Sete

5 Laços


Notas iniciais
Cara, que capítulo mais trabalhoso! Tive que pesquisar bastante sobre a época pós-abolição, sobre vestimentas e costumes, sobre a sociedade em si. Foi trabalhoso pra cacete. Mas ai está! Espero que gostem... E por favor, comentem!

Capítulo 5 – Laços

BRASIL — Ano 1894

— Rafaela dos Santos! — A empregada, Cristina, chamava por seu nome. – Rafaela! – Dizia dentre as batidas na porta do quarto — Destranque logo esta porta e saia logo de seus aposentos! Seus pais estão à sua espera no jardim.

Os gêmeos estavam no quarto, evitando sair para comparecer à confraternização. Tentaram ficar quietos para dar impressão que não houvesse ninguém no quarto, porém não deu certo.

— Não adianta ficar em silêncio! – A empregada dizia — Sei que está aí!

Rafaela revirou os olhos.

— Avise-os que já chego! – Rafaela disse como quem não queria fazê-lo. – Estou terminando de me vestir!

— Vossa mercê deve se apressar! – A emprega dizia se afastando da porta – Seus pais aguardam sua presença!

Seu vestido era amarelo; não aquele amarelo claro, mas algo que tendia ao dourado, quase alaranjado. Costurado finamente, em várias camadas de pano, tinha mangas longas que se abriam em vários babados. O decote quadrado era adornado por bordados dourados, e a fina renda branca que cobria o colo terminava num rendilhado alto que fazia às vezes de gola. Um laço de seda finalizava o efeito da peça.

Combinando com o vestido, seu cabelo castanho estava preso para cima, num coque que fazia voltas sobre si mesmo, torcido e preso no alto da cabeça por grampos quase invisíveis. Arrematando o penteado, um laço similar ao que adornava o vestido.

Rafaela estava deslumbrante, algo que já não era mais incomum naquela idade.

— Eu desisto! — Rafaela disse frustrada – Detesto ter que comparecer às confraternizações estúpidas de nossos pais!

Rafael estava pensativo; ele olhava para os cantos como se esperasse alguma ideia saísse das paredes do quarto e viesse à sua cabeça. Ele estava com uma vestimenta para dormir, uma camisa branca de mangas longas com um tecido leve e uma calça do mesmo tecido.

— Rafaela, dessa vez você vai ter que ir... — Rafael coçou a cabeça, mexendo em seus cabelos castanhos desgrenhados. – Eu não consigo pensar em nada-... – Antes que ele pudesse completar a frase, Rafaela o atropelou com palavras.

— Suplico que pense mais um pouco! – Rafaela pediu – Nossos pais vão me fazer conhecer algum tipinho para me cortejar! – Ela revirou os olhos junto a uma expressão de nojo.

— E qual o problema nisso? – Rafael caçoou dela – É tão ruim ter um nobre aos teus pés?

Rafaela virou-se rapidamente na direção do irmão.

— É péssimo! – Ela respondeu, retrucando-o. – Eu detesto que os escravos e os empregados façam, imagine então um nobre!

— Você não pode escolher. – Rafael respondeu com o olhar voltado para o teto, como quem ainda está a pensar – Desculpe, não vejo outro caminho se não ir.

Ela respirou profundamente e se levantou, indo até a porta de seu quarto e destrancando-a.

— Já estou indo para lá — Rafaela disse como quem não queria fazê-lo. — Avise a meu pai que logo estarei na festa, estou apenas terminando de me arrumar.

— Mas se me permite dizer... – Rafael disse antes que ela saísse do quarto – Você está linda.

Rafaela curvou-se, demonstrando agradecimento ao elogio.

— Já vou indo. – Ela disse em tom cabisbaixo, coisa que não durou muito tempo – Tem muita sorte de não ir por causa de um resfriado. – Ela abriu a porta, retirando-se da presença do irmão.

