Serviço de Quarto
1 Oneshot
Notas iniciais
Nao abriu a torneira do chuveiro e deixou a água morna cair diretamente em seu rosto. Ele ficou assim, imóvel, por vários minutos enquanto a água escorria seus cabelos castanho-escuros e relaxava os músculos cansados. O banho sempre parecia uma benção após uma partida de futebol – o momento onde Nao dava tudo de si para vencer e para atrair os holofotes.
Yamada Naoki era reconhecido no Japão inteiro como um dos melhores jogadores de futebol. Em um país onde o esporte não era tão tradicional, Nao ainda assim conseguia se sobressair dentre outros atletas de outras modalidades. Além de ser um ótimo jogador, muito habilidoso e esforçado, Nao também era conhecido pelo seu jeito despretensioso e carismático. Ele era também um rapaz muito bonito e charmoso, o que atraía a atenção inusitada de várias garotas para o esporte. E se tinha uma coisa da qual Nao gostava era ser o centro das atenções, principalmente femininas.
Ironicamente, ele não estava esperando por tanto carinho do público naquele dia em especial. Era o dia do seu aniversário, Nao não tinha se esquecido... Mas seu time tinha uma partida importantíssima naquela data, então o rapaz procurou deixar o ego de lado para se concentrar no jogo. Tanto esforço trouxera bons resultados e mais uma vez seu time saía vitorioso do campo, dois gols marcados pelo artilheiro Yamada. Nao e seus colegas comemoraram em campo o placar satisfatório sob os gritos entusiasmados dos torcedores.
Nao se preparava para deixar o gramado junto do resto do time quando o público o surpreendeu: começou de uma forma um tanto desorganizada e incompreensível aos ouvidos, mas logo toda a arquibancada do seu time entoava um “Parabéns” para o artilheiro. Durante vários minutos, Nao observou perplexo a torcida batendo palmas de pé – as mais diversas pessoas, de ambos os sexos, de várias idades... Estavam todos parabenizando-o pelo seu dia não só como jogador, mas como pessoa. Nao sentiu-se genuinamente comovido e ajoelhou-se na grama verde e úmida devido ao tempo frio, curvando-se para o público em sinal de agradecimento. Naquele momento, ele notou que valera a pena toda sua dedicação para com o time, pois afinal ele jogava para a torcida e não para ele mesmo. E então a torcida lhe agradeceu da forma mais inesperada e bonita. Aquele com certeza tinha sido o melhor presente de aniversário que Nao já recebera.
Com um sorriso no rosto, Nao desligou a ducha, enrolando-se na toalha e saindo para o vestiário. Todos já tinham ido embora. Ele devia ter demorado mais do que imaginara no banho, perdido em pensamentos... Nao sentia-se exausto e tudo o que ele queria era descansar no quarto de hotel que o esperava.
O moreno vestiu-se rapidamente e recolheu suas coisas para sair. Óculos escuros e um cachecol no pescoço cobriam-lhe parcialmente o rosto, embora ele soubesse que não seria o suficiente para fugir do assédio dos fãs e jornalistas. Não que ele não gostasse daquilo, mas bem que Nao poderia ter um desconto no seu aniversário, certo? Aquela parte do reconhecimento público podia ser muito desgastante...
Driblar o aglomerado de pessoas que esperavam por Nao não foi exatamente fácil, mas também não foi tão cansativo quanto ele esperava. A forma como os fãs – ou ele deveria dizer “as” fãs, já que quase todos que o aguardavam eram mulheres? – o recepcionavam era tão reconfortante a ponto de fazer Nao perder vários minutos para atendê-los, esquecendo-se do cansaço que dominava cada um dos músculos do seu corpo atlético. Nao tirou fotos, deu autógrafos, sorriu para todos e ainda recebeu presentes e cartões. Como ele poderia ignorar aquelas pessoas tão gentis e atenciosas?
