ensino médio foi o pior. Todo dia ele chegava com uma mulher diferente, a maioria muito mais velhas que ele. Era todo santo dia uma sirigaita diferente berrando horrores no quarto. Eu realmente não posso te dizer qual fase foi a pior de verdade. Se foi a época em que perfumes doces de prostitutas invadiam a minha casa ou quando Guilherme chegou aos gritos com Lucas nos braços.

Meu filho mais velho havia acabado de chegar da casa de um amigo, onde esteve morando. Recordo-me de ouvir seus gritos no quintal da casa. Guilherme trazia o pequeno Lucas nos ombros e gritava para qualquer um que quisesse ouvir o quão ridículo e baixo ele havia sido seja lá no que fosse.

Luquinhas esperneava em seu colo, pedindo pelo amor de Deus para que ficasse calado. – Naquela dia, naquele momento, eu não sabia de nada. Não desconfiava de nada. Como poderia, não é mesmo? Que mãe olharia para o seu filho abraçado com um dos vários amigos da rua e pensaria uma coisa tão horrorosa. Eu não.

Eu amo o meu filho, não pense que não. Eu o amo mais que tudo, confesso que o amei mais que o primogênito. Mas o desgosto que senti quando as palavras de Guilherme bateram nos meus ouvidos e ecoaram pelo meu coração foi forte demais pra qualquer amor.

“Esse seu filho brilhante, chupava o pau de outro! Esse viadinho de merda que você tanto se orgulha!” – Tão, tão, mas tão grande. Como um copo de vidro que bate contra o chão e vira vários caquinhos, sendo impossível juntá-los.

Meu neném, meu ser mais precioso. O pequeno menininho que segurei nos braços assim que veio ao mundo estava ali parado a minha frente implorando para que a mamãe não acreditasse. Seu rosto bonito manchado de lágrimas que pareciam nunca acabar. Ele repetia, sem parar, como um mantra a seguir.

Mentira, mamãe, mentira. Mentira.

No fundo eu sabia que não era. Lucas é meu filho. Eu sei mais sobre ele do que qualquer um. E quando o Gui disse com todas as letras “Seu filho é gay, feliz?”, minha mente pareceu processar aquilo como uma imagem. Todas as cenas do meu lindo filho passavam por mim, uma por uma. Os abraços que eram carinhosos demais em certos meninos, os cochichos que ficava com o filho da vizinha – que mais parecia uma menina, o desinteresse em mulheres. Mas e aquelas moças?

Não passavam de mulheres usadas como escudo. Que ele mostrava para mim, mas recusava a tocar quando passavam da porta da frente.

Meu precioso tesouro. Destruído pelos pensamentos do diabo.

Quando Lucas acabou a escola, ele começou a estudar para entrar em uma faculdade. Sempre me gabava do meu filho inteligente, então o ordenei a pelo menos tentar alguma coisa. Nossa relação andava fria e distante depois de... De tudo. Guilherme saía cedo de casa e só voltava tarde da noite. Lucas acordava tarde, ia para farra e voltava apenas no outro dia, provavelmente acompanhado de outro garoto.

Meu desgosto aumentava cada segundo mais. A faculdade foi largada, as latas de cervejas começaram a lotar as estantes, roupas sujas eram jogadas para todos o lados, risinhos de amigos que eu nunca tinha visto pela vizinhança antes deixavam a televisão muda. O menino magricela que corria pro meus braços quando machucava os joelhos havia morrido junto com uma doença incurável.

Em setembro tudo o que carreguei durante esses dois últimos anos transbordou.

Imagine um imenso pote, sua medida já esta na borda, apenas mais uma gota e pronto, tudo transborda. Inundando seus pés. – Foi assim quando cheguei em casa depois da igreja, onde o pastor havia pregado como Deus destruiu Sodoma e Gomorrah, duas cidades que viviam ao meio do pecado e da podridão do mundo.

Lucas se encontrava por cima da mesa, cabelos loiros desconhecidos estavam entre seus dedos, pernas a mais envolviam sua cintura e roupas, muitas roupas se espalhavam pela cozinha. Uma voz desconhecida gemia baixo e sussurrava o nome do meu filho, escorregando as mãos pelas suas costas e deixando marcas visíveis ate no escuro da noite. E o meu filho o mandava calar a boca com uma fúria desumana. Arrastava a mesa para frente e para trás deixando listras no piso.

Aquela pessoa não era o meu menino. Não era o filho que carreguei nove meses, que passei oito horas em dores apenas para vê-lo no mundo. Não era o meu filho.

“Saía! Saía! Saía da minha casa! Saía! SAÍA!” – Me desculpe, filho. Mas não tenho estomago e nem lucidez para aguentar isso. Amor de mãe também tem limite. Amor de mãe não cobre todos os erros, não somos como os super heróis de seus quadrinhos, somos apenas mulheres concedidas por Deus a gloria de fazer mais homens para a Sua luta.

Não posso e nem consigo te ver caído a cada dia em um precipício sem volta. Oh meu querido, se você soubesse o quanto o amo, o quanto quero protegê-lo de tudo. Você é minha eterna criança, meu pequeno cálice de gloria e amor. A eterna amostra de que já estive em pé na terra dos homens. Vê-lo se destruindo dói dentro do meu peito, pior do que fogo tocando a pele ou o frio para quem não tem um cobertor no inverno.

Não me olhe com olhos de desprezo, porque eu nunca teria coragem de fazer tal contigo. Mesmo com todos os seus erros, mesmo com todas as dificuldades eu o amo. Mas sinto muito, meu filho, se nem tudo é suportável. O mundo foi feito com um limite, esse limite é concedido a todos. O meu passou naquela noite.

Jamais deixe de acreditar que mãe que é mãe vai deixar de ama-lo com qualquer defeito ou qualidade.

Apenas tenha paciência.

Notas finais
Esse capítulo ainda não acabou, ele é divido em dois! ♥
- Obrigado a todos que comentaram, Vee, Giovana, Hal, Chiharu, Bella, Mila, Nora, Marshall, Sketcher, Near e Bii! Obrigado pelo carinho de vocês.
Infelizmente tenho uma péssima noticia, esse é a primeira parte do penúltimo capítulo de Setembro de 94'. Já estou morrendo de saudade do meu Lucas ); - Não tenho palavras para agradecer a todos que me acompanharam ate aqui e tiveram paciência com os meus atrasos. Amo muito vocês por isso! ♥