Seres Contra A Ultra

1 Capítulo 1 — Descubro Que Tenho Irmãos


ESTAR EM CHICAGO NÃO ERA TÃO RUIM ASSIM. EU IA SENTIR FALTA DO FRIO. Ia sentir falta das ruas, do grande lago Michigan que tínhamos e da neblina que cobria quase toda a cidade ao anoitecer e ao amanhecer; eu iria sentir falta de tudo. Porém, era o meu propósito ir embora e encontrar o meu pai.

De qualquer forma, eu estava com meus fones de ouvido em minhas orelhas, meu boné de aba-reta virado para trás, meus dois casacos (sendo um de couro preto), calça, tênis confortáveis e minha mochila com algumas roupas dentro, e prestes a sair de minha cidade natal. Doía dizer adeus para a cidade em que nasci e aprendi a sobreviver sem família, mas eu tinha que dizer adeus.

Andando pelas ruas, parei em uma cafeteria e comprei algo para beber e comer. A viagem para Nova York seria bem longa e eu não teria tempo para paradas. Depois que comi algo e comprei algo para viagem, segui direto para a rodoviária mais próxima de mim e, como eu sabia que ela não estava tão longe assim, resolvi ir a pé — andar às vezes era tão bom quanto respirar e aquilo não levantaria suspeitas. Quando cheguei à rodoviária e comprei minha passagem para Nova York, esperei o ônibus que me levaria para o meu destino. Mas ele não demorou muito para aparecer na rodoviária e, assim que o peguei e sentei em um banco vago à janela, tentei adormecer...

Parece ser louco o que estou prestes a revelar, mas eu sou parte dos Seres do Amanhã. O que é isso? Eu explico. Os Seres do Amanhã são humanos com poderes sobrenaturas e, como outros dizem, são chamados de “três Ts”, que seria telepatia, telecinese e teleporte. Pode achar bacana, mas não quando se tem a Ultra atrás de nós — não estou sozinho nessa vida, se é o que pensa. Estamos, digamos, em extinção e são poucos que realmente conseguem ter uma vida.

A Ultra é uma organização secreta que caça seres como eu. Ela, a Ultra, de alguma forma, consegue descobrir como nós, Seres do Amanhã, usamos nossos poderes. Eles nos localizam e, se conseguirem nos pegar, nos tornam humanos, nos torturam e, ou pior das hipóteses, nos matam. Como sei disso? Bem, os boatos correm pelas ruas de Chicago.

Alguns de minha espécie são mais fortes do que toda a essa organização que nos caça conseguira imaginar ser. Alguns têm sua telepatia, ou telecinese, ou teleporte tão bom quanto qualquer outro Ser do Amanhã. Ou, até mesmo os três juntos, ou alguns poderes a mais. Eu posso me enquadrar nesse grupo porque estou vivo e sem ser descoberto pela Ultra durante um período razoável de minha vida, mas isso não vem ao caso.

De uma maneira ou de outra, eu tinha que encontrar meu pai. Ele era a única esperança de que nossa espécie poderia sobreviver — meu pai é um como eu. Eu não o via fazia dez anos. A última vez em que estive com ele, tinha sido em meu aniversário dezesseis anos e desde então eu não tenho notícias dele. Bem, eu tenho 26 agora e, com as pistas que eu tinha sobre ele, eu estava prestes a encontrá-lo.

Ele estava em Nova York e, era difícil de acreditar, trabalhando pera a Ultra. Era muito difícil de acreditar que meu pai estaria trabalhando para o nosso inimigo mortal, mas, se ele estava fazendo aquilo, com certeza era para buscar paz, respostas e proteção para nossa espécie. Meu pai não iria ser tão burro assim em arriscar a própria vida sem nada em troca.

Parte de mim não queria ir, queria ficar e tentar vingar a morte de meus amigos. Eu sabia que ninguém de minha espécie podia matar, mas eu... bem, eu era diferente. A Ultra fizera questão de me injetar uma substância que me fazia capaz de matar — mas eu nunca matei algum ser humano antes, mas eu queria sentir a experiência para matar aqueles que tinham matado meus amigos. Uma vez, quando adolescente, meu pai disse que não valia de nada matar aqueles que me traziam raiva. Eu aceitava aquilo, mas eu queria tanto poder vingar a morte de Dylan, Angela, Patrick, Erin, Peter, Marcus, Alice e da Alisson... eles mereciam ser vingados. Na verdade, eu não sentia tanta raiva da Ultra assim... tá, eu sentia, mas o culpado da morte deles tinha sido Sergei — um garoto traíra que era menor do que eu, louro e de olhos pretos. Ele quem tinha dito a Ultra onde eu e meus amigos (até onde ele mesmo estava) estávamos e foi lá onde todos tinham sido mortos. Eu fui o único que restou porque consegui escapar... meus amigos tinham dado a vida deles por mim e prometi a seus corpos que iria trazer paz para nossa espécie.

Eles morreram há três anos atrás e, com isso, eu estava vagando por toda Chicago completamente sozinho. Eu não tinha mais família. Meu pai tinha se separado de minha mãe quando eu tinha completado oito anos (mas ele ia me visitar em meus aniversários e em algumas outras datas) e ele havia desaparecido de minha vida depois que viera me visitar aos meus dezesseis anos. Minha mãe foi morta pela Ultra quando eu tinha completado dezessete, como consequência de eu ter usado meus poderes perto dela e, com isso, eu vivi na Ultra por um tempo.

