Sete-Estrelo
9 Capítulo Nove - O Velho e o Mar
― Señora, conte de novo aquela história ― a voz pediu animada por entre as risadas que ondulavam a brisa marinha e banhada com a luz fraca do lampião que oscilava com o balançar contínuo do navio.
― Outra vez? ― A mulher riu, afastando os cabelos do rosto e fitando com carinho os olhos brilhantes que insistiam em encará-la. Outra voz mais ao fundo berrou, achando graça da situação.
― Vamos, conte logo. Você sabe muito bem que é impossível negar algo a ela.
― Não seja assim! Que mal há em uma mera história?
― Elas deixam de ser interessantes depois da primeira vez.
A mulher de cabelos esbranquiçados no comando suspirou, já vendo os olhares trocados entre ambas as subordinadas e prevendo a tempestade que se formava ali, nas expressões animadas, a excitação que corria no sorriso da mulher de pele negra clara e olhos entusiasmados. Ela viu a segunda moça se arrastar para mais perto, num gesto de insistência, exibindo a teimosia típica de todos os seus filhos.
― Muy bien, contarei. ― Desistiu ela, gesticulando com uma das mãos.
Todos os sussurros morreram ao som dessas palavras e os tripulantes se aproximaram da luz bruxuleante para ouvir melhor.
― Há muitos anos, várias e várias milhas mar adentro, existia um vale. Bom, não era um lugar grande. Estava mais para uma vilazinha no meio do nada. Oh, sim, sim, lembro bem. Era um vilarejo cortado por um lago. As pessoas costumavam atravessá-lo para encontrar a outra parte da vila. Existiam pessoas que se encontravam no meio do caminho, sabe? Porque era muito difícil fazer aquela travessia, já que, cada vez que alguém atravessava aquelas águas, virava alvo de burburinhos. Mas em geral eram pessoas simples, pescadores, artesãos… Não havia muito o que fazer ali, a não ser sobreviver com o pouco que tinham. Com trocas. E os pescadores trocavam peixe por arroz, os agricultores trocavam arroz por cobertores, os tecelões trocavam agasalhos por ornamentos. Era um estilo de vida pacífico.
“Mas como tudo o que é bom acaba, a época de seca chegou. O lago secou e os peixes se foram; a chuva não veio, então não tinha água para cultivar. Não havia mais arroz nem peixe, então as pessoas não tinham o que comer. ― Ela piscou algumas vezes, mudando o tapa-olho de posição. ― Só que existia algo estranho naquele vilarejo. Como todo bom pagão, eles faziam oferendas para sua deusa. Algumas culturas ofereciam comida, porém eles não tinham comida para oferecer. Outras ofereciam preces, mas eles estavam cansados demais para se ajoelhar no porto e implorar. Então, eles festejaram. E dançaram pela deusa. E sopraram as cantigas antigas pelo vento, com a esperança que aquilo chegasse à divindade a quem tanto pediam. Todavia, não chegou.”
“Os dias foram se prolongando, e logo viraram meses. A esperança queimava em suas últimas fagulhas e eles já não sabiam o que fazer. O pouco que havia restado, esgotou-se. Apenas as folhas secas sobraram. Até que, em uma noite, o céu se iluminou em tons de verde e azul celeste. Para os moradores daquele local esquecido por todos, era um sinal de que as portas do céu estavam abertas, que seu tempo chegara ao fim.”
“No entanto, contrariando o que achavam, suas vozes foram escutadas. Todas as suas preces silenciosas foram escutadas. A deusa não havia os abandonado. E do céu noturno pintado, desceram aos seus pés as mais belas estrelas, como recompensa por terem acreditado por tanto tempo, por terem esperado sem desistir. A deusa finalmente tinha os agraciado com seu mais belo presente. As estrelas, em suas mãos mundanas, perderam seu brilho, mas não o que mais existia de precioso nelas. Era como segurar almas humanas nas palmas das mãos.”
A mulher engoliu em seco, sacando, de um dos bolsos, o seu leque. A noite vazia estava incrivelmente calorosa. E aquela história sempre espantava o frio para longe. O leque em detalhes marrons tinha um brilho fosco em sua metade e lançava breves gotas de brisa contra a pele de sua portadora. Ela suspirou mais uma vez antes de continuar:
― E então do alto, claro como um trovão, uma voz banhou a terra, suas palavras ecoando nos ossos dos moradores, fazendo-os se encolher perante o poder puro e simples que ela continha. Ela disse: "Aproximem-se vós que buscais e desejais." Houve apenas o silêncio, nem mesmo os animais ousavam quebrá-lo com a rouquidão de suas vozes. Todos estavam muito assustados, tremendo em seus lugares, e ninguém sequer cogitou avançar um passo em direção ao som harmônico daquelas esferas que os chamavam. Ainda que aquele momento determinasse sua sobrevivência, ainda que fosse a única esperança que lhes tinha restado.
“E então, avançando pelo aldeões reunidos, a passos leves como os de um fantasma, uma garota surgiu. De constituição delicada e um rosto gentil, ela os tranquilizou e os guiou até o estreito que os separava do restante da terra. Juntos eles mergulharam as esferas que um dia haviam sido estrelas na água límpida e rezaram. Com sua voz de soprano, a garota fez seu pedido: "Ó grande Deusa dos mares e do céu mais além, por favor conceda-nos um pedido. Salve nossa terra, ajude aqueles que são os teus filhos mais fiéis." Naquela noite, dizem, o mar brilhou em cores e uma enorme onda varreu para longe qualquer embarcação que da ilha estivesse próxima. A Deusa lhes concedeu o desejo. Imediatamente, as árvores voltaram a crescer, folhas cheias e aveludadas preencheram os galhos e o verde cobriu a terra, trazendo a vida e o cheiro maduro das frutas bem como o aroma adocicado das flores de volta para aqueles que os haviam esquecido. A ilha prosperou novamente.”
