Serendipidade
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"I can hold my breath
I can bite my tongue
I can stay awake for days...
I can fake a smile
I can force a laugh
I can dance and play the part...
But I'm only human
And I bleed when I fall down
I'm only human
And I crash and I break down..."
O ritmo arrastado da escola a cansava. Agora parecia que tudo o que conseguia fazer era contar os minutos, de maneira nervosa, até o final de semana. Estava na contagem regressiva, seu segredo com data para acabar. Isso a deixava aliviada e apavorada em medidas iguais.
Já tivera todos os tipos de pensamentos nos últimos dias. Deveria ter contado antes? Talvez, mas agora não podia voltar atrás. Considerando tudo, ainda cria ter feito uma boa escolha. Não sabia se dadas as opções a escolheria de novo, mas ainda assim.
Os dias passavam de maneira tediosa, embora o nervosismo parecesse um crescente. Fora os motivos óbvios da descoberta iminente de seu relacionamento, agora era finalmente a época das cartas de aceitação de faculdade começarem a chegar. E Nessie mal conseguia acreditar o quão nervosa estava.
Alguns meses atrás poderia dizer com toda a certeza que pouco estava se lixando, mas agora realmente queria passar. Estava pronta para abraçar seu futuro. Só esperava que ele estivesse pronto para abraçá-la de volta.
Bella, como toda boa mãe, partilhava de seu nervosismo com igual entusiasmo, fazendo Edward rir, entre a maldade e a preocupação. Sentia enorme orgulho da filha e do progresso que fizera nos últimos meses.
Também era incrível o quanto o relacionamento com Bella melhorara, agora que tinha suas ideias no lugar. Era feio admitir isso para si mesma, mas parecia que no fundo, tudo o que precisava era se importar e tentar, de verdade. Estava pronta para admitir seus defeitos e para deixá-los no passado.
Todos os dias, quando o correio chegava, Nessie largava tudo o que estava fazendo e corria para a porta, fazendo a mãe sorrir de seu desespero, acariciar suas costas com delicadeza e a conduzir para a cozinha, onde ela lhe entregava alguma coisa gostosa, as duas sentavam e conversavam sobre o futuro e todo o tipo de futilidades.
Ao mesmo tempo que aquela proximidade era maravilhosa, aquilo também a estava matando, pois a culpa nos últimos dias parecia atingir o telhado e transbordar pelos seus poros, invadindo cada memória de sua infância, cada sacrifício que fora feito por ela.
Ela se lembrava de uma vez quando era criança e fora a uma feira de artesanato com os pais. Depois de várias e várias horas passeando, bem quando resolveram fazer uma pausa para o lanche, Nessie olhara para o lado por um segundo. Por algum motivo, um cachorro de rua, lindo e de pelo amarelo chamara sua atenção. Quando voltara sua atenção para frente, seus pais haviam desaparecido.
Cansada e com muita fome, ponderara começar a chorar e a se espernear ali mesmo. Ao contrário das outras crianças, Nessie sempre fora uma menina muito composta e madura para a idade. Naquele mesmo dia, vira uma menina jogar um doce no chão e gritar com a mãe, começando a chorar de birra.
Não queria ser aquela menina. De alguma forma aquilo lhe parecia extremamente importante. Então simplesmente se sentara em um banquinho e ficara mexendo as perninhas e olhando em volta, brincando com o cachorro. Juntos, fizeram companhia um para o outro, formando laços de amizade.
Quando seus pais a acharam, desesperados e a beira de lágrimas, ela lhes sorriu e se abraçaram todos, apertado.
Foi só mais tarde, quando descobriu que não poderia manter o cachorro, pois ele não caberia no apartamento, que de fato começara a chorar.
Agora, só de beirar as lembranças daquele dia com o cantinho dos olhos, a culpa lhe apertava o estômago, forte como uma pontada, apertada. Era uma cólica interminável. Não estava aguentando mais e o estresse a estava moendo aos poucos, pedacinho por pedacinho.
