Lukas estava no hospital desde o dia passado, tendo que cobrir todos os turnos. Já tinha perdido a conta da quantidade de café que havia tomado nesse período. Suspirou ao ver que já era de manhã. Analisou, portanto, seu cronograma de hoje. Precisava acompanhar a tomografia e a bateria de testes submetidos ao paciente Køhler. Suspirou. Odiava aquela parte de seu trabalho, pois era nessa que saberia se seu paciente podia ou não sair daquela situação.

Olhou em seu relógio de pulso, respirando fundo. O dinamarquês deveria estar fazendo a bateria de testes agora. Precisava se dirigir até a sala onde ele estava, e aplicar a tomografia. Com passos mais apressados que o normal, o norueguês se locomoveu pelos corredores do hospital, chegando ao seu destino.

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Quando chegou à sala, Mathias já estava na cama computadorizada, e os auxiliares estavam à sua espera. Lukas cumprimentou a todos, pedindo que se iniciassem os testes. Uma enfermeira tranquilizou o dinamarquês, enquanto picava a agulha em seu braço. Todos saíram da sala de teste, dirigindo-se à sala ao lado, que dava vista de onde Mathias estava por causa da janela de vidro. Lukas ligou o aparelho, e a sala ao lado ficou escura. O paciente adentrou a cama de tomografia, e os sensores foram ligados, garantindo imagens do cérebro do dinamarquês. Tiraram algumas fotos, e o teste durou cerca de trinta minutos. Logo depois da sessão, desligou-se o aparelho, e Mathias saiu da cama, um pouco tonto. Reclamou e riu das picadas e beliscões que levou, fazendo o resto da equipe sorrir e rir descontraída. Menos Lukas. Aquele garoto era realmente feliz, e ele ainda não entendia direito o motivo.

“Senhor Køhler, precisa voltar para o quarto.”

Anunciou o Doutor Bondevik, chamando a atenção do mais jovem. Mathias sorriu, coçando a cabeça. Ajudou-o a sentar-se na cadeira de rodas, e o próprio Doutor ajudou-o a chegar até o quarto. Só agora, que estava tão próximo dele, pôde perceber o quão magro o dinamarquês era. Mas, a julgar pela musculatura, o outro não era assim. A doença estava realmente em um estágio grave...

Quando chegaram ao quarto, com a ajuda de outra enfermeira, Mathias foi deitado na cama, recolocando o soro. Lukas pediu para que a moça se retirasse, e sentou-se novamente na cadeira ao lado da cama. Tinha em mãos os resultados da tomografia, e a expressão era a mesma de sempre. Entretanto, seu interior desmoronava. Os dedos tamborilavam o papel do envelope, o pé batia rapidamente no chão. Estava tão nervoso!

“Lukas, eu...”

“Chame-me de Doutor Bondevik.”

Respondeu o norueguês, sentindo-se subitamente envergonhado. Apertou mais o envelope entre os dedos, suspirando. O dinamarquês parecia tão ansioso quanto ele, mas pigarreou.

“Você está me deixando um pouco nervoso...”

Lukas voltou o olhar ao mais novo, sem nada dizer por severos minutos. Era verdade. Nunca havia ficado assim, até aquele momento. Voltou a retirar a papelada do envelope, mostrando as tomografias.

“Eu acho que o Senhor já imaginava isso, mas... A tomografia demonstrou uma anomalia na região central do encéfalo, de tamanho considerável. Um tumor.”

Lukas não tinha coragem de olhar para o rosto de seu próprio paciente, temendo a expressão que este fazia. E se ele estivesse chorando? E se não estivesse mais sorrindo? Ele não entendia. Mas queria entender. Por que o dinamarquês lhe parecia alguém de tanta estima? Arriscou uma espiadela, constatando a expressão vazia de Mathias. Ele segurava a cabeça, com ambas as mãos, e os olhos estavam vidrados, direcionados ao próprio colo. Claro, aquilo era um choque. Lukas engoliu em seco.

“Quanto tempo eu tenho?”

“Nós... Ainda não...”

“Quanto tempo eu tenho?!”

Repetiu o dinamarquês, em tom mais alto. A face se contorcia em diversas emoções, e Lukas sabia que ele sairia de controle. O enfermo começara a sair da cama, não querendo mais ficar ali. Lukas precisou forçá-lo para a cama, sem querer machucá-lo, entretanto. Chamou pelas enfermeiras, que vieram alguns minutos depois, aplicando um sedativo em Mathias, que caiu adormecido no colchão. Ajeitaram-no, e o coração de Lukas saltou. Sua respiração estava descompassada, transtornada.

“Doutor Bondevik, o senhor está bem?”

Perguntou uma delas, ajeitando o uniforme. Lukas tranquilizou-a, sorrindo com discrição.

“Estou. Vocês já podem se retirar. Obrigado pela ajuda.”

As mais jovens sorriram, saindo do quarto e pedindo licença. Lukas jogou-se novamente na cadeira, levando as mãos à cabeça, bagunçando os fios de cabelo. Suspirou, voltando o olhar ao seu paciente, que dormia. A sua expressão voltara a ficar suave, mas as marcas do cansaço estavam nítidas em seu rosto. Aproximou-se. Deixou os dedos percorrerem a pele de seu rosto, acariciando suas bochechas, até os cabelos. Eram ambos macios.

Sentiu o rosto esquentar de leve, na região das bochechas, ao se pegar no que fazia. Afastou-se, relutante, do mais novo, voltando a ficar de pé. Ajeitou suas coisas, e olhou para a flor que carregava no bolso do jaleco. Ah... Era aquela que a Senhora Müller lhe dera no dia anterior. Retirou-a dali, colocando-a em um vaso na cabeceira ao lado da cama de Mathias, indo até o banheiro do quarto e enchendo o utensílio com água. Deixou a planta ali, zelando pelo paciente, e finalmente saiu do quarto. Ainda tinha muito trabalho a fazer.

E a flor? Bom, o outro precisava muito mais do que ele próprio.