“Gratos, os moradores construíram naquela passagem um templo dedicado à Deusa que os salvara. No centro, em sete pilares erguidos, eles depositaram as pedras agora dormentes e toda vez, na mesma época, celebravam ali um grande e farto festival, adorando e agradecendo por aquela benção. Quanto a garota cuja coragem ultrapassou a de todos os outros, dizem as histórias que ela foi reconhecida e recompensada, que suas mãos se tornaram sagradas e seu toque queimava como fogo. E, de algum modo, ela se tornara capaz de curar qualquer ferida.”
A mulher ficou em silêncio por um tempo, observando pelo canto do olho a expressão de todos os que a olhavam com expectativa. Então, ela simplesmente sorriu. E eles reconheceram a excitação presente ali.
― O que aconteceu com a garota? ― a voz, a mesma que havia pedido pela história, indagou. Ela quase podia ouvir os ecos do passado, um sussurro infantil lhe perguntando a mesma coisa que pesou em sua mente com uma culpa amarga e muito antiga.
― Desapareceu e nunca mais foi vista. Como todas as bênçãos, foi levada para longe pela ganância que habita os corações humanos. Seu corpo nunca foi encontrado e apenas sussurros foram ouvidos, mas dizem por aí que o dia no qual sua presença for novamente confirmada, as coisas nunca mais serão as mesmas e o mundo haverá chegado enfim ao seu ponto de virada. Se para melhor ou pior, apenas o tempo irá nos dizer. E nesse meio tempo, tudo que nos resta fazer é rezar, implorar à Deusa que tão complacentemente salvou aquela ilha que tenha piedade de nossas almas.
A comandante soltou o timão, voltando-se para todos os outros. Sua expressão não era entusiasmada, longe disso. O sorriso que exibia era sádico, ladino. A cabeça foi jogada para o lado, os cabelos seguros pela bandana, o chapéu adornado com um pena azul seguro entre seus dedos. Foi naquele minuto que seus companheiros a compreenderam, foi naquele instante, quando os lábios se partiram mais uma vez, que eles souberam o seu propósito.
― Mas as estrelas… Ah, aquelas pequenas pedras ainda estão por aí. Espalhadas pelo oceano. Dizem que podem realizar qualquer desejo, pode quebrar qualquer maldição. São preciosas demais, bastante procuradas por qualquer um que tenha o mínimo de fé. E são essas pequenas pedras, mis queridos, que nos levarão a glória.
O silêncio vibrante em expectativa foi rompido pela mulher de pele morena que soltou um alto suspiro enfadado.
― Ah, gosto mais quando eu conto essa história.
― Como se você soubesse. ― A moça revirou os olhos, cutucando a companheira que a perturbava. ― No dia em que me contar algo decente, eu como meu chapéu.
Os tripulantes riram e sua Comandante se uniu a eles. No alto, as estrelas lhe piscaram de volta, uma promessa silenciosa que o dia tão aguardado não tardaria a chegar.
***
Quando Shouto sentiu o corpo inclinar em direção ao convés e a voz da Capitão se tornar cada vez mais indistinta, pensou seriamente que jamais abriria os olhos para contemplar um novo alvorecer. E, no entanto, ali estava ele, com uma dor aguda na cabeça e um corpo que mal respondia aos mínimos comandos. Quebrado, mas ainda vivo.
Seus olhos levaram certo tempo para que a luz diurna não mais os incomodasse. E o gosto ácido em sua língua não o abandonou. Shouto levou uma de suas mãos rapidamente à cômoda ao lado da cama, a procura de um jarro de água. Ele fuçou as tralhas ali em cima e seus dedos puxaram uma caneca pela orelha. Virou o jarro d’água e o líquido jorrou até o fundo do copázio que segurava com tanto afinco, e este foi até os lábios secos e violados. Ele gemeu ao sentir a água descer pela garganta, saciado. Até que notou onde se encontrava. E foi a partir dali que sua cabeça começou a remontar os passos da noite anterior.
Ele estava deitado em uma cama. Shouto não deitava numa cama desde que fugira do navio de seu pai, lembrava bem que nenhum dos tripulantes do Plus Ultra tinha direito a uma, era um artigo que ocupava muito espaço, além de ser pesado demais para colocar em uma nau como aquela. Apenas a imediata e o contramestre tinham esse privilégio, bom, eles e… Pela Deusa! Como havia parado ali? As unhas foram levadas à boca, onde foram roídas com prontidão. Exasperado, o pirata tateou o tecido fino que cobria o colchão confortável, resistindo à tentação de deitar novamente e aproveitar o pouco que lhe havia sido dado. Foi quando notou que estava agasalhado com um casaco que não era o seu. Ele fechou os olhos e aspirou o aroma, a maresia impregnada no tecido grosso e quente, junto a algo que lhe lembrava vagamente a sensação de aconchego que um dia sentira ao invadir os cobertores da cama de sua mãe. As mãos correram pelos botões, percebendo que dois haviam caído pela costura mal feita. Alguma parte sua se perguntou como acabara vestido naquele casaco, já a outra, dizia-lhe que seria preferível não saber.