- Yaa... – suspirou Nao assim que chegou ao hotel – Os dias agradáveis são os mais exaustivos! Acho que isso não é justo...
A recepcionista dirigiu um sorriso amável ao jogador e lhe entregou a chave do quarto. Antes que Nao se arrastasse até o elevador, porém, a recepcionista lhe dirigiu a palavra.
- Yamada-san, chegaram muitos presentes endereçados ao senhor hoje. Tomamos a liberdade de enviar todos para o seu quarto.
- Ah, isso é ótimo – Nao sorriu para a moça e não pôde conter uma piscadela – Arigato gozaimashita!
A jovem recepcionista corou violentamente e abaixou o olhar, aumentando o sorriso maroto de Nao.
- D-doitashimashite! – ela gaguejou – Otanjoubi omedetou, Yamada-san!
Nao agradeceu com um pequeno aceno e subiu para o seu quarto, rumo ao seu tão merecido descanso. Ele sentia as pernas amolecerem só de pensar na cama macia do quarto, esperando para acomodá-lo no melhor dos sonos...
Ele não podia negar que a quantidade de presentes em seu quarto era surpreendente. Havia caixas de todas as cores e tamanhos espalhadas pela escrivaninha, pela penteadeira, pelo sofá e pelo chão. Nao agradeceu aos céus pelo bom senso dos funcionários do hotel, que deixaram a cama livre para que ele pudesse se jogar sobre ela. E assim Nao o fez, largando a mochila em qualquer canto enquanto afundava o rosto nos travesseiros fofos, deitando-se de bruços. Ele não se importava com os presentes naquele momento, ele só queria dormir por três dias seguidos na cama aconchegante...
Um pequeno ruído e uma breve passagem de ar deram ao moreno a impressão de que a porta tinha sido aberta e fechada logo em seguida. Mas ele não pedira serviço de quarto... Bom, qualquer um teria batido na porta antes de entrar. Nao ignorou o evento, dizendo a si mesmo que estava chegando ao estado de semiconsciência onde a realidade se misturava aos sonhos.
Mas então alguns dos presentes foram chutados no chão, o ruído característico sendo acompanhado por um “Droga” baixinho. Aquilo não era coisa de semiconsciência... era?
Ainda deitado de bruços, Nao ergueu a cabeça rapidamente em direção à origem do som.
- Ahn... Sumimasen! Eu não queria incomodá-lo...
Havia mesmo uma pessoa no seu quarto. Nao lembrou-se que não tinha trancado a porta a chave, então ali estava ela... Uma jovem garota de cabelos claros e enrolados de forma incomum, mas ainda assim natural, de olhos muito brilhantes e tímidos em um rosto de pele clara e sem imperfeições. Nao não fazia ideia de quem ela era, mas ele não queria ser incomodado justo naquela hora.
- Hum, oi – ele murmurou e ouviu a própria voz sair estranha devido à sonolência – Eu não pedi nada.
A garota perdeu o ar tímido instantaneamente.
- E por acaso eu estou usando algum uniforme? – ela disse um pouco brava.
Nao voltou a observá-la e só então reparou no jeans e no casaco longo e acinturado. Se ela não era uma funcionária do hotel, só podia ser uma fã. Como diabos ela passara pela segurança do hotel e chegara até ali?
- Ah, é – murmurou Nao outra vez com a voz falha. Ele pigarreou – Deixa por aí, junto com os outros – e o moreno descansou novamente a cabeça no travesseiro.
Até que algo macio o atingiu em cheio na cabeça. Nao sentou-se imediatamente, furioso com a ousadia da desconhecida.
- Qual é a sua, garota? Você enlouqueceu ou algo do gênero? – o rapaz se sentou na cama com as pernas cruzadas.
- Qual é a sua, Yamada! Que espécie de resposta é essa que você dá a uma fã que deu o sangue para vir até a porcaria do Japão lhe entregar pessoalmente uma porcaria de um presente no seu aniversário???
