Sete Dias
7 Sétimo dia
Na manhã seguinte Jeff sentia-se diferente. Não. Diferente não descreveria com exatidão como ele sentia-se, talvez ele se sentisse… mais forte.
Não, mas ele sabia aquele sentimento não era bom. Ele estava apreensivo. Não deixaria aquela parte tomar conta dele novamente, senão estragaria tudo o que ele conquistou nessa última semana e isso seria um desastre.
Sentado em seu velho sofá no escuro esconderijo, ele decidiu que o melhor seria não visitar Mary Anne aquela noite e, talvez, nunca mais.
Mary Anne estava inquieta quando levantou na manhã seguinte. Ela estava com um pressentimento estranho, que dizia a ela que algo ruim iria acontecer. Além disso, ela sentia a necessidade de viver aquele momento. E ela o viveria com sua família ao seu lado.
– Mãe! Pai! – Gritou ela saindo do quarto e correndo para o quarto de seus pais.
– O que houve filha? – Perguntou a mãe dela assustada.
Mary respirou fundo, tentando devolver o ar para seus pulmões, e após algumas repetir o processo algumas vezes, falou:
– Me desculpem pelo susto. É que eu… queria sair um pouco em família. Sei lá, faz tempo que não fazemos alguma coisa juntos, não é mesmo?
Ela sorriu timidamente. Seus pais se entreolharam por alguns instantes, surpresos, e depois para Mary Anne, ainda parada na porta.
– Tudo bem. – Respondeu seu pai, agora sorrindo e se levantando da cama.
– Ótimo! Eu… eu vou me arrumar então.
Mary Anne encostou a porta, mas logo tornou a abri-la.
– Hum… Só mais uma coisa: Onde vocês pretendem ir?
– Você que escolhe. Seu pai e eu estamos dispostos a ir onde você quiser, uma vez que foi você quem deu a ideia.
Mary pensou por um tempo.
– Que tal um restaurante e depois nós podemos… Sei lá, ir à praia. Faz tempo que não vamos lá. Que tal?
– Por mim tudo bem. – Respondeu seu pai de bom grado.
Mary olhou apreensiva para sua mãe, esperando por sua resposta.
– Se o seu pai aceitou, por que eu não aceitaria?
Mary sorriu e disse “Eu amo vocês” antes de ir correndo para o banheiro.
[…]
Após saírem do restaurante, Mary e sua família se dirigiram para a praia. Aproveitando o fato de passarem das cinco horas da tarde, eles lá ficaram, na areia, para poderem ver o pôr do sol e conversarem animadamente como uma verdadeira família feliz. Deixando seus problemas para trás, sem pensar no futuro, apenas vivendo o presente, como Mary desejava ardentemente naquele dia.
Ao andarem em direção ao carro, quando saíram da praia já de noite, Mary podia jurar que viu Jeff a observando em um beco escuro do lado oposto da rua. Ela olhou rapidamente para ela e sorriu, mas não parou de andar para olhá-lo, não queria que seus pais o vissem ou desconfiassem.
Enfim, entraram no carro e voltaram para casa.
Sim, meus caros leitores, Jeff estava lá naquele beco. Mas digamos que ele não era ele. Aquele que estava lá não era o Jeff humanóide que Mary Anne teve a sorte e felicidade de conhecer e se apaixonar, aquele que ela viu lá no beco era o velho Jeff insano, matador e psicopata. Aquele que matava por prazer, que gostava de ver suas vítimas sofrerem e rir da dor delas.
Naquela hora em que ele estava no beco, ele tinha acabado de matar uma pessoa e estava indo embora, quando viu Mary passando e sorrindo timidamente para ele. Jeff virou-se para sua vítima estirada no chão atrás dele e o remorso o invadiu completamente. Ele ajoelhou-se ao lado do corpo e pegou a mão do desconhecido. Pedindo desculpas, Jeff saiu dali correndo e voltou para seu esconderijo.
O gosto de sangue ainda predominava em sua boca, pois ele havia feito um novo corte em forma de sorriso. Ele resolveu jogar uma água, talvez melhorasse, mas ao chegar perto da pia pôde ver seu rosto refletido no espelho. Ele estava com um sorriso maior ainda, como se sua parte assassina quisesse provocar sua outra parte humanóide.
Seus dedos apertaram fortemente a pia e depois, com um rápido e forte soco, quebrou o espelho em pequenos pedacinhos, deixando sua imagem distorcida em cada um dos cacos ao seu redor no chão.
– Abominável! – Exclamou ele com raiva.
