Servo da Família Sazawori
22 Preparativos
Notas iniciais
A única coisa sobre a qual Larian falava ultimamente era sobre o tal Baile Real que aconteceria amanhã. Ela estava empolgada desde que Juan anunciara sobre isso semana passada, dizendo que os nobres entre os nobres viriam para comemorar alguma coisa realmente inútil para mim.
Larian passou dias somente falando de tentar escolher um vestido, sapato, perfume, colar e outras coisas para usar no baile – disse estava empolgada porque era o primeiro baile da corte que ela não precisaria agir como um troféu que seus pais mostrariam aos outros, pois Juan prometera deixá-la conversar com quem quisesse, e não somente receber os convidados e ir para algum canto em silêncio.
Para minha salvação existia Merie, que aparentemente entendia todas as conversas femininas sobre beleza de Larian, então eu não precisei passar novamente o dia inteiro com ela escolhendo um dentre as gavetas e mais gavetas amarrotadas de colares de ouro e pedras brilhantes. Mas, em troca de que ela cuidasse de Larian, Merie me pediu que tomasse conta da cozinha e supervisionasse os três cozinheiros italianos recém-chegados que o Barão Bilmore fizera questão de contratar.
As coisas andavam agitadas pelo castelo, e nesses dias muitos decoradores, costureiros e outras pessoas estranhas entram e saem pelos portões do castelo indo e vindo com enfeites para o salão do baile e roupas feitas sob medida para a corte. O movimento de gente é tão incômodo que Lowei parecia ficar louco sempre que alguém vinha lhe perguntar alguma coisa.
E no meio disso tudo, eu preferi me enfiar nos trabalhos da cozinha, onde os únicos problemas que eu enfrento são comida queimada e três jovens italianos que não sabem falar inglês – nós nos comunicamos por mímica e nos entendemos quase perfeitamente bem: eles fofocam em italiano entre eles e eu só sacudo os braços e respondo “mamma mia!”.
Todos os três podem parecer galinhas atrapalhadas que tropeçam nos próprios pés, mas tudo o que eles cozinham é realmente feito com capricho e cuidado. De noite, quando todos já foram dormir, eu continuo na cozinha treinando os pratos dos livros de culinária que os italianos deixavam sobre a mesa.
E lá estava eu, o sino da igreja já tinha batido meia noite a muito tempo, mas eu continuava enfurnado na cozinha somente à luz de uma vela ao meu lado, com meu velho amigo rolo de massa, as forminhas de biscoito redondas e o livro grosso de doces caseiros. Meus cabelos estavam ridiculamente presos para que não caíssem na comida e minhas roupas estavam cobertas por um avental imundo.
- Ah, vamos, não pode ser tão difícil assim fazer biscoitos – resmunguei para o livro – Conte-me seus segredos, livro. O que diabos é um gocce di cioccccc... Argh! Nomes complicados demais para mim.
Eu apertava os olhos por horas tentando entender aquela língua estranha, cheia de i e c. As letrinhas miúdas do modo de preparo já estavam me irritando quando eu senti alguma coisa tocando o meu pescoço nu. Era fria e molhada, e me deu um susto tremendo. Demorei alguns segundos até reconhecer o cheiro de calda de morango e fiz uma careta ao sentir aquilo escorrendo no meu pescoço.
- Mas o qu-..?
De repente senti alguém atrás de mim pressionando-me levemente contra a bancada suja de massa. Senti um cheiro forte e familiar, e alguém respirando junto a mim. A pessoa me abraçou pela cintura e lambeu amorosamente a calda do meu pescoço, o que me fez soltar suspiros contra a minha vontade.
- J-Juan, pare com isso – reclamei tentando me soltar daquele abraço.
Ele riu e sussurrou um “como sabia que era eu?” no meu ouvido de forma provocante.
- Eu reconheço esse seu perfume enjoativo, está em todas as suas coisas. – respondi tentando disfarçar o trêmulo da minha voz.
- Até em você, não é? – ele falava com uma voz apaixonada e irritantemente sarcástica.
Eu tentei me soltar dele, mas ele me segurou a cintura com mais jeito e beijou minha pele. Ele chupou e mordeu meu pescoço como se quisesse deixar sua marca de “minha propriedade” ali, e aquilo tudo estava vergonhosamente me deixando excitado.
- Estou tão cansado com esse negócio de organizar baile... – ele murmurou enquanto acariciava meu peito.