Era incrível o número de vezes naquela semana, quando olhara para seus pais, ou Alice, Rosalie ou quem quer que fosse e por um segundo interminável de puro pânico, tudo o que lhe viera a mente era Eles sabem…
Depois disso precisava passar uma infinidade incontável de minutos se acalmando e pensando em todas as razões lógicas pelas quais, obviamente ninguém poderia saber o que ela estava fazendo. No final, Jake estivera certo o tempo inteiro, era melhor ter feito tudo de forma limpa, desde o princípio. Só ára não passar por aquele desespero, aquela culpa. Nada valia aquilo.
Não que jamais fosse admitir isso para ele, obviamente.
Podia ter evoluído como pessoa, mas ainda tinha seu orgulho e dignidade a prezar e não estava nem um pouco preparada para assumir um erro de dimensões tamanhas.
E quando finalmente, o pensamento parecia tomar dormência em sua mente e ela podia respirar fundo novamente, Jasper lhe lançaria um olhar transviado ou Edward a olharia com um aparente escrutínio enquanto ela falava e lá voltava o desespero.
Não estava conseguindo viver com tantos sentimentos dentro de si.
No meio disso tudo, obviamente, Jane, Seth e Jacob eram um porto seguro, rindo dela e com ela. Jake sendo especialmente atencioso e tentando acalmá-la, mesmo que nem sempre conseguisse. Essa semana estivera tão nervosa, que ainda não o encontrara, depois de voltarem de viagem.
Não sabia se estava pronta para encará-lo, não agora que estava tão perto de assumir tudo. De tornar tudo tão mais real. Olhar para ele era um lembrete constante de seu medo, do momento que teria de enfrentar. Covardia, covardia, covardia.
Estava com medo da ilusão, de tudo se quebrar depois de tão claro. Eram pensamentos bobos e sabia disso, mas mesmo assim, eles balançavam em sua mente, como uma brisa fresca e incontrolável, que nos faz estremecer subitamente, nos pegando desprevenidos em dias de calor.
Precisava exteriorizar seus demônios para combatê-los. E iria fazê-lo, assim que se sentisse preparada. Uma vez tentara falar sobre isso com Jane, mas tivera a nítida impressão de a amiga não entendê-la, então deixara o assunto morrer entre elas, como tantos pareciam vir fazendo ultimamente. Era enlouquecedor como as fases da vida pareciam distanciá-las. Isso deixava Nessie louca e adicionava um tanto quanto para seu desespero. Não queria perder sua amiga, era outra coisa para o qual não estava pronta. Nunca estaria.
As mudanças vinham muito rápido e se sentia um pouco atropelada por elas, perdida em uma estrada de noite, tateando no escuro. Queria tão desesperadamente se agarrar ao conhecido, mas permanecia parada, somente esperando a hora das coisas caírem em seus lugares e acontecerem naturalmente. Era uma fase de mudanças.
Mesmo respirando fundo, estava uma panela de pressão e era difícil segurar tudo de uma só vez.
Outra coisa que a incomodava muito era a perspectiva de um relacionamento a distância. Quer dizer, pelo sim ou pelo não, se conheciam há muito pouco tempo. Soubera desde o princípio que seria assim, ao menos teoricamente. A verdade é que fora um tanto irresponsável e não soubera medir as coisas com a devida cautela.
É difícil ser jovem e perceber seus erros tão cedo.
Voltando a Jake, por mais que se gostassem e o afeto fosse genuíno, para o melhor dos casais já é uma missão quase impossível, imagine aos dois, tão novos naquela história. Parecia que a distância os esfriaria, ou algo assim. Ter de se falar por telefone todos os dias e uma ou duas vezes por semana por skype simplesmente não parecia a mesma coisa.
Repetia a si mesma que era apenas uma questão de querer, que tudo daria certo, mas um certo pânico frio banhava suas paredes do estômago, como um ácido sem remédio, pesado e ardido.
Era como se subitamente, todos os medos sem face subitamente ganhassem forma, aspectos diferenciados, um peso tangível.
Distância em si é algo perigoso em um relacionamento amoroso. Se somada à essa a distância real, física. Como iria lidar com isso?
Procurava manter-se distraída e viver um dia de cada vez. Era apenas uma semana. Por que tivera de entrar em pânico tão no fim da jornada? Por que não pensara cuidadosamente sobre cada uma dessas coisas em seu devido tempo?
