Será?
9 Tapa na cara
Notas iniciais
Demorei alguns segundos para assimilar a informação.
— Da família?! – Repeti, mais para mim do que para ela.
— Sim, já estava saindo a um tempo com Felipe, mas semana passada oficializamos as coisas. – Disse ela.
— Parabéns! – Falei forçando um sorriso. – Preciso ir agora. – Completei e sai andando.
— Tá bom prima, beijos! – Gritou Olívia.
Não olhei para trás, virei a esquina e destranquei meu Jeep.
Meu celular tocou. Olhei a tela e vi o nome da Raissa. Entrei no carro e atendi.
— Oi. – Falei desanimada.
Fechei a porta do carro e coloquei a chave na ignição.
— O QUE ACONTECEU? – Perguntou ela percebendo minha voz.
— Ah, nada demais. Só acabei de ser chamada de PRIMA pela Olívia! – Respondi.
Não que eu me importe com isso, não que eu me importe com quem Felipe namora, mas era a Olívia! Parece birra de criança, mas eu sinceramente não gosto dela e não serei obrigada a passar o final de semana que tirei para minha FAMÍLIA com essa menina do lado.
— O QUE? COMO ASSIM BETINA? – Perguntou Raissa gritando.
— O que aconteceu? – Ouvi Clarice perguntando ao fundo.
— Vou colocar no viva-voz. – Falou Raí.
— Eu vim no centro da cidade e acabei encontrando ela... – Comecei a falar, mas Clari me cortou.
— Ela quem? – Perguntou ela.
— Olívia! – Eu e Raissa respondemos juntas.
— Ok, continua! – Falou ela.
— Então, Olívia começou a falar e me perguntou se eu já sabia da novidade. Depois mostrou o dedo com a aliança de compromisso e disse que o Felipe pediu ela em casamento, ainda teve a audácia de me chamar de prima. Não que eu me importe, mas vocês sabem que eu não gosto dela. Essa puta sempre teve inveja de mim e agora está mais perto ainda da minha família. – Falei com os olhos ardendo de raiva.
— Calma amiga, você só precisa aturar ela esse fim de semana... – Disse Raí.
— E isso se ela aparecer na tua casa. – Completou Clari.
— É, eu devo estar fazendo drama demais! Seria bem mais fácil se vocês estivessem aqui! – Falei.
— Pois é, mas como não estamos você vai levantar a cabeça, colocar um sorriso na cara e mostrar que é superior a "essazinha"! – Disse Raissa de forma dura me fazendo secar uma lágrima que estava começando a escorrer.
— Isso Betina, levanta essa cabeça e para de drama. Você é muito mais que isso e essa menina não vai estragar o seu fim de semana! – Falou Clari.
— Ok, obrigada! – Falei determinada. – Aliás, por que ligou Rai? – Perguntei.
— Para saber como você estava. Acho que pressenti que você precisava de ajuda. – Respondeu ela.
— Obrigada! Não sei o que faria sem vocês! – Falei com sinceridade.
— De nada, agora vá curtir sua família. Manda um beijo para a tia Beta. – Disse Rai.
— Isso gata, vai lá. Aproveita! – Falou Clari.
— Tá bom, beijos gostosas! – Me despedi.
Liguei o carro, me olhei no espelho para arrumar o cabelo e secar os olhos e fui para casa.
O caminho de volta não levou nem 5 minutos completos. Desci do carro e já conseguir ouvir vozes dentro de casa, imaginei que já houvessem chegado para o almoço.
Entrei na sala e vi que já tinha mais crianças do que antes, meus primos Cauã e Thays filhos da minha prima Rosana filha da minha madrinha estavam brincando com meus irmãos junto com minha prima Vitória, filha do meu tio Gilson e da tia Célia, eles também são pais do Felipe e da Carol.
Fazia muito tempo que não via Felipe e Carol, sempre fui amiga deles antes de ir embora, mas com o tempo tudo foi se perdendo.
Cumprimentei as crianças e fui para a cozinha, lá estava minha mãe e algumas tias. Ao ver minha madrinha corri para dar um abraço nela.
Confesso que não sou tão apegada a família, mas minha madrinha é aquele tipo de pessoa que ou você gosta ou você gosta. Ela é uma das pessoas mais otimista que conheço, a vida pode estar no fim, mas ela sempre estará pensando o melhor. Algumas pessoas condenam ela por às vezes ser inconsequente, mas eu não ligo, amo ela do jeito que ela é.
