Sete
8 A sala escura está liberada para todas as idades
Notas iniciais
Capítulo 8 – A sala escura está liberada para todas as idades
— Ora, vejam só! — Fernando exclamava em tom de deboche — Eu sou bem mais tudo do que esse troço que você está segurando! — Ele aponta para o rapaz em transe.
Pedro estava completamente fora de si; os pensamentos estavam em outro lugar. Paulo o sacudia, tentando fazer com que ele saisse do transe, mas nada funcionava.
— Nem adianta tentar, monamour... — Fernando descia do palco pelas pequenas escadas laterais com o microfone em mãos. — O feitiço das horror twins são tudo! — Fernando disse empolgado, pondo ênfase em “tudo”.
Assim que terminou a frase, Paulo fitou as duas garçonetes que seduziram Pedro; ambas começaram a se deformar, criando erupções faciais e mudando sua tonalidade de pele caucasiana para a cor verde. Seus cabelos não mudaram de cor assim como todo o resto do corpo.
As jovens, antes lindas, tornaram-se criaturas horrendas.
— Façam-no voltar. — Paulo disse tom autoritário, não se contendo em gritar. — Agora!
— Nada disso, queridinho! — As duas disseram uníssono, empolgadas e sorridentes.
— Feitiço da viúva negra, demônio. — A criatura de cabelos avermelhados deu um riso baixo e rouco junto a um olhar que passava maldade. — Ele irá morrer em pouco tempo...
— A não ser! – Fernando a interrompe em tom malicioso. – Que eu as faça parar. – Ele diz, agora, sem o microfone, estando bem próximo de Paulo.
— Mas, senhor! – A criatura tentou retrucar, mas foi ignorada.
— Eu posso fazê-las parar... — Fernando desliza o dedo indicador sobre o peitoral de Paulo, afastando Pedro do mesmo. – Se você me dar o que eu quero... — Ele fala em tom provocante.
Paulo solta Pedro, que cai no chão ainda em transe. Ele segura Fernando pela coleira de couro preto que ele estava usando como cordão, o erguendo-o com um único braço e armando um soco com o outro.
— Estou esperando... — Fernando continuava a falar no mesmo tom.
Paulo range os dentes em raiva, com expressão de ódio mortal, logo, ele desarma o soco e o beija.
Assim que os seus lábios encontram os de Paulo, Fernando abre suavemente os olhos e estala os dedos, tirando Pedro do transe.
— Adoro quando você me pega de jeito... — Fernando diz repousando suas mãos no peitoral do outro, e logo, ri.
— Vai se fuder. — Paulo diz com raiva, passando a parte superior dos pulsos na boca, limpando-a.
— Eu queria, mas você não colabora. – Ele comenta rapidamente no mesmo tom provocante, mas logo, volta à histeria. – Vamos continuar a festa que o boy eu já peguei! – Ele grita e, em resposta, as pessoas vibram; gritam animadas em resposta enquanto a música voltava ao volume normal.
Paulo volta seu olhar para Pedro que já estava se levantando com um pouco de dificuldade.
— Essa foi a pior sensação da minha vida... — Pedro dizia ainda zonzo enquanto se levantava.
Paulo sorri de canto, enquanto observa o mais novo se levantar.
— Me siga até a minha sala e traga essa coisinha com você. — Fernando diz com desgosto. — Seu amiguinho loiro já está à sua espera.
***
Assim que entraram na sala, viram André, lambuzado de chocolate jogado no sofá roxo.
— Não achei que balada seria tão divertido! — André diz alegre, com uma barra de chocolate na mão. — Eu nunca mais vou sair daqui!
— Garoto, você vai sujar o sofá que eu acabei de estofar! – Fernando o repreende, mas rapidamente se vira para Paulo com um sorriso de orelha a orelha.
O mais alto estranha e, então, o ignora.
A sala tinha das mais diversas coisas, fazendo com que Pedro não soubesse se o clima naquele quarto era de tristeza ou alegria de tão abstrata que a estava à mobília; Quadros com palheta de cores frias e mortas estavam emoludarados e pendurados nas paredes que não era de cor diferente. Alguns ossos artificiais – mesmo Pedro desconfiado de que não eram — e abajures com luz roxo-florescente. O sofá roxo em forma de U tomava conta de quase toda a sala com muitas barras de chocolate jogadas nele; e André no meio delas.