Shouto se permitiu olhar ao redor, estudando as diferenças do ambiente em comparação àquele visto pela brecha no quarto da imediata. Os tecidos ainda estavam lá, pendurados do teto baixo, mas a mesa, onde outrora as botas haviam sido apoiadas, encontrava-se coberta de papéis e penas jogadas. Sua curiosidade sussurrou em seus ouvidos. E ele não pôde deixar de escutá-la. Um de seus pés rastejou até o chão, enquanto o outro o seguia com mais lentidão. Quando Todoroki se apoiou e impulsionou-se com mais força, na tentativa de levantar, seu corpo reclamou, e ele caiu novamente. Mas ele era teimoso e, ignorando toda a dor que sentia, tentou mais uma vez. Seu senso de equilíbrio não era dos melhores, porém era o que havia restado. O rapaz caminhou aos mancos até a mesa e deixou que seus olhos mirassem-na mais uma vez. Haviam mapas ali. Mapas de bordas rasgadas, cheios de anotações que Shouto nunca conseguiria compreender. Ele observou os rabiscos nos papéis espalhados por toda a extensão do móvel. Os dedos arrastaram-se por sobre cada um deles, e detrás daquele emaranhado de bagunça, ele viu: uma carta de navegação. O papel castigado pelo tempo mostrava em destaque as áreas já marcadas no mapa anterior.
Só que havia algo muito estranho ali, na disposição daqueles lugares assinalados, eles não existiam. Não havia aqueles pontos no mapa normal, ele observou. Analisou mais uma vez as regiões e as comparou com a escala que já conhecia e percebeu que aquelas águas eram longínquas demais para qualquer um que prezasse pela vida navegar. Nunca se pode confiar nas águas tempestuosas dos mares ao norte. Ele tinha cravado essas palavras em sua mente, era um aviso que deveria levar para a vida. O gosto ácido voltara a sua língua e o peso da não compreensão recaiu sobre seus ombros. Havia algo ali, ele sabia. Escondido pelas camadas de papéis antigos e coberto pela tinta que manchava a superfície da mesa. Era quase como uma busca. Uma perigosa busca pelo irreal.
Ele ouvira histórias, as más-línguas diziam que os grandes Capitães estavam reunindo seus pertences. Só não sabia que o Capitão Midoriya poderia estar envolvido com aquilo. E Shouto nunca quis tanto saber o que tudo significava.
Ele quase podia imaginá-lo ali, os dedos enfiados nos cachos, a expressão torcida em uma concentração intensa enquanto a mão livre seguia os cursos das marés e rodeava as terras, rabiscando, assinalando, escrevendo por cima com um fervor furioso e obsessivo. Sabia que devia dar o fora dali ou ao menos voltar para os lençóis confortáveis e fingir que dormia. O Capitão podia muito bem aparecer a qualquer momento, afinal aqueles eram os seus aposentos. Porém, mesmo sabendo, ele não conseguia se forçar a escolher uma das opções. Curiosidade, tinha ciência, era um de seus pecados. Para o bem ou para o mal, ele estava ali e uma chance daquelas não se repetiria novamente pelo próximo século, o melhor a fazer era aproveitar a oportunidade e tentar descobrir algo sobre os tantos segredos que o grande Capitão Midoriya Izuku se esforçava para guardar.
― Sua mãe nunca te ensinou que é feio bisbilhotar?
Shouto recuou tão rápido que seu cotovelo bateu contra o globo e este saiu rolando pelo chão de madeira até parar bem aos pés do Capitão.
― Ou... ― ele prosseguiu inclinando-se para pegar o objeto, e adentrando a cabine para pousar os olhos verdes firmes e intensos no marujo. ― Talvez nunca tenha ouvido a história do temido pirata barbado e suas esposas, de como ele lhes disse para nunca olhar no quarto secreto e mesmo assim elas o fizeram. Sabe o que aconteceu depois?
― Está me chamando de esposa, Capitão? ― Shouto engoliu em seco, não confiando na própria voz para responder nada mais além daquilo. Seus olhos encontraram o tom esverdeado dos olhos de Midoriya e a garganta fechou com o olhar severo que lhe fora lançado. Por isso, tratou apenas de assentir, confirmando o que havia lhe sido perguntado. Pela Deusa, eles estava tão encrencado.
― Bom, bom ― cantarolou ele, satisfeito. ― Já que é um rapaz esperto, pode me dizer por que estava mexendo nas minhas coisas?
― Eu estava? ― perguntou, desviando o olhar. ― Estou há tanto tempo sem ler algo que não consegui não procurar qualquer coisa que parecesse com um livro ― explicou, tocando o caderno de capa de couro vermelha. ― Não sabia que gostava dos clássicos, Capitão.
― E por que essa informação deveria chegar ao seu conhecimento? ― Izuku indagou, os dedos posicionando o orbe de volta ao seu lugar de origem. Eles estavam próximos agora. Shouto podia sentir dele o mesmo aroma que emanava do casaco surrado que ainda usava, aqueles olhos instigando-lhe a responder. Sentindo-se especialmente desafiador ― ou talvez fosse a batida na cabeça que o estava deixando tolo ― ele deu de ombros, insolente.
― É sempre bom saber qual cabeça em um navio é tão esperta quanto a própria, não concorda? ― Ele assistiu aos olhos verdes se estreitarem e acompanhou os passos do Capitão pelo ambiente, para longe de si, pensativo. Shouto escondeu um sorriso.
― Meu caro, com essa frase, eu não faço ideia se você está tentando me ofender ou me elogiar. ― Midoriya seguiu caminhando até a mesa em que Shouto estava encostado, observando a bagunça existente nela. ― Mas posso dizer que se quer tanto saber sobre o que planejo, pode me dirigir seus eventuais questionamentos ao invés de vasculhar os meus papéis ― A sobrancelha se ergueu e os olhos se afiaram ao pronunciar as palavras seguintes. ― ou mesmo espiar minhas reuniões particulares.