Eu tinha sido submetido a diversos experimentos, treinamentos e mais experimentos. Eles me forçaram a testar minha telecinese, meu teleporte e minha telepatia. Com isso, eles descobriram que eu era o melhor telepático, teleportador e telecinético que toda a Ultra havia conhecido e que eu tinha poderes que nem mesmo a Ultra poderia subestimar — segundo uma conversa que eu ouvi em um dos corredores da Ultra de Chicago. E eu também tive que ser presto na Citatel — eu consegui escapar de lá, mas eu não descobri o local para poder voltar e ajudar alguns companheiros de cela; e eu não me perdoo por isso até os dias de hoje.

Desde então, eu vivo escapando da Ultra e vivendo em um local diferente a cada dia que eu passava em Chicago. Às vezes eu voltava para alguns lugares, porque tinha rodado a cidade inteira, mas tudo bem.

Aquilo me dava tanta... raiva, que eu senti minhas mãos tremerem. Ter a vontade de vingança comigo era o que me fortalecia a seguir em frente e encontrar meu pai porque, se eu o encontrasse, eu sabia que ele me ajudaria a vingar a morte de meus amigos — não matando os agentes da Ultra, mas da forma dele... meu pai era bastante esperto e conseguiria fazer isso por mim; ao menos, se eu ajudasse, eu sabia que conseguiria uma vingança boa para meus amigos.

De qualquer forma, eu estava realmente prestes a conseguir pegar no sono quando alto me deteve...

Uma parada brusca no ônibus me acordou. Procurei o perigo dentro daquele ônibus, mas, por sorte, ninguém da Ultra estava lá — seria fácil reconhecer as pessoas com ternos pretos, sejam elas homens ou mulheres, e armas em suas mãos. Peguei minha mochila e a pus pendurada em um braço. Olhei para frente do ônibus e ouvi o barulho que indicava que a porta estava sendo aberta e dois agentes da Ultra entraram.

Eu não ousei em fazer nada a respeito, mas, se eles realmente vieram à procura, descobriram que eu estava ali e eu não sabia como. Ultra tinha suas vantagens que quase ninguém sabia como funcionava, mas eu não podia ser pego... ao menos não agora.

Eles adentraram a mais no ônibus e continuei os vigiando. Eles olharam cada acento a minha frente e, chegando perto de mim, tentei parecer pouco nervoso, mas não consegui me conter e os olhei novamente.

O que foi burrice minha.

Os agentes olharam para mim logo em seguida e me reconheceram.

— Ali está ele! — disse o agente de pele morena.

— Pegue-o! — disse o outro agente de pele morena.

Eles pareciam gêmeos e carecas. Suas peles eram um café tão... tão irresistível de não desejar que chegava a ser cruel.

Eles apontaram suas armas para mim, mas estiquei minha mão direita para elas e, agitando minha mão, as armas saíram de suas mãos e foram parar lá na frente do ônibus. O agente que estava mais perto da porta, foi buscá-la, deixando o outro agente perto de mim.

As pessoas do ônibus começaram a gritar. Algumas senhoras protegiam seus filhos como podiam e algumas senhoras de idade apenas cobriam suas bocas incrédulas. Alguns adolescentes tiravam seus celulares da bolsa ou bolso e começavam apontar para nós — eles estavam filmando. Um tanto grosseiro da parte deles, mas eu deixei passar.

Eu não podia deixar que eles ferissem nenhum passageiro. Chega de mortes por minha causa. Eles não podiam ferir os humanos, eu tinha que protegê-los. Era meu dever acabar com aquilo.

Levantei-me do meu lugar e fiquei em posição de ataque, pronto para lutar. Eles não iriam me fazer voltar, eu não iria voltar. Nada me tiraria do caminho de meu pai. Eu não iria voltar para a Ultra de Chicago.

Ele veio para me chutar, mas bloqueei seu chute com apenas uma mão. Ele investiu um soco em mim, mas também o bloqueei facilmente com o antebraço e lhe dei um soco na boca do estômago, e um guincho de direita. Ele caiu para trás.

Assim que olhei para o outro agente, ele me olhou com tanto ódio que eu quase soltei a gargalhada que tinha se formado em minha garganta.

— Você tem que voltar, seu ser miserável! — gritou ele.

— Eu acho que não... — disse eu para ele.

Ele apontou a pistola para mim...

Senti o formigamento em meu umbigo e em minhas pernas e, no segundo depois, me teleportei dali.

Caí esparramado no chão segundos depois de me ter teleportado de Chicago.

Eu não sabia exatamente onde eu tinha ido parar. Olhei para a rua em que eu estava e tudo o que eu podia reparar era a cor preta e cor de ouro. Aquelas cores... olhei para placa que tinha naquela rua e dizia que eu estava pisando em Pittsburgh, Pensilvânia. Ótimo!, pensei. Eu não entendi como meu subconsciente poderia ter me levado para lá, mas não reclamei em momento algum. Talvez porque ali tinha sido minha primeira viagem quando me teleportei, mas isso não vem ao caso. Pelo menos eu não estava mais em Chicago e estava longe da Ultra de lá.