— Não acabe com meus doces! — Fernando toma a barra de chocolate da mão de André, como se fosse uma criança e, logo, a morde.
Fernando se joga no meio do sofá, e faz um gesto brusco para que os dois façam o mesmo.
— Senta do meu lado, Pê! — Fernando dá três tapinhas no lugar à sua esquerda no sofá.
— Já falei pra não me chamar assim. — Paulo diz revirando os olhos — Prefiro sentar aqui. — Ele senta na ponta do sofá, distante de Fernando.
Pedro, sem entender o que estava acontecendo, senta-se ao lado de André no chão e, discretamente, pega uma barra de chocolate e a abre.
— Então... — Fernando sai do sofá e fica de quatro, começando a engatinhar lentamente até o outro lado do sofá — O que te fez vir aqui?... — Fernando pergunta aproximando-se de Paulo.
Paulo se afasta alguns centímetros sutilmente, indo mais para o canto do sofá, evitando Fernando.
— Sentiu minha falta, não foi? – Fernando, com um pulo, senta em seu colo.
Pedro olhava a cena e não sabia como reagir; Fernando estava claramente dando em cima de Paulo; chegava a ser engraçado a forma com que ele se dirigia ao enjaquetado. Assim que Paulo notou que Pedro estava os olhando, se afastou mais bruscamente, tirando Fernando de seu colo e acabara caindo no chão.
— Eu sabia! — Fernando ri vendo o mais alto no chão, corado.
— Fernando. – Pedro o chama — Estamos aqui para pedir a sua ajuda.
Fernando olha para Pedro com expressão de desgosto, cortando o clima alegre.
— É "Senhor Fernando" pra você. — Fernando retruca, mas desfaz sua expressão de desgosto e deboche, tomando uma de curiosidade. — E pra que precisam de minha tão cara ajuda?
Paulo se levanta do chão, dando leves tapas em sua calça.
— Gabriel voltou. — Paulo diz com olhar sério. — Precisamos reunir os Sete.
Fernando riu debochado.
— Não dá pra fazer "Os Sete" com apenas seis. — Fernando disse — Por um acaso não sabe das histórias de Gabriel?
Pedro fechou a cara, com expressão fria.
— Mas nós temos Pedro! — Paulo olha para o moreno com um sorriso, passando ar de confiança.
— Ele? — Fernando apontou para Pedro pondo ênfase em “Ele” — Esse coisinha tem algo de especial? – Ele riu baixo, irônico.
— Ele é descendente de Rafaela! — Paulo diz entusiasmado — Ele tem os poderes dos dois, Fernando. Dos dois!
Fernando riu histericamente, o que desfez o sorriso de Paulo.
— Esse projeto de gente é a espada e o escudo de Miguel? Really? — Fernando não conteve o riso. – Desculpe, meu demoninho, mas eu só acredito vendo.
— Pedro. – Paulo o olhou, retomando o ar confiante – Mostre seu ombro pra ele.
Pedro ficou confuso; olhou para André para tentar dividir a sensação com o colega, mas o mesmo estava ocupado demais se entupindo com chocolate belga. Logo, ele tira a camisa, acatando o que Paulo pedira.
— Por favor, não tem como-... – Ele interrompeu-se assim que fitou o ombro de Pedro, ficando perplexo.
— Espada e escudo de Miguel?... — Pedro murmurou para Paulo. – Eu nunca ouvi falar disso...
— Mate-o. – Fernando olhou para Paulo, deixando o clima tenso. – Mate-o antes que seja tarde. — Ele começou a andar lentamente, dando passos lentos, aproximando-se de Pedro.
Pedro sentiu seu coração gelar; o platinado se aproximava com uma expressão fria, quase psicopata. Ele tentou se mover, mas não conseguira devido ao medo que sentia naquele momento.
Paulo pôs a mão à frente de seu peito, parando-o. Pedro relaxou.