Cristina já não estava mais lá, o que fez Rafaela se sentir tranquila para poder ir sozinha até o jardim onde a confraternização estava acontecendo.

— Senhorita! – Uma voz feminina a chamava no final do corredor – Senhorita Rafaela!

— Justo quando pensei que ia ficar só. – Rafaela disse pra si mesma, e logo, parou de andar.

Cristina, a criada, vinha correndo em direção à ela.

— Senhorita... – Ela disse um pouco ofegante – Estou aqui para acompanhá-la até a confraternização.

A criada era mulata; Embora sua pele não fosse tão escura quanto à dos escravos, notava-se que a jovem era mestiça. Tinha cabelos crespos que estavam envoltos num lenço, com algumas mechas escapando.

— Se me permite dizer, Senhorita Rafaela. – A empregada dizia enquanto andava ao seu lado – Vossa mercê está linda.

— Muito obrigada. — Rafaela agradeceu gentilmente – Não precisa ter tanta formalidade comigo. Pode me chamar de Rafaela. – Ela pediu com um sorriso singelo no rosto – Sem o “Senhorita” antes.

A mulata ficou sem jeito.

— Senhorita Rafaela... Digo, Rafaela – Ela pôs ênfase em “Rafaela” – Fico agradecida com vossa gentileza.

— Deixe-me perguntar uma coisa – Rafaela desfez o sorriso – Sabe me dizer se meu pai trouxe algum pretendente para a confraternização?

— Não que eu saiba, Senhorita. — A empregada respondeu e logo, retirou-se da presença de Rafaela o mais rápido que pode.

Rafaela virou os olhos em sinal de desgosto.

— Ele deve ter trago pelo menos cinco — Rafaela disse pra si mesma — Você sabe disso, não sabe?

Ela respirou fundo, como quem se prepara para algo desgastante.

***

A festa foi feita para celebrar os dezoito anos de Rafaela e de Rafael, mas como Rafael ficou de castigo, apenas Rafaela pode comparecer. Do quintal, já era possível ver a decoração; Flores de todas as cores e tipos para todos os lados, margaridas, rosas, violetas, quaisquer flores que vierem à mente estariam pelo local, ou enfeitando as mesas, ou até mesmo nas próprias roupas das pessoas, principalmente nas mulheres, com vestidos floridos e aparentemente, bem finos e caros.

Assim que ela pôs os pés na varanda, a festa parou. Todos os convidados começaram a aplaudi-la.

Era possível ouvir alguns comentários de garotos que estavam na festa, dizendo: "Que garota espetacular" e "Ela está linda" entre outros desse gênero. Algumas convidadas a olhavam com um sorriso tão leve que era possível notar a superficialidade dos mesmos.

Porém, Rafaela não se importava com a impressão que passava para outrem.

Ela procurou a mesa onde seus pais estariam sentados; O que era um tanto complicado pois a cada passo que dava, alguém desconhecido vinha cumprimentá-la e parabeniza-la.

— Filha! – Sua mãe acenava com um lenço a duas mesas de distância – Estamos aqui!

Rafaela, após muitos a cumprimentarem, conseguiu chegar até a mesa. Seu pai e sua mãe estavam sentados numa mesa com cinco lugares, onde quatro lugares eram ocupados.

Dois homens, um rapaz e um adulto, estavam sorrindo para ela, como quem aguardava sua chegada.

Sua mãe estava com seu belo cabelo loiro preso para cima, formando um penteado magnífico. Seu vestido azul com babados era parecido com o de Rafaela, porém era possível a riqueza em detalhes do azul. Seu pai estava com o cabelo castanho penteado para trás e usando um terno de gala, com alguns babados no pescoço que davam um ar chique na sua vestimenta.

— Ficamos à sua espera. — Sua mãe disse como que deveria estar brava, porém, sorridente – Mas foi algo que realmente valeu a pena. Você está linda. – Ela pôs ênfase na palavra “Linda”.