O jovem de cabelos ruivos piscou os olhos várias vezes, antes de se voltar para o Capitão mais uma vez. O brilho lascivo em seu olhar lhe indicava que para ele tudo aquilo era um jogo. Um no qual o Capitão possuía todas as peças e nem mesmo o menor murmúrio lhe escapava do conhecimento. Ele sabia que Shouto andara bisbilhotando e fazendo perguntas por aí e, mesmo sabendo disso, nenhuma palavra fora dita até o presente momento, quase como se ele o estivesse testando ou apenas divertindo-se o suficiente por ter todas as cartas plenas em suas mãos e soltá-las quando bem entendesse, como se aquilo não fosse algo que o preocupasse. Afinal, o único que tinha algo a perder ali era o próprio Shouto. Sua liberdade, um teto, sua cabeça… E o rapaz duvidava que Midoriya já não soubesse o que qualquer pessoa faria se estivesse em sua cabine, Todoroki não era exceção.
― E por acaso você me responderia? ― Voltou o olhar para os mapas em cima da mesa, avaliando, guardando na memória aqueles locais remotos e inexistentes, mas que haviam sido marcados com tanto afinco.
― Quem sabe, não é mesmo? ― Um sorriso desafiador despontava do canto de seus lábios grossos, o que fez Shouto semicerrar os olhos. ― Quem poderia prever o futuro?
O outro rapaz não respondeu. E, depositando o livro mais uma vez sobre a mesa, ele sentiu suas costas tensionarem ao escutar a voz grave do Capitão mais uma vez.
― Já é hora de voltar ao convés, meu caro. Não é porque deixei você dormir aqui que pode ficar de corpo mole por aí.
― Certamente, Capitão ― respondeu, por fim, olhando uma última vez para Midoriya antes de girar os calcanhares e se retirar do recinto. Ele atravessou a porta com mais pressa do que deveria, esbarrando em Bakugou no meio do caminho.
― Olhe por onde anda, inútil! ― Katsuki exclamou e Shouto o ignorou, seguindo seu trajeto.
Em verdade, havia algo muito estranho naquele navio, com aquelas pessoas. Tudo parecia estar fora do lugar, ou melhor, escondido demais para que qualquer um achasse. Shouto Todoroki entrara naquele navio com os olhos fechados para o que o esperava e sentia que não tinha chegado a lugar nenhum! Todos aqueles mistérios martelavam em sua mente, e o rapaz não perdia por esperar a resolução de cada um deles. O que aconteceria quando todos os segredos fossem enfim revelados?
***
― O que há com esses novatos, hein? ― Bakugou chutou a porta com certa força para fechá-la. ― Todo mundo pode entrar na sua cabine agora?
O barulho que Katsuki emitia já era de costume para seus ouvidos, era como ter um papagaio repetindo a mesma coisa a todo momento. E muitos ainda se perguntavam por que o Capitão não havia adquirido um animal daqueles. Bom, a resposta estava bem a sua frente. Para que um papagaio se tinha Bakugou? Izuku estava sentado em sua cadeira e segurava um exemplar antigo em uma de suas mãos, folheando as páginas amareladas vagarosamente, como se estivesse apreciando-as. Bakugou não fingiu não dar atenção, enquanto traçava o caminho até seu Capitão. Mas o olhar cínico na face e aquele sorriso debochado, de certo, eram consequência da falta de respostas. Era quase como se ele estivesse insinuando algo.
― Só quem eu quero, no momento que quero ― respondeu, gesticulando com a mão um sinal de "xô". ― Aliás, o que você faz aqui?
― Não sei se você lembra, mas nós precisamos conversar ― explicou. ― E, pelo amor da sagrada Deusa, não deixe Hawks saber que o seu novatinho curioso esteve aqui. Caso contrário, ele irá te importunar por décadas, e isso significa que ele vai me importunar por tabela.
Midoriya revirou os olhos, afastando o volume que tinha em mãos e o depositando de volta na mesa, em segurança.
― Pobre Katsuki, tão sensível às mínimas provocações do jovem Keigo ― zombou Izuku. ― Pensei que depois de tanto tempo você tinha se acostumado, docinho. ― Riu ao dar ênfase ao apelido carinhoso pelo qual os companheiros de Bakugou o chamavam. ― Tenho certeza que você aguenta, acredito no seu potencial!
― Não vim até aqui para ficar falando dessa porcaria ― ele devolveu, irritando-se com a postura despreocupada que o outro adotava no momento. ― Vim falar sobre ele e o recadinho estúpido que jogou em nossas mãos.
― O que quer que eu diga? Que o mande procurá-lo pelos Sete Mares e dar um fim a existência miserável dele? Você sabe tão bem quanto eu que isso não é um plano de ação inteligente. Estaríamos fazendo exatamente aquilo que ele deseja que façamos: perder a calma e se lançar em uma perseguição sem propósito algum.
― Mas…
― Bakugou ― Midoriya advertiu em um tom perigosamente calmo. ― Eu te falei uma vez que nunca deixaria ele chegar até você de novo e não pretendo quebrar essa promessa. Mas tente usar os miolos que ainda restam em sua cabeça e pense, respire, planeje. De nada adianta se apressar agora quando você sabe que ele virá até nós de uma forma ou de outra.
O loiro abriu a boca para rebater aquela patifaria que fora obrigado a escutar, mas sua resposta foi cortada pelo grito que ecoou vindo do convés. Izuku colocou-se de pé em um movimento ágil e, trocando um olhar com Katsuki, ambos correram em direção a porta e a comoção que se reunia do outro lado.
***
Em algum ponto de sua vida, Shouto perguntou-se muitas vezes que mal havia feito à Deusa para que sua sorte não passasse de uma brisa refrescante e intempérie a qual sempre parecia se esvair no pior momento possível. Como agora, por exemplo, quando seu corpo mal havia se curado direito e os ossos reclamavam a cada passo dado, a desgraça se jogava em seu colo com uma literalidade assustadora. E pensar que ele apenas buscava o conforto de uma das redes balançantes no convés inferior quando viu o Contramestre cair, exatamente como um corpo desaba após um golpe fatal durante uma batalha.
