Sete minutos no paraíso, estrelando Richie Tozier
2 Eddie Kaspbrak tem medo de lugares fechados.

A porta do armário de Bill parecia gigantesca quando Eddie a observou melhor. Ele notou que a parte de cima sofria de um terrível desgaste. Depois, viu que no percorrer do corpo da porta, alguns arranhões afundavam a madeira, e, automaticamente, lhe veio a ideia de que eles pareciam como trajetos de um rio, como o Kenduskeag, no
— Barrens! — Eddie parou no meio do caminho, segurando o braço de Richie – A gente podia ir pro Barrens e deixar isso pra lá, não é?
Richie abriu a porta do armário de Bill.
— Está chovendo, Eds. Você quer pegar uma gripe? Não quer, certo, Eds? Então vamos logo com isso.
Richie entrou no armário e puxou uma cordinha pendendo no teto, acendo uma luz amarelada e picante, como a de um boteco que eles viram em um filme na semana passada. Richie havia chamado Beverly, que chamou Bill, que chamou Stan, que chamou Eddie, que chamou Ben, que chamou Mike. Naquele dia, a energia caiu e um mutirão de crianças começou a gritar e a vaiar na sala do cinema, jogando pipoca para todo o lado. Uma hora depois, perto da ponte do beijo, eles viram Henry Bowers tirando meleca do nariz e passando no cabelo de Lisa Kennedy.
Eddie olhou mais uma vez para o armário e de repente as paredes pareciam enormes e o armário distante. Sentiu-se como na primeira vez que ele e os Otários entraram na casa da rua Neilbolt.
— Eddie Spaghetti?
A visão de Eddie saiu de duas para uma. Ele avistou Richie, que ajeitava os óculos enquanto o olhava com a mais pura curiosidade.
— Não me chame assim! – Eddie rebateu depois de um tempo e, apertando fortemente a bombinha, também entrou no armário.
Bill fechou a porta e disse que Mike cronometraria o tempo e, assim que acabasse, eles bateriam na porta.
Nos primeiros quarenta e dois segundos o armário estava no mais absoluto silencio, no qual Richie aproveitou cada um deles para analisar Eddie. O corpo de Eddie estava rígido como o bife que a mãe de Richie havia deixado na geladeira para o almoço, que ele, inclusive, não comeu. Richie percebeu que o shorts de Eddie estava sujo de salgadinho em uma de suas laterais, deixando o que foi uma hora vermelho, totalmente alaranjado e com cheiro de queijo industrializado. Logo, ele tombou a cabeça para o lado, ainda observando Eddie, que, diferente dele, olhava fixamente para o chão.
— Hei. Eds? Você está bem?
Eddie olhou para Richie. Sentia que as paredes do armário poderiam começar a apertar e esmaga-los a qualquer momento, como em uma história que Mike havia contado para eles quando os Otários estavam caçando vaga-lumes no Barrens, sábado passado. Mike disse que um arqueólogo famoso estava dentro de uma tumba no Egito e que nela tinha armadilhas mortais, como paredes com espinhos, alçapões com crocodilos mortos de fome e quartos fechados com paredes esmagadoras. Quando eles acenderam uma fogueira e Bill pegou os marshmellows que havia roubado do armário de doces do pai, Beverly perguntou se o arqueólogo conseguiu se safar de tantas armadilhas perigosas, e Mike disse que sim, mas que seu macaquinho de estimação não. Que o pobre bichinho foi esmagado.
Naquele momento, Eddie se sentia como aquele macaquinho.
— Eu não gosto de lugares fechados assim – Eddie disse – Me dão medo, Richie. E medo faz elevoltar. E se ele voltar agora? Vai ser culpa minha. Richie eu
suuuuuuuup
Eddie sugou a bombinha o mais rápido possível, fazendo seu corpo relaxar um pouco e seu coração palpitar duas vezes mais forte. Richie subitamente o abraçou e suspirou, sentindo um cheiro de shampoo de pêssego que a mãe de Eddie costumava comprar na drogaria do sr. Keene.
— Ele não vai voltar, Eddie. E se voltar eu vou te proteger, eu juro.
Eddie soltou Richie e ele sorriu.
— Se ele vier, garotinho, nós vamos estourar os miolos dele, ah se vamos! – Richie imitou o Policial Irlandês e deu uma piscadinha com o olho, muito malfeita.
Mas Eddie riu e de repente o armário parecia um pouco maior e mais fresco. Eddie notou os guarda-chuvas encostados no canto, perto das galochas sujas de Bill. Notou como os casacos da mãe de Bill eram grandes, peludos e cheirosos e de como os casacos do seu pai cheiravam a tabaco e mofo. Eddie sentou no chão, em cima de um calendário de 1951, que estava marcado e borrado em uma data como “nascimento do pequeno Georgie!!!!” em vermelho bem grande. Sentindo um frio imenso na barrigada, Eddie pegou o calendário e o virou de cabeça para baixo, afastando-o bem fundo e escondido entre os casacos que iam até o chão.
Richie também sentou e só havia passado dois minutos.
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