Agora, era simplesmente esperar o desenrolar dos fatos. Nessie vinha descobrindo que não era nada boa em esperar. Apenas mais uma coisa para se trabalhar em si mesma. Algo bom em meio a tudo aquilo era o quanto mais perceptiva havia se tornado a respeito de si mesma.
Estava aprendendo.
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Naquela tarde, Alice viera visitá-las e as três meninas conversavam na cozinha, comendo docinhos e tomando cappuccino, alegres e despreocupadas. Adora momentos como aqueles, tão especiais e cotidianos. Eram de momentos como aquele que sabia, mais sentiria falta quando fosse embora no próximo semestre.
A conversa seguia, mansa e preguiçosa. A primavera estava bonita, muito embora a tardinha chegasse com uma leve friagem, obrigando um agasalho leve.
Como infelizmente nada é perfeito e não é possível realizarmos uma lembrança perfeita, Nessie estava inquieta, incapaz de se concentrar totalmente na conversa, enquanto esperava o correio chegar, impaciente. E, embora soubesse que as mulheres só tivessem a melhor das intenções, não estavam ajudando no momento.
O assunto da faculdade parecia dar pano para manga, uma vez que ninguém conseguia deixá-lo de lado. Isso começava a cansá-la e puxar alguns de seus cordões.
—Com suas notas você consegue entrar em praticamente qualquer lugar! Duvido que não te aceitem! — Alice reitera, diplomática. — As entrevistas já foram não?
Nessie concorda com a cabeça, distante.
—Já faz tempo.
—Como se saiu? — Nessie dá de ombros, honestamente não sabendo responder. É difícil saber esse tipo de coisa.
—Arriscaria dizer que me sai bem em várias delas, provavelmente estraguei algumas.
—Nessie, não, não, não! — O escarcéu de Alice e sua careta a faz sorrir — Sem pensamentos negativos! Não permitimos isso nesse espaço! — E sinaliza um "X" com as mãos. Bella e Nessie trocam um olhar e caem na risada.
—Desculpe, não está mais aqui quem falou.
Depois disso voltam a suas preferências por faculdade e estado, lugar para morar, novos colegas, uma república ou um apartamento alugado, encarar uma nova realidade e rapidamente a menina havia se desligado. Sentia que se colocasse nem que fosse um pouco mais de energia naquele assunto, explodiria de vez.
Sua cabeça girava só de pensar em todos aqueles detalhes, na tamanha quantidade de desconhecido que tomaria como passo de uma vez.
Risadas são ouvidas de fundo e Nessie range os dentes, tentando controlar o nervoso e a dor de cabeça. Estava sendo uma chata. Precisava se recompor. Respira fundo uma, duas...
—Não é incrível pensar que em menos de um mês estaremos empacotando suas coisas para você ir para a faculdade? Já pensou no que vai querer levar? Porque quartos de fraternidade costumam ser pequenos, assim como as repúblicas, então não vai poder levar muita coisa.
—Mãe! Tia! Vocês precisam ficar falando disso o tempo todo? — A moça se levanta, falando em tom irritado, gesticulando abertamente com as mãos. As duas outras ficam surpresas com a agressão e se calam imediatamente. Sem que conseguisse segurar, algumas lágrimas escapam dos olhos castanhos e ela se vira, para escondê-las.
—Ness… — A voz de Bella era compreensiva e gentil, mas a ruiva não queria saber de complacência e, irritada consigo mesmo pela fraqueza e pelo descontrole, caminha para fora da cozinha, sobe as escadas e vai para o quarto.
—Acho que você devia ir atrás dela — Alice comenta, ao ouvir a menina bater a porta do quarto no andar superior. Bella suspira e assente.
—Às vezes eu me esqueço quantas mudanças são de uma vez e o como ela deve estar nervosa e ansiosa por todas elas. A gente ainda nem começou a receber as cartas de aceitação! — Comenta, revirando os olhos. Alice sorri e acaricia a mão da amiga sobre a mesa, compreensiva.
—Precisamos segurar um pouquinho mais nossa onda, só isso. A pressão pode ser demais para ela aguentar às vezes e precisamos ser pacientes. — E sorri, fazendo a mãe anuir.
Ficam um pouco em silêncio e bebericam um pouco mais da bebida gostosa, mas depois daquilo, a conversa simplesmente não parecia mais ter fluência.