Seu primeiro instinto foi olhar ao redor em busca de qualquer ameaça oculta que despontasse naquele minuto, porém, tudo o que havia eram marujos voltando-se assustados para o local cujo baque fora alto o suficiente para que todos escutassem. Certo de que estavam em segurança, Todoroki correu ― mancou ― em direção ao corpo caído e o empurrou para o lado e, tendo em mente que havia certa possibilidade de ele ter sofrido uma concussão com a batida, posicionou a cabeça, com cuidado, para sua pernas, erguendo as pálpebras finas as quais pareciam tão quebradiças e cansadas para revelar as órbitas que giravam sem rumo. Ele ardia em febre, o corpo tomado pelos tremores, e Shouto se perguntou como sequer ele estava conseguindo se manter em pé naquele estado miserável.
― Chamem o Capitão! ― alguém gritou.
Um aviso desnecessário, encarando o fato de que os passos duros do Capitão Midoriya já podiam ser escutados do ponto em que estavam. Todoroki encarava a cara pálida de Dabi, as bolsas sob os olhos estavam mais escurecidas e notáveis e, de uma de suas pernas mal posicionada, um inchaço aparecia de forma túrgida. Não demorou muito para que ouvissem a voz fria do homem de olhos esverdeados, que se postava atrás de si.
― Levem-no para a minha cabine e chamem a Mina aqui ― ordenou. Houve uma pausa alarmada entre todos os tripulantes que ali estavam. O choque de ter Dabi caído no chão, quando ele era um dos homens mais fortes de seu Capitão. Aquela era uma visão de como todos eles estavam condenados ao mesmo fim. ― O que estão esperando? Andem, agora!
A movimentação veio por parte de Kirishima, talvez a pessoa mais parruda dali. Seus braços logo chegaram ao corpo do rapaz de cabelos escuros caído no chão, as mãos o tocaram com um cuidado cirúrgico, como se estivessem lidando com uma criança febril. Shouto engoliu em seco, tentando de alguma forma ajudá-lo a colocar o corpo em uma posição confortável.
Em sua perspectiva, foram dados passos demais até a cabine do Capitão. A cama, agora arrumada, preparou-se para acalentar um novo corpo sobre o colchão fino. Midoriya pigarreou em algum lugar daquele quarto, e Shouto finalmente percebeu que não era bem vindo ali naquele momento. Ninguém entra na cabine do Capitão. Ele girou os calcanhares, dando passos largos até a entrada da cabine quando Mina chegou, impedindo-o de sair.
― Não, você fica ― explicou, empurrando-o para que saísse do caminho. ― Eu quero que vocês dois o segurem para que ele não se machuque de alguma forma.
Seu tom calmo contrariava a exasperação em seus olhos. Suas ordens eram rápidas. Eles não tinham ervas ali, então teriam que improvisar. Ashido examinou o corpo com os olhos, até que percebeu o volume espesso em uma das pernas. Ela revirou os olhos, rasgando a calça vagarosamente para analisar o inchaço. Pausa. Suspiro. Pausa.
― Kirishima, vá até o convés inferior e me traga aquele pote com as pequenas ― ela falou, esperando que Eijirou entendesse, este que apenas assentiu com a cabeça antes de sair. ― Você… ― Apontou para Shouto. ― Tem uma solução naquele armário, traga para mim.
Shouto se virou, confuso, tentando identificar o armário embutido em uma das paredes de madeira. Sua mão deslizou pela abertura escura, até que ele encontrou a mistura esverdeada dentro do pote. Entregou para a mulher, torcendo o rosto pelo cheiro ruim.
― Segure-o. ― Obedeceu. E a viu meter os dedos dentro do vaso, murmurando de forma quase inaudível para as suas palmas. Os sussurros duraram segundos, apenas o tempo que levou para Mina pressionar a substância sobre a perna, no local onde despontava dois furos de dentes. O grito gutural que saiu pela garganta de Dabi poderia ser escutado em todo o navio, e Shouto se preocupou por instantes com a súbita morte do rapaz. ― Isso vai ajudar a estabilizá-lo ― disse, em meio aos sussurros.
A porta abriu em um baque mudo, e Kirishima suspirou, aliviado, vendo que seu companheiro ainda estava respirando. Ele trazia em uma das mãos um outro pote, o líquido em seu interior tinha um aspecto gosmento, acinzentado. Mina sorriu, estendendo a mão para o ruivo, que a entregou o objeto de forma apressada.
― Minhas meninas… ― ela sussurrou para o artigo de vidro, num tom carinhoso. ― Eu vou precisar mais uma vez de vocês, pequenas. Me ajudem, por favor. ― E então abriu a tampa.
Shouto se viu retraindo involuntariamente ao perceber o que havia no pote. Não que ele se considerasse uma pessoa de grandes temores, mas aquilo… aquilo era algo com o qual não gostaria de brincar. Sanguessugas grandes e gordas se moviam no espaço apertado como um mar frio e gelatinoso. Sem parecer se importar, Mina enfiou a mão e agarrou uma delas com cuidado, posicionando-a na perna do Contramestre. O animal se grudou a pele e passou a fazer o que sabia fazer de melhor: sugar. Mina soltou um suspiro de alívio que não condizia com o clima tenso do quarto e repetiu o procedimento várias vezes, até que o membro estivesse quase que completamente obscurecido pelos corpos gosmentos e esverdeados das sanguessugas.
― Bom… ― ela começou. ― Foi uma mordida de cobra branca. O veneno já se infiltrou no corpo, não há muito o que fazer além de esperar. O sangue dele está muito grosso. Minhas garotas vão tentar limpá-lo.
