Setembro de 94'
10 Amanhã.
Notas iniciais
Setembro de 94'
Por Prongs Pink!
“Por onde vou guiar o olhar que não enxerga mais? Dar-me luz, oh Deus do Tempo, nesse momento menor, pr’eu saber seu redor. A gente que ver o horizonte distante...”
– Horizonte Distante, Los Hermanos.
Eu poderia desejar qualquer um, quando digo qualquer um – quero realmente dizer qualquer um. Por exemplo, eu poderia amar uma senhorita de família ou uma prostituta da esquina, qualquer um, menos ele.
Sempre soube que era um homem fadado a ser azarento para o resto da vida que se arrasta, mas por tudo que seja mais sagrado, esse amor já me faz pagar por qualquer pecado que cometi, ate mesmo dos meus futuros parentes que nem nasceram ainda. Sinto-me um adolescente preste a perder a virgindade em um dos dormitórios da faculdade. Aquela mesma sensação a qual descrevi algumas horas atrás ainda correm pelo meu corpo, posso ouvir meu sangue fervilhar pela temperatura alta dentro das minhas veias, assim como posso sentir muito bem que meus neurônios perderam toda a capacidade.
Meu Deus, isso não é um simples toque, não é um simples sexo. É o desejo de poder saber que é desejado de volta na mesma intensidade. – Minha mente sabe, ela sabe muito bem que aquele que esta a receber todo o meu membro entre os lábios não é aquele que realmente amo, mas meu corpo insiste em mentir para mim. Meus olhos só mostram aquilo o que meu coração quer ver, e ali entre as minhas pernas, tendo uma delas em cima do encosto do sofá a outra jogada com o pé firme no chão, esta os cabelos mais negros que já vi.
As mãos que agarravam as minhas coxas eram grandes de dedos longos, fincando as unhas ate que o vermelhão se marcasse. Os ombros largos, onde as minhas mãos seguravam como um porto para que não me desmontasse por ali mesmo. Os olhos, oh, os olhos. – Tão cinzas e fundos, tão belos... Mas – Não faltava algo ali?
Como fios azuis? Sentia falta de linhas bem claras de azul pelas íris, se espalhando pelo cinza, quase se fundindo. Como o céu em uma tarde nublada, chuvosa de uma época de inverno. Faltava o frio naquele meio quente. Eu não sei o porquê, mas ali naqueles olhos que tanto amei durante anos em silencio faltava... Amor.
Agarrei aqueles fios negros com toda a força que tinha e os puxei para cima, levando os lábios que antes trabalhavam no desejo da carne aos meus próprios lábios. Iria suga-los ate que vida fosse perdida, ate que ficassem inchados de tanta luxuria que minha língua lamberia deles. Eu iria mostra-los o que é desejar de verdade, maltrata-los de um modo que nem mesmo uma puta saberia como é.
Eu estava amando, amando de verdade, como nunca – jamais – soube como. Era tão perdido aquele caminho, andando em direção há uma perdição que bem no fundo da mente eu sabia que era um pecado.
Ate mesmo meus pés queimavam pelo calor que passava pelo momento. Não via Lucas ali, não, não. Eu via Guilherme, com seus olhos cinzas mirados nos meus avermelhados profundamente. O abismo, o mesmo abismo que tanto me incomodava. Aquelas profundezas negras que me engoliam com gula. A boca do dragão. Os dentes que raspavam por toda a minha pele e o fogo me fazia arder. Oh, Deus! – Estava sendo mordido e mastigado por um dragão de grandes asas, com escamas tão negras e sujas que era impossível ver sua verdadeira cor.
Onde diabos eu fora me meter?
Amar loucamente alguém vale tanto apena assim? Perder o seu coração por alguma pessoa que nem ao menos sabe que nesse mesmo momento, em que você se declara de peito aberto, esta alucinando com seus olhos... – Vale tanto assim? Eu não quero, não quero. No fundo do meu precipício eu não quero imaginar, quero ver os mesmos olhos que naquele dia de setembro olharam pra mim.
Como desejo – necessito ver aquelas íris cinzas com raios azuis que brilhavam no meio daquele céu nublado. – Vá embora! Deixe-me ver a imensidão, que mesmo em dia de chuva ainda pisca faíscas de luz na esperança de um céu mais azul. Recuso! Recuso ter essa frieza que me olham agora.
Foi apenas nesse momento que percebi.