Bella parecia tão concentrada em seus pensamentos, que não nota quando a mão de Alice volta a repousar sobre a sua, em um gesto de caridade.
—Vai ficar tudo bem, não precisa se preocupar — A morena acena, grata.
—Agora acho melhor dar uma checadinha nela, só por precaução. — E limpa um pouco dos olhos que marejavam, ao ver o quanto sua menina havia crescido e o quão perto estava de perdê-la para o grande e desconhecido mundo lá fora.
—Faça isso! — Alice sorri, marota — E eu preciso ir indo! — E engruvinha o nariz em uma caretinha, fazendo ambas caírem na risada. — E se precisar de mim, é só gritar, estou a um grito de distância.
—Não posso mandar um what's? — E arqueia as sobrancelhas, fazendo a risadinha de fada de Alice invadir a cozinha, de maneira alegre.
—Sua sem graça. — E a moça se levanta, acompanhada pela amiga. Bella a leva até a porta e lhe dá um abraço rápido, antes de Alice ir embora, prometendo ligar, para saber como sua ruivinha favorita estava.
Com um suspiro ainda preso nos lábios, Bella fecha a porta e se prepara para qualquer possível barra que tivesse de enfrentar. Respirando fundo e ajeitando tanto o rabo-de-cavalo quanto o cardigã no corpo, sobe as escadas de madeira, dando uma e depois outra batidinha na porta pintada de branco.
Também lhe doía saber que tão em breve não poderia mais ter a filha tão perto, há uma porta de distância.
—Pode entrar — A voz vinha abafada e corta o coração de Bella, que entra devagarinho. Nessie estava sentada na cadeira giratória, abraçando as pernas, parecendo pensativa. Ela parecia pequena daquela posição, uma expressão culpada no rosto — Alice ficou chateada? Desculpe, não queria sair daquela forma, mas não queria ficar chorando na frente de vocês. — E sente os olhos voltarem a marejar, mas os limpa, sem cuidado.
—Heey, está tudo bem amor — E a mãe aproxima-se, sentando na beirada da cama, próxima a sua menina. — Nós é que devíamos ter pensando em como isso te afetaria. A culpa é nossa, não sua. Fora que até parece né? Você precisa fazer muito mais do que isso, se realmente quer chocar sua tia Alice.
Aquilo arranca um pequeno sorrisinho da menina, seguido de um longo suspiro.
Bella teme tocá-la e assustá-la no momento delicado, guardando suas mãos para si, oferecendo apenas sua presença e apoio emocional.
—O que foi querida? Você sabe que pode falar comigo. Sobre qualquer coisa.
Ela demora alguns segundos, como se processando e pesando a informação. Por fim, desiste, confessando.
—Eu estou com medo. Não quero perder você, ou o papai — Funga, limpando o nariz com as costas da mão.
—Ohh querida, você nunca vai nos perder, imagine! Que tipos de pais nós seríamos se nos afastássemos quando você quer e não quando você precisa? Além do mais, as pessoas que realmente importam a gente nunca perde, mesmo quando elas morrem, porque elas fazem parte de quem a gente é e vivem através de nós, por mais bobo que isso possa parecer. E gosto de pensar que fazemos parte de você.
Nessi sorri, encarando a mãe. O brilho em seus olhos indicando uma travessura.
—Principalmente nos defeitos. — Provoca e ri, fazendo Bella acompanhá-la. A morena indica o seu lado na cama, que Nessie pega de bom grado, aconchegando sua cabeça no colo da mãe, querendo conforto e carinho. Bella sempre se esquecia o quão belo eram seus cabelos cacheados e o quão parecidos eram com os de Edward. Renesmee suspira.
—Principalmente. — Assente, baixinho, arrancando um sorrisinho da filha.
—Vou sentir tanta saudades. — Confessa. Quando começaram a falar tão baixinho?
—Eu também amor — E pausa, esperando algo mais — Algo mais a aflige?
Era tanto e tão pouco que pudesse dizer em voz alta. Em breve tudo estaria tão claro, embora a ideia ainda fosse difícil de assimilar. Quando guardamos um segredo por muito tempo, passa a fazer parte de quem somos e a ideia de se separar dele, mesmo que para o melhor, parece estranha e assustadora.