― Tentar. ― Dessa vez foi Shouto quem abriu a boca.
― O quê? ― Arqueou a sobrancelha.
― Você disse tentar… E se não conseguirem, o que acontece?
O silêncio se abateu pesado sobre os presentes quando a pergunta foi enunciada. Aquela resposta era inevitável, Shouto sabia. Todos sabiam disso. Mesmo assim, Mina respondeu:
― Então podemos começar a nos despedir, não é mesmo? Por que nesse ritmo, ele não vai durar até o próximo pôr do sol. E não vai ser uma morte exatamente indolor.
― Morte? Quem vai morrer? ― Uma nova voz adentrou o ambiente. Hawks dava passos pesados no chão da cabine, as mãos nas costas, a expressão dura e magoada de quem não admitiria que aquilo acontecesse.
― Keigo. ― Foi Midoriya quem chamou, o tom era calmo, quase como se acariciasse a palavra antes de falá-la. E então se virou para um dos marujos que se escorava na porta. ― Eu preciso que você mande uma mensagem ao Porto de São Francisco.
Shouto viu o pomo-de-Adão subir e descer no pescoço de Hawks, e ele anuiu com a cabeça, desviando o olhar para o corpo de Dabi sobre a cama. Para um local no qual não se devia entrar, a cabine do Capitão parecia muito lotada no momento. O peso da morte iminente, a raiva e a recusa em aceitá-la, tomavam o espaço como uma entidade viva. A súbita consciência de que eles perderiam um companheiro que há muito lutava ao seu lado enchia o ar com um peso tão forte que Shouto sentiu a necessidade de sair e lhes dar espaço. Por mais que o Contramestre o intrigasse e houvesse algo de familiar em sua aparência, ele não o conhecia bem o bastante para estar ali.
― Tem que existir outro jeito! ― Hawks gritou. ― Não podem simplesmente deixá-lo morrer! Eu não posso!
― Sinto muito, meu amigo ― Kirishima falou, o tom soturno de quem já havia presenciado muitas mortes. ― Mas a não ser que a Deusa nos concedesse um milagre, não há nada que possamos fazer.
Aquelas palavras despertaram uma memória que Shouto considerava há muito esquecida. Era como se os sussurros longínquos agora fossem assoprados em seu ouvido com leveza. Ele lembrou das palavras embaralhadas, abafadas pelo som da música e, finalmente, voltou os olhos para o seu Capitão.
― Pode haver outra maneira ― pigarreou, sentindo o peso dos olhares de todos aqueles presentes no estreito quarto pousarem sobre si.
― Se sabe de algo que estamos ignorando, querido, o palco é todo seu ― Mina se pronunciou, enfiando a mão na água gelada dentro da bacia.
O rapaz engoliu o nervosismo que se alastrava por sua língua e lançou um outro olhar na direção do Contramestre adormecido, cuja vida acenava de volta presa por um fio para o rapaz loiro da gávea que tinha face branca e os punhos tão apertados que pequenas gotas de sangue pingavam no chão coberto pelos tapetes.
― Aconteceu quando estávamos em Tortuga. Ouvi por acaso a conversa de alguns marujos sobre uma garota com exímios poderes de cura vivendo em algum ponto do mar ao norte e isso me fez recordar de uma lenda antiga que eu costumava ouvir... ― Ele hesitou, a lembrança vívida da alucinação sofrida durante sua missão de infiltração no navio da marinha retomando com força a seus pensamentos. Será que era possível? Shouto empurrou esse conhecimento para o fundo, guardando-o para ser examinado mais tarde e voltou a se focar no que dizia. ― Bem, você certamente deve ter ouvido a história da garota abençoada pela Deusa por sua coragem.
― E daí? Todos ouvimos. Não vai me dizer que acredita de verdade que um mero conto para entreter crianças possa ser real.
― Estou dizendo que desde que me juntei a essa tripulação tenho esse sentimento de que as coisas são bem mais do que aparentam. A linha entre ficção e realidade nunca foi tão estreita antes, tenho certeza de que até mesmo você não pode discordar disso.
Bakugou mordeu a língua, as mãos cerradas nas laterais, a um passo de pular na garganta do novato e o estrangular pela ousadia. Antes que o fizesse, porém, ele se voltou para o Capitão que assistia a conversa mergulhado em um silêncio reflexivo. Os olhos verdes se estreitaram e aquilo era certamente um mau sinal de que ele estava ponderando considerar aquele falatório sem sentido de verdade.
― Você não acredita nisso, não é? ― disse a ele. ― São apenas histórias.
― Eu não me importo com essa baboseira de “são apenas histórias” ― Hawks se intrometeu, o olhar duro em direção a Bakugou, afiado como as adagas que ele mantinha no cinto. ― Se houver uma chance, por menor que seja, de salvá-lo, eu não vou desistir. Mesmo que para isso precise passar por cima de todos vocês.
Bakugou abriu a boca para responder, mas Kirishima colocou a mão em seu ombro para impedi-lo e fez um pequeno gesto de negativa com a cabeça.
― Meu caro Katsuki ― o Capitão começou, a voz suave como veludo contrariando o brilho afiado que lhe tomou os olhos verdes. ―, o que você diria de minha pessoa então? Você me consideraria uma história?
O loiro não respondeu, apenas emitiu um barulho abafado de irritação e cruzou os braços. Bakugou não precisava que lhe dissessem, ele sabia muito bem reconhecer uma batalha perdida. Na cama, Dabi deixou escapar um arfar rouco de dor o que levou Mina a substituir a toalha molhada em sua testa. Os demais aguardaram em silêncio a decisão final.