Rafaela sorriu para ela, em forma de agradecimento ao elogio.

— Obrigada, mãe. – Ela respondeu ao comentário.

— Filha, está uma verdadeira princesa. — Seu pai disse orgulhosamente. — Onde está seu irmão? – Ele perguntou desconfiado

— Ele está no quarto, doente. — Ela respondeu formalmente.

O pai de Rafaela pegou a xícara de chá e deu um gole.

— Resfriado, não é mesmo? — Ele pôs a xícara no pires – É triste não poder tê-lo aqui conosco. – Ele se levantou com ânimo — Gostaria que conhecesse uma pessoa! — Ele olhou para o rapaz que estava sentado na mesa.

O rapaz, com aparentemente dezenove ou vinte anos, tinha seu comprido cabelo preto preso em um rabo de cavalo bem feito. Seu terno era simples, de cor preta e sem muitos detalhes em especial que realçavam sua pele pálida. Ele tinha uma expressão séria, porém, tinha seu charme.

Ele se levantou da cadeira, pegou a mão de Rafaela e a beijou.

— Muito prazer, Senhorita Santos. — O rapaz disse lisonjeado. — Acho que não fomos devidamente apresentados. Chamo-me Gabriel, Gabriel Cecidit.

— Muito prazer. — Rafaela se curvou levemente em cumprimento — Meu nome é Rafaela, Rafaela dos Santos.

— Gabriel é filho de José – Ele olhou para o outro homem que estava na mesa junto a eles — Um grande amigo meu. — O pai de Rafaela disse sorridente.

José pegou a mão da jovem e a beijou, cumprimentando-a da mesma forma que Gabriel.

— É um prazer conhecê-la, Senhorita. – Ele disse gentilmente.

Ele tinha uma expressão alegre e convidativa, completamente diferente a de seu filho. Seu terno era visivelmente caro, um cinza escuro com detalhes nos cotovelos e poucos babados nas aberturas, dando um toque a mais em seu traje.

— Acho que você e Gabriel poderiam se retirar por um instante, para poderem conversar melhor. — O pai de Rafaela sugeriu.

O mais pálido pegou sua xícara de chá e, antes que pudesse dar um gole, olhou para Rafaela com olhar galanteador, coisa que Rafaela começara a detestar desde a primeira vez que o fizera.

— Sim, de fato. – Gabriel concordou com a sugestão — Eu adorari-... — Antes que ele pudesse terminar a frase, alguém esbarrou nele, fazendo-o derrubar sua xícara e sujar seu sapato de couro preto.

Um rapaz, outro empregado da casa, esbarrou nele acidentalmente. O criado estava com vestes simples, com calças desgastadas e camisa branca tão suja que nem parecia ser daquela cor.

Seu cabelo dele era castanho escuro, do mesmo tom de sua barba á fazer.

— Seu verme imundo! — Gabriel virou-se para ele — Como ousa fazer isso com meus sapatos? Sabe quanto eles custaram?! — Gabriel falou um tanto histérico.

A festa tinha parado para ver a cena.

— Mil desculpas, Senhor. — O empregado tentou acalmá-lo — Não fiz por mal! Apenas estava indo recolher a louça dos outros convidados, mil perdões.

Gabriel respirou fundo.

— Eu exijo que você limpe isso, agora! — Gabriel disse, agora mais calmo, em tom autoritário.

— Sim, Senhor. — O empregado acatou as ordens e puxou um pano de seu bolso, agachando-se aos pés do nobre. — Limparei imediatamente.

Gabriel riu.

— Você vai desperdiçar o chá que seus donos oferecem de tão bom grado para os convidados? — Gabriel olhou nos olhos do homem agachado — Não, não vai.

Ele tomou o pano das mãos do criado e o olhou severamente.

— Lamba — Ele ordenou de forma severa — Limpe o meu sapato com a língua.

O homem respirou fundo, mas não tardou para acatar as ordens.

