Sete Dias
1 Sete Dias - Capítulo Único
Notas iniciais
Dia um. O ar puro era reconfortante nas montanhas que estávamos. Apenas isso era bom, de resto eu odiava. A solidão, o confinamento, tudo. Todos me perguntavam apenas uma coisa, uma única frase que me fazia ficar mais irritado. "Por que você veio para cá, já que você não gosta daqui?".
– Vamos, deixe de fogo. – Minha irmã se aproximou, me puxando pelo braço e me desconcentrando da visão da montanha. – Vamos para a cidade, lá parece ser mais legal.
– Sim, claro. Só se salva pela internet e celular. De resto é pacata. – Descemos a montanha e então entramos na cidade. Devia ter cerca de 30 mil habitantes, ou menos.
– Então, o que você achou da cidade? – ela perguntou, segurando meu braço. Era quase como um abraço.
– Talvez isso não seja um total desperdício de tempo, nesse tempo eu poderia estar sofrendo um acidente. – falei com total tédio.
– Talvez você se divirta, arrume algo para fazer aqui. Você acabou de fazer 18, comemore isso de forma correta. – Avistamos nossos pais numa cafeteria. Andamos até lá calmamente. Ao abrir a porta, o sino avisou que havia cliente para ser atendido.
– Andrew, sente aqui. – meus pais me chamaram. Eu obedeci e então me sentei na cadeira. A visão da rua era bonita, devo confessar. As pessoas andando, de um lado ao outro, mostrava uma cidade em ascensão.
– Sendo assim, por que você não vai até a loja e compra algo, Andrew? – perguntou minha mãe.
– Certo, eu vou. – me levantei, olhando para a saída.
– Queríamos guardar até a festa, mas a casa que está em nosso nome... você pode ficar com ela. – disse meu pai, minha irmã tentou falar algo, mas eu fui mais rápido.
– Eu odeio esse lugar, por que ficaria aqui? – perguntei para eles, mas também para mim mesmo. Depois de me despedir, resolvi sair até a loja. Ao chegar perto dela, um senhor se aproximou.
– Vai comprar algo para sua namorada, é? – ele parecia ser uma boa pessoa.
– Não. Ainda não. Quer ajuda com algo? – perguntei a ele.
– Sim, minha mulher. Eu não sei aonde ela está, por acaso você viu alguma mulher de idade passando por aqui? – ele parecia feliz, que bom, pelo menos alguém aqui estava feliz.
– Acho que ela deve ter ido na recepção, ou então no estacionamento. Desculpe, não a vi. – eu me despedi dele e então voltei para meu objetivo principal. Caminhei até a entrada do estabelecimento, quando a porta abriu, um carrinho cheio de compras saiu de dentro. As rodinhas faziam um barulho irritante, porém não havia alguém o empurrando. Eu corri até ele, mas ele continuava rápido.
– Para esse carrinho, por favor! – gritou um garoto da minha idade, correndo atrás do carrinho comigo. Eu me segurei no carrinho, que parecia impossível de parar. Eu tropecei e caí de mau jeito do chão. O carrinho parou comigo, porém tombou no chão. A dor começou a falar mais forte, meu pé doía muito. Com um grito, tentei liberar toda a dor que ali surgia.
– Acho que você quebrou o pé, me desculpa. Sério. – ele me deu a mão, então me apoiei em seu ombro, ele me carregou até seu carro. Eu liguei para meus pais, avisando-os sobre os acontecimentos. Mas esse cara que eu nem sei o nome acabou de me ajudar e... ele parece realmente uma boa pessoa.
– Desculpe, me chamo James. – ele estendeu a mão, parando o carro em frente ao hospital.
– Andrew. – Estendi minha mão e apertei a dele.
– Eu gostei do seu nome. – ele sorriu. James deu a volta abriu a porta do carro, me segurou e então me apoiou até a recepção.
...
Dia dois. Meu pé doía bem menos, mas estava engessado. Com um pouco de dificuldade, me levantei e fui até a sala. Minha família estava lá, me esperando. Foi um bom momento, ver que eles gostam de mim. Se importam.
