Serenius Luna
2 Reflexo de Lembranças
Disse que não lembrava de mais nada, só que recordei que meu nome era Luna, tudo ao qual sabia era isso. Mesmo diante de um fato muito simples todos ficaram felizes por mim e decidiram comemorar, foi uma noite muito agitada e perigosa.
Estávamos comendo e jogando, quando Jacobs, um pirata careca e magro decidiu me atormentar, ele começou a insinuar coisas e dizer que eu era uma farsante:
— Como alguém pode se lembrar do nome e não saber de mais nada? — ele indagou descarado.
— Eu não sei Jacobs, mas é o que acontece comigo. Eu queria saber quem eu sou e sobre minha vida, porém, apenas querer não vai fazer eu me recordar. — respondi chateada.
Eu poderia estar há pouco no mar junto à eles, mas eu já havia me recuperado sendo assim poderia sair sozinha procurando minha história, só que eles não deixaram eu partir, me deixaram ficar, então assim sabiam que eu não era uma farsante ou mentirosa; o fato de Jacobs insinuar futilidades me chateou, segurei algumas lágrimas aquele dia pois não quis mostrar fraqueza:
— Um dia à verdade aparecerá, e então saberemos quem você realmente é! — ele exclamou frio.
Seu sorriso sem-pudor às vezes ainda surge nos meus sonhos os transformando em pesadelos. Eu saí da proa do navio e entrei no saguão aborrecida, havia uma lata com gelo sobre uma mesa, com raiva eu à joguei, muitos cubos de gelo saíram pela janela até o mar, segundos depois ouvi zumbidos e talvez gritos, corri até eles. Do céu caiu uma chuva de granizo, os piratas correram levando a comida e tudo o que poderam, decidi ajudar mas Pinóquio me segurou:
— Não Luna. Não vá, é perigoso! — ele exclamou segurando meu braço.
De manhã ao acordar, ouvi muito barulho vindo do convés e quando abri a porta, me deparei com granizos do tamanho de batatas. Os dias seguiram normalmente, o mais normal possível quando se vive com piratas; eu estava com eles um pouco mais de um mês, e apesar disso alguns ainda implicavam comigo, eles não se acostumaram com minha presença muito fácil.
No jantar do solstício de verão, fomos todos dormir exaustos e empanturrados de comida, caímos na cama ao mesmo tempo e adormecemos. No café da manhã, Pinóquio me chamou para conversar, estavamos sós no refeitório, ele me olhou e colocou as mãos no meu rosto:
— Você tem algo para contar? — perguntou doce.
— Não. — respondi tensa. — Por que?
— Luna, eu não estou louco. Eu vi você flutuando ontem à noite.
O modo como ele assegurou aquelas palavras vi poucas vezes, mesmo parecendo um absurdo meu coração parou na hora:
— Flutuando?! — gaguejei.
— Sim, eu não estou inventando. Por que eu inventaria algo assim, para lhe prejudicar? Você é a única pessoa que eu nunca faria mal!
— É impossível! — exclamei surpresa.
— Mas eu vi. Seu corpo estava à cima de sua cama, você parecia uma pluma.
Eu sai com a mão na cabeça, nada pareceu fazer sentido:
— Luna, você flutuou!
Jacobs e Rusk entraram na hora, eles nos encararam. As coisas que ouvi depois machucaram; Capitão Anthonio, os piratas Gram, Dados, Clhoves e todos os outros me acusaram de bruxaria, foi um terrível julgamento. No final me deixaram presa em um quarto no porão. Eu estava com fome e com frio, tinha apenas uma rede, uma cadeira e um espelho que cobria metade da parede; durante aquele tempo tudo o que passou pela minha cabeça era como eles puderam não acreditar em mim.
Pelo espelho vi as lágrimas escorrerem do meu rosto, aproximei a mão e toquei meu reflexo triste assim como eu, senti uma consistência estranha ao tocá-lo, pousei minha outra mão e tudo girou; acordei num chão distinto, eu não estava mais presa naquele porão sujo e úmido, ouvi conversas alheias vindas de um corredor, no final se localizava uma porta marrom, eu a abri com medo, e quando olhei para dentro vi o meu julgamento. Eu estava no meio e todos ao redor, apontando e me machucando com palavras e uma acusação sem provas, toda a minha mágoa transbordou na hora, comecei a andar para trás enquanto chorava vendo pela segunda vez àquela cena, acabei caindo de costas, o chão gelado me cercava novamente. Duas vezes Pinóquio bateu na porta, soube que era ele, corri e o abracei quando ele a abriu; acontece que ele mentiu para os outros dizendo que era tudo uma brincadeira, pediu para me soltarem e para pedirem desculpas à mim então eles o entregaram a chave, posso dizer que foi um alívio o abraçar depois de um dia atormentado no qual foi aquele.
Durante à noite, mesmo depois de todos os piratas me pedirem desculpa, pensamentos e momentos vieram em minha mente; acabei dormindo angustiada, por isso tive um sonho angustiante. Parece que tudo o que aconteceu comigo desde o dia ao qual haviam me encontrado estava naquele pesadelo, eu não consegui acordar por mais que quisesse, tornando minha madrugada horrível. O dia amanheceu escuro, Pinóquio entrou no quarto com expressão desconsolada, meu coração apertou na hora.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — perguntei receosa.
Ele balançou a cabeça em sinal de sim:
— O quê?
— O Dados, ele morreu. — disse sério.
— Morreu?! — exclamei assustada. — Mais, mais, o que aconteceu? Como ele morreu? — Um raio o atingiu ontem à noite. Avisamos para ele não sair durante a tempestade só que ele não nos ouviu.
— Tempestade? — algo estranho martelou em mim naquele momento.
Corri para o convés, haviam buracos causados pelos raios no navio, muitos baldes cheios com a água da chuva, homens trabalharam para secar tudo.
— Como essa tempestade chegou? — perguntei ao Gram.
— Não sabemos, aparentemente veio do sul; nos pegou de surpresa, assim como a chuva de granizo.
— Onde está o Dados?
— Está no quarto leste, mas...
Eu fui até ele correndo, mesmo todos dizendo para mim não o ver, ao abrir a porta, vi que o deitaram na cama e cobriram com um lençol, andei até ele e o descobri, foi um choque; seu rosto desfigurado vi por poucos segundos, pois Pinóquio que aparaceu de repente entrou na minha frente, ele me tirou rápido dalí, eu não falei nada, estava imóvel, olhei para Pinóquio e as lágrimas caíram dos meus olhos, ele me consolou; por algum motivo que não sabia, senti culpa dentro de mim.
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