— Precisamos dele. – Paulo olhou para Fernando com a expressão fechada – Vivo. – Ele põe ênfase na palavra “Vivo” e, logo, tira a mão à frente de Fernando. – É uma questão de tempo. Eu vou treiná-lo; Trenarei os dois. — Paulo desfez a expressão de mau.
— Vai? — Pedro e André falaram em uníssono; Pedro disse em tom de desfeita e André com bastante ânimo.
Paulo assentiu.
— O problema não é esse. – Fernando retrucou inconformado – Você sabe muito bem o que Gabriel fez até chegar à Rafaela. Acha mesmo que ele não fará o mesmo pra chegar nessa criança? – Ele pôs ênfase em “criança”
— Ele já o achou. – Paulo respondeu calmamente. – Estou escoltando-o desde que o encontrei.
Fernando fica em silêncio, pensativo; mas não tarda para se manifestar.
— Ok, ok, ok... — Fernando revira os olhos, desfazendo a tensão no ar sentando-se no sofá novamente. – Mas, primeiro, faremos um test drive.— ele olhou para Pedro com um sorriso mal.
— Fernando, não inventa moda. — Paulo o repreendeu.
— Relaxa, Amorzinho — Fernando sorri elegantemente para o mais alto. — Eu não vou usar meus poderes, quisá matá-lo. – Ele estalou o pescoço e, depois, se levantou. — Me sigam.
***
Eles seguiram Fernando até uma sala completamente branca; chão branco, paredes brancas, teto branco, sem nenhum móvel dentro da mesma. Fernando pediu para que Pedro viesse até o centro da sala através de um rápido gesto com as mãos, ficando de frente para ele.
— Seja bem-vindo à Sala Escura. — Fernando faz uma reverência, tentando passar ar de formalidade; coisa que não consegue devido à sua vestimenta.
— Oh... Então é aqui – Paulo começa a olhar ao redor, fitando cada canto da sala vazia. – Achei que seria mais... Escuro.
— Não é esse tipo de “sala escura” – Fernando faz sinal de aspas com os dedos, o que provoca riso em Pedro. – Eu não entraria nesse tipo de sala escura com uma criança; A sala escura está liberada para todas as idades. – Ele põe ênfase em “sala escura”
— Eu tenho dezesseis. – Pedro retruca; como se tivesse sido ofendido.
— Eu tenho cento e quarenta e seis... – Fernando responde debochado. – ...Criança.
Pedro fez uma careta, expressando confusão, que logo foi seguida de um sorriso provocante.
— Acho que o problema não sou eu e minha idade. – Ele responde em tom irônico, com um olhar passando uma leve maldade; similar ao de Fernando. – O problema é a sua, vovô. – Ele fita os olhos azuis do platinado.
— Floresta. Campo aberto. Noite. – Fernando diz seriamente, zangado; como quem acabara de comer e não gostou.
Assim que Fernando completou a frase, o espaço transformou-se por completo, tomando cor, luz, forma e som.
Surgiu-se uma floresta, com pinheiros altos estendendo-se por todo o espaço. O clima ficou frio, sereno e úmido; coisa que fez Pedro abraçar-se em busca de calor. Fernando demonstrava-se confortável naquele ambiente, fechando os olhos e dando leves gemidos enquanto girava a cabeça, demonstrando prazer. Paulo e André estavam, agora, de pé próximos a uma árvore que estava deveras distante dos dois; nada que os impedisse de observá-los de longe.
— Eu amo esse lugar — Paulo disse com ar nostálgico, olhando os arredores.
— Mas como? — André se exaltou, falando em tom quase histérico. – Estamos numa boate!
Paulo riu.
— Você tem uma moeda? — Paulo perguntou sem parar de passear o olhar pelo espaço.
— Por que quer uma moeda? — André respondeu sua pergunta com outra.
— Por que já sei onde isso vai dar...
Pedro e Fernando estavam alguns metros de distância um do outro, distanciados por algumas raízes e grama morta.
— Preparado? — Fernando posicionou-se, fazendo movimentos leves, relaxando os ombros.
Pedro ficou sem reação; ele não sabia lutar, e muito menos compreendia o porquê ele estava fazendo aquilo de forma tão espontânea. Ele pôs os braços à frente do corpo e curvou-se, ficando em posição de luta.
