Sete Minutos no Céu
1 Aquela festa em 1996
Notas iniciais
Well, como já foi dito, a história se passa em 1996, com direito a boina xadrez, tattoo choker, sobrancelha fina, jaqueta de couro, house parties onde ninguém morre de overdose, músicas de bandas underground e muita Gwen Stefani. Terceiro olho, tatuagem que sai na água, crop tops, calças largas (ou apertadas) de cós alto, meia branca com uma listrinha vermelha, moletons coloridos, macacão/vestido/tudo em jeans, estampa militar, windows 95', Will Smith, saia xadres com terninho combinando, As Patricinhas de Beverly Hills, óculos com lente colorida, adesivos de carinha feliz, Justin Timberlake com cabelo cacheado, e mais todo o resto das coisas que fez os anos 90' serem, sem dúvida, uma das melhores épocas EVER.
Espero que gostem, e boa leitura.
Eu não queria estar aqui.
Tudo parecia errado pra mim.
Essa... Essa festa na casa de duas das garotas mais populares do colégio, sem supervisão nenhuma, sem regra nenhuma, sem controle nenhum, sem limite nenhum... Não era o meu lugar. Eu não faço parte da elite convidada, ou da ralé que deu sorte de ser convidada só para lotar o lugar. Eu sou só o irmão gêmeo da Cassie.
Ela sim tinha sido convidada. E por que não seria? Ruiva, olhos verdes, líder de torcida. Todos queriam estar perto de Cassandra Ann McAdams. Mas ela não podia vir... Se não me trouxesse junto. Tentei dizer que não queria, mas não adiantou. Nossos pais só deixariam ela vir se fosse comigo. Eles diziam que era para me fazer sair de casa, mas na verdade eu sabia que era pra cuidar da Cassandra.
Por que eu não fazia parte nem da ralé que só servia pra lotar o lugar, mesmo sendo irmão gêmeo de alguém como Cassandra? Eu não sei. Talvez isso já estivesse predestinado. E além do mais, não gosto de muita gente, sou tímido demais, e travo no meio de pessoas que não conheço. Ás vezes, acho meu cabelo ruivo demais, meus olhos verdes de menos, e eu detestava minhas sardas, que simplesmente iam desde meu rosto até meus braços. Cassie também tinha sardas, mas eram apenas pequenos pontinhos nas bochechas e no nariz, discretas e que ela podia facilmente cobrir com maquiagem.
Nenhum dos meus amigos estava aqui, alguns conhecidos, sim, mas eles estavam ocupados demais se esforçando pra chamar a atenção dos populares. Cassie estava com eles.
A elite era tão... eles pareciam tão etéreos, sentados no sofá, rindo, bebendo, conversando. Eles eram seis. Angela Montmorency, cabelos curtinhos, loira, olhos azuis com um piercing no nariz, e Spencer Montmorency, pele negra, cabelos cacheados rebeldes, e o sorriso mais perfeito do colégio todo. Eram as donas da festa, as irmãs Montmorency. Angela foi adotada, claro, mas ainda assim, irmãs.
Chad Stancari. Com um nome desse, já era de se esperar que ele estivesse na elite. Alto, olhos prateados, cabelo castanho. Eu mencionei que ele está no time de basquete?
Julian Ramiréz Magalhães Gama. Família espanhola. Tinha todos os traços bons que o sangue latino traz. Todas as garotas queriam namorar com ele, e todos os caras queriam ser ele.
E por último, tinha o Evan T. Scott. Ninguém sabia o que o “T” significava, e ele não dizia. Era quieto, na dele, rindo quando contavam uma piada, pegando alguma garota quando tinha vontade, ou em alguns casos, garotos também... Ele tinha olhos escuros e cabelos pretos. De todos, ele parecia o mais distante, e por esse motivo, o mais etéreo deles.
E claro, tinha a Cassie.
Eu estava sentado num dos sofás, bebendo algo que não era refrigerante, e esperando Cassandra se cansar para podermos ir embora. O som alto me deixava com dor de cabeça.
-Ei! – Spencer gritou, e Evan abaixou o som. Toda a atenção foi direto pra Spencer. – Quem quer jogar Sete Minutos no Céu?
As pessoas se entreolharam. Algumas deram de ombros, se aproximando, outras saíram, indo pros fundos da casa, onde ficava a piscina. Me levantei, indo atrás deles, quando seguram meu pulso.