Naquele momento, com um olhar firme cerrado sobre si e todo o peso de uma decisão que poderia recair sobre uma vida, Shouto entendeu. Ele entendeu por que o Capitão lhe incomodava e fascinava, entendeu o que era aquela sensação que começava a crepitar em seu interior. Ele sabia agora o que significava aquele brilho nos olhos de toda a tripulação sempre que falavam de seu comandante: respeito. Midoriya Izuku tinha um dom, aquela aura de líder que não precisava se impor. Ele não era como seu pai. Não havia violência em suas ações, não havia medo nos corações daqueles que o seguiam. Eles o faziam por lealdade, porque o Capitão era um comandante a quem todos confiavam. E isso lhe garantia um poder que seu velho apenas poderia sonhar.
― Corrigir curso, marujo, nós vamos para terra.
Naquele instante, Shouto se sentiu enfim uma parte daquele mundo. A peça final se encaixava e agora ele estava pronto para ação. Seu corpo e sua mente entenderam: a partir de agora, ele o seguiria a qualquer lugar. Por isso, sorriu ao responder:
― Sim, meu Capitão.
***
Se alguém necessitava de informação, só havia um lugar na terra que esse feitio era possível: o Porto de São Francisco, ou como era popularmente conhecido a boca das marés. Como o próprio nome indicava, era um lugar cercado por ondas enganosas e marés repentinas, famosas por engolir as pequenas embarcações que por ali se arriscavam. Tolos e marinheiros de primeira viagem nunca conseguiam sequer tocar suas praias, mas, para aqueles cujos caminhos do mar eram velhos conhecidos, não passava de uma reles brincadeira manobrar por entre as folgas na correnteza e se aproximar em segurança do pequeno e malcuidado amontoado de construções. Esse último era o caso da tripulação do Plus Ultra.
Eles aportaram no cais encobertos pelo silêncio da noite. Gestos rápidos e braços fortes puxaram o navio até a lateral pouco firme do ancoradouro, e logo três figuras encapuzadas ganharam a escuridão. A cidade dormia sob um véu de tranquilidade, os cidadãos comuns que madrugavam sonhavam com o dia seguinte e as crianças tinham a mente cheia pelas histórias ouvidas ao longo do dia.
No entanto, outra parte da cidade se mantinha bem alerta. Negócios escusos e bebidas quentes servidas em lugares ocultos existentes desde que as bases daquele lugar haviam sido construídas. E era para esse lugar que o Capitão se encaminhava. Com os olhos ardendo em uma fúria silenciosa e a mão repousando na empunhadura da espada, Shouto sentia pena de quem quer que ousasse se colocar em seu caminho. Ele se forçou a não ficar o encarando, mas sua boca havia secado ao ver a transição suave acontecer diante dos seus olhos ao pôr do sol daquele dia. Ao seu lado, uma Mina calada e reflexiva tinha os olhos atentos a cada passo dado, murmurando baixinho para si mesmo com evidente desagrado. Hawks também deveria estar ali com eles, mas recusara seu lugar em prol de se manter ao lado da cama de Dabi, vigiando-o atento por uma possível melhora que não viria.
À frente da estalagem de madeira antiga, eles observaram a placa opaca, que agora estava caída. O nome não podia ser lido, as letras entalhadas haviam se desgastado com o tempo. Por isso, Shouto ponderou se estavam no lugar certo. As flores bem cuidadas eram um adereço estranho ao visual macabro que o lugar emanava, e o rapaz de cabelos ruivos se perguntou quem, num lugar como aquele, dispunha-se a cuidar daquelas plantas. Ele voltou o olhar para a porta, seguindo os passos do Capitão. As mãos cerradas em punhos seguravam toda a sua vontade de sair dali logo. Um passo para dentro e um arrepio subiu por sua espinha, como em uma noite gelada de inverno.
― Ah, vocês chegaram. ― O homem que cuidava do balcão não pareceu surpreso por se ver diante de três estranhos encapuzados. O que, levando em consideração o restante da clientela presente no estabelecimento, não era de longe tão suspeito quanto parecia. ― Ela avisou que os esperaria em um dos reservados. ― Com o polegar, apontou para um conjunto de portas de madeira envelhecidas que se estendiam em intervalos regulares por toda a parede dos fundos. ― E pagou adiantado por isso ― completou, colocando sob a pedra fria três canecas cheias até a borda de uma bebida escura.
Se o Capitão achou aquela atitude suspeita, ele não comentou. Apenas passou a mão pela alça de uma das canecas e puxou-a para si, dando um largo gole enquanto se dirigia para a porta indicada. Mina o seguiu e Shouto imitou-os por fim, cheirando o líquido com desconfiança antes de prová-lo. Tudo naquele lugar lhe parecia suspeito, até mesmo as trepadeiras que se arrastavam pela viga de madeira até o teto. No entanto, todas aquelas coisas ficaram para trás quando ele deu o primeiro passo para dentro do quarto.
Não havia muitos móveis ali, apenas uma cama, uma mesa e duas cadeiras. Do lado oposto do quarto, o fio de fumaça podia ser visto dançando no ar advindo da ponta de um cachimbo preto na boca da senhora sentada na cadeira de balanço. Ela sorriu ao virar a cabeça para sua direção, um sorriso quase banguela. Shouto não pôde não pensar que, se fosse nos tempos antigos, ela seria uma anciã muito respeitada.
― Vocês, enfim, chegaram, meus caros. ― Ela soltou mais uma lufada cinzenta. ― Venham, se aproximem, deixem-me ver seus rostos.
O Capitão suspirou, livrando-se do capuz que lhe cobria a cabeça. Ele caminhou até a senhora, colocando-se de joelhos para apertar sua mão. A idosa o observou silenciosamente, sorrindo docemente para o rapaz. Não era todo dia que se via alguém daquele porte prestar respeito daquele jeito, sem hesitação.