Ainda assim, havia coisas que sempre quisera saber, coisas que nunca a haviam deixado em paz. Pequenos demônios, pequenas portas entreabertas, que gritavam por serem fechadas.
—Mãe.. — Não sabia como exatamente formular aquela pergunta para sua mãe. Na verdade, tinha quase certeza de que não deveria fazê-la. Os pensamentos brincam em sua cabeça, antes de tornarem qualquer forma específica... — Você acha que sua vida poderia ter sido diferente?
—Diferente como amor?
—Sei lá... Se você nunca tivesse conhecido o papai, não tivesse se mudado… — Não sabia o que diabos estava fazendo ou da onde estavam vindo aquelas palavras, como um trem em colisão nos trilhos. Estava jogando verde.
—Não sei meu amor, vivendo minha vida é muito estranho pensar que as coisas podiam ser diferentes — Vendo a cara de frustração da filha, sorri abertamente, antes de se esforçar um pouco mais. — Talvez, eu acho que se nunca tivesse me mudado…. — Pausa, ponderativa — Quem sabe seu pai se mudaria para Forks? — E ri de si mesma, divertindo-se. — Seu pai em Forks, imagine! Ele ia detestar o lugar. — E reitera — Não sei o que quer que eu diga meu amor. Considerando que nunca perdi contato com o Jake, possivelmente seríamos amigos. Talvez até casados! — E espanta a ideia balançando a cabeça — Imagine que esquisito.
De alguma forma Nessie sabia que merecia aquela dor que crescia em seu peito, pontiaguda com aquela informação. A questão é, por que estava fazendo aquilo consigo mesma? Cutucara e cutucara, só para que tivesse a resposta desejada, mas, agora que a tinha, se achava destruída pela mesma.
Dando cada vez mais vozes a sua insegurança? Alimentando demônios que sabia que precisava matar.
Estava tão nervosa, tão inquieta que sabia, naquele momento, só havia uma pessoa que queria ver. E sente, subitamente, no fundo de seu peito, como uma batida perdida, um descompasso rítmico, se não fosse encontrá-lo agora, tudo estaria perdido.
Andava tão dramática ultimamente.
Em pouco tempo, a moça toma licença da mãe, clamando precisar descansar um pouco e toma um banho, se trocando para um vestido leve com uma jaqueta jeans, meia calça e botas. Pega a bolsa e o celular e já estava fora de casa. Não olha o relógio, muito menos o percurso, voando o caminho inteiro até o hotel, seu conhecido abrigo, amigo.
Quando Jacob abre a porta, com uma sobrancelha erguida em dúvida do que se passava, ela estava arfando e um pouco suada, pelo desespero da jornada. Não havia ligado para notificar qualquer indício de sua ida.
—O que houve? — Questiona, estranhando, mas ela simplesmente o abraça, precisando daquele contato, daquela prova maior.
—Nada, só me abraça um pouco, pode ser? — Ele anui e ri um pouco, achando-a carente, apertando-a contra o peito, amassando seus cabelos. Encosta a porta, puxando-a consigo para a cama, sentando-se e puxando ela com ele. Quando ele tentou afastá-la, para olhar em seus olhos, ela não permitiu, fazendo birra e forçando a posição em que estava. — Só preciso de mais um pouquinho. — Ele ri de novo e dessa vez ela o acompanha, deixando-se banhar em seu cheiro gostoso e seu calor intenso.
Respira fundo, sentindo o peito acalmar, uma bolinha de tensão dissolvendo em seu estômago. Ainda não era o suficiente, precisava dele mais perto-mais perto-maisperto…
Toma atitude e o beija trôpega e sofregamente. Ele aceita o carinho com cuidado, segurando-a contra si com firmeza, deixando uma mão subir e descer por suas costas, de maneira a lhe transmitir conforto. Não sabia o que estava acontecendo, mas sentia que havia algo errado, sabia que ela precisava da ternura.
O beijo é intenso, havendo troca de calor e gemidos baixos.
Ela se afasta de leve, tomando ar. Ele beija seu rosto, com delicadeza, seu nariz e sua bochecha, para depois acariciar sua face com as mãos, segurando-o, fazendo movimentos circulares com o polegar. É a primeira vez que conseguia olhar diretamente dentro de seus olhos.