-Ei, Aidan. – Eu reconheceria a voz dela em qualquer lugar. – Por que não joga com a gente? Vai ser legal.
Eu a encarava, e ela sorriu. Os olhos verdes vibrantes, os cabelos ruivos em duas tranças.
-Eu não sei, Cassie. Não sou do tipo de cara com quem alguém gostaria de ficar preso num armário escuro por sete minutos inteiros. – Sorri, e ela riu. Eu via Angela olhando sorrindo, e desviei os olhos.
-Bobagem, Aidan. Faça algo com sua irmã. – Sorriu Julian.
-Vai, Aidan. Por mim! – Ela sorriu, piscando os olhos e eu sorri, indo me sentar ao lado dela.
-Gente, Aidan finalmente vai jogar algo com a gente! – Disse Angela, no tom de voz alto, e eu respirei fundo ao ver todos olhando pra mim, ovacionando e rindo.
Ela me passou um papel e uma caneta, para eu escrever meu nome, e eu dobrei, o colocando dentro de uma tigela, que parecia mais com arte moderna. A tigela rodou a sala nas mãos de Angela, e todos iam enfiando seus nomes ali.
-Muito bem, alguém mais? Última chance. – Sorria Spencer. Acho que todos percebíamos o modo como ela e Chad se encaravam.
Angela chacoalhou a tigela e Spencer tirou dois nomes. Ela os leu, olhando pra Angela que leu também e sorriu.
-Muito bem... Evan e... Aidan!
Eu quase engasguei. Eu? Logo na primeira? E com um cara?
Evan deu de ombros, se levantando e indo até um armário de casacos vazio, me esperando. Quando a porta foi fechada, tudo ficou escuro, e eu engoli em seco, ouvindo a voz da Cassandra.
-O tempo de vocês começa agora! Aproveitem! – E ouvimos o som sendo erguido de novo, e vozes do lado de fora. Eu não enxergava lá dentro, até que Evan tocou meu ombro.
-Aí, Aidan.
-Oi, Evan. – A minha voz saía estranha, abafada. Eu não sabia o que pensar. Não sabia o que Evan pensava disso, ou sobre mim.
-Sabe, a sua irmã fala muito de você. – Ele também parecia desconfortável.
-Sério?
-É, ela te adora. – Ou sua voz mais animada, e meio que sabia que ele estava sorrindo. – Sempre está falando sobre o irmão dela, e de como ele é esperto, e de como queria passar mais tempo com você como quando eram crianças, e coisas assim. Por que nunca aceitou os convites dela pra sair com a gente?
Virei os rosto, apesar do escuro.
-Eu só não me sinto... confortável. Acabo achando que vou atrapalhar, só isso.
Acho que ele assentiu, dando um passo e se aproximando. Teitei me afastar, mas bati na parede.
-Ela fala tanto que às vezes acho que já te conheço.
-Cassie fala tanto assim? Isso deve entediar vocês.
Ele riu, e eu engoli em seco, respirando fundo, devagar.
-De jeito nenhum. Sempre esperamos que algum dia Cassie traga você também, mas ela sempre diz que você ficou em casa ou com seus amigos. Não gosta da gente?
-O que?! Claro que gosto, todos gostam de vocês. Eu... Eu... – Eu travei. Não saía mais voz. Era meu limite. Minhas mãos estavam suando e eu ficava respirando fundo.
-Relaxa, Aidan. – Falou Evan. Mais alguns minutos. Suspirei. Mas travei de novo quando ele pôs a mão nas minhas costas, descendo até a minha cintura.
-Evan...
-Eu disse. É como se eu te conhecesse. – Disse, e me virou de frente pra ele, tateando até achar minha boca e então me beijando. Fazia quanto tempo desde a última vez que eu fiquei com alguém? Algum tempo já.
Mas será que isso era loucura? Beijar o amigo da minha irmã, mesmo que fosse num Sete Minutos no Céu? Não tive tempo de pensar, a língua dele já estava na minha boca enquanto nos beijávamos, e eu meio que não tinha para onde ir. A porta estava fechada, e Evan estava no meu caminho, ainda me segurando.
Talvez não tivesse problema, já que estávamos jogando Sete Minutos no Céu, e todos sabiam que Evan ficava com outros caras às vezes. Eu poderia por a culpa na bebida, já que beber foi a única coisa que fiz a noite toda. Nunca mais seria visto com Evan de novo, então não dava pra ninguém supor nada. Por isso, acabei o beijando também.