Pus-me de pé e me limpei. Por sorte não tinha ninguém naquela rua, o dia estava começando a anoitecer ali e eu tinha que encontrar a rodoviária mais próxima. Eu tinha que ir para Nova York o mais rápido possível.

Caminhando pelas ruas de Pittsburgh, encontrei uma velha senhora e perguntei onde conseguiria encontrar uma banca aberta àquele horário. Ela me disse que se eu andasse mais alguns minutos eu encontraria a banca do Tom. Agradeci e segui para a direção que ela tinha me indicado.

Chegando à banca do Tom, pedi informação para onde ficava a rodoviária e, por sorte, ele me disse que ficava apenas duas quadras dali. Corri para a rodoviária e consegui, bem a tempo, de comprar a última passagem para Nova York. O ônibus chegou cinco minutos depois e, assim que adentrei nele, ele deu partida e eu consegui adormecer, e não tive pesadelo algum.

O ônibus parou na manhã seguinte e ele havia parado em uma rodoviária que tinha relógios presos no teto, lanchonetes e, o melhor de tudo, banheiro. Por sorte, o banheiro da rodoviária tinha música tocando e aquilo era bom para mim. Tirei os fones de ouvido de minhas orelhas e, no segundo seguinte, concentrei-me na música que estava tocando e me sentir... normal.

Eu não podia ficar sem meus fones de ouvido. Eles tampavam as mentes de minha cabeça. Pois é, eu, se ficasse com meus ouvidos destampados, podia me conectar a todas as mentes dos Seres do Amanhã na cidade em que eu estava e nas mentes dos humanos em que eu queria me conectar. Isso fazia com que eu conseguisse me conectar, apagar, mexer, incluir, manipular a mente de quem eu quisesse. Ao menos eu me conectava imediatamente somente com os Seres do Amanhã. Com os humanos, eu podia escolher se queria me conectar com eles ou não. Mas eu não gostava de me conectar com a mente de ninguém. Eu havia me conectado com a mente de todos os Seres do Amanhã de Chicago, principalmente de meus amigos. Quando meus amigos morreram... bem, foi como se parte de minha mente tivesse sido arrancada brutamente de mim. Era como se alguém pudesse arrancar uma parte do meu cérebro com a própria mão; era doloroso. E eu não queria mais sentir aquilo.

Encarei um dos espelhos que tinha no banheiro e fitei a figura forte e musculosa que tinha se formado no reflexo. Ele parecia horrível. Parecia que não tinha tido uma boa noite de sono, estava acabado. Seus cabelos louros estavam bagunçados, porém descolados. Abaixo de seus olhos azul-esverdeados tinha pequenas olheiras, mas nada que uma boa noite de sono resolveria. Ele tinha uma pulseira de couro misturado com algumas pulseiras em seu punho esquerdo. Sua pele branca parecia mais pálida do que eu poderia imaginar estar — quem sabe um dia não faria uma visita ao México ou ao Brasil para pegar alguma cor? — e sua barba aparada parecia perfeita.

Era difícil acreditar que aquele era realmente eu. Eu nunca pareci tão acabado assim. Cansado, sim. Acabado, não. Nunca tinha me lembrado de ter ficado completamente exausto depois de tentar fugir da Ultra — porque, até então, eu nunca tinha me cansado de me teleportar —, mas acredito que o problema de meu semblante tinha sido a má posição que eu tinha ficado no ônibus enquanto dormia. E, depois de um longo minuto, realmente que a causa do meu semblante era a má posição que tinha ficado no ônibus; eu estava completamente exausto.

Mas, de qualquer forma, entrei em um dos chuveiros que tinha naquela rodoviária, tomei o maior banho que eu poderia tomar em questão de minutos — o motorista tinha dado dez minutos e eu consegui fazer aquele banho em cinco.

Contudo, quando finalmente tinha terminado o banho, coloquei meus fones de ouvido, fiz minha higiene bocal, comi alguma coisa, bebi bastante água — eu não sabia que estava com tanta sede assim — e fui para a ala em que esperávamos os ônibus (acredite, ainda sobrou tempo para esperar o ônibus).

Quando olhei para a placa do lado de fora da rodoviária, vi que ela indicava que ali era Filadélfia. Isso era bom, pois indicava que mais algumas horas de viagem eu poderia estar perto do meu pai.

Como era de manhã, pus meus óculos escuros, ajeitei meu boné para trás em minha cabeça e meus fones em minhas orelhas para não ouvir nada a não ser a música que tocava, pus a mochila em meu ombro direito e entrei no ônibus novamente assim que o motorista o ligou.

Assim que consultei as horas no relógio de meu celular, eram dez da manhã e, de acordo com o tempo previsto pelo motorista, chegaríamos à Nova York em algumas horas. Aquilo indicava que eu estaria perto de meu pai. Eu estava feliz. Eu estava a caminho de encontrar meu pai e finalmente poderia ser treinado por ele para ajudar minha espécie... nossa espécie. E, com isso, provaria que a morte de meus amigos não tinha sido em vão; e eu arrumaria um jeito de vingar a morte de todos eles.