― Levante, minha criança ― ela falou, com uma rouquidão estranha na voz. ― Não é preciso. Não se ajoelhe por mim, você já é um moço feito.
― Faz muito tempo, ama ― Midoriya falou, baixinho. ― Você recebeu a minha mensagem?
Ela acariciou seus cabelos compridos, enrolando os fios nos dedos ossudos.
― Creio que tenha se perdido nas ondas. Mas eu já sabia que você viria, meu filhote. O ar estava muito denso, tão denso que as pessoas aqui não conseguiam respirar ― ela contou. ― Há algo muito estranho nesta região.
O Capitão ainda estava sentado no chão, à altura do colo da mulher de idade. Uma posição que Shouto nunca pensou que o veria, seus olhos estavam concentrados na face da senhora, a expressão tão límpida quanto a de uma criança.
― Precisamos de sua ajuda, ama. ― Ele levantou, bruscamente e voltou a segurar as mãos da idosa. ― Touya está ferido. E nada poderá curá-lo além…
― Além da afilhada de Elísis ― ela o cortou. ― Eu sei, meu querido, eu sei. Não há necessidade de desespero. As peças do destino já estão encaixadas há muito tempo. Você sabe o que precisa fazer. Deve se apressar em sua busca.
Elísis, Shouto pensou, ninguém ousava dizer o nome da Deusa em voz alta. Mas aquela mulher, em sua audácia, havia deixado que ecoasse em sua voz. Diziam os velhos contos, que quem tivesse a ousadia de chamar por seu nome, seria destruído no mesmo instante. Mas, ali, naquele momento, ele viu que nada aconteceria, porque a mulher continuava sorrindo tranquilamente como se houvesse acabado de lhes contar um segredo.
― Venha aqui, me dê um abraço ― ela disse. E Midoriya se inclinou para fazê-lo, como se cumprir seus pedidos automaticamente fosse um hábito que não estava disposto a abandonar. Os dois pares de olhos restantes naquela sala observaram o arregalar dos de íris verdes pertencentes ao seu Capitão, enquanto ele ouvia a mulher sussurrar suas últimas palavras. Ao escutar o que quer que ela tivesse dito, ele reagiu de forma dura, apertando a mulher com mais força em seu agarre.
― Durma bem, ama ― ele disse, beijando-lhe a testa. Quando o homem virou para sua direção, Todoroki percebeu que os olhos da senhora estavam fechados, como se dormisse serenamente. Isso contrariava a expressão séria do Capitão, que passou por eles sem olhar para trás.
― Parece, senhores, que já temos o nosso destino ― avisou, os pés já fora da estalagem, os raios do Sol vespertinos banhavam sua face, dando destaque às sardas. Sua silhueta tremeluziu e Midoriya segurou mais uma vez o capuz, cobrindo a própria cabeça.
― O que isso quer dizer? ― sussurrou Shouto para Mina.
― Que você não estava tão louco assim. ― Ela piscou. ― E que achamos a localização da menina.
― Você não estranhou ela ter escolhido um lugar tão macabro para um encontro?
― Shouto… ― Ashido se voltou para ele, com um sorriso debochado. ― Ela era cega.
Oh. Ele parou a caminhada. Oh! E isso não fazia tanto sentido? Apesar de tudo, não conseguiu evitar que um arrepio lhe subisse pela espinha. Mesmo com aqueles olhos que já não mais enxergavam os pedaços mundanos desse mundo, ele havia sentido como se a velha senhora pudesse ver a sua alma.
― Vamos logo, partiremos assim que voltarmos e tenho certeza de que você não vai querer ficar para trás. ― Shouto apenas assentiu e retomou a caminhada seguindo-os pelas ruas tortuosas que despertavam ao raiar do dia de volta para o porto que haviam deixado para trás apenas algumas horas antes.
Quando chegaram mais uma vez ao Plus Ultra, os passos se dirigiram de volta a cabine do Capitão, que escancarou a porta com brusquidão, fazendo Hawks pular de seu lugar e agarrar imediatamente as facas no cinto. Os olhos afiados relaxaram ao perceber quem eram e ele avançou, as mãos estendidas em direção a Midoriya, praticamente exigindo notícias.
― Precisamos chegar a Punta de la Muerte antes do pôr do Sol ou não haverá mais esperança. ― Os ombros do marujo caíram em alívio e ele voltou a se sentar ao lado da cama com as pernas trêmulas. ― Mina, você sabe o que tem de fazer.
Ela assentiu, puxando as mangas e andando até o armário de suprimentos.
― Impedir o veneno de se espalhar ainda mais. Vai ser arriscado, mas pode funcionar. Agora, todos vocês para fora. Não quero ninguém aqui para atrapalhar minha concentração.
O Capitão gesticulou para que obedecessem e os acompanhou até o lado de fora onde subiu os degraus e tomou o posto de Dabi no leme. Shouto se viu o seguindo, a mente flutuando em questionamentos sem resposta. Alguma parte sua considerou o que o Capitão havia lhe dito em sua cabine sobre erguntar-lhe diretamente ao invés de agir como uma criança bisbilhoteira, e Shouto se viu cedendo. Já era hora de obter algumas.
― Então ― ele começou. ―, esse lugar, Punta de la Muerte, sabe que é um grande cemitério de navios, não é?
O olhar muito sério recaiu sobre si, os cachos esverdeados do Capitão sendo levados pelo vento conforme ele despia a capa. Do convés principal, o ruído da movimentação subia enquanto a tripulação preparava o navio o mais rápido possível para a partida.
― Isso mesmo, Shouto Todoroki. Vamos testar a sua hipótese de salvação mágica. ― O Capitão girou o timão em sua mão, xingando para que Ochako ditasse logo o que os tripulantes tinham que fazer. ― E, pela Deusa, eu espero que esteja certo.
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