Serendipity
1 O começo
Skye
Acordo com o som de batidas na porta do meu quarto.
— Skye! — grita minha mãe enfurecida — você vai se atrasar filho.
— Tudo bem mãe, eu já vou.
Sento na cama e esfrego os olhos, malditos pesadelos com a escola, tudo seria mais fácil se o ensino médio acabasse o mais rápido possível. Mas estou somente no segundo ano, então tudo que está ruim ainda pode piorar, a única coisa que me salva é escrever, quando escrevo tudo se torna fácil e claro, como se fosse possível que cada palavra e texto engolisse toda tristeza e angústia.
Levanto da cama e tiro meu pijama, visto uma blusa T-shirt preta, boto minha calça jeans escura e calço meu all-star azul marinho. Puxo minha mochila que está sobre a a cadeira na escrivaninha e coloco uma alça sobre o ombro, abro a porta do quarto que pintei de um amarelo claro, e saio pelo corredor, jogo minha mochila em cima do sofá, caminho até o banheiro faço minha higiene diária e depois saio.
—Fiz um sanduíche pra você comer — minha mãe diz da cozinha.
— Não estou com fome, até depois — então pego minha mochila e saio pela porta de casa antes que ela possa contestar.
Ontem a noite foi um daqueles dias e eu sinceramente não quero olhar para ela no momento. Todas as vezes que isso acontece é igual, no dia seguinte fingimos que nada aconteceu, como se tivesse sido apenas um sonho ruim, oque eu de fato tive durante a madrugada. A sorte de morar perto da escola é que posso ir andando e dificilmente me atraso, o azar de morar perto da escola é que dificilmente me atraso. Coloco meu fone, desbloqueio o celular e começo minha caminhada com a música Shattered Dreams. Enquanto ando passando casa após casa, e rua após rua, fico imaginando como seria muito mais interessante ter uma vida agitada como os adolescentes em filmes que parecem ser feitos para nos lembrar o quanto a nossa vida é entediante. Perto da escola já começo a ver grupos de alunos conversando e rindo, todos despreocupados e com seus estilos diferentes. Se fosse o sétimo ano eu estaria com muito medo e me esconderia de todos os possíveis ataques verbais. Quando comecei a ter espinhas muitos colegas começaram a me chamar de vários nomes gentis como “Choquito”, “homem lua”entre outros. Desde de pequeno sempre encontraram um motivo para me zoar e criticar, por isso na maioria das vezes prefiro ficar sozinho, pois desse modo o risco de me ferirem é menor. Hoje em dia ninguém fica me zoando mais como antes, ainda me sinto estranho e sei que as vezes me xingam pelas costas.
O sinal bate e todos começam a caminhar em várias direções, continuo de cabeça baixa com o meu fone e imploro que ninguém me note. Chego a sala 2B, entro rapidamente e caminho até meu lugar, penúltima carteira ao lado da parede, implorei para a professora regente me deixar lá no começo do ano quando os lugares foram definidos. Sento e coloco minha mochila pendurada na cadeira, retiro meu material e o livro “Procura-se o Infinito”, começo a lê-lo de onde parei enquanto espero a professora de artes chegar.
Se passam alguns minutos e todos chegaram e estão conversando fora de seus lugares, a professora chega um pouco atrasada, ela tem cabelos grisalhos usa um óculos que aparenta ser muito mais pesado que o meu, e sempre usa roupas das mesmas cores uma cor para cada dia da semana. Logo atrás dela tem um garoto, provavelmente aluno novo, ele usa calça jeans rasgada, uma camisa preta escrito “BAD BOY” que me faz dar uma pequena risada baixa. Ele tem cabelos cacheados e pretos, sobrancelhas grossas e esta com uma expressão entediada no rosto.
— olha que gatinho — diz Ana para rindo para uma de suas amigas.
— Sentem em seus lugares por favor — a professora Monica pede. Todos vão para seus lugares, e se escuta pequenos murmurinhos pela sala sobre o novo aluno.
— Este é o Miguel, acabou de se mudar e espero que o recebam bem, acho que você pode sentar...— ela olha para a sala e para o olhar atrás de mim— Atrás do Skye, vai ser seu lugar durante o resto do ano. Ele assente com a cabeça e vai sentar em seu lugar logo atrás de mim. Não posso evitar sentir o cheiro de seu perfume quando ele passa, algo que me lembra o inverno, e ao mesmo tempo o verão, é gélido mas adocicado.
— Com licença, você poderia ir um pouco mais pra frente ? — eu sinto sua respiração muito próxima de meu pescoço e sinto um leve arrepio, apenas assinto com a cabeça, empurro um pouco minha mesa para frente e faço o mesmo com minha cadeira.