- Pare de reclamar, não é você quem faz o trabalho de braço por aqui. –resmunguei baixo.
Senti a mão dele mexer na minha calça, e dei-lhe um tapa no braço com toda a minha força – imensa força que pode ser comparada à de um chihuahua irritadiço. Ele respirou fundo com o rosto enterrado no meu pescoço e continuou:
- Venha comigo, eu quero lhe mostrar uma coisa.
Ele largou minha cintura e puxou minha mão para que o seguisse, e assim eu fui como um cachorrinho bobo, uma mão agarrada na de Juan e a outra segurando o suporte da vela que iluminava o caminho.
Subimos as escadarias tentando não fazer barulho, passando pelos corredores escuros e silenciosos até o último andar, e entramos no quarto de Juan. Estava tudo em ordem e cheirando ao perfume dele, e quando deixei a vela sobre a mesa de cabeceira, vi então a roupa esticada sobre a cama.
Era pomposa e amarrotada de detalhes invisíveis se vistos de longe, num lindo modelo das roupas que a corte costumava usar. Era um casaco semelhante a um smoking e uma calça longa, ambos de cor azul-turquesa forte. A casaca era cheia de enfeites dourados e botões escuros. Imaginei que era aquela a roupa que Juan usaria no baile. Alguns enfeites dourados como ouro se dependuravam na blusa, e os babados inúteis da blusa social que vinha por baixo saiam pelas mangas de forma pomposa.
- A roupa chegou essa tarde. Eu pretendia mostrar a você amanhã, mas já que te encontrei hoje, aí está – Juan disse ao passo que se aproximou para mexer no meu cabelo e soltar as presilhas dele – É sua.
O quê? Minha? Hein? Como?
- Quero que você me acompanhe no baile, portanto precisava de uma roupa apropriada. – ele disse risonhamente, olhando para a cara de panqueca que eu provavelmente estaria fazendo — Disse a Lowei que você estaria trabalhando como garçom, assim ele se acalmou um pouco. A muito queria que você fosse a um baile desses, entende? Beber, comer, conversar, uma recompensa pelo trabalho todo que você faz.
- Juan, eu, ah, você, ansdbjdbbhhmansn... – juro que eu estava tentando falar algo com sentido, juro. Só não saiu.
Aquilo era simplesmente... Aquilo. Nunca imaginei que Juan pudesse chegar ao ponto de conseguir me meter em uma festa rica dessas, mesmo que a lista de convidados sempre fosse tão aleatória, somente entravam as madames de saltos altíssimos e os senhores de bengalas de ouro. Eu acho que comecei a rir naquele momento, por falta do que falar.
Sem graça, olhei para Juan com um sorriso idiota de obrigado.
- Cadê o agradecimento? – ele arqueou uma sobrancelha com um olhar desdenhoso.
Chutei o ar e sacudi os ombros. Me balancei como uma criança hesitante e olhei para Juan. Avancei e tasquei um beijo nos lábios dele de forma tão rápida que não daria tempo nem de agradecer e já sai andando para a porta murmurando um “obrigado”.
Ah, mas é claro que o Dawari não pode ter uma noite em paz, claro que não. O Dawari devia aprender que não deve entrar no quarto de Juan depois da meia noite sem que coisas ruins aconteçam. E lá estava Dawari tentando escapar do animal ruivo que tinha trancado a porta sem que Dawari soubesse.
- A porta está trancada – anunciei por fim.
Quando virei para Juan, ele estava jogando a chave para qualquer canto e sorria cinicamente enquanto afrouxava o laço da roupa. Engoli em seco, com cara de quem já sabe o que vai acontecer. Juan se aproximava em passos lentos.
- Nós dois temos que trabalhar amanhã, o baile está próximo, você sabe – encostei as costas na porta – A gente pode, pode, eh, depois, uh...
- Shhh – Juan falava com os lábios a milímetros dos meus, e ele se forçava para não rir do meu rosto envergonhado – Prometo que serei gentil.
-x-
- “Prometo que serei gentil, duhduh” – eu resmungava enquanto ajudava Lowei a afofar as almofadas da sala – Gentil é o cacete!
- Juro que não quero saber sobre as suas aventuras noturnas com o Rei, Dawari – Lowei reclamou irritado – Guarde isso para você e seu traseiro dolorido e vá trabalhar.