Evan me pressionou contra a parede, mordendo meu lábio, puxando, e eu passei meus braços pelo seu pescoço. Ele não era muito mais alto do que eu, tínhamos quase a mesma altura, mas ele não era tão magro quanto eu.
Nos afastamos, um pouco ofegantes, e seu hálito cheirava a bebida da festa. O meu devia estar do mesmo jeito. Tentei gaguejar alguma coisa, mas Evan me beijou de novo. Já não foi tão desajeitado quanto esse último beijo, e apesar de o meu coração bater super rápido, eu não estava mais a beira de surtar. Ele beijou meu queixo, e meu pescoço, e... Abri os olhos. Eu não acreditava que ia ficar com a marca do chupão de um garoto no pescoço. Droga, como vou explicar isso pros meus pais? Mas estava tão bom, que eu resolvi mandar isso se foder, deixando a área do meu pescoço mais exposta ainda enquanto tombava a cabeça para o lado.
Eu o beijei de novo, e quando Evan tinha começado a erguer a minha camiseta, ouvimos a porta sendo destrancada e aberta. Nos afastamos num pulo, e eu engolia em seco, piscando enquanto a luz da outra sala entrava no armário, com alguém na porta.
-Espero que tenham aproveitado, porque agora é a vez da Amanda e do Mike virem pra cá.
Era a voz da Angela, alegre, e ela ria no final. Olhei pro Evan, que deu de ombros e saiu, meio que sorrindo, e eu fui atrás. Algumas pessoas nos olhavam enquanto saíamos e Evan foi logo pegar algo pra beber. Cassie acenou, rindo junto com Spencer e Julian, e eu sorri, indo lá pra fora, me apoiando na parede enquanto olhava para os outros convidados da festa. Todos riam, uns mais bêbados que os outros. Era realmente uma festa. Engoli em seco respirando fundo, e acabei olhando sem querer pra um casal se beijando. Pensei em Evan e eu naquele armário durante sete minutos, e até no chupão no meu pescoço. Será que já dava pra ver? Balancei a cabeça, fechando os olhos.
-Acho que você tá precisando beber alguma coisa.
Me virei, e Evan estava parado com dois copos cheios. Ele estava sério, mas então meio que sorriu.
-Ah, valeu.
Dei um gole enquanto Evan se escorava na parede ao meu lado, olhando com o canto do olho enquanto ele bebia. Eu não entendi. Por que ele veio pra cá?
-É... Aidan. – Me virei, mais rápido do que seria aceitável, e mais tenso também. Droga. Desviei os olhos, bebendo, e então depois de respirar olhei pra ele de novo. – Não sei como ficou depois do beijo.
-E... Eu fiquei... Tudo bem. – Gaguejei, já me xingando por dentro por sentir o rosto quente.
-Aquilo que eu disse... parece mesmo que eu te conheço. Por isso achei que não teria problema em te beijar, considerando que estávamos em um Sete minutos no céu...
-Ah... – Dei risada, coçando a nuca. – Não tem problema. Eu acho.
Respirei fundo.
Os olhos do Evan desgrudaram dos meus ele sorriu.
-Seu pescoço está marcado.
Coloquei a mão no pescoço na hora, no local do chupão e olhei pra ele, parado ali na minha frente. Talvez isso rendesse alguns comentários. Ou não.
Suspirei, escorando na parede de novo, olhando pra cima, e Evan fez o mesmo. Eu não me sentia mais tão nervoso por estar aqui, ao lado de um integrante da elite.
Então, de repente, Evan pegou minha mão, a que não estava segurando o copo, e meu corpo todo ficou tenso. O que é isso? Eu queria perguntar pra ele por que ele estava segurando minha mão, mas eu não conseguia nem sequer me virar pra olhar na sua direção. Eu continuava olhando pra cima, sentindo ele apertar minha mão dentro da sua, e engoli em seco.
Correção, eu realmente estava nervoso por estar aqui, ao lado de um integrante da elite, e o meu coração parecia querer explodir a qualquer momento.
Respirei fundo e olhei pro Evan. Ele também olhava pra cima, mas se virou, sorrindo enquanto olhava pra mim.
Droga.
A qualquer momento mesmo.
Notas finais
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