— Sim... — O criado fez uma leve expressão de desgosto, junto à uma de tristeza. — Sim, Senhor...

— Chega. – A aniversariante se pronunciou.

Rafaela tomou o pano das mãos de Gabriel.

— Levante-se, por favor — Rafaela disse para o homem.

Ela se agachou passou o pano por cima do chá, limpando o sapato. Seus pais, assim como todos os convidados, olhavam boquiabertos para a cena, surpresos com a atitude da jovem.

— Não há necessidade alguma de humilhá-lo – Rafaela repreendeu Gabriel – Obrigada — Ela sorriu — Volte para seus afazeres, por favor.

O empregado e ela fizeram um rápido contato visual, e logo, ele se foi.

— Você?... — Gabriel ficou sem palavras – Ele é só um empregado!

— Se me lembro bem, a escravidão acabou a muito tempo. — Rafaela disse formalmente — E não acho que tratar os empregados dessa forma, Gabriel. – Ela pôs ênfase no nome do pálido.

***

À noite, todos já estavam dormindo, exceto os gêmeos que conversavam em seu quarto.

— Como foi hoje? — Rafael perguntou enquanto estava deitado em sua cama — Foi legal?

— Sim, foi. — Rafaela respondeu enquanto terminava de se aprontar para deitar — Conheci um pretendente, como havia previsto, ele era um imbecil.

Rafael riu.

— Todos são, não é? — Ele respondeu bocejando – Alguns são bem babacas mesmo.

Assim que pôs seu leve vestido branco que usava para dormir, desprendeu seu cabelo.

— Irei apagar as luzes — Rafaela disse. — Boa noite.

— Boa noite — Rafael disse sonolento.

As luzes foram apagadas; Não demorou muito para Rafael dormir. Ele dormia feito um anjo, um anjo bem barulhento que roncava como um porco. Rafaela ficou deitada na cama, mesmo depois de alguns minutos (ou horas) ela não conseguia dormir. Os pensamentos não a deixavam pegar no sono. Tudo o que aconteceu hoje foi tão inusitado, ela pensava em seu pretendente imbecil, um que ela arrependeu-se de não ter socado a cara dele quando teve chance. Mas isso não era o principal. O empregado que ela ajudou não saia de sua cabeça.

"Os olhos dele eram lindos..." Ela pensou enquanto relembrava do curto contato visual que tivera com o mais alto.

Ela ouviu algo bater no vidro da janela, um som que insistia em se repetir. Ela se levantou para ver o que era e se assustou.

O empregado, o mesmo de hoje mais cedo na festa, estava do lado de fora, fazendo gestos para que Rafaela descesse.

— O que significa isso? — Rafaela gesticulou com um sorriso no rosto.

O criado continuava a fazer os gestos, porém, de modo mais escancarado; balançando os braços e fazendo expressões, gesticulando “venha logo”.

— Já vou! — Rafaela gesticulou.

Ela foi até a porta do quarto, abriu-a lentamente para não fazer barulho. Olhou os corredores para se certificar que ninguém estava de pé.

Ela desceu as escadas na ponta dos pés, evitando fazer qualquer barulho. Foi em direção à cozinha para sair discretamente pela porta dos fundos. Do lado de fora, estava o empregado com um lampião aceso em sua mão e fazendo gestos de “venha cá” para ela.

Rafaela correu em sua direção

— Olha... Você não me devia fazer correr à essa hora da noite. — Rafaela falou ofegante — O que você quer comigo?

— Senhorita Rafael-... — Antes que ele pudesse completar, ela o interrompeu.

— Apenas "Rafaela", por favor. — Ela pediu.

Ele deu um pequeno sorriso.

— Rafaela — Ele se corrigiu, pondo ênfase em seu nome. — Eu apenas queria agradecer o que você fez hoje cedo na festa.

Rafaela riu.

— Você me fez sair do meu quarto pra isso? — Ela dizia risonha.