Ele sentou-se e pôs-se a meditar. Isso com certeza o acalmaria, ele não perderia novamente para aquele lado obscuro dele. Ele não podia deixar isso acontecer. Ele não podia fazer isso com Mary Anne.
Passaram-se uma, duas, três e quatro horas, até que Jeff estivesse controlado e sentisse que seu lado assassino estava adormecido novamente. Ele estava conseguindo controlar-se completamente, e foi com esse pensamento feliz que resolveu ir até a casa de Mary Anne naquela noite.
Quase uma hora mais tarde, lá estava ele no quarto de Mary, conversando animadamente com ela.
Para a sorte de Jeff, ela não comentou sobre o “encontro” deles na rua e a quantidade de coisas que Mary tinha para contar a ele sobre seu dia eram tantas que Jeff sabia que aquele assunto não seria tocado, pelo menos não naquela noite. E isso daria certo tempo para Jeff pensar melhor em uma resposta para dar a ela quando esse dia chegasse.
Eles se encontravam abraçados quando a porta abriu e revelou a mãe de Mary.
– O-o que é isso? – Gritou ela quando viu Jeff.
Jeff levantou-se da cama, tentando tranquilizá-la, assim como Mary, mas cada vez que ele pronunciava uma palavra, a mãe de Mary gritava pelo seu marido. O mesmo logo estava na porta do quarto com uma faca afiada em punho.
– Quem é você? – Indagou ele com ferocidade e ameaçou dar um passo na direção de Jeff.
– Calma pai. E-esse é Jeff.
– É esse o garoto por quem você apaixonou-se filha? – Perguntou sua mãe com voz de choro. – É por isso que você não quis nos apresentá-lo?
Mary Anne assentiu, sentindo-se envergonhada por ter mentido para seus pais. Apesar de manter-se afastada e calada por um tempo com eles, ela nunca mentiu para eles, até que conheceu Jeff pessoalmente.
– Não me importa quem ele é. – Disse o pai de Mary avançando até Jeff. – Só sei que quero ele fora da minha casa para sempre!
E então, para o azar dele, ele encostou a ponta da faca no peito de Jeff. Jeff olhou para a lâmina e depois para o seu intimidador. Um sorriso gélido se abriu, misturando-se ao esculpido em seu rosto.
– Jeff não! – Alertou Mary Anne com um grito, mas já era tarde demais.
Jeff o assassino estava de volta ao controle e, já com a faca em punho, perfurou o peito do pai de Mary, acertando em cheio seu coração.
Sra. Dayton gritou de horror e partiu para cima de Jeff, levando uma facada na barriga e outra no ombro.
Jeff sentia-se revigorado e forte. Seu sorriso nunca pareceu tão grande quanto agora. E tudo em que ele pensava era: matar.
Mary Anne gritava de horror e deixava lágrimas caírem a cada instante de seu rosto. Enfim, um grunhido de raiva escapou por entre seus dentes e ela avançou até Jeff, batendo nele com toda a força que podia encontrar naquele momento de ira.
– Seu idiota! Assassino! Estúpido! Eu te odeio! – Balbuciava ela entre soluços.
Jeff virou-se de frente para ela, fitando-a friamente. Mary Anne recuou cambaleando, até que se viu sem saída na parede. Ela chorava desesperadamente. Jeff chegou perto dela e passou a mão em seu rosto, sujando-a de sangue e fazendo-a tremer mais ainda.
– Me desculpe por essa bagunça, minha querida Mary Anne. – Disse ele de modo distante, psicótico.
Ela olhou-o nos olhos, tentando encontrar ali aquele garoto que ele era há alguns minutos atrás. E então, abraçou-lhe.
– Jeff… — Sussurrou ela. – Por favor, eu sei que o seu lado humano ainda pode me ouvir. Por favor, volte. Volte para mim.
– Me desculpe Mary Anne… – Sussurrou Jeff de volta.
Antes que Mary pudesse entender aquela frase, sentiu uma dor aguda em sua barriga. Afastou-se bruscamente de Jeff, caindo no chão logo em seguida, e viu que Jeff a acertara com a faca ali.
– Me desculpe Mary Anne, mas seu amado Jeff humano nunca mais voltará. – Continuou Jeff.
A última coisa que Mary Anne ouviu antes de morrer foi a risada macabra de Jeff O Assassino.
Quanto a ele, olhou-a por mais alguns instantes e foi até a porta, parando apenas para olhar por sobre o ombro a cena e murmurar:
– Sinto muito Jeff humano, mas acho que você perdeu.
E então saiu do quarto e fechou a porta dizendo “Shhh… Vá dormir!” para sua parte humana.
Fale com o autor