Soquei a almofada e cruzei os braços. Dei as costas para Lowei e segui para dentro da cozinha, onde os três patetas italianos estavam correndo e gritando – um deles com uma frigideira queimada na mão, o outro com um balde d’água e o terceiro com a franja pegando fogo. Preferi não perguntar o que estava acontecendo, só levantei os braços chamando-lhes a atenção e gritei:
- Mamma no no, no. Parem de correnccio e parense!
É claro que essa frase não fazia merda de sentido nenhum, mas eles pararam imediatamente e ficaram olhando de olhões arregalados para mim. Por alguns segundos pensei que tinha ofendido sem querer a mãe de alguém, mas eles não pareciam irritados – ao contrário, pareciam com medo.
Esperei alguns segundos, minha mente tentando raciocinar o que estava acontecendo. Daí eu ouvi uma risada atrás de mim e meu rosto corou imediatamente de pura vergonha da minha própria idiotice.
- V-Victory! – gaguejei virando para trás com força, vendo o alemão atrás de mim parado na porta dos fundos rindo descontroladamente. Ao seu lado, Merie tinha a mão cobrindo o rosto, numa mistura de vergonha e decepção.
- Mas que italiano excepcional! – ele segurou a risada, vendo que logo eu iria explodir de vergonha e sacudiu o saco de papel que trazia em seus braços – Trouxe uns doces para você.
Oh!
- Doces? Para mim? – deixei que os italianos se virassem com os assuntos deles e corri para o balcão onde Victory colocou duas metades de bolos claros com uma aparência ótima – Que cheiro bom...
- Este é um zitronenkuchen, e esse outro, bienenstich. – ele apontou cada um e depois me olhou com cara de cachorrinho feliz.
- Como é que é?
- São doces alemães – ele explicou enquanto pegava sem permissão uma faca e cortava o zitrndenwfnekfjwkdfn – Fui eu que fiz.
- Alemão é uma língua assustadora, sabia? – comentei sentando-me com ele para comer. Os doces eram deliciosos.
- E as coisas por aqui, como vão? – ele perguntou se espreguiçando – Vossa Majestade continua rabugento?
Ri do jeito que Victory se referia a Juan. De fato, ele estava sempre sério com os outros, sempre mandão e de cara fechada para tentar mostrar a seriedade de um rei, mas na verdade ele era um pervertido alegre sem muita formação em qualquer coisa.
- Teremos um baile hoje à noite – contei – Aquelas festas inúteis e cheias de comida, você sabe.
- E você quer ir – ele sorriu.
- Eh? Eu? Não quero, não – resmunguei desviando o olhar para os bolos.
- Quer sim, está estampado no seu rosto que tem curiosidade de ir – ele apertou minhas bochechas. Estava tão na cara assim?
Juan entrou na cozinha me chamando, e por impulso me levantei. Ele parou com um olhar ofendido olhando para Victory. Os italianos se esconderam atrás do fogão cheios de medo e eu tive vontade de me esconder junto deles.
Juan e Victory nunca tiveram uma relação muito harmoniosa, era algo como “você escraviza meu melhor amigo” contra “você fica tempo demais perto do meu amante”.
- O que ele está fazendo aqui? – Juan não descolava os olhos de Victory, provavelmente pensando em jeitos diferentes de expulsá-lo dali.
- Não se preocupe, Vossa Majestade – o alemão levantou-se e fez uma pequena reverência – Eu já estou de saída.
- Não, Victory...
Tentei protestar, mas Juan me puxou pela cintura grudando seu corpo no meu e roubou-me um beijo sufocante e possessivo. Continuou apertando-me contra si e eu senti meu rosto corar contra minha vontade. Victory olhou-me nos olhos e eu tive vontade de sumir.
- Muito boa tarde para vocês – ele virou-se e saiu pela porta dos fundos, passando por Merie, que não parecia muito feliz.
Chamei Juan com uma voz irritada e magoada, pois eu odiava quando ele fazia isso com Victory. Ele me olhou e tocou meu rosto de forma afável, como se nada tivesse acontecido.
- Vamos, você tem que se arrumar para o baile – ele respirou muito perto do meu rosto, e eu senti vontade de reclamar pelo espaço pessoal. Mas eu até o entendia. Ele estava morrendo de ciúmes de Victory, isso era quase palpável.
Seria estranho eu me sentir feliz por isso?
Notas finais
caralho, um ano sem atualizar.... sério isso? vocês devem estar querendo me esfolar ashuhsuahuhsu (wut)
mas agora sim, tarararaãããn
eu estava com preguiça de terminar esse capítulo, então vou fazer uma "parte dois" no próximo :3
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