—O que está errado Ness? — Pergunta, com a voz rouca. Ela suspira, colocando uma mão sobre a dele, sentindo o peito esquentar ao ver a preocupação em seus olhos. Não quisera preocupá-lo.
—Eu não podia só estar com saudades? Querer te ver? — A voz dela era trêmula e ela desvia um pouco o olhar, embora as afirmativas fossem em parte verdadeiras. Ele era tudo o que precisava no momento. O contato com sua pele a acalmava e fazia promessas de que tudo iria ficar bem.
—Eu te conheço, sei que há algo errado. — E tenta incentivá-la, mas ela permanece calada, introspectiva.
—Podemos ficar só um pouco assim? Não sei se quero conversar, não estou me sentindo muito bem — é o que iria dar a ele por enquanto e ele aceita de bom grado, ajeitando-a contra si, apoiando-se contra o encosto da cama e ligando a televisão. Ela estava parcialmente deitada sobre ele, aproveitando de seu calor, de sua presença, do momento.
Quando estava assim, pertinho, suas dúvidas pareciam tão estúpidas e pequenas. Seus medos tão sem propósito. Por que as coisas não podiam ser sempre assim? Ele continua a acariciar suas costas de maneira íntima e apaziguadora, nunca falhando em perceber, algo estava errado.
Depois de algum tempo mudando canais, Jake pausa em um filme qualquer. Com o barulho de fundo da televisão e a tranquilidade carinhosa, Renesmee começa a se acalmar, a respiração fica mais lenta e os últimos dias parecem confundir-se em sua mente.
O mar ia e vinha, perto e longe, ressaca ressaca ressaca. Ressaca ressaca ressaca. As ondas batendo contra a praia de sua consciência. Seus olhos tentavam manter-se abertos. Ela sente quando ele se mexe, ajeitando-se melhor no lugar, mas ela já estava em algum lugar entre a consciência e um mundo mais leve. Com um suspiro, tudo sai de foco.
Abre os olhos nem dez minutos depois, ainda tonta, tentando prestar atenção ao filme que passava na televisão. Era algo pesado sobre luta de direitos iguais, um filme do qual normalmente gostaria muito de assistir. No momento, só queria poder se distrair.
Pouco a pouco, a letargia e o clima do filme a envolvem, pouco a pouco, devagar, como pequenas ondas, que nos arrastam devagar da orla da praia. Tudo estava tão quieto, as luzes apagadas sendo interrompidas apenas pelo ocasional barulho de um carro passando na rua. Era um espaço muito grande para seus pensamentos. Nem Jacob poderia manter seus fantasmas afastados para sempre.
Em um impulso, levanta-se. Jake assusta-se e a encara, confuso.
—Só vou ao banheiro, lavar o rosto — E abaixa-se um momento, dando-lhe um beijo suave. Entra, fechando a porta atrás de si. Inclina-se sobre a pia, sentindo a cabeça girando, liga a torneira. A água corre ralo abaixo. Se encara no espelho.
Alguém a encarava de volta.
Não tinha controle sobre quem a encarava de volta. Em poucos meses, não estaria aqui, não estaria próxima a ninguém que conhecia, tudo seria diferente. Quem a observava de volta? Os olhos castanhos estremecem.
Naquele final de semana, tudo seria diferente. Seu coração dispara e sente a comida voltar, em um fluxo gástrico. Dobra-se levemente para frente e passa água sobre o rosto. Quais seriam as reações de seus pais? Deveria contar para eles separadamente? Com eles juntos? Não queria admitir, não queria ter medo, queria ser adulta, queria não se importar.
Suas mãos suavam e segura a pia com força, tentando respirar.
Não sabe dizer quando começara a chorar.
É uma lágrima que vem devagar, fazendo o contorno do rosto delicado, dando a volta pelo arco da bochecha, depois outradepoisoutraoutraoutraemaisoutra. Tenta limpar o rosto, tenta lavá-lo, mas as lágrimas continuam vindo e ela se abraça. Estava tão nervosa que começa a tremer.
Tenta puxar o ar, mas ele só vem em inspiradas curtas. Ela puxa de novo, novamente. Começara a soluçar.