– Um cara passou aqui. – disse minha irmã. – Ele devolveu isso aqui e agradeceu a você. – ela amostrou meu celular, a tela dele estava arranhada.
– Confinamento total. – falei, sentando-me na cadeira. – Tem certeza que não foi vocês? Pai? Mãe? – eles me olharam com um rosto indecifrável talvez entenderam a piada. Foi apenas uma piada.
– Você sabe onde ele mora? – Perguntei, vendo a tela de meu celular.
– Não, ué. Já se apaixonou por ele? – isso me irritou profundamente, eu apaixonado por um homem? Nunca!
– Claro que não! Eu queria agradecer. – falei, me exaltando um pouco.
– Ele não deixou nada que tivesse o endereço, ou falou sobre o endereço. – Meu pai falou. Depois de um tempo, me levantei e resolvi ir até o mercado. Eu tinha um pouco de esperanças de que ele estivesse lá. Queria agradecê-lo por ele não ter roubado meu celular.
– Veio parar outros carrinhos? – ele perguntou, guiando mais um carrinho. Desta vez não estava desequilibrado.
– Eu não sei parar carrinhos com uma perna só. – falei, apontando para meu pé.
– Ah, sim. Foi mal. – Ele deu um tapa amigável em meu ombro.
– Quer sair pra beber comigo? Amanhã à noite. – ele falou, o carrinho com suas compras até o carro.
– Certo, você sabe onde é minha casa, só me chamar. – James sorriu ao perceber meu olhar de incerteza.
– Relaxa. Apenas amigos, eu gosto de mulheres. – disse ele, rindo. Então James se despediu e foi embora.
...
– Aqui sua cerveja. – James sentou ao lado de Andrew, no pequeno porto de madeira do lago. Estendendo minha mão, peguei a cerveja que ele estendia para mim.
– Obrigado. – falei, dando o primeiro gole.
– Você é novo por aqui, certo? – ele perguntou, bebendo também.
– Minha família vem para cá quase todo ano, nas férias. – Olhei para o horizonte negro que dividia o lago do céu.
– Você já veio aqui antes? Nunca te vi. Acho que você começou o emprego de parar carrinhos ontem, certo? – ele sorriu, olhando para o lago também.
– Com certeza. – Depois de um tempo bebemos todo o conteúdo das garrafas, então pegamos outras duas. E também bebemos. Ele era realmente um cara legal.
– Sabe de uma? Eu odeio a solidão desse lugar. – falei, puxando um assunto aleatório.
– Como assim? – Ele perguntou enquanto se inclinava para próximo de mim.
– Ao redor... eu só consigo ver árvores. Todo canto é silencioso. Não tem tantas pessoas. – derrubei sem querer a garrafa vazia no lago.
– Não. Perceba como todos eles são receptivos, amigáveis. E você veio para um lago comigo, sozinho, e não passou na sua cabeça que eu poderia ser um assassino? – James perguntou, se levantando.
– Eu ainda acho que você tem algo com tudo isso. – falei, ficando de pé e o segundo. – Certo, você tem o ponto. E o que você acha das meninas daqui? – falei, depois de um tempo.
– Bem... São mulheres! Algumas são bem bonitas, já outras nem tanto. A Sam, por exemplo... nossa, que corpo! – ele fez uma cara de satisfação.
– Certo. Qualquer dia desses você me apresenta uma delas. – falei, James parou de caminhar e olhou nos meus olhos.
– Pensava que você era gay. – ele riu, então o empurrei. James escorregou e caiu na água.
– Você vem junto! – ele me puxou, me fazendo cair na água. Meu pé... eu me desesperei. Comecei a me debater e engolir água. Senti uma mão me puxar para fora d'água. Era James, só podia. Eu tossia, sentia frio. Eu estava uma merda, e tudo culpa dele.
– Que porra, cara! Por que você fez isso? – minha voz estava entrecortada devido as tosses.
– Me desculpa. Eu esqueci... acho que estou bêbado. – ele olhou para o lago, tremendo de frio.