Ela não era japonesa, era verdade. Nao piscou os olhos escuros, procurando acordar de uma vez.
- Sinto muito, moça, mas você nem deveria estar aqui – ele disse com mais calma – Digo, é o meu quarto... Isso não é muito digno de uma jovem e...
Dessa vez, o objeto que atingiu a cabeça de Nao não era tão macio. Ele sequer tivera tempo de evitar o golpe; talvez aquilo o acordasse de vez.
- O QUE VOCÊ PENSA QUE EU VIM FAZER AQUI, BAKA?! Eu não sou essa droga desse tipo de fã!
- Eu já notei que você é diferente! Minhas fãs não costumam me arremessar coisas na cabeça! – Nao retrucou tão irritado quanto a jovem.
- Certamente porque você não as ofende dessa maneira – a garota rebateu de pronto – Ou elas são exatamente esse tipo de pessoa e não se importam!
O moreno remexeu nos cabelos ainda úmidos e fechou os olhos, procurando contornar a situação de forma satisfatória.
- Certo, peço desculpas por tê-la ofendido. Não era a minha intenção. Mas então por que você veio até aqui? Aliás, como chegou até aqui? – Nao não conteve a curiosidade.
A garota finalmente perdeu a pose furiosa. Um sorrisinho se formou no canto dos lábios bem delineados.
- Eu tenho os meus métodos – ela sussurrou de forma dramática. Nao achou melhor não perguntar mais.
- E se você não veio até aqui me dar um presente de aniversário, veio por quê? Pedir um autógrafo ou uma foto?
- Ahn – ela pareceu novamente muito tímida. Nao se perguntava se ela tinha múltiplas personalidades – Tudo isso, na verdade. Eu queria ter certeza que meu presente ia chegar até suas mãos, Yamada-san. Eu me esforcei muito nele! – a garota estendeu um embrulho retangular e achatado, fazendo uma pequena reverência – Omedetou!
Nao sorriu com gentileza, aceitando o presente de bom grado. Ela era um fã sua, afinal de contas, e devia ter tido muito trabalho para conseguir chegar até ele. Era a primeira vez que algo do tipo acontecia... Nao sentia-se lisonjeado por ser motivo de tanto esforço. Ele rasgou o embrulho sem muita delicadeza e se deparou com uma foto sua dentro de uma moldura. Uma foto um tanto desbotada, ele não pôde deixar de observar.
- Hum... Er... – Nao procurava as palavras certas para não irritar a jovem de novo – Você se arriscou tanto vindo até mim para... para me dar uma... foto?
- O quê? – a garota ergueu os olhos castanhos ansiosos e agora confusos.
- Bem, eu agradeço de qualquer forma... Mas, sinceramente, eu consigo uma foto minha em qualquer revista...
- O quê? – ela repetiu, dessa vez em tom alarmante. Nao se preparou para o ataque de objetos voadores não identificados, o que não ocorreu – Por que eu lhe daria uma foto? É um desenho, não percebe?
Nao baixou o olhar para a moldura que tinha em mãos e então se surpreendeu. Aquilo não era uma foto! Por isso parecia “desbotada”, porque na realidade era um desenho!
- Parece que toda a imagem que eu tinha sobre você está se desfazendo, Yamada-san... – a garota murmurou tristemente, mas o atleta não lhe escutou. Ele não conseguia desviar a atenção do desenho que tinha em mãos.
- Isso... é... perfeito! Omedetou!
- O-omedetou? Não devia ser eu a dizer isso? – a moça mexeu nos cachos castanhos, parecendo sem graça.
- Está tão bem feito que eu confundi com uma foto! – Nao sorria como uma criança diante de um brinquedo – Você fez isso como? Com lápis de cor? – a garota assentiu com um aceno, espantando Nao ainda mais – O quêêêê?! Wow!
- Você... gostou então... Yamada-san?