— Quis agradecer de forma direta. – Ele se justificou

— Isso não é motivo pra me fazer sair do meu quarto a essa hora da madrugada. – Ela se recompôs, contendo a risada – Mesmo assim, tenho que dizer que não há de que.

— Eu agradeço demais por ter feito aquilo. — Ele continuava agradecendo — Você é muito gentil com todos os empregados da casa, todos nós falamos disso.

— Qual é o seu nome? — Rafaela perguntou educadamente

— Meu nome é Paulo. — Ele se apresentou. – Sou nascido e criado aqui.

Rafaela fez expressão de surpresa.

— E quantos anos têm? — Ela perguntou

— Eu completei vinte há pouco tempo — Ele respondeu.

Rafaela o olhava de cima a baixo.

— É alguns anos mais velho que eu? — Rafaela dizia enquanto olhava para o rapaz. – Estou surpresa.

— Por quê? – Ele perguntou — Pensou que tivesse menos?

— Pensei que tivesse mais – Ela respondeu na mesma hora – Meu irmão tem dezoito e não tem um pelo no rosto. Você com vinte tem a barba mais cheia que a de meu pai. – Ela comparou.

Ela o fitava; O que fez o mais alto ficar constrangido.

— Por que está me olhando desse jeito, Senhorita? — Ele perguntou — Tem algo no meu rosto?

— Não, não — Rafaela respondeu junto a um sorriso — Apenas olhando.

De repente, um rapaz surgiu do meio das árvores do campo. Ele tinha as mesmas roupas de Paulo. Tinha pele negra e a cabeça raspada, o que davam um realce em sua testa.

— Paulo! O que está fazendo aí? — O rapaz se aproximou — Todos estão na Fogueira, venha logo e pare-... — Assim que ele olhou para Rafaela, ele se curvou fazendo reverência imediatamente. – Desculpe-me, Senhorita! Não tinha visto a Senhori-... — Ela o interrompeu.

Ela começou a rir novamente.

— Pare com isso, por favor! — Ela pediu gentilmente, parando de rir aos poucos. — Pode me chamar de Rafaela. Por favor, levante-se.

O rapaz levantou-se com expressão de confuso.

— O que a Senhorita faz aqui a essa hora da noite? — O rapaz perguntou — Não deveria estar em seus aposentos?

— Sai para ver Paulo — Ela respondeu educadamente e virou-se para o moreno — Se já tiver que ir embora, pode ir.

Paulo segurou a mão dela.

— Ou você poderia vir comigo. — Ele sugeriu — Prometo que não vai demorar.

Rafaela olhou para ele e para o outro rapaz que estava ao lado com expressão pensativa.

— Já estou aqui mesmo, não é? — Ela disse sorridente – Mas não posso demorar. — Ela sorriu.

Paulo guiou Rafaela pelo meio das árvores até depois que adentrarem tanto pelo matagal que ficava envolta da casa. Quanto mais adentravam, mais Rafaela ouvia uma música diferente; algo peculiar e dançante, nada como as sinfonias e sonatas para piano de Beethoven.

Logo, ela começou a ver uma não muito distante luz avermelhada.

— O que é isso? — Rafaela perguntou sorrindo. — Que música é essa?

— Essa é a Fogueira. — Paulo apresentou o lugar. – Lugar onde realizamos a roda de capoeira

Assim que chegou perto suficiente, Rafaela viu um lugar que não sabia nem que existia no terreno de sua casa; algumas casas — barracos — construídas de madeira, uma roda de pessoas que se sentavam próxima à fogueira. Alguns tocavam berimbau, tambor, e outros dançavam, alternando sempre de dois em dois.

— Roda de Capoeira... — Rafaela disse boquiaberta. – Alguns empregados tinham falado sobre... – Ela não conseguiu completar sua frase de tão estupefata que ficara.