– Vamos para o carro? – sugeri a ele.
– Certo... me desculpa. Eu realmente fiz merda. – ele colocou as mãos na cabeça. Eu o olhei nos olhos, e ele retribuiu. Com uma aproximação súbita, James encostou seus lábios no meu. Senti um arrepio percorrer meu corpo, senti o sabor de seus lábios. A excitação do momento. Ao me dar conta do que estava fazendo, me afastei.
– Que porra é essa? – gritei, me afastando.
– Acho que é as bebidas, foi mal. – ele tremeu e hesitou, então segurou o volante e começou a dirigir. Não falamos mais nada. Ele me deixou na porta de minha casa, então entrei sem me despedir.
...
Dia quatro. Estava caminhando, se é que isso é caminhar, pela rua. Avistei o mercado de antes e tentei arrodear para não o encontrar. Minha cabeça martelava devido a ressaca. Uma pessoa familiar estava vindo em minha direção, só podia ser ele. Atravessei a rua para evitá-lo. Talvez foi melhor assim. Ao olhar para ele, percebo que ele também me olhava. Uma vergonha inexplicável me invadiu. O que esse cara queria comigo?
...
Dia seis. Faltava apenas um dia para a viagem acabar. Não sei se deveria me sentir feliz ou triste. Minha mãe pediu que eu comprasse alguns mantimentos para preparar a refeição da noite. No mercado tudo estava normal, tirando o fato de que ele estava lá, sentado num banco.
– Oi. – ele disse enquanto eu me aproximava dele.
– O que você queria com aquilo? – me sentei ao lado dele.
– Eu não sei... eu te vi. Percebi que você é um cara legal. – ele disse, evitando contato visual.
– Então, você achou que eu era legal e me deu um beijo? Apenas? – Perguntei, minha voz soava tão incrédula quando minha mente estava.
– Cara, eu sempre gostei de mulheres, mas você parece tão... legal. Eu não sei o que fazer, eu só penso em você. – Ele parecia agoniado, como se isso fosse ruim.
– Mais isso é errado! Somos dois homens. Isso soa tão errado quanto é. – falei, me afastando um pouco.
– Eu sei que você também gostou, vejo isso em seu rosto. – ao ouvir ele, minha face corou. E eu senti que ele tinha a razão, eu era estranho.
– Eu não gostei de nada! Isso é estranho. – Menti, me levantando e me afastando dele. Eu só pensava nele, tudo teve uma reviravolta tão grande: Ele também gosta de mim! Me senti tão diferente...
– Sim, vejo isso em você. – ele disse.
– Você não sabe como me sinto. – me virei e falei para ele.
– Sim, eu sei. Você beijou um homem. – eu o olhei, vi em seus olhos que ele parecia tão assustado quanto eu.
– Eu vou embora amanhã. Sinto muito. – falei, sem olhar para trás, indo até minha casa.
...
Era noite, eu estava sentado na borda do lago. Hoje tudo parecia tão calmo, sinto que eu nunca esquecerei ele. Mas eu também sei que isso é errado. Eu não posso ficar ao lado dele.
– Oi. – ele sentou ao meu lado. Eu me assustei.
– Como você sabia que eu estava aqui? – Perguntei, totalmente surpreso.
– Eu estava pensando em você, e resolvi passar aqui. – ele sorriu.
– Então nunca mais nos veremos? – ele sorriu. Minha face corou, então me aproximei dele. Com um impulso, o beijei. Novamente senti uma inundação de sentimentos. Eu fui preenchido por ele, e eu queria ser dele. Isso pode ser errado, mas eu não conseguia pensar em outra coisa.
– Até nunca mais. – Ele se levantou apressadamente. – Você é bonito. – Eu corei, que merda! Eu era tão tímido perto dele.
– E você também. E eu te acho muito legal. Foi um dos melhores beijos que eu tive.
– Sim, um dos melhores. Mas agora já era, você precisa ir.
– Ei, minha família tem uma casa aqui. Eu posso ficar...
Notas finais
Olá! Como estão? kk
Você acha que Andrew ficou com James? Espero respostas.
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