— Obrigada. — tento evitar que meus olhos me atraiam e olhem para trás, enquanto a professora escreve no quadro abro meu livro e começo a ler em uma tentava de me distrair.
— Oi, meu nome é Ana, posso emprestar meu caderno se você quiser pegar a matéria que perdeu — ela diz de seu lugar que fica bem na fileira ao lado.
— obrigado, eu quero sim — sua voz parece gentil. Olhando de lado vejo ele pegando o caderno dela. Depois de um tempo estende o braço com ele.
— Eu não vou precisar — então vejo a expressão decepcionada de Ana ao pegar o caderno de volta, ela repara que estou olhando e me encara.
— tá olhando o que ?
— Nada — respondo e volto a encarar meu livro.
Esse dia demorou muito para passar, cada aula foi uma eternidade, as vezes eu sentia como se o aluno novo estivesse me observando, mas provavelmente é apenas minha imaginação. Quando o sinal toca começo a guardar minhas coisas rapidamente.
— ahh você pode me emprestar seu caderno ? — ele está parado muito perto de mim, com a mochila nas costas e uma expressão serena. Ele disse para Ana que não precisava do caderno dela, e agora pede o meu, será que faltava algo no dela ? Não pode ser pois ele não saberia, talvez seja a letra dela. Abro minha mochila e pego meu caderno, entrego na mão dele, fecho minha cortina novamente.
— Obrigado, Skye.
Apenas aceno com a cabeça, fecho minha mochila e começo a andar. Quando saio da sala, parece que escuto uma voz me pedindo para esperar, mas apenas continuo andando e coloco meu fone de ouvido para mais uma música até chegar em casa.
Quando chego em casa minha mãe já saiu para o trabalho, isso é bom, se ela estivesse em casa eu teria que conversar, coisa que no momento eu não quero. Jogo minha mochila no sofá e vou até a cozinha esquentar o macarrão de ontem a noite. Pego meu notebook que deixo sempre na sala e levo até a mesa, abro no grupo de escritores anônimos, enquanto leio as mensagens como o macarrão com verduras.
Roxo: e aí pessoal ! Como vcs estão ?
Preto: Meu personagem morreu, o desgraçado ficou muito chato
Roxo: de novo kkkk, você sempre mata eles kkk
Rosa: oiii
Amarelo: Tive um sonho hj e tenho certeza que algo muito bom está para acontecer
Preto: chegou o vidente kkk
Roxo: kkkk
Rosa: eu confio em vc amarelo
Preto: claro, ela previu que você se apaixonaria kkkk iludidos
Roxo: Não briguem, azul como foi seu dia ?
Eu: como todos os outros
Preto: que empolgante kkk
Rosa: conta mais vai, você quase nunca conta algo
Eu: não faço muita coisa pra contar kkk
Roxo: conta mesmo assim
Eu: chegou um aluno novo na minha sala
Amarelo: aí meu Deus !
Preto: lá vem
Amarelo: isso pode ter a ver com o meu sonho
Rosa: Destino
Roxo: kkkkk deixem ele contar
Eu: Não aconteceu nada demais, ele pegou meu caderno emprestado
Rosa: Ele quis o seu, mas poderia ter pego de outra pessoa
Preto: fala sério gente kkkk
Amarelo: Rosa tem razão, preste atenção a sua volta
Roxo: mudei meu cronograma de estudos, quero me dedicar mais
Rosa: Pse, eu não tenho tido muito tempo para escrever
Preto: se não conseguirmos publicar um livro vai ficar cada vez mais difícil de escrever, logo vamos ter que achar um trabalho.
Amarelo: Eu já trabalho, e é difícil mesmo, mas temos que acreditar no nosso dom
Saio do chat de conversa e fecho o computador, nunca pensei que escrever fosse meu dom, nunca achei que nasci para isso, simplesmente se tornou algo natural, como dormir e piscar os olhos. Não sinto que tenho algo de especial, faço o que faço porque tenho que fazer, é um modo de expressar tudo e ao mesmo tempo nada. Meu interior é confuso, agitado e acho que poucos aguentariam tal turbulência.
Lavo a louça que usei e pego minha mochila para sair novamente de casa. Perto de onde moro tem um parque com uma extensa área verde e com algumas árvores que fazem belas sombras na grama, enquanto ando não posso evitar de pensar em Miguel o aluno novo, no cheiro dele enquanto passava por mim, em como ele parece ser uma pessoa gentil. Quando chego no parque vou direto para a velha árvore que sempre me sento desde pequeno, uma goiabeira que não está em época de frutos. Sento de joelhos dobrados e apoio minhas costas no tronco da árvore, abro minha mochila pego meu caderno de rabiscos e uma caneta para escrever.
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