—Ness! — Jake demorara alguns segundos para ouvi-la chorar, deixando a televisão no mundo por alguns segundos para ter certeza. Agora entrava apressado no banheiro, apenas para encontrá-la descompassada, sentada sobre a tampa do vaso sanitário. Tenta se abaixar diante dela e pegar sua mão, mas ela o rechaça, levantando-se e indo em direção ao quarto, andando de um lado para o outro, nervosa, remexendo as mãos. — Nessie! O que está acontecendo?
Novamente ele pega suas mãos, mas ela se recusava a encará-lo, mordendo o lábio inferior com força. Ele a força a encará-lo, segurando seu queixo. As sobrancelhas franzidas, acaricia as maçãs de seu rosto, suavemente, muito suavemente.
—O que foi menina? — A voz dele era macia e dita tão baixo, que precisava concentrar-se para ouvi-la. Ela dá de ombros e ele respira fundo — Ness, se há algo errado precisamos conversar para fazer melhor. Eu não tenho como saber, se você não me diz nada.
—Estou nervosa — Ela solta finalmente, soltando seu rosto dos dedos dele, encolhendo-se e se abraçando, como se estivesse com frio.
—Com esse final de semana? — Ele não tenta voltar a pegar o rosto nas conchas de suas mãos, a voz imóvel, quase um sussurro. Ela confirma, com um aceno. Ela inspira fundo e passa a mão pelos cabelos, em uma atitude nervosa. Depois passa a mão sobre o rosto e remexe os ombros largos. — Também estou nervoso. — Ela se vira tão rápido, o rosto levantando em um estalo. — Mas sabíamos que esse dia estava chegando. Não podemos evitá-lo para sempre…
Sem que conseguisse evitar, impacienta-se.
—Você fala como se eu não soubesse! — E quebra, soando irritada, elevando a voz. Ele parecia agoniado agora, distanciando-se dela.
—E você sabe? — Ele devolve, firme, cruzando os braços. Ela fica em silêncio, encarando-o, ofendida e descrente.
—O que você quer dizer com isso? — E soa magoada, imitando a postura dele, ao cruzar os braços.
—Desde o começo, você foge disso! Você escondeu de seus pais! — E ele respira fundo, acalmando-se, subitamente interessado em algo em cima da cômoda, que ele remexe, sem fitá-la. A voz volta a abaixar e ela tenta entender as mudanças súbitas — Você não quer contar agora. — É dito tão baixo que ela tem dúvidas se ele realmente dissera aquilo. Ele parecia tão recomposto, tão calmo.
Isso só ajuda a irritá-la ainda mais.
—Não é nada disso Jacob! Nada disso… É só, sei lá… — Gesticulava, nervosamente — Você nunca pensou para onde estamos indo? — Ele faz um som engasgado com a garganta e a olha, desdenhoso, revirando os olhos.
—Por favor né Nessie? Você sabe, é tudo em que eu penso atualmente. — Mas ele realmente pensara? Em todos os aspectos? A diferença de idade? A mudança de estados, seus pais, o tempo que se conheciam?
A cabeça dela girava com força.
—Por que nunca falamos sobre isso? — Pergunta, chorando, mas agora sem gritar.
—Nessie! E o que estamos fazendo agora? — Ele tenta se aproximar, mas ela volta a se afastar, negando-se a ver a mágoa no rosto dele. Estava confusa, estava com medo, estava indecisa.
—Estamos surtando… — E ela suspira, limpando parte do rosto com as costas da mão — Você já pensou sobre isso? Já pensou de verdade? E se depois de tudo isso… — E ela não termina.
—Nessie… — O tom era calmo, mas era um tom de aviso. Os olhos dele carregavam atenção excessiva, uma tensão estranha, que ela nunca vira antes — Não-
—E se não der certo? Não temos saber se nada disso vai dar certo — ela verbaliza seus medos pela primeira vez. Instantaneamente o corpo dele reage, a postura ficando rígida, o rosto franzido, os olhos perdendo carinho. Ele fecha os olhos e volta a estalar os lábios. Não sabia dizer o que ele estava sentindo, quais seriam suas reações.
Quando ele os reabre ela finalmente identifica.
Fúria.