A viagem não foi tão demorada assim como eu esperava que ela pudesse ter sido.

Quando o ônibus finalmente tinha parado em Nova York e desci dele, senti o pequeno calor que fazia naquela tarde de terça-feira. Tirei meus óculos escuros e fui direto ao banheiro da rodoviária de Nova York para escovar meus dentes e assim o fiz.

Quando voltei para a ala de espera de ônibus, me sentei em alguma cadeira que tinha ali e comecei a pensar.

Pelo que eu sabia, meu pai estava em algum lugar em Manhattan. Era tudo o que eu sabia. Eu não sabia como ele poderia estar depois dos dez anos desaparecido, não sabia se ele me reconheceria e tampouco sabia o que ele acharia de minha visita para ele. Meu pai nunca foi de tratar-me mal, mas eu não sabia e nem conseguia imaginar a reação dele a me ver.

Será que ele me trataria mal pela primeira vez na vida, ou me trataria bem como sempre? Talvez ele me abraçasse e me levaria para tomar alguma cerveja como ele tinha feito assim que completei dezesseis anos, quem sabe? Mas, para realmente saber que ele estava aqui, eu tive que pesquisar, é claro.

Saindo da rodoviária, fui até alguma cabine telefônica que achei pelas ruas de Manhattan e achei uma lista telefônica dentro dela. Era impossível que os milhares habitantes de Manhattan tinham o mesmo sobrenome que eu, então procurei o nome Jameson em toda a lista e encontrei algo referente há uma casa algumas quadras de onde eu estava. Arranquei aquela página da lista telefônica.

Era um tiro no escuro, mas eu tinha que arriscar. Se meu pai não estivesse ali, eu simplesmente tiraria os fones de ouvido de minhas orelhas e... bem, me conectaria com as mentes de todos os Seres do Amanhã de Manhattan à procura dele — essa seria uma maneira mais fácil de procurar meu pai, mas eu não queria me conectar à mente dos Seres do Amanhã de Manhattan. Se eu me conectasse, seria difícil sair.

Uma vez eu tentei me desconectar com os Seres do Amanhã de uma das cidades de Idaho — fui parar lá uma vez em um de meus teleportes enquanto dormia — e muitos deles morreram quando eu simplesmente me teleportei de volta para Chicago; a dor agonizante que surgiu em minha mente assim que eu me teleportei foi tão tremenda, que a partir dali eu parei de tomar minhas pílulas e comecei a andar de fones de ouvido, e só me conectar aos Seres do Amanhã de Chicago. A partir daquele dia, nada mais de teleportes noturnos aconteceram.

Porém, existia uma maneira de me desconectar deles. A única maneira de me desconectar era me concentrando individualmente em cada um dos Seres do Amanhã e desligando a conexão que tínhamos. Não era doloroso, mas eu ficaria dias e mais dias, quem sabe meses, me desconectando deles.

Se você pensa que os Seres do Amanhã e os humanos em que eu me conectava sabiam dessa existência de conexão, eu lhe respondo: não sabiam. Só sabiam se eu lhes contasse. Fora isso, eles não tinham conhecimento disso. Eles não sentiam quando eu automaticamente me ligava à mente deles e nem quando eu me desconectava adequadamente. Eles só sentiriam dor se eu morresse ou eu só sentiria dor se eles morressem. Bem esquisito, eu sei.

Eu não queria arriscar a vida dos Seres do Amanhã de Manhattan, então eu iria até aquela casa e veria se meu pai se encontrava lá, caso contrário, eu usaria meus poderes... mas somente em último caso.

De qualquer maneira, eu segui o caminho que eu tinha que fazer. Andei pelas ruas de Manhattan à procura da residência que tinha na página arrancada da lista telefônica em minha mão. Eu não sabia o quanto o percurso poderia ser tão longo assim, eu já estava andando a mais de dez minutos e parecia que aquele quarteirão não chegaria nunca. Seria mais fácil se eu me teleportasse..., pensei comigo mesmo. Mas eu não podia. Eu sabia que a Ultra de Nova York era a pior de todas e, se eu me teleportasse, eles conseguiriam me encontrar... eu acho.

Eu podia bloquear a Ultra, mas aquilo me faria destampar meus ouvidos e aquilo era o que eu não queria fazer. Ao menos não agora. Meu pai era o meu objetivo maior e nada de Ultra aos meus pés. Seria completamente difícil localizar meu pai com a Ultra no meu pé — eles não me dariam sossego.

Quando finalmente achei o quarteirão que indicava na folha, olhei o número da casa em que eu deveria ir e joguei a folha da lista telefônica no lixo mais próximo que achei. Só faltava alguns passos para encontrar meu pai... só mais alguns passos.

Não consegui conter o sorriso que se formou em meu rosto. Era tanta felicidade encontrar meu velho (eu o chamava assim quando pequeno e ele não ligava) depois de tanto tempo. Eu não sabia se ele realmente estaria com a aparência velha ou quem sabe nova. Não importa! Eu só sabia que queria vê-lo de novo. Fazia dez anos... e foram os dez anos mais sombrios de minha vida.