As orbitas que me encararam há meses atrás, pela mesma porta que se encontrava alguns passos de nós, não era as mesmas que me desprezaram há três anos. O corpo que admirava escondido quando saía do banho não é o mesmo que olho todos os dias tão descaradamente pela manhã. Os braços que agora apertam meus ombros e a boca que me engole não são aqueles mesmos braços e boca que me jogaram para trás.
Foi apenas nesse momento que percebi. – O homem que tanto amei durante anos, que escondi meus sentimentos mais lindos, o cara que fazia meu coração bater tão forte apenas por andar ao meu lado na ida para escola, não merecia isso tudo.
Foi apenas nesse momento que percebi. Que o dragão que tem permissão de me engolir como um prato de luxo é aquele que guardava o menino que foi expulso de casa por transar na mesa. O homem que me fazia realmente acordar dos meus sonhos era aquele que bateu na minha porta, que abriu a porta do meu mundo mágico sem permissão, que fez a luz voltar a esse apartamento sem vida. Que me fez voltar a fotografar como antes. – Durante todo esse tempo eu estava errado. Completamente errado, porque ate setembro desse ano eu não sabia o que era verdadeiramente amar.
Guilherme não pode merecer aquilo que tanto carrego comigo como um peso morto. Quem deve merecer esse sentimento quente é quem vai recebê-lo de braços abertos, que irá me beijar a noite como proteção, que dirá ‘bem vindo de volta’ quando chegar do trabalho, que fará todas as refeições do dia comigo como reza. Durante todos esses anos perdidos eu amei a pessoa errada. Desejei ter o cara que me fazia ser o pior.
Ora Diego, você amou o integrante errado, mas a família certa.
Agarrei mais uma vez aqueles fios negros, mais uma vez os puxei ate mim. E mais uma vez fiz aquele rosto parar a minha frente – cara a cara. Mas desta vez eu vi os olhos certos, vi a esperança do céu azul. Eu começo a jurar a mim mesmo nesse instante que desta vez vou amar o homem certo, a pessoa certa. Não vou jogar os cacos do meu coração no lixo, não, eu vou reconstruí-lo com aquele que o merece. Fazer um grande mosaico desses sentimentos que perturbaram por anos. Enfim vou amar, mas amar para valer.
“Lucas.” Estou sentindo os lábios certos beijarem meu pescoço, é a pessoa certa que esta me marcando. Oh, sim. Certo, certo pela primeira vez. “Lucas.” Meu novo mantra, minha nova obra de arte. “Lucas...”
“Lucas...”. Agarra-me, Lucas. Suga-me. Beije-me. Tome-me. – Porque apenas agora estou percebendo o que é ser amado. Não me deixe sozinho agora, apenas me possua, “Faça-me seu”.
Minhas pernas foram puxadas bruscamente e colocadas em cima de ombros firmes, mãos desnudas as acariciaram sem pudor ou delicadeza, unhas curtas riscavam deixando linhas vermelhas como os fios do meu cabelo por onde passavam. Seus dedos sussurravam por toda aquele pedaço de pele, indo da ponta do meu pé ate minha virilha, onde redesenhava os traços do meu corpo. – Lucas me pintava, me olhava com mesmos olhos que Michelangelo olhava para seus quadros, talvez. Acredito que ate mesmo o homem mais belo desse mundo ficaria com inveja do tamanho do poder que eu sentia em ter aqueles cinzas grudados em mim com tanto admiração. Sentia-me perfeito naqueles braços, ninguém poderia ter a ideia de como é estar deitado naquele sofá surrado e velho e mesmo assim se sentir rei.
Foi como rei que fui preenchido e levado a um paraíso reservado apenas para nossa intimidade. Foram estocadas fortes e nada delicadas, foram marcas, desejo, dor, amor... Tudo o que os nervos do meu corpo podiam pegar. – Fui glorificado ali, naquele mesmo sofá que há meses atrás eu estava fumando e pensando que o possível amor da minha vida iria bater na porta.
A explosão que se deu em mim, me levando a um orgasmo que nenhum homem – sinto dizer – iria ter a sorte de sentir, me fez gritar pelo único nome que desde o dia doze de setembro de mil novecentos e noventa e quatro inundava meus pensamentos.
Eu amei esse nome desde a primeira vez que me foi dito nessa casa – ‘Ei. Hm... Sou Lucas’ – só não havia percebido.
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