- Eu nunca recebi nada assim antes! – Nao dirigiu seu enorme sorriso à jovem – Arigato gozaimasu... Amanda-chan!
A garota, que já estava com as bochechas levemente rosadas antes, corou de vez ao ouvir seu nome, atingindo um tom de vermelho que o jogador achou encantador. Ela era bastante bonita, Nao agora notava.
- Eu pronunciei correto o seu nome? – ele perguntou, apontando para o canto do desenho onde ela assinara.
- H-hai. Está certo...
Amanda evitou encarar Nao enquanto ele sorria abertamente, seus olhos indo do desenho à artista que o fizera. Era um trabalho realmente encantador! Tão detalhista e tão bem feito! E Nao podia ver claramente cada um dos sentimentos que moveram as cores sobre o papel. Era fascinante de uma forma que ele nunca experimentara antes!
- Bom... Agora que já lhe entreguei o presente e sei que você gostou – Amanda disse ainda muito corada –, eu vou... embora... né? Eu vou indo... Não o incomodarei mais, fique tranquilo! – ela soltou um risinho nervoso – Arigato pela atenção e omedetou, Nao-san! Ah! – ela cobriu a própria boca como se tivesse proferido um palavrão – Digo, Yamada-san! Sumimasen!
- Espera – Nao ainda sorria, divertindo-se muito com a postura da garota. Ela era realmente uma pessoa imprevisível! Surpreendendo-o mais uma vez em uma única tarde, Amanda estava completamente adorável daquele jeito tímido.
- Sim?
- Eu pensei que você pudesse dividir o bolo de aniversário comigo...
- B-bolo? – os olhos castanhos percorrem o quarto, mas não encontraram vestígios de comida. Nao sorriu ainda mais com aquela atitude.
- Tenho certeza que há vários bolos nestas caixas... – ele indicou com a mão os presentes que se acumulavam – Poderia fazer o favor, Amanda-chan?
A jovem permaneceu imóvel próxima à porta, parecendo se questionar mentalmente se devia ou não levar a sério o que o jogador dizia. Como Nao levantou-se em seguida e começou a abrir seus presentes, Amanda entendeu que ele não estava brincando.
Ela estava prestes a responder, quando os olhos escuros encontraram os seus repentinamente, deixando Amanda novamente paralisada.
- E pode me chamar de Nao, Amanda-chan – e piscou, voltando a desembrulhar os presentes.
Amanda sentiu-se corar outra vez e controlou-se ao máximo para não gaguejar enquanto se aproximava do moreno.
- Sumimasen... Nao-san.
Um sorriso traquinas se desenhou no canto dos lábios do jogador.
- Então, Amanda-chan... – ele virou-se para a garota com uma postura presunçosa – Começou a se interessar por futebol por minha causa?
Amanda encarou-o por alguns instantes com o olhar novamente confuso, parecendo apenas uma menininha ingênua. Isto é, até seu semblante se fechar de irritação. Sem nada em mãos para jogar na cabeça do atleta, Amanda se contentou em estapeá-lo no braço.
- Como você pode ser ainda mais convencido do que eu pensava??? Eu já acompanhava futebol antes, baka!
- Hum, é mesmo? – Nao finalmente encontrou um bolo redondo que não era muito maior que sua mão. O moreno passou o dedo indicador pelo merengue e lambuzou o nariz da garota com o doce, deixando-a sem ação – Vamos ter muito o que conversar então, nee... Sente-se, onegai, Amanda-chan!
A moça limpou o nariz com um lenço e se xingou mentalmente quando notou o sorriso que ostentava contra a própria vontade. Ela já tentara inúmeras vezes, mas não conseguia ficar imune ao jogador. Obediente, Amanda sentou-se ao lado de Nao na cama do quarto enquanto ele dividia as fatias.
- Só porque é seu aniversário, Nao-san... Só por isso...
O sorriso maroto no rosto do moreno só fez crescer. Aquele estava sendo o melhor aniversário que já tivera.
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