Contudo, quando cheguei em frente a casa, joguei a cabeça de lado. Atrás de mim tinha uma ponte ou espécie de passarela e embaixo da ponte, um viaduto. As casas a minha frente eram coladas uma na outra e de dois andares — algumas tinham um sótão e a que meu pai morava tinha um — e uma pequena escadaria para chegar até a porta. Os corrimãos eram pretos e de ferro. Tinha duas janelas no canto esquerdo da casa e ela era bege. Era bastante simples e agradável de se ver. Bem o estilo do meu pai mesmo..., pensou e riu comigo mesmo.

Fui até a pequena escadaria, subi os degraus e, hesitando, bati na porta. Eu esperava que ele atendesse. Não queria dar de cara com mais ninguém a não ser ele.

Porém, ninguém atendeu. Franzi a testa para a porta. Bati na porta novamente e toquei a campainha logo em seguida. Do lado de dentro, comecei a ouvir passos e meu coração acelerou. Minhas mãos começaram a suarem e minhas pernas ficaram bambas. Eu sei que eu já era grandinho para sentir essas coisas, mas... ninguém controlas suas reais emoções, não é mesmo?

A maçaneta girou e...

Um garoto.

Um garoto que parecia bater na altura de meu peito, cabelos escuros e olhos castanhos atendera à porta. Franzi a testa para ele, porque ele não era exatamente quem eu esperava encontrar.

Aquele garoto ficou me olhando e franzi a testa para ele. Ele pigarreou.

— Em que posso ajudar? — perguntou ele.

Como falaria?...

— O... ahn, o responsável pela casa está? — perguntei tentando parecer o mais formal possível.

Ele franziu a testa para mim da mesma forma que eu tinha feito para ele. Quase idêntico!

— Ela não está em casa — disse ele.

Arqueei uma sobrancelha. Ela?, quis perguntar.

Hesitei por um tempinho.

— Hmmm... O.K. — disse eu. — Ahn... será que tem alguém de idade maior que a sua em sua casa?

— Ter, tem. Mas não está em casa — disse ele.

— Preciso falar com alguém que seja ou esteja responsável por você — falei.

Ele pareceu com raiva.

— Qual é, cara, eu tenho quase dezesseis — disse ele com certa raiva na voz. — Será que não pode falar comigo mesmo?

Ri dele e neguei com a cabeça.

— Que droga! Odeio ter quatorze anos... — resmungou ele. — Aguarde um minuto, eu vou fazer uma ligação.

— O.K. — disse eu assentindo para ele.

Ele adentrou na casa e fechou a porta, me deixando do lado de fora. Bem, eu não o julgava, talvez os pais do baixinho brigassem com ele por deixar um estranho entrar em sua casa — nesse caso, o estranho era eu.

Mas ele não demorou muito lá dentro ao telefone. Ele voltou para a porta e a abriu em cinco minutos mais tarde.

— Bem, meu irmão está a caminho — disse ele.

— O.K. — disse eu e levantei o polegar para ele.

Ele ia fechando a porta, mas voltou a abri-la e voltou-se para mim.

— Ah, eu ia esquecendo — ele pôs a mão na testa. — Ele disse que você pode entrar.

Assenti para ele.

Ele abriu a porta e deu para ver a escada e a cozinha dali de onde eu estava, mas não entrei. Ele viu que hesitei e franziu a testa para mim.

— Você pode entrar — disse ele.

Neguei com a cabeça.

— Não seria legal um estranho invadir sua casa — disse eu. — Eu poderia roubá-lo.

Ele bufou e riu, e fez um gesto com a mão. Também quase igual a mim.

— Ah, qual é... — ele riu. — Se você fosse nos roubar, já teria feito isso desde que abri a porta.

Pensei por um momento. É, ele estava certo. Ladrão nenhum iria pedir para chamar o responsável dele para poder roubar sua casa, ou para poder sequestrá-los. Era fora de lógica... que seja!

— É, faz sentido — disse eu concordando.

Ele riu.

— Então entre — disse ele.

— Com licença — falei assim que passei pela porta.

O interior da casa era mais que surpreendente.

A escada que ligava o segundo lugar com o primeiro estava bem a minha frente. Tinha um sofá de três lugares e um de dois lugares ao lado deste, bem a minha esquerda. Tinha uma mesa próxima àquela pequena sala de estar, formando-se uma sala de jantar. Logo atrás da pequena sala de jantar, tinha a cozinha — a qual eu tinha visto da porta. Ela não era pequena, mas também não era grande. Era uma cozinha razoável e eu poderia ficar ali com mais quatro pessoas. Era uma casa bonita. Eu com certeza moraria ali sem problema nenhum.

— Sente-se, por favor — disse ele educadamente e indicando o sofá para mim.

— Obrigado — disse eu ao me sentar.

Um silêncio se propagou entre nós dois. Eu não sabia se me apresentava ou simplesmente ficava quieto e ele parecia estar em conflito com a mesma coisa. Ele me analisava quando eu não estava olhando, mas quando eu o olhava, ele desviava o olhar. Talvez os músculos de meus braços o intimidassem — eu não o culpava. Por conta de meus braços eu conseguia intimidar alguns marmanjos nas ruas de Chicago que queriam me assaltar, mas isso também não vem ao caso.