Me lembro de uma vez quando eu era pequena e estava brincando em frente a casa da minha madrinha com o Felipe, a Carol, o Luciano, a Giovana (na época minha irmã mais nova) e mais algumas pessoas de pega-pega. Deitei no meio da rua de braços abertos, o Felipe se jogou em cima do meu braço esquerdo e doeu muito, chorei por muito tempo. Depois fui para casa e fingi que nada tinha acontecido, porém estava doendo muito. Não deixei ninguém contar nada para minha mãe, no outro dia de manhã meu punho estava inchado e mesmo assim fingi que não era nada.
Fui para meu curso de informática como fazia todo domingo e disse para a professora que tinha batido a mão, mas que conseguiria fazer tudo com uma mão só. Na volta para casa tentei arquitetar um plano de como aquilo teria acontecido, cheguei em casa e agi normal, minha mãe me chamou e perguntou se eu tinha alguma coisa para falar, eu disse não e ela pegou minha mão e viu que estava inchado, eu disse que tinha caído quando ia para o curso para proteger meu primo.
Minha mãe foi mais esperta e contou que minha madrinha havia visto tudo que aconteceu na noite passada e contou para ela, disse que eu estava de castigo e me levou ao médico.
Tive que usar gesso por uns 15 dias, pois tinha trincado o punho.
O que quero dizer é que se não fosse minha madrinha eu poderia ter deixado ficar bem pior meu machucado, confesso que fiquei muito brava no começo, mas vi que ela só queria o meu bem.
— Madrinha, que saudade! Benção! — Falei soltando-a do abraço de dando a mão juntas para que ela me abençoasse.
— Deus abençoe, gorda! — Respondeu ela. — Nem sei se posso te chamar de gorda ainda, está tão mudada. — Completou.
Eu sempre fui gordinha desde pequena e meu apelido era 'gorda', porém de uns tempos para cá eu havia mudado muito e já não era mais tão gorda assim. Claro que eu ainda não estou no manequim 38 até porque nem combina comigo, mas já estou bem melhor que antes e adorando meu corpo do jeito que está.
Cumprimentei as outras pessoas pela casa e depois fiquei na cozinha conversando com as mulheres.
— Como está na faculdade Betina? — Perguntou minha tia Célia.
— Tudo ótimo tia, estou me dando bem em todas as matérias. — Respondi.
— Minha gorda é inteligente! – Disse minha madrinha me abraçando novamente.
Apenas sorri e retribui o abraço.
— E o namorado, quando vai trazer ele para conhecer a família? – Perguntou minha tia Vera.
— Eu não tenho namorado tia. Estou focada no meu trabalho e na faculdade. – Falei sorrindo docemente.
Alguns segundos de silêncio depois ouvi a porta abrir e mais vozes de crianças.
— Acho que a Carol chegou. – Disse minha tia Célia.
Carol tem 22 anos e é mãe de dois meninos, Miguel de 3 anos e Luís de 2 anos. Digamos que ela não seja a pessoa mais inteligente do mundo, nunca teve ambição de sair dessa cidadezinha, não terminou os estudos básicos e não trabalha.
Não julgo o estilo de vida dela, mas às vezes fico pensando como alguém pode ser feliz assim?! Eu não me vejo em uma cidade sem nada, igual a essa, não me imagino sem trabalhar e muito menos sem estudar. Ainda acho pouco tudo que tenho, sei que ainda não aprendi e nem conheci nem um 1% de tudo que existe.
— Betinaaa, tudo bem? – Perguntou ela alegremente e vindo me abraçar.
— Sim Carol, e você? – Falei.
— Bem também. Você ainda não conhecia meus filhos, né? Vamos lá na sala que vou te mostrar eles. – Disse ela.
— Só vi por fotos. – Falei seguindo ela até a sala.
— Esses são Miguel e Luís. – Ela falou pegando Luís no colo e passando a mão no cabelo de Miguel. – Fala oi para a tia filho. – Disse ela para Luís.
As duas crianças não pareciam muito com ela, mas eu não conhecia o pai para poder opinar. Luís sorriu e deitou no ombro da mãe, enquanto Miguel saiu correndo para ir brincar com as outras crianças. Carol deixou Luís ir brincar com as outras crianças e voltamos para a cozinha.
— O Fe mandou mensagem e diz que vem só para a janta, avisou também que tem um notícia para a família. – Falou Carol assim que chegamos na cozinha.
— Ah, então vamos almoçar. – Disse minha mãe.
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