—Como você ousa dizer uma coisa dessas Nessie? Se não vai dar certo-se você realmente acha-se achava isso, porque começou isso tudo então senhorita Nessie? Putz! Pense antes de agir! Você acha que eu já não tinha pensado tudo isso antes? Se eu achasse isso de verdade, nunca teria começado nada com você! — E gesticula, acusando-a. Ele parecia sem palavras de desconcerto. Ela se encolhe.
—Eu não achei...Eu só-Eu achei que-Eu não sei okay? Mas como é possível a gente conseguir sair bem no fim de tudo isso? Não é pensamento positivo demais? — E ela volta a quebrar, gritando de novo e chorando mais. Ele parecia fulo, mas magoado demais enquanto alcançava um ponto do pescoço e o apertava, como se algo em sua própria garganta o incomodasse.
—Pensamento positivo demais? O que você achou que ia acontecer? Que íamos contar aos seus pais e eles ficariam histéricos de felicidade? Eu pretendia arcar com as consequências Nessie. Achei que a gente valia a pena. Acreditei que você achava isso também.
—Não, não! Não é nada disso! Mas e depois? Eu vou para a faculdade agora! — E ela quase choramingava, se abraçando. — Vamos ficar separados durante anos depois de tudo isso. Você realmente acha que temos o que é necessário para fazer tudo isso?
Ela vê as várias expressões que cruzam o rosto de Jacob. Descrença, mágoa, raiva, inconformismo. Ele desiste de suas palavras, trancando o maxilar.
—O que posso dizer Nessie? Se você já fez sua cabeça? — E ele ri, descrente. De todas as coisas que estiveram na sua cabeça nos últimos dias, essa, definitivamente não fora uma delas — Mas se você nem confia na gente para estarmos juntos, mesmo que distantes, talvez realmente você esteja certa. Talvez não devêssemos ficar juntos. — E ele dá de ombros, como se apontasse o óbvio. O descaso raivoso com que dizia aquelas palavras era frio e cortante, acertando Nessie em cheio, quase fazendo-a tombar para trás.
As palavras machucam, pois não esperava ouvi-las. Ela o encara, confusa, inquieta. Os olhos dele estavam turbulentos e ela sabia, o machucara. É a vez dele desviar o olhar. É a primeira vez que nota. Jake estava com tanto medo quanto ela.
—Você está com medo Ness. Está só com muito medo e está escolhendo a saída fácil — Ele murmura, o rosto abaixado.
Sem saber o que fazer, simplesmente se vira. E, de todas as coisas que poderia fazer, escolhe a pior delas. Simplesmente, cautelosa, pé ante pé, vai embora. E dessa vez, Jake não chega nem perto de detê-la. Tudo estava imóvel, tudo era silencioso.
Chega em casa tonta e sem ar, o rosto seco de tantas lágrimas escorridas. O que fizera? O que diabos fora fazer? Sentia-se vazia, sentia-se como se o pânico escorresse por sua pele, formando uma poça vazia no chão.
Queria chorar. Estava seca.
Queria chorar. Não tinha lágrimas.
Queria gritar. Não tinha voz.
Queria se espernear. Não se achava merecedora.
Ao invés disso, deita-se na cama e fecha os olhos com força. A cabeça girava, seu mundo girava, sua vida girava-girava-giravagiravagirava. Ela sentia-se em queda livre e tudo o que precisava era que alguém puxasse sua mão. Por favor, que alguém puxasse sua mão.
Nunca antes se sentira tão sozinha como agora.
Fecha os olhos. O tinha ido fazer agora?
Só tem noção de acordar no sábado, quando sua mãe bate à porta. O quarto ainda estava escuro e, pelas filigranas da janela, via pequenos vestígios de pó contra a luz, flutuando em torno de si. Não queria se levantar, havia perdido o ânimo.
Finalmente chegara o dia, chegara o dia e já não havia mais nada pelo que se preocupar. Estava acabado. Acabada e ela que o acabara. Acabado como não queria que fosse. Acabado por seu medo, por seus demônios que eram mais fortes do que originalmente imaginara. Sentia-se esmorecida por dentro, uma flor seca depois de anos presa entre as páginas de um livro.
Então se levanta, vai ao banheiro e lava o rosto.
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