Eu não me achava tão forte assim. Eu tinha braços fortes e musculosos por tanto treinamento que tive que fazer para sobreviver à Ultra. E eu gostava dessa forma. Era melhor do que ter braços tão magros quanto o garoto à minha frente — acredite, eu tinha braços como ele durante quase toda a minha adolescência.

Ele suspirou.

— Quer algo para beber? — perguntou ele depois de alguns minutos de silêncio.

— Água, por favor — disse eu educadamente.

— Certo — disse ele e se levantou.

Ele foi até a cozinha e, pegando um copo com água, trouxe para mim e me entregou.

A água estava tão gelada que eu não consegui me conter em beber pouco a pouco; bebi tudo de uma vez. Eu não reparei o quanto estava com sede desde que tinha acordado na rodoviária de Nova York.

Entreguei o copo para ele.

— Obrigado — disse eu.

Ele pegou o copo, se levantou e foi até a cozinha.

— De nada — gritou ele de lá.

Levantei o polegar para ele, mas eu sabia que era inútil, porque ele não veria, mas fiz assim mesmo.

— Como disse que se chamava mesmo? — perguntou ele da cozinha.

— Eu não disse — respondi.

— Ah, tá — disse ele.

O silêncio se propagou de novo. Eu me perguntava onde o responsável por aquela criança deveria estar. Como poderiam deixar um simples garoto em uma casa daquelas em plena Manhattan? Era quase um crime, era quase o mesmo que levantar uma placa escrita: “ESTAMOS FORA, VENHA ASSALTAR NOSSA CASA!” na frente da casa.

— Bem, eu me chamo...

Ouviu-se o barulho da maçaneta mexer e uma figura maior do que o baixinho que tinha me atendido entrou na casa.

Ele tinha os mesmos cabelos pretos que o baixinho, porém ele era mais alto e um pouco forte, ele parecia bater em meu queixo. Ele parecia preocupado com alguma coisa e fiquei tentado em ler sua mente — eu não precisava tirar meus fones para poder ler a mente dos outros, seja a pessoa um Ser do Amanhã ou não. Pelo que dava para ver, seus olhos deveriam ter a mesma tonalidades que os meus. Assim que ele me olhou, seus olhos me estudaram de uma forma bruta e curiosa, mas eu não me intimidei. Afinal, eu estava na casa dele e para eles eu deveria ser um estranho. Não o culpava e nem tirava a razão dele, pois ele tinha razão em desconfiar de mim. Ele vestia uma blusa vermelha com um casaco jeans por cima, calça jeans e tênis All Star. Um tremendo adolescente.

O baixinho chegou até onde o outro estava e, puxando o menor para a cozinha, os dois saíram do meu campo de visão.

Ri com aquilo.

Provavelmente o maior deveria estar alertando o baixinho para fugir de casa se alguma coisa acontecesse, mas eu queria gritar que não tinha segundas intenções naquela casa a não ser conversar com meu pai.

Os dois chegaram à sala e sentaram no sofá ao lado do qual eu estava. Eles me encararam sérios por um momento. Bem, ao menos o maior deles parecia sério, pois o baixinho parecia estar preocupado... perturbado, na verdade. Como se eles escolhesse estar ou não estar ali.

— Bem, meu irmão disse que você queria falar com alguém responsável pela casa — disse o maior dos dois.

O baixinho bufou.

— Você, responsável? — disse o baixinho e riu.

Ri baixinho com ele.

O maior olhou para ele e o baixinho se calou no mesmo instante.

— O.K., foi mal — desculpou-se ele.

Senti pena pelo moleque.

Ri novamente.

— Sim, estou — disse eu.

O maior esticou a mão para mim.

— Bem, eu estou no comando por enquanto — disse ele. — Eu sou Stephen. Este aqui é o Luca — ele indicou o baixinho com o polegar da outra mão.

Segurei em sua mão e balancei-a amigavelmente. Ele tinha pulso firme, pois apertou minha mão com certa força e retribui. Olhei para ele e ele riu, assim como eu.

— Eu sou Garrett — disse eu e soltei sua mão.

O silêncio se propagou em nós novamente.

— Bem — disse Stephen quebrando o silêncio —, o que deseja aqui?

Bem, chegou a hora de falar a verdade..., disse a mim mesmo.

— Eu procuro Roger. Roger Jameson — disse eu. — Vocês o conhecem?

Ele dois pareciam em choque; não se mexiam. Franzi a testa para ele. O que eu tinha dito que poderia deixá-los daquela maneira? Depois de alguns segundos como estátuas, eles se olharam e voltaram a me olhar. Ainda em silêncio.

— Vocês o conhecem? — perguntei novamente e com certa desconfiança deles.

Mais silêncio. Eles estavam começando a me irritar. Aquela era uma pergunta simples, eles podiam dizer “sim” ou “não”. Estavam quase me fazendo a tirar os fones de ouvido e me conectar com todos os Seres do Amanhã de Manhattan e eu teria que ficar ali durante um tempo para me desconectar. Eu não queria, mas estava me sentindo obrigado.

— Sim — disse Luca quebrando o silêncio e se calou no momento em que disse.

Stephen hesitou por um momento.

— Qual é a sua ligação com ele? — perguntou Stephen.

Franzi a testa para ele. Aquele garoto estava começando a me irritar.