— Vamos ver se o Paulo ainda vai te querer quando eu quebrar seus ossos. — Fernando avançou, correndo em direção ao mais baixo.
— O quê? – Pedro ficou confuso
Fernando correu em direção a Pedro e, assim que chegou perto o suficiente, impulsionou-se, dando um pulo seguido de um chute giratório que, mesmo tentando se defender, fez com que o moreno fosse arremessado, jogado a alguns metros de distância; ele ficara estirado no chão por alguns instantes.
— Mas que porra... — Pedro gesticulou com dificuldade, fazendo força para se levantar.
— Eu disse pra não inventar moda, Fernando! — Paulo gritou.
Fernando riu debochado, ignorando o comentário de Paulo.
— Levanta! — Fernando provocou — Seu projeto de bicha.
Pedro ficou de pé com dificuldade; seu olhar de ódio para Fernando fazia o clima ficar pesado. Ele limpou o pouco de terra que ainda estava em seu rosto e rosnou de raiva, rangendo os dentes.
— Own! – Fernando debochava — Ele ficou putinho! – Ele ria da situação, satirizando-a.
Pedro cerrou os punhos em raiva, sentindo suas mãos ficarem mais pesadas.
Fernando parou de rir, tomado pela expressão de surpresa.
— Eu vou acabar com você... — Pedro disse com raiva.
— Oh, boy! — Fernando estalou o pescoço e agachou-se, ficando em posição de corrida. – Pra mim, isso já é um Game Over!— Fernando avançou novamente, aparentemente, para repetir o movimento anterior.
Assim que ele chegou perto o suficiente para pegar impulso e zunir o mais baixo, perdeu-o de vista. Logo, Fernando parou de se mover por completo.
— Realmente. Game Over.— Pedro disse em tom baixo, sussurrando.
Ele o segurava pelos cabelos platinados, impedindo-o de fazer quaisquer movimentos. Apenas o rastro de sombras, fumaça negra, indicava por onde o moreno havia passado.
Uma explosão de energia negra, feita das sombras que saiam sem cessar das mãos de Pedro, fez com que Fernando fosse arremessado para longe; o suficiente para chegar perto de Paulo e André.
André ficou boquiaberto. Paulo não fez muito diferente. Fernando caiu aos pés de André, com expressão de dor, aparentemente nocauteado.
— Maldito... — Fernando gemeu com os olhos fechados, forçando seus pulmões em dor.
Pedro, já próximo dos três, andava em sua direção, com passos lentos e fortes, com aquela neblina densa e negra marcando seus passos através das mãos.
— Ei! Já chega! — André disse sorridente. – Acho que você venceu, Pedro.
Ele o ignorou.
Fernando se levantou, tirou um pouco de terra de suas costas e ombros e cuspiu um bocado de sangue no chão.
— Eu vou matá-lo... — Fernando riu por raiva, debochado. — Vou arrancar a marca dele! – Ele mordeu o lábio inferior, expressando o desejo intenso de fazê-lo.
— Então tente. — Pedro estendeu o braço e esticou sua mão esquerda, falando em tom sério e sutil, algo quase fúnebre; a neblina densa começara a se movimentar em direção à palma de sua mão.
Paulo sacou duas pistolas e apontou-as em direção a Pedro e a Fernando.
— Ou vão parar por bem ou por mal. — Paulo disse autoritariamente – E você, Fernando, deve saber que eu adoro jogar do jeito mais difícil.
Pedro voltou a si, ajoelhando-se no chão, ofegante e levemente pálido.
— Até que ele não é tão mau — Fernando diz com deboche a Paulo — Mas ele precisa de treino. Usar os poderes dessa forma é bom, mas será desgastante.
André aproxima-se de Pedro para ajudá-lo.
— Tudo bem? — André perguntou enquanto tentava ajudar o amigo a se levantar. — Consegue se levantar?
Pedro balança a cabeça para tentar voltar a si.
— Acho que sim... — Ele se levanta com dificuldade e ri de sua situação – Eu ganhei?
André riu em retorno.
— Acho que sim.
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