Algumas mulheres estavam na porta de suas casas assistindo a roda enquanto algumas crianças corriam e brincavam de um lado para o outro. Rafaela olhava para tudo aquilo sem conseguir gesticular uma palavra, achando tudo aquilo surreal.

Uma mulher negra, com vestido de flanela, aproximou-se dos dois. Ela parou e olhou para Rafaela e Paulo, os dois ainda estavam de mãos dadas, coisa que fez a mulher ter uma expressão negativa, arqueando as sobrancelhas.

— Paulo, querido — Ela o puxou pela gola da camisa e o roubou um beijo — Onde você foi? Fiquei com saudades! – Ela se jogou em cima de Paulo, fazendo-o soltar a mão de Rafaela.

Ela tinha o cabelo crespo e cheio, olhos castanho-claros e um corpo quase que escultural.

— Clarinha... — Ele passou de leve a mão na boca, como quem limpa uma sujeira. — Esta é Rafaela, ela-... — Antes que ele pudesse completar a frase, ela a interrompeu.

— Eu conheço essa aí — Ela disse provocante — Muita prazer, princesinha. — Ela disse em tom de deboche, mas logo, virou-se para Paulo e sorriu. — Estou indo, tenho que arrumar umas coisas lá no barraco. — Ela se despediu e deixou a presença dos dois.

Paulo olhou para Rafaela, a mesma estava com expressão de constrangimento.

— Desculpe por isso... — Ele se desculpou. – Eu posso explicar... – Ele tentou segurar a mão dela novamente, mas a mesma se restringiu, puxando-a para si.

— Não. De forma alguma. — Ela sorriu educadamente, dando alguns passos para trás. — Não deve se desculpar por sua namorada vir cumprimentá-lo.

Ele olhou para ela.

— Mas ela não é minha namorada — Ele respondeu tentando se justificar. — Nem sei por que ela me beijou.

Rafaela deu as costas para ele, virou-se e começou a andar em direção ao matagal.

— Para onde vai? — Paulo perguntou

— Pra casa. — Ela respondeu.

Paulo ergueu o lampião.

— Eu te levo. — Ele falou.

Rafaela abaixou a cabeça, e antes que o mais velho pudesse se aproximar, ela correu, adentrando no matagal.

— Ei! – Paulo gritou — Espera! — Ele correu atrás dela.

Rafaela corria sem direção; Ela só queria sair dali, estava se sentindo confortável naquele lugar...

Ela queria ir pra casa o mais depressa possível.

Enquanto corria desesperadamente, ela tropeçou em algo, fazendo-a parar para ver o que era.

Assim que chegou perto, não conseguiu segurar seu grito. Ela ficou apavorada em ver o corpo de Cristina estirado no chão.

A empregada estava com as mesmas roupas que Rafaela a viu usar mais cedo, porém agora, estavam completamente rasgadas e cobertas de sangue; Não só as roupas, como o corpo inteiro estava completamente ensanguentado.

— Ai meu deus! — Rafaela dizia assustada – Alguém ajuda! – Ela gritava, mas já estava tão adentro daquele matagal que qualquer som externo era inaudível.

Rafaela sentiu uma mão segurar o ombro dela.

— O que você está fazendo aqui, Senhorita Rafaela? – Uma voz masculina soava serena.

Ainda em estado de pânico, ela deu outro grito, um que foi abafado pela mão de Gabriel.

Gabriel Cecidit estava de pé, vestindo apenas uma calça preta e empunhando em sua mão direita uma espada completamente ensanguentada.

Com a mão esquerda, calava Rafaela.

— Você vem comigo. – Ele começou a falar palavras que Rafaela não conseguia compreender, sussurrando-as em seu ouvido.

Ela começou a ficar zonza.

— Rafaela! — Ela ouviu Paulo gritar distante, mas antes que pudesse responder a seu chamado, ficara inconsciente.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Por favor, comentem! Critiquem, digam o que gostariam que mudasse, me dê sua opinião! Agradeço desde já!