— Eu sou o filho dele — disse eu. — E vocês, qual a ligação de vocês com ele? — perguntei já irritado e semicerrando os olhos para eles.

Stephen e Luca engoliram em seco, me olharam de olhos arregalados, se entreolharam e voltaram a me olhar novamente. Definitivamente eles estavam me irritando com aquele silêncio todo.

— N-nós... nós... — gaguejou Luca.

— Nós somos os filhos dele — disse Stephen completando a frase do irmão.

Bem... meu irmão/nosso irmão... sei lá! Era estranho! Eu nunca pensei que teria irmãos em minha vida, a não ser meus amigos que viviam comigo rondando toda Chicago — eu os considerava família, meus irmãos e irmãs. Mas, irmãos de sangue? Isso jamais passou pela minha cabeça.

Eu sabia que meu pai tinha se separado de minha mãe, mas eu não tinha informações de que ele tinha outra família e tampouco um filho... filhos, no caso.

Aquilo me espantou por um tempo. Descobrir que tinha irmãos era quase uma sentença de morte... tanto para mim, quanto para eles. Agradeci por não ter tirado os fones de ouvido e tentado penetrar na mente de Stephen e Luca. Eu poderia assinar a sentença de morte deles e a minha pelas mãos da maior Ultra de todos os tempos; a Ultra de Nova York.

— O quê? — perguntou Stephen e eu ao mesmo tempo assim que nos olhamos de verdade pela primeira vez desde que nos vimos.

— Eu tenho mais um irmão mais velho? — disse Luca, mas Stephen e eu não parecemos nos interessar naquilo. — Puxa que bacana! — disse ele e ouvi sua risada. — Puxa, que droga! — reclamou ele.

Stephen e eu olhamos para ele sérios.

— Ah, entendam — começou ele. — É bem maneiro ter mais um irmão. Mas, mais velho? — ele fez uma careta. — Cara, quando será que eu pararei de ser o caçula? — queixou-se ele.

Stephen e eu chacoalhamos a cabeça em negativa revirando os olhos e voltamos a nos encarar.

— Posso ter uma palavrinha com você lá fora? — perguntou ele sério.

— Claro — falei na mesma tonalidade de voz que a dele.

— Eu também vou... — disse Luca e começou a ficar de pé.

Stephen e eu dissemos sérios e em uníssono:

— Não.

Luca pareceu não gostar e voltou a se sentar no sofá.

Stephen e eu nos olhamos e fomos para fora de sua casa.

Assim que a porta bateu atrás dele, nos encaramos por um breve momento. Seus olhos eram iguais aos meus, era impossível de não notar aquilo. Sua expressão séria também era idêntica a minha e ele tinha uma maneira de morder o lábio inferior quando estava com raiva. Com certeza ele era meu irmão.

— Como isso é possível? — perguntou ele.

— Estou tão surpreso quanto você — rebati. — Eu não sabia que tinha irmãos. Eu só vim procurar meu pai para... — minha voz falhou e fitei a casa ao lado da dele.

Eu não podia contar o que eu realmente queria fazer ao chegar ali. Eu não podia contar para ele que era um Ser do Amanhã, isso tornaria sua vida perigosa e assinaria sua sentença de morta, assim como a de Luca e de sua mãe — se ele tivesse mesmo uma. Eu não podia arriscar.

— Para quê? — perguntou ele.

Senti, no instante seguinte, uma sensação de penetração em minha mente, como se alguém estivesse tentando perfurar minha mente em busca de meus pensamentos. Eu olhei para ele e ele me encarava de um jeito raivoso...

— Pare de tentar entrar na minha mente... — falei entredentes.

Comecei a repeli-lo de minha mente e ele pôs as mãos nas têmporas e só consegui ver suas órbitas nos olhos. Assim que parei de repeli-lo, ele quase caiu, mas eu o segurei. Ele me olhou incrédulo por um momento e se soltou de mim, se recompondo.

Eu o encarei.

— Eu não vim para brigar — disse eu.

— C-como...? — gaguejou ele.

Pensei por um momento.

— Longa história — disse eu. — Preciso saber onde meu pai está.

— Nosso pai — corrigiu-me ele. — Ele é o meu pai também.

Assenti para ele, mas ainda sério.

— O.K., onde nosso pai está — corrigi-me. — Sabe onde ele está?

Ele negou com a cabeça.

— E-ele... ele... — ele puxou fôlego. — Ele desapareceu. Não temos mais notícias dele.

— O quê? — perguntei.

— Você é um de nós? — perguntou ele. — Um dos Seres do Amanhã?

Eu não queria revelar, mas Stephen já descobriu. Assenti para ele.

— Tem alguma pista por onde ele possa estar? — perguntei.

Ele negou com a cabeça.

Suspirei de raiva.

— Não acredito que terei que fazer isso... — reclamei com extrema raiva.

Senti minhas mãos tremerem.

— Fazer o quê? — perguntou ele.

O encarei.

— Stephen, não toque em mim, certo? — perguntei. — Em hipótese alguma, não toque em mim. Entendeu? — o encarei, olhando-o nos olhos.

— Mas... por quê?

O vi franzir a testa.

— Depois eu explico — falei ainda com raiva. — Só não me toque e não deixe que me toquem, você entendeu? — perguntei mais sério do que eu estava.

Ele assentiu quieto.

Suspirei e, lentamente, tirei meus fones de ouvido.

Era como se alguém acrescentasse algo diretamente em meu cérebro. Cada Ser do Amanhã, cada voz, cada pensamento, cada ideia, cada cérebro estava se conectando ao meu de uma maneira bastante rápida e constrangedora. A primeira mente a conectar-se com a minha foi a de Stephen. Sei disso porque ele era a mente que estava mais próxima a mim e, depois dele, incluí a mente de Luca também para poder monitorá-lo, para ser onde ele estava e se corria perigo, dali por diante. E, depois... minha mente vasculhou cada rua de Manhattan, procurando por meu pai e procurando por cada Ser do Amanhã.

As imagens de todos eles vinham para minha cabeça, como se estivessem bem a minha frente. Todos, sem exceção. A cada segundo que passava, era um Ser do Amanhã aparecendo para mim. Eu não conseguia memorizá-los, mas eu também não precisava. Se eu quisesse informação deles, era só vasculhar minha mente novamente e eu teria toda a informação que eu precisasse.

Manhattan... todos os Seres do Amanhã estavam se conectando comigo. Eles não sentiam, mas eu sentia. Era, além de sentir como se estivessem colocando algo em meu cérebro, como se eu estivesse entrando em suas mentes; como se eu estivesse auto me colocando neles. Isso ia do mais jovem até o mais velho. A partir daquele momento, eu podia localizar qualquer um que eu quisesse; era como se eu fosse cada um deles.

Aproveitando a busca sobrenatural que minha mente estava fazendo, tentei localizar meu pai. Cada rua que Manhattan (sem exceção) tinha, eu vasculhei. Cada loja, cada prédio, cada apartamento, cada casa... mas nada dele. Ele não estava aqui. Minha vinda tinha sido em vão. Bem, nem tanto em vão assim porque eu descobri que tinha irmãos. Eu podia ter acabado de conhecê-los, mas, de qualquer maneira, eles eram minha família e, como eu fazia com meus amigos (que eu os considerava irmãos e irmãs), tomaria conta e cuidaria deles. Custasse minha vida ou não.

Eu, de alguma forma, já me sentia o responsável por eles. Luca tinha quatorze e Stephen parecia ter dezessete, e eu tinha 26. Eu, como mais velho, tinha que tomar conta deles e, sabendo que meu pai falaria isso para mim se estivesse presente, eu tomaria conta deles.

Senti uma pequena tontura em minha cabeça e, me desequilibrei. Mas consegui encostar-me ao corrimão de ferro que tinha perto de mim e de Stephen. O processo já estava acabando e tinha que acabar logo. Eu não sabia quantos Seres do Amanhã podiam existir em Manhattan, mas uma grande concentração deles estava em uma estação de metrô abandonada a trinta metros abaixo de Manhattan um pouco perto dali. Era a maior concentração de Seres do Amanhã que eu já tinha visto ficarem unidas depois da minha. Eles eram quinze ali (sim, deu para contar cada um deles).

Assim que eu não vi mais mente nenhuma e a pequena tontura se passou, eu abri os olhos. Fitei-me agachado, com um joelho no chão e Stephen prestes a me tocar a qualquer momento. Suspirei e me pus de pé.

Ele me encarou.

— Você está bem? — perguntou ele.

Eu assenti.

— O que você fez? — perguntou ele.

— Nada importante — menti. — Acha que Luca pode ficar sozinho em casa? — perguntei um pouco sério.

Ele olhou para casa e depois para mim, e assentiu.

— Sim, pode — disse ele.

— Ótimo, temos que ir. Não podemos ter essa conversa aqui. Precisamos ir — falei para ele, descendo os degraus.

— Ei, espera! — gritou ele para mim.

Chegando à calçada, virei-me para sua casa, o esperei.

Ele saiu de sua casa e desceu as escadas que tinha e chegou perto de mim.

— Para onde vamos? — perguntou ele ainda me olhando.

Com ele, caminhamos até alguma rua sem saída e que estava deserta. Era uma boa rua para se teleportar, pensei. Ali ninguém nos veria e tampouco arriscaríamos que a Ultra viesse atrás de nós. Eu não podia arriscar a vida dele.

— Para onde você foi levado quando tinha sido descoberto pelos Seres do Amanhã? — perguntei sarcasticamente.

Ele pareceu incrédulo e ri novamente.

— Como sabe disso? — perguntou ele um tanto desconfiado de mim.

Pus a mão em seu ombro amigavelmente e gargalhei.

— Longa história — falei ainda rindo. — Te conto tudo o que quiser saber quando chegamos lá, daí você me conta tudo o que preciso saber. Fechado? — tirei minha mão de seu ombro e estiquei minha mão para ele.

Ele olhou para minha mão e depois para a minha.

— Fechado — disse ele segurando em minha mão e sorriu de lado para mim.

Nossas mãos se soltaram.

— Vamos? — perguntei. — Você faz as honras.

Ele assentiu e hesitou em me tocar.

— Pode me tocar agora... já estou melhor — garanti.

Ele hesitou de novo, mas tocou em meu ombro.

— Vamos — disse ele.

E